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O País – A verdade como notícia

Descrito como “a sátira americana mais dilacerante dos últimos tempos”, “‘O Vendido’ desafia os pilares sagrados da vida urbana, da Constituição norte-americana, do movimento dos direitos civis e da relação pai-filho, feita à medida para o despontar do século XXI”, refere a editora.

A história centra-se em Me, um afro-americano, produto acabado do século XX, criado no “gueto agrário” de Dickens, nos arredores de Los Angeles, educado pelo pai, um reputado e violentamente excêntrico sociólogo obcecado pela questão racial.

“Como toda a cidade de Dickens, eu era filho do meu pai, produto do meu ambiente e nada mais. Dickens era eu. E eu era o meu pai”, diz a personagem de si própria.

Me “conformou-se em seguir o destino estéril que a vida californiana de baixa classe-média tinha para si: morrer no mesmo quarto onde nasceu ‘a olhar para as fendas do estuque do tecto que estavam lá desde o terramoto de 1968’”.

“No entanto, nada corre como planeado: está falido, o seu pai foi morto num tiroteio com a polícia e Dickens acabou apagado dos mapas americanos (para poupar a Califórnia de mais vergonhas)”, lê-se na contracapa do livro.

Assim, alimentado por uma sensação de engano e pela degradação da sua cidade perante uma América enormíssima, Me decide resolver as coisas da única maneira que vê possível: restaurando a escravatura e segregando a escola preparatória local.

“O Vendido” venceu também o National Book Critics Circle Award para Ficção e o John Dos Passos Prize for Literature.
O escritor Paul Beatty, autor de três romances, tornou-se o primeiro norte-americano a vencer o Man Booker Prize, sendo a primeira vez que é traduzido em Portugal.

O primeiro romance do autor, “The White Boy Shuffle”, também vai ser publicado em Portugal pela Elsinore no final do ano.

No mesmo dia em que sai “O Vendido” chega igualmente às livrarias outro livro da Elsinore, “A hora de acordarmos juntos”, de Kirmen Uribe, que parte da história real de Karmele e Txomin, para compor um romance sobre a história basca, espanhola e europeia do século XX, até aos dias de hoje, revelando um mundo em convulsão.

O Man Booker Prize é um prémio literário de obras de romance e ficção em língua inglesa, dirigido apenas para autores vivos.

É movido pela vontade de trazer outros contornos sobre os últimos dias do Império de Gaza que Mia Couto aventurou, pela primeira vez, numa trilogia. Denominada “As areias do Imperador”, os livros concentram-se no Rei Ngungunyana, mas o romance entre uma jovem moçambicana e um sargento é que facilita a narração.

Dessa trilogia já foram publicados dois livros. Além de Moçambique, Portugal e Brasil são alguns países que acolheram o lançamento dos romances.

O escritor garante que as obras, embora não estejam de acordo com a história oficial sobre a morte de Ngungunyana, esta proposta literária foi bem recebida.

“Felizmente acho que correu bem. Gostando ou não percebe-se que aquilo é uma proposta literária. Eu não faço uma abordagem como quem diz está aqui uma verdade”, garantiu Mia Couto. Ainda na sua locução, o escritor reiterou que, afinal, devem haver diferentes versões sobre o mesmo assunto: “A ideia do livro é mostrar que as versões oficiais em Moçambique e em Portugal não são únicas, aquilo corresponde a um certo tipo de interesse político de um certo tempo e há outras vozes e outras versões”.

Em Portugal, onde foi forjada essa versão oficial, tudo correu bem. “Acho que ninguém teve um mal-entendido grave ou disse nas minhas costas, se calhar”, brincou o escritor e o seu sorriso confirmou.
Até ao momento parece que as contas de Mia Couto estão a bater. O escritor garantiu à nossa reportagem que este ano sai o terceiro volume da trilogia. Tem um título, mas porque não definitivo preferiu não partilhar. Segundo o autor de “Terra Sonâmbula”, já escreveu mais que a metade.

Esta viagem pelas terras Ngunguyane iniciaram em 2015 com o romance “Mulheres de cinza”. O livro, em todo o mundo, foi alvo de muitas críticas. Algumas que referenciavam aspectos positivos e outras nem tanto. Mesmo assim, o escritor não perdeu a “bússola”. No ano seguinte, cumprindo com o seu desiderato, lançou “A espada e Azagaia”.

 

 

As paredes da Fundação Fernando Leite Couto estão desde o terceiro dia do mês revestidas de sangue. Sim, este é o símbolo da tinta vermelha que passeia forçosamente por (quase) todos quadros que revestem a sexta exposição individual de Vasco Manhiça.

O sangue é por si sinónimo de dor, luto e, por que não, miséria. Este é o espectáculo que o artista plástico nos sugere em “Pandza Show”. Aliás, pandza é nome de um estilo musical que provoca discursos ferozes quando se tenta legitimar a música jovem orgulhosamente moçambicana.

O ritmo mistura marrabenta e sonoridades estrangeiras, mas essa não é a questão que provoca alarido. A mensagem e a qualidade sonora de muitas criações deixa os especialistas com profunda enxaqueca. Ou seja, Manhiça transporta-nos para um concerto onde a possibilidade de se sair dolorido é toda possível. A dor, essa, não é pelo facto da sua pintura ser pandza é sim pelo que o autor nos conta.

Por outro lado, Pandza não deixa de ser o reflexo dos dias contemporâneos, das últimas vivências tal como é o ritmo, a juventude ou, se quisermos, a prematuridade. Com isso, o artista está a contar-nos estórias recentes de um país que tem pouco do que se orgulhar. Essa imagem é nítida nas telas que cobrem as paredes da galeria e do restaurante.

Ainda que Manhiça explore uma técnica mista, em telas, cartolinas e em madeira, é nítido o seu grito. Aliás, este grito não é exclusivo de Manhiça. É de todos os moçambicanos desiludidos com a inversão de valores sociais, inconstância e a corrupção “industrial”.

Quase todas as telas reflectem esse grito que não poderia passar ao lado das artes. Aliás, não passa ao lado desse artista, as suas anteriores exposições – “Sentimento alto” (2006), “Entre mundos” (2007), “Pim-Pam-Pum” (2009), “The Black Box” (2013) e “Ponto de vista” (2015) – são disso exemplo. Mas neste universo há uma tela que nos transporta para esse pensamento. Recortes de jornais dão a entender esse reboliço que se vive actualmente. Palavras como “Dhlakama”, “Polícia”, “amiguismo” e “Ematum” são por si reveladoras. Nesta tela, Manhiça transporta-nos à reflexão sobre os problemas candentes na nossa sociedade. “Dhlakama” está umbilicalmente ligado à crise política e militar. A falta de paz condiciona o desenvolvimento do país, cria sangue e luto, ou seja, à miséria.

“Polícia”, essa, é alvo de críticas pela corrupção e por acções criminosas noutros casos. “Ematum”, por outro lado, é o rosto da crise económica. Uma das empresas fruto das dívidas ocultas, dívidas que arruinaram o país.

Na tela em causa, Manhiça dispensa outras palavras com o seu pincel e, ao mesmo tempo, coloca a sua mão em acção. As cores branca, vermelha e laranja ganham corpo entre retalhos de jornais. Como que a sugerir novos ventos, o artista, com a caligrafia de arte, cravou a palavra “amor”.

A primeira tela, para quem usa a entrada principal da Fundação, é um mural que também traduz essa miserável realidade moçambicana. Denominado “Bestas sem noção”, exibe uma rica pintura com traços descompassados em que se agregam anúncios de médicos tradicionais entre outras publicações que traem os sofredores. Neste emaranhado de coisas e palavras, “país do pandza” é a mais presente. “País do pandza” é título da música do rapper moçambicano Slim Nigga. Neste single, o jovem traz à tona uma série de problemas que o país enfrenta. É, igualmente, isso que Manhiça propicia com este espectáculo.

Até ao dia 27 pode se assistir este espectáculo que, segundo Amosse Mucavele, disponibiliza uma música ensurdecedora que trespassa o palco de eleição das massas. É um facto, porque mais do que uma contemplação, Manhiça sugere uma profunda discussão sobre os nossos actos como moçambicanos quer para se alcançar a estabilidade económica ou estabilidade psicológica.

Nota-se a veia de activista que Manhiça tem, quem pensa no país inspirado pelas ruas do bairro de Aeroporto. Um bairro que, à semelhança de todos suburbanos, estão revestidos de muita miséria, esta que exibe sem quaisquer preconceitos, no seu “Pandza show”.
 

 

De modo a inaugurar em grande a série de eventos que irão marcar a celebração dos 15 anos de existência da Stv, o Grupo SOICO vai juntar nomes sonantes da música moçambicana e africana. Ao todo, serão quatro, nomeadamente, Stewart Sukuma, Valdemiro José, Grace Évora e Micas Cabral. Caberá a estas quatro vozes a responsabilidade de animar a festa e fazer vibrar o auditório que se fará presente no Coconuts Live, na cidade de Maputo, no próximo dia 24, a partir das 22 horas.
Porque o espectáculo musical não será apenas isso, rotineiro, um espectáculo igual a tantos outros, o alinhamento do dia em que se irá assinalar o início de tantos outros eventos marcados para este ano prevê que os músicos, além de actuarem individualmente e fazerem o que melhor sabem fazer, cantar, ? actuem em conjunto, garantido uma interacção e cooperação em palco. Esta é uma forma que o canal televisivo encontra para dizer que também tem e vai continuar a ter um compromisso com a cultura moçambicana, não apenas informando, mas formando também. Exemplo disso é a inclusão de um dos convidados de cartaz para o espectáculo inaugural: Valdemiro José, quem se projectou a partir do Fama Show, um programa de caça talentos que alimentou o mercado da música no país com vários talentos.
E a selecção dos músicos não foi nada ingénua. Ao contrário, tem uma explicação. E Bang esclarece: “Essa foi mesmo a ideia do PCA da SOICO, Daniel David. Na reunião que tivemos, ele sempre manifestou o interesse de a festa incluir artistas que fizeram parte dos 15 anos do canal televisivo. Artistas que nasceram na Stv, em vários programas de entretenimento, e também artistas que foram sendo parceiros do canal. O Valdemiro e o Stewart são os músicos que sempre fizeram parte desta casa. Quanto aos que vêem de fora, julgamos que eram os mais indicados para fazerem essa colaboração com os músicos nacionais, porque é isso o que o concerto vai ser, de muita colaboração. Micas Cabral canta com Stewart, quer dizer, vai ser um concerto de mistura de vozes”, disse Bang.
O Administrador da SOICO, Jeremias Langa, lembra, também, que ao longo destes 15 anos de existência, a Stv formou e potenciou muitos artistas, sobretudo na área musical. “Então resolvemos fazer uma comemoração com vários músicos consagrados, nacionais e estrangeiros, incluindo os que saíram da televisão. Com isso, queremos mostrar o produto da televisão. Assim, pensamos desencadear esta festa de celebração dos 15 anos do canal de uma forma típica desta televisão. E as pessoas conhecem a nossa imagem de marca na organização de eventos. A televisão é dos moçambicanos, por trazer vários assuntos deste país. Por isso, iremos escalar as províncias onde o canal chega”.  
Devido à importância dos momentos que a celebração encerra, o espectáculo musical será gravado, de modo a ser exibido na Stv mais tarde.

Antes do concerto iniciar, mesmo com a chuva a ameaçar, a expectativa era grande e cada um justificava quem lhe tinha tirado de casa: “Valdemiro José, Grace Évora, Stewart Sukuma”, chutavam os espectadores a atravessarem a entrada do Coconuts.
“Estamos aqui para curtir”, disse uma das espectadoras, acompanhada da amiga. Nada impediu que a festa acontecesse. Quando eram precisamente 22h00, exactamente a hora prevista, o microfone soou. Não era ainda a hora dos músicos, mas era indispensável alguma apresentação (e animação pelo meio) por parte do mestre-de-cerimónias. Nesse quesito, a Stv não podia ter apostado noutra pessoa, senão Emerson Miranda. Com o seu jeito peculiar, moldado ao longo dos 15 anos, o Big Boss tratou de sacudir o cepticismo que a temperatura provocava naqueles que arriscaram pela pontualidade.
O apresentador só precisou de 20 minutos para carimbar a sua marca no evento. Depois, sem ninguém acreditar, Valdemiro José – moldado num dos produtos da Stv – subiu ao palco e perguntou: “Quem essa mulher?”. Assim começava o concerto que inaugura as celebrações dos 15 anos do canal televisivo. A música eleita para as boas-vindas foi a que teve participação de Matias Damásio, por isso, talvez, uma boa recepção.
“Eu vou a South Africa” foi a música a seguir, a que prometeu estrear no evento. Cumprido. Cumpriu também com a evolução da sua carreira, resgatando dos seus quatro álbuns os melhores trunfos. A sua actuação passeou entre ritmos tropicais e tradicionais; dança e batucadas agitavam a plateia ainda tímida.
Ao mesmo tempo, o quelimanense revisitou o êxito de Camal Jivá, como que a mostrar que para ser um bom músico é necessário que haja um bom ouvido. As batidas dos K10 também fizeram parte da sua exibição – uma homenagem, diga-se, a uma das maiores bandas de sempre.
“Papa Muroga” não podia faltar no cardápio. A música foi executada com a mestria necessária, afinal era para encerrar com chave de ouro a sua espinhosa prestação. Micas Cabral tornou a música duplamente animada. Ainda que breve, foi a segunda vez que os dois dividem o palco.
Era uma actuação propositada, pois era para se apoderar do rectângulo e dos instrumentistas moçambicanos. Sim, Micas não esteve acompanhada da sua banda – os Tabanka Djaz – mas seu potencial foi suficiente para reencarnar a banda.
Já nessa altura, na altura do “Isso é bom”, o Coconuts começava a ficar farto de gente. E já se previa que a chuva ia perder este jogo por 15 bolas a zero.
Antes de cantar a música que todos queriam ouvir, deu uma volta ao último álbum de Matias Damásio. A justificação é simples e fez questão de partilhar: rende-se ao poder de composição do angolano. E ele não é o único, os moçambicanos também se rendem por isso vibraram com a voz do artista.
Na última música, não houve quem não dançou. Aliás, os que não dançaram optaram por cantar com o guineense. Ele despediu-se com “Foi assim”, mas a vontade era ali continuar. Num dos momentos do show disse ter tido impressão do tempo ter voado. Mas antes da sua tristeza cair por terra, VJ, como que a retribuir a sua generosidade, voltou ao palco para queimar os últimos cartuchos da música mais bem conseguida dos Tabanka Djaz. Os dois, numa brincadeira típica desses eventos, dividiram o público em duas partes e formaram as suas equipas. O grupo que cantasse mais alto vencia a aposta. Sem se apurar o legítimo vencedor, todos voltaram a cena e seguiram o coro até os dois sumirem do palco.
Já eram 23h30… seguiram-se alguns minutos de arrumação do palco. A seguir, gritos e aplausos vinham de todas as partes. Assim o público recebia uma das vozes que não passa despercebida quando o assunto é música dos PALOP: Grace Évora.
A sua actuação parecia comandada por um DJ, mas não… a banda, caprichosamente afinada, trocava de música e ele, com a voz bem apontada, dava certeiros golpes aos que acompanhavam sua música. Outros, aos pares, preferiram riscar o chão. Não houve uma música sequer que não foi aplaudida com toda e devida força.
Stewart Sukuma foi o último a subir ao palco. O músico preferiu seguir com a sua banda: Nkhuvu. O nome da banda, curiosamente, significa festa. Foi o que houve. A moçambicanidade voltou ao palco, já representada pela marrabenta. Com a sintonia que acostumou seus fãs, Stewart e a sua fiel banda conduziram o espectáculo até aos últimos momentos.
E porque Stv é o retrato de Moçambique, o artista com uma estrada de 35 anos juntou-se aos outros três para exaltar o potencial cultural do país e desta forma deram-se os primeiros passos rumo aos 15 anos da STV.
No final, os músicos disseram que foi uma festa bonita porque o público esteve presente e reagiu positivamente ao concerto. Os quatro escolhidos para inaugurar essas celebrações agradecem a Stv pelo convite e pelos 15 anos, desejando muita força e mais eventos do género.

Mais um espectáculo… e este, com a boca cheia de oxigénio, pode se assumir como O Espectáculo. E, desta vez, era para homenagear as mulheres. Claro, a música moçambicana é abundantemente enriquecida por vozes femininas. Foi pensando nisso que a Stv, com um “olho clínico”, seleccionou as 10 cantoras para o segundo concerto à caminho dos 15 anos.
Já se antecipava uma noite de glórias. É que o espectáculo, na verdade, começou ainda fora do auditório do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane. As estrelas cintilaram na noite que as emoções eram de cortar o fôlego. As vestes ousadas, outras nem tanto, em que reinava a capulana, anunciavam a chegada das rainhas. Os flashes, afinal, já estavam preparados para registar o momento. Numa plataforma bem desenhada, à altura das divas, o tapete vermelho e as câmaras aguardavam ansiosamente.
E as estrelas chegaram… algumas acompanhadas e outras não. Mas todas as artistas tinham algo em comum: o sorriso no rosto e o bom gosto no quesito vestir. As fãs aproveitaram esse momento para grudarem-se aos seus ídolos e registarem o momento nas lentes dos telemóveis.
Não são todos os dias que se tem 10 mulheres num único palco. Principalmente, quando se trata de mulheres talentosas e inspiradoras. São, por isso, “As melhores vozes de Moçambique”. Cientes desse facto, os espectadores esgotaram os bilhetes muito antes das portas do Centro Cultural abrirem. E devido à pontualidade no primeiro espectáculo da Stv, a fila começou muito cedo. Ainda bem!
Quando eram exactamente 21h30, sem sobressaltos de nenhum tipo, o microfone soou. Era, assim, a entrada da primeira artista no palco. A platéia devidamente composta assistiu a primeira actuação. Não era ainda a vez da música, mas foi uma prestação formidável. Ludmila Jeque guardou os seus dotes de cantora e tirou os de apresentadora. Esta voz que é uma das provas dos bons 15 anos da Stv, foi crucial para animar as mulheres que dispensaram outros afazeres para se aconchegarem naqueles acentos.
E não se arrependeram. Os gritos, assobios e “kulungwanas” confirmaram.
A primeira mulher que subiu ao palco para cantar, desceu dos ombros de um homem. Sempre a surpreender, Matilde Conjo dispensou os bastidores e entrou de uma das portas que dá acesso aos espectadores. Uma acção que, ao mesmo tempo, pretende mostrar que a mulher deve ser acarinhada. E ela merece, pelo menos a sua música diz que é uma boa mulher.
Com um vestido para lá de requintado, a rastejar pelo chão, a artista arrancou os primeiros aplausos da noite. Quando chegou a hora de interpretar o seu maior trunfo – “Meu gajo” – não o fez sozinha. Euridse Jeque não só imitou a forma “repada” de cantar da Matilde, mas também tentou mexer. Os seus movimentos não se comparam à ousadia da “rainha do pandza”, mas provou que no capítulo da dança não é fraca.
Não mais saiu do palco, pelo menos não antes de cantar “Falso”, entre outros dois temas. Este era o primeiro toque de kizomba que se ouvia na noite. Não tanto como a primeira, mas a cantora que representou as mulheres do centro do país, não deixou os seus créditos de melhor voz feminina do Ngoma Moçambique na edição 2013 em mãos alheias.
Depois de Quelimane, os sons voltaram ao sul do país. Mais do que uma província diferente, Isabel Novela trouxe uma nova proposta. Primeiramente, levou o auditório viajar com o seu jazz soul, mas depois, preferiu fechar com um jazz “amarrabentado”, ou melhor, uma marrabenta “jazzisada”. E ninguém se opôs ao convite à dança que aquela cadência propiciava.
A pura marrabenta não tardou chegar. Anita Macuácua foi quem inaugurou esse momento e, consequentemente, fez levantar todos os espectadores. A azáfama tinha-se instalado. Até os poucos homens que estavam na sala agradeceram à mãe.
Zav foi a única artista que entrou no palco sem fazer dueto. Por isso, talvez, não teve grande recepção. Mesmo assim, não se intimidou. O público, como que a curvar-se para grandes músicas, voltou a levantar-se, também, quando a “mana da noite”, cada vez mais jovem, fê-los recordar o “xikongolotana”. Não há quem não se arrepiou com tamanho talento do Mingas.
E porque um filho é a maior herança das mães, Marllen juntou-se às mulheres e fizeram a festa. Nos primeiros instantes da sua actuação, sentou com a guitarra no colo, um claro sinal de que os seus filhos não são apenas humanos. Depois a “Preta Negra”. A cantora, com as suas bailarinas, recordou aos seus seguidores a sua primeira música: “Ximati”. E não é que as pessoas não se tinham esquecido?
Quando Lizha James subiu ao palco já era dia 7 de Abril. Coube a Marllen essa transição (boa transição, diga-se. Como se fosse final de ano. Faltaram apenas fogos de artifício). Lizha também optou por vasculhar o seu baú. “Maxaka” foi uma das músicas tocadas (e dançadas). E não foi uma simples actuação, entre dançarinos que se espalharam pelos corredores, fez-se a festa.
Neyma, com o seu jeito inconfundível, entrou na luta contra as “mulohis”. Juntas, num claro sinal de basta, fizeram o público cantar, aliás, orar.
Já com o palco só para si, a “diva da marrabenta” não dispensou as suas melhores criações. Mais uma actuação que oscilou entre a modernidade e a tradição. Não foi muito aplaudida, mas teve uma prestação significante. Aplausos, esses, voltaram quando a décima mulher com o seu vasto colectivo enfrentou o público ainda sedento de espectáculo. Lourena Nhate fechou com chave de ouro, mas era como se estivesse a abrir. Os gritos e assobios ainda tinham força. Contrariamente, a Anita Macuácua, ela agradeceu ao pai e declarou-se ao seu amado.

Com quantos paus constrói-se uma televisão? A pergunta até poderia suscitar respostas pontuais, mas uma televisão não é nem tão pouco um objecto de madeira. Longe disso, a televisão é um universo feito de tecnologias, de ideias e com uma equipa que se pretende sempre sólida para vencer os Adamastores da vida. Essa é a Stv, “onde a gente se vê”, um canal que conquistou o coração dos moçambicanos e que agora aventura-se pelo mundo fora.
O canal televisivo da Sociedade Independente de Comunicação (SOICO) surgiu em Outubro de 2002, portanto, há quinze anos. E de lá a esta parte tem vindo a apostar em conteúdos diversos, atinentes à informação imparcial, à política, à cultura, à economia, ao entretenimento e ao desporto, sintetizando, assim, o quotidiano dos moçambicanos.
É para assinalar o compromisso com os moçambicanos que, neste 2017, a Stv irá levar a cabo diversos eventos com principal propósito de celebrar quinze anos de um ciclo configurado com jornalismo isento na vanguarda da actual comunicação social em Moçambique. Com efeito, ao longo deste ano, que será marcado por vários momentos de festa e celebração, a Stv pretende juntar, num único espírito, os seus telespectadores e todos os seus profissionais para em conjunto gritarem bem alto “Somos todos Moçambique”, o lema da televisão para este ano.
Não obstante, a fim de imortalizar este momento ímpar da sua densa história, o conjunto de eventos preparados pela televisão para as celebrações dos seus quinze anos de existência irá escalar vários pontos do país. O início, já tem data e local marcado: dia 24 deste mês, no Coconuts Live, na cidade de Maputo, para um espectáculo musical a contar com músicos nacionais e estrangeiros. A ideia é que o evento sirva, igualmente, para o público reviver memórias de um tempo e desfrutar Moçambique com olhos bem-postos no futuro, afinal o compromisso de um dos canais televisivos da maior sociedade de comunicação do país é continuar a fazer mais e melhor, pois a convicção do Grupo SOICO é de que o melhor momento da Stv ainda está por vir.
“Esta festa será o início de uma grande celebração, bem ao estilo da Stv. Portanto, vai ser mais que um concerto de comemoração como a Stv sabe bem?fazer”, garantiu Jeremias Langa, Administrador da SOICO, vincando que a cerimónia vai condizer com a marca do canal televisivo que os telespectadores conhecem.
O espectáculo musical, previsto para durar cerca de três horas, é organizado pela SOICO e conta com o apoio da Bang Entretenimento.

As emoções da primeira série da Temporada de Música Clássica continuam amanhã. Depois do Xiquitsi ter escalado o Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, o Salão Nobre do Conselho Municipal de Maputo e o Auditório do BCI, logo à noite desta sexta-feira, quando forem 19h30, será a vez do Teatro Avenida receber os artistas.

Pela primeira vez nesta série, a Noite Clássica terá duas partes. A primeira inclui um “Duo para dois violinos em mi menor”, de J. M. Leclair; “Loisto para violino e piano”, de Jaakko Kuuisto; “Sonata para viola e piano em Mi b maior”, de J. Brahms.
Depois do intervalo, a sonoridade da Noite Clássica retornará ao Avenida por via dos artistas participantes nesta série: Linnea Hurttia e Maya Egashira (violino), Pedro Munoz (viola d’arco), Fernando Arias (violoncelo), Manuel Rego (contrabaixo) e José Dias (piano).  

A presente edição da Temporada de Música Clássica, que celebra os 130 anos da Cidade de Maputo, iniciou na passada terça-feira e termina domingo, num evento para pais e filhos, a realizar-se no Montebelo Indy Congress Hotel, na capital do país.

 

O habitual cruzamento de artes e cultura moçambicana e brasileira cedeu às obras por cinco meses no Centro Cultural Brasil-Moçambique. Hoje, o espaço dedicado à promoção das manifestações culturais dos dois países, há vinte e oito anos, reabriu.
A parte de fora está renovada, novas cores fazem um mosaico que nos transporta para onde o espaço sugere: Brasil. Mais as profundas obras aconteceram no seu interior. Uma das grandes novidades é a criação de um auditório que não podia ser baptizado por outro nome, senão de um dos maiores poetas brasileiros e da CPLP, Vinícios de Morais.
Coube ao Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, proceder a reabertura do centro e a inauguração do auditório, o espaço que acolheu a primeira parte do evento.
Além do ministro brasileiro, o evento teve presenças ilustres de figuras do campo político, académico e cultura, destacando o Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Oldemiro Baloi; o embaixador do Brasil, Rodrigo Baena Soares, reitor da Universidade Politécnica, Jorge Ferrão; entre outros.
Um dos momentos mais altos do evento foi a condecoração da escritora moçambicana Paulina Chiziane com o diploma de Ordem do Cruzeiro do Sul por parte do governo brasileiro.
Trata-se de uma ordem constituída logo após a independência do Brasil e que invoca uma estrela vista lá do Brasil. “Com esta constelação a senhora (referindo-se a Paulina Chiziane) é uma estrela brilhante que cultiva a língua portuguesa, que no seu trabalho procura dar voz as pessoas mais humildes, mais frágeis. Além disso, é uma militante das causas da paz”, justificou a distinção o ministro brasileiro.
Paulina Chiziane, visivelmente emocionada, disse, na ocasião, que em momentos como esses é frequente perguntarmo-nos quem somos, donde viemos e para onde vamos. Assim começava um discurso longo e carregado de muita convicção: “muitas vezes, eu tenho o hábito de dizer vim do chão, vim de lugar nenhum, caminhei pelo mundo e cheguei. Mas não caminhei sozinha. Há muita gente que comigo caminhou ao longo dos dias da minha escrita”. A posterior Chiziane agradeceu o governo brasileiro que lhe colou num pedestal mesmo vindo de lugar nem e mesmo sendo negra. Nesses agradecimentos a escritora não esqueceu ao povo moçambicano, justificando que lhe deu muita força para subir a algum lugar.
Sobre a reabertura do centro, os discursos foram unânimes de que é um sítio renovado para as artes dos dois países possam ter um espaço mais cómodo e mais aberto.
O segundo momento do evento foi marcado por aquilo que está destinado este centro: as artes. A protagonista desse momento foi Mingas. Na sua actuação, a artista acompanhada pelo guitarrista cruzou os dois países através da música. A artista interpretou poemas de Vinícios de Morais e as suas marrabentas fizeram a festa pela noite dentro.

 

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