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O País – A verdade como notícia

“É necessário investir em procedimentos técnicos antes de se levar as nossas modelos às passarelas. E, nesse sentido, o país tem um défice enorme”. Quem pensa assim é Manuel Lima, da Bee Like Model, uma instituição vocacionada a formar modelos desde muito novas.

A ideia da escola é fazer com que as adolescentes e jovens moçambicanas que aspiram ser top model possam ter uma preparação acentuada nesse processo. Tal atitude, tem na motivação a percepção de que, actualmente, “há cada vez menos entidades focadas em investir nesta arte, a nível nacional. Como consequência, é visível a falta de traquejo de muitas que vão à passarelas, por não existir um rigor ao nível da selecção, da motivação, o que cria uma situação negativa. Para reverter o cenário, criamos a escola que enche de ferramentas teóricas e práticas as candidatas a modelos”, explicou Manuel Lima da Bee Like.

Além de formar modelos, sobretudo nas componentes de saber ser, vestir e estar, a Bee Like Model agencia-as, preparando-as para um padrão internacional. Por isso, as meninas são desafiadas a aprender a falar inglês e francês, de modo que, em geral, a língua não constitua para elas um factor de exclusão. Passa pela instituição localizada em Maputo preparar as meninas modelos para vida, por via da moda, porque “a cultura é importante para o individuo”, defende Manuel Lima.

Como forma de dar crédito a instituição, a escola tem contratos com as modelos, com o conhecimento dos pais/ encarregados de educação, e atribui diplomas. O propósito consiste em encontrar mecanismos que permitam exportar modelos qualificadas aos mercados da moda internacional.

 

 

“Metamorfoses debaixo do Trópico de Capricórnio” é o título da exposição de Francisco Sepúlveda que inaugura hoje, às 18h30, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo.

O objectivo da exposição que estará patente no Franco até 9 de Setembro é de apresentar o universo mágico e misterioso do artista latino-americano Francisco Sepúlveda, a sua mitologia interior que se mistura com a realidade de dois continentes: América (Latina) e África.
O artista inspira-se na herança cultural do seu Chile natal, assim como nas suas incessantes e numerosas viagens para melhor moldar o seu universo. Da Ilha de Páscoa à Ilha de Robinson Crusoé, da Bolívia à Amazónia, do México a Cuba, da Lituânia aos Balcãs, da Grécia ao Mali… todas essas experiências enriquecem a obra do artista, assim como a descoberta deste novo país que o encanta: Moçambique.

Os críticos abordaram o trabalho do artista falando da ‘’Galáxia Sepúlveda’’, da ‘’paleta dos deuses’’, comparando-o a um ogre voraz e insaciável, que devora os universos para melhor moldar um só: o seu próprio, único, luminoso, fascinante.

As obras deste artista figuram em prestigiosas colecções privadas e públicas de instituições tais como a New York Public Library, em Nova Iorque, a Graphische Sammlung Der ETH, em Zurique, o Centro de Arte Contemporânea de Cordoba, na Argentina, a Biblioteca Nacional de Espanha, em Madrid, a Biblioteca Nacional de França, em Paris, a Biblioteca Municipal de Part-Dieu, em Lyon, o Instituto Cervantès, em Lyon, a Biblioteca Real da Bélgica, em Bruxelas, e a Biblioteca da Catalunha, em Barcelona.

Sepúlveda recebeu o Grande Prémio Azart 2009.

Um olhar latino sobre Sepúlveda

Francisco Sepúlveda nasceu em 1977, em Santiago do Chile, e estuda desenho, pintura e gravura na Escola de Belas-Artes de Santiago e no Atelier Wilfredo Lam, onde explora técnicas experimentais de gravura. Francisco Sepúlveda expõe desde 1995 e viaja muito, expondo regularmente em França, na Suíça, na Alemanha, nos Estados Unidos e na América Latina.
Simultaneamente exuberante, misteriosa e mágica, a obra de Sepúlveda abunda nas referências às suas raízes sul-americanas e às diferentes culturas às quais foi exposto durante as suas viagens pelo mundo.

 

 

Oito anos depois, a colectânea de contos “Reclusos do tempo”, de Alex Dau, volta às prateleiras, com uma nova imagem. Nesta segunda edição, o lançamento do livro que é publicado pela Oleba Editores terá lugar quarta-feira, no Auditório do BCI.

Sobre as razões deste segundo lançamento da obra literária, Alex Dau avança que existem várias, uma delas é a procura do livro. Além disso, o autor explica a outra razão: “tenho um grupo de leitores que não teve acesso ao livro. E, como se não bastasse, a obra tem um conto, intitulado “Zona quente”, que foi apresentado num bailado no Brasil, o que valoriza ainda mais o livro ao ponto de o lançarmos novamente para novos públicos”, explicou Dau.

Não obstante, “Reclusos do tempo” não deixa de ter motivos para atrair os leitores que já o leram e compraram ao longo dos anos. Afinal, agora, aparece com mais dois contos, dos quais um é inédito. O primeiro é intitulado “A última bolada da noite”, o outro, bem, o leitor terá que ter o livro em mão para saciar a curiosidade. É a vontade do autor.

Neste regresso às prateleiras, “Reclusos do tempo”, diferente da primeira edição, conta com prefácio, escrito por Hélder Nhamaze, e posfácio, assinado por Aurélio Ginja. Tudo propositado, que na literatura há necessita de valorizar outras vozes e sair-se da rotina, defende Alex Dau. Também por isso, Jorge Matine, escritor que fez parte do Oásis, vai apresentar a obra com 14 contos, em 90 páginas.

 

 

 

Um reencontro muito aguardado! Quem assim considera foi o público e os artistas que fizeram a festa no terceiro espetáculo alusivo aos 15 anos da STV. O Campo do Ferroviário da Baixa, em Maputo, foi pequeno para acolher a moldura humana que se fez presente no recinto para testemunhar o reencontro da celebrada Bang Entretenimento.

A ansiedade e a curiosidade dominavam os espectadores que há cerca de 10 anos não viam os integrantes e ex-integrantes da Bang Entretenimento a dividirem o palco.

O mistério perdurou até quando meia hora nos separavam das 23h quando as luzes invadiram o palco e o mestre-de-cerimónias anunciou o início da grande festa. Nayla teve a nobre missão de abrir o espetáculo. Uma actuação atrevida, que serviu de chamariz para a atenção dos espectadores dispersos e dos que ainda estavam na fila de entrada para o recinto.

Mas foram três meninas que levaram o público pela primeira vez aos gritos. As De Já Vu, grupo de dança, que causaram muito furor no passado, mostraram que com o tempo aperfeiçoaram ainda mais o seu repertório e os passos de dança. Elas foram as primeiras integrantes da família Bang Entretenimento a actuarem.

E na voz de Danny OG os presentes no Campo do Ferroviário da Baixa garantiram que iriam festejar até o amanhecer – “A malta vai txilar até o amanhecer” – prometia o público. Promessa feita o espetáculo seguia e a família ia-se reencontrando. 

Marlen, a Preta Negra, como carinhosamente é chamada pelo público, entrou de forma calma a entoar a música “Moçambique”, numa versão mais calma e lenta, bem diferente da original. O som da batucada denunciava a mudança de ritmo e o pandza entrava em cena. As músicas Preta Negra, Massaia e Ni Ketile Whena mostraram que a jovem cantora continua afinada e com movimentos coordenados.

Mas este não foi o auge da noite, mais estava por vir! Lizha James convidou os machacas a cantarem com ela continuando deste forma a festa dos 15 anos da STV. Uma actuação que contou com a participação dos artistas Denny Og e Dama do Bling.

Valdemiro José e Doppaz trouxeram o romance à noite. Durante as suas actuações colocaram a plateia feminina a vibrar ao som das suas vozes. Há mulheres que saíram do campo do Ferroviário da Baixa com uma recordação, uma rosa oferecida pelo seu artista de eleição.

Dama do Bling mostrou que continua irreverente. Bling cantou seu primeiro sucesso, “Dama do Bling”, música que leva o nome da artista porque descreve o seu poder como cantora. A performance foi acompanhada atentamente pelo público, que mostrou que conhece perfeitamente as letras das suas músicas. E um obrigado se ouviu da artista ao cantar a música “De nada Bling”.   

O auge do pandza foi recordado com a actuação da dupla Denny OG e Zico. Estes mostraram que este ritmo ainda é muito querido pelos moçambicanos. E o momento mais esperado da noite chegou. Todos os integrantes e ex-integrantes do grupo subiram ao palco para agradecer a todos os presentes e provar mais uma vez que a união faz a força. Uma noite para recordar, de reencontro de artistas que há muito não actuavam juntos. Um reencontro familiar à moda da STV afinal de contas somos todos Moçambique.

 

 

 

 

 

 

Numa altura em que o escritor Ungulani Ba Ka Khosa completa 60 anos de idade e 30 de careira literária, o que lhe valeu duas homenagens, uma pela SOICO e outra pela Universidade Pedagógica (UP), a professora e ensaísta Fátima Mendonça, da Universidade Eduardo Mondlane, residente em Portugal, publica, em exclusivo neste órgão, um texto inédito sobre o autor. A seguir, o estudo completo.  

Fátima Mendonça
Universidade Eduardo Mondlane
CLEPUL-Universidade de Lisboa

Nasci às 0.45 do dia 1 de Agosto de 1957 em Inhaminga, Sofala. O resto não interessa, pois segundo Roland Barthes.´´só há biografia enquanto a vida é improdutiva´´.Desde que produzo, desde que escrevo, é o próprio texto que se apropria (felizmente) do meu tempo narrativo´´Ungulani ba ka Khosa in Orgia dos Loucos.

Introdução

UNGULANI BA KA KHOSA, nome literário de Francisco Esaú Cossa, pertence à geração de jovens, conhecida como Geração do 8 de Março, que mercê de uma directiva do Presidente Samora Machel, ingressaram a partir de 1977 na Universidade Eduardo Mondlane a fim de aí completarem, de forma faseada, cursos de formação de professores nas várias áreas de ensino. Francisco Esaú Cossa formar-se-ia então na recém-criada Faculdade de Educação em 1978 e 1980 como professor de História e Geografia, tendo sido colocado na província do Niassa. De regresso a Maputo em 1982 ingressou no Ministério da Cultura. Posteriormente exerceu o cargo de director adjunto do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual de Moçambique, sendo actualmente director do Instituto Nacional do Livro e do Disco. Em 2003 Ungulani ba ka Khosa foi homenageado pela CPLP- Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e recebeu o Prémio José Craveirinha, em 2007.

O seu nome tsonga, Ungulani ba ka Khosa, seria o que viria a adoptar ao publicar Ualalapi, em 1987, dando sequência à publicação em 1982, no Diário de Moçambique na Beira, de um conto intitulado Dirce minha deusa nossa deusa .

Em 1988 Ualalapi o recebeu o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa e, em 1991, o Prémio nacional de ficção narrativa, instituido pela AEMO, em ex-aequo com Vozes Anoitecidas de Mia Couto. Consta da lista dos cem melhores livros africanos do século XX conjuntamente com Nós matámos o cão tinhoso de Luis Bernardo Honwana e Terra sonâmbula de Mia Couto.

Para além da sua actividade como ficcionista, Ungulani ba ka Khosa tem participado activamente em debates na Imprensa escrita, com a publicação regular de crónicas em vários jornais. O estilo provocatório e irreverente com que enfrenta os variados problemas que aborda tornaram-no uma referência nacional e consagraram a sua popularidade, com destaque para as camadas jovens urbanas, o que é visível na afluência aos lançamentos dos seus livros.

Outro aspecto que marca a trajectória de Ungulani ba ka Khosa é o seu carácter interventivo no seio da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Criada em 1982, com vocação para promover o contacto entre escritores, a AEMO despoletou uma nova dinâmica na vida literária do país, a par do activismo das páginas literárias e a criação de prémios e concursos literário, de que resultou o surgimento de uma nova geração de escritores. Desta, salientou-se imediatamente Ungulani ba ka Khosa que, em 1984, foi co-fundador da revista Charrua, com Eduardo White, Helder Muteia, Juvenal Bucuane e Pedro Chissano, a que se juntaram Tomás Vimaró e o artista plástico Ídasse Tembe, com apoio do então secretário-geral Rui Nogar e patrocínio oficial da AEMO. Embora tivessem surgido outras iniciativas do mesmo tipo, nomeadamente Forja da Brigada Literária João Dias e ECO, foi a energia dos activistas de Charrua que se sobrepôs até à própria dinâmica da AEMO. A partir dos anos 90, a geração de escritores, que tinha dado corpo à revista Charrua tomou conta dos destinos da AEMO, com a eleição de Pedro Chissano para Secretário-Geral, situação que prevaleceu até 2007, com Armando Artur e Juvenal Bucuane. A partir de 2007 a composição da direcção da AEMO mudou substancialmente com a entrada de Jorge de Oliveira (Jurista e coordenador nos anos 90 da Gazeta de Artes e Letras da Tempo) como Secretário Geral e a inclusão de novos elementos oriundos dos grupos surgidos nos finais dos anos 90.

Noutro lugar tive a oportunidade de equacionar a possibilidade de o percurso de alguns dos elementos de Charrua, entretanto guindados a funções de Estado, poder vir a exercer influência quer na dinâmica editorial quer na promoção da literatura moçambicana. Justificava-o as nomeações recentes do poeta Armando Artur para Ministro da Cultura, de Ungulani ba ka Khosa para Director do Instituto Nacional do Livro e do Disco e Marcelo Panguane para editor da revista Proler do Fundo Bibliográfico de Língua Portuguesa. Tudo parecia indicar que a energia e o papel dos charrueiros não se esgotara com a sua intervenção na AEMO.

Mas o regresso recente à AEMO de Ungulani ba ka Khosa (eleito como Secretário-Geral em Março de 2013) e de alguns dos seus companheiros de estrada revela a surpreendente ligação afectiva a esse espaço simbólico que une esta geração notável de escritores.

1. O surgimento no início da década de 80 de Ungulani ba ka Khosa e Izaac Zita (este precocemente desaparecido em 1983 aos 22 anos e publicado em livro póstumo, (Os Molwenes, 1988), com percursos semelhantes (ambos frequentaram os Cursos de Formação de Professores, tendo começado a leccionar muito jovens no Norte de Moçambique, ambos fizeram a sua aparição como ficionistas na Imprensa) fazia antever para a ficção narrativa moçambicana um espaço idêntico ao que a poesia já ocupava. De facto ambos se mostravam possuidores de uma notável capacidade de narrar utilizando estratégias discursivas assentes na ironia que, embora com efeitos diferentes, ia ao encontro da rebeldia da sua geração. Em paralelo, Mia Couto, já conhecido como poeta e diferente percurso de vida, viria com Vozes Anoitecidas em 1986 completar a tríade em que assentariam as tendências da nova narrativa moçambicana, que a passaram a colocar em pé de igualdade com a poesia até então dominante.

Ualalapi, publicado em 1987 constituiu um fenómeno de recepção em Moçambique (à semelhança do que aconteceu com Nós matámos o cão tinhoso de Luis Bernardo Honwana), que o impuseram como texto canónico da narrativa moçambicana.

A narrativa, subdivide-se em seis narrativas curtas que, embora se estruturem como independentes, conduzem a uma leitura global justificada pelo facto de se desenvolver a partir de episódios históricos relacionados com a ascenção e queda de N´Gungunhane, imperador de Gaza, derrotado por Mouzinho de Albuquerque e posteriormente exilado nos Açores, onde faleceu. Os numerosos estudos dedicados a esta obra têm destacado o seu caracter anti-épico e questionador da História. Ana Mafalda Leite formula esta questão argumentando tratar-se da desmitificação da história de N´gungunhane, fornecida quer pela corrente colonial, quer pela revolucionária pós- independência, o que ´´convida a reflectir pela validade de uma e outra, das fontes escritas e orais, e daquelas que o narrador convoca no seu próprio discurso.´´(Leite, 1998:87-88). Outro aspecto que os estudos sobre Ualalapi destacam é a sua relação com o modelo da narativa fantástica latino-americana. Gilberto Matusse (Afolaby, 2010: 99-103) debruça-se sobre esta questão defendendo que essa aproximação pode ser interpretada como uma ruptura relativamente a um cânone europeu já que essa é a característica ¬ universalmete aceite ¬ das literaturas latino-americanas. Assim sendo, haveria em Ualalapi a busca de um modelo capaz de reflectir uma identidade moçambicana diferente da europeia, i.e., diferente da portuguesa. Matusse também sugere que a adopção do modelo latino-americano (já consagrado) legitima a utilização da técnica literária de incorporação da imaginação mitologica e simbólica das sociedades africanas tradicionais. Outra leitura possível, que constitui ainda hoje matéria de sedução, é a possibilidade que a carga disfórica do final do texto consente (através da profecia de N´gungunhane) de revisitar a história de Moçambique até 1986 (regresso dos restos mortais de Ngungunhane como herói a Moçambique e morte de Samora Machel) com todos os paralelismos possíveis deixados em aberto.

2. O caracter de novidade de Ualalapi, criou alguma expectativa relativamente a Orgia dos Loucos colectânea de 9 narrativas publicada em 1990, de que destaco A solidão do senhor Matias. As duas epígrafes que antecedem as narrativas, a felicidade é frágil e quando não a destroem os homens ou as circunstâncias, ameaçam-nas os fantasmas (Marguerite Yourcenar) e no meu país/a única forma de liberdade permitida/ é a loucura (Jorge Viegas) faziam prever a continuidade da tonalidade disfórica anunciada em Ualalapi. Do mesmo modo a dedicatória autoral A todos nós vítimas da nossa condição, colocava a leitura numa temporalidade vivida, e expressa com o mesmo tipo de ambiguidade presente em Ualalapi. Como pretende Fernanda Afonso, na esteira de Jean Marc Moura, estas mensagens paratextuais, visíveis em outros textos moçambicanos, visam não só conciliação de universos simbólicos diferentes (Afonso, 2004:304) como manifestam o propósito de reclamarar alteridade, inaugurando uma modalidade de narração.

Em suma, uma das particularidades, que nós constatamos em todas as antologias de contos é a enunciação de um vasto discurso paratextual a lembrar insistentemente a presença do autor: desvela as suas intenções, os seus modelos literários, enuncia asua estética, reindivica uma prática literária militante. No conjunto os textos preliminares são como linhas simétricas que permitem à obra elaborar-se polifonicamente segundo uma estrutura eficaz, que a torna espelho do contexto histórico (Afonso, 2004:307).

As personagens que circulam .nas diferentes narrativas incluidas em Orgia dos Loucos , sejam rurais ou urbanas, evoluem sempre em percursos descendentes que, articulados com os vários índices disseminados, encaminham o acto de ler para a identificação com experiências vividas, portanto históricas. No entanto as variadas modalidades discursivas utilizadas, frase curta sincopada em alguns casos, enumerações caóticas noutros, ou diálogos construidos sobre fórmulas sentenciosas traduzidas de línguas bantas moçambicanas, incorporam nos textos significações instáveis. O próprio autor reconhece serem, estas práticas diversificadas, oriundas de uma necessidade de encontrar um estilo próprio, não se furtando a revelar em entrevistas os seus modelos de escrita e identificação com autores como Ernest Hemingway, William Faulkner, Borges ou Gabriel Garcia Marquez. (Laban, 1998:1065) Chabal, 1994:311).

Influências literárias? Numa primeira fase, para os primeiros textos o autor que comecei a ler foi o Hemingway, para o conto, para a estrutura do conto. Mas depois abandonei, porque nos últimos contos eu comecei a sentir a nacessidade de me inserir na nossa identidade cultural. Tentei pegar mais no conto fantástico. Descer à nossa maneira de pensar, pegar nisso, mas experimentar um pouco a experiência latino-americana, porque acho que os latino-americanos têm uma certa técnica que me parece possível integrar na nossa mentalidade. Os latino-americanos pegam também na oralidade, e dão-lhe uma estrutura técnica mais dinâmica. Autores como o Garcia Marquez, textos dispersos do Borges. (Chabal:311).

3. Com A Solidão do senhor Matias, Ungulani ba ka Khosa aflora um espaço temático que volta a explorar no romance Choriro (2011) e que aparentemente sempre o interessou isto é, os fenómenos aculturativos em dois sentidos: tanto o da assimilação do africano ao europeu como deste ao africano. Em entrevista a Michel Laban (Laban, 1998:1066) refere, a propósito das primeiras ideias que lhe surgiram para escrever uma novela:
Primeiro fui descobrir que em 1860-70, no Reino do Barué, apareceu um primeiro ministro americano, branco que se aculturou ¬ vestia aquelas tangas todas ¬ e o rei era um assimilado que se vestia à branco ¬ com chapéu e bengala ¬ (…) Li isso no livro do Isaacman. (…) era interessante estudar este fenómeno da cultura que não tem nada a ver com a cor, porque há esta possibilidade e esta permissividade de a pessoa poder assimilar este aspecto.

Partindo deste foco temático A solidão do senhor Matias estrutura-se sobre o percurso do protagonista Matias, decréptico colono português, na interacção com uma memória histórica que convoca cronologicamente sucessivos marcos da História de Moçambique: colonização, independência, guerra civil.

A divisão do texto em partes numeradas de I a IV contribui para que a leitura se processe de forma a que se recuperem uma macronarrativa (História) onde se encaixam duas micronarrativas alternadas:protagonizadas por Matias, ora com a mulher morta (sob a forma de analapeses), ora com o empregado João. Este, ao acompanhar Matias na sua deambulação pela propriedade abandonada, actua na diegese como testemunha quasi silenciosa da decadência do mundo despedaçado do patrão, do qual restam apenas farrapos que a sua memória recupera e inscreve na história pessoal de Matias:
(…) branco que herdara as propriedades do pai ainda novo e que tinha como diversão predilecta a mania de tirar a virgindade das moças das aldeias em troca do sal amontoado num armazém onde as fornicava de pé e deitado, e onde uma delas teve o primeiro mulato das redondezas que resolveu emigrar, anos depois, para a distante cidade (…)

Enquanto o percurso individual de Matias é construido com longas descrições e recurso a analepses fornecidas pela memória de João, os acontecimentos históricos insinuam-se por meio de índices disseminados ao longo da narrativa. A tensão que se produz entre estes dois níveis da narração faz emergir a categoria Tempo como elemento estruturante da narrativa, funcionando não apenas como um marcador da memória colectiva ou individual mas, e não menos relevante, como um operador das transformações por que passa a personagem Matias em contraste com a estática indiferença atingida por João o subalterno-testemunha. Tempo que se apresenta em camadas sobrepostas, impregnando a narrativa de fragmentos de memória por meio de um narração distanciada e configurada em modo dramático. Parece-me por isso justificada uma leitura que incida sobre a forma como esse Tempo se articula com as personagens e o espaço físico onde decorre a acção.

O Tempo da colonização sintetizado na parte I através de índices como galeras  remotas e tempo da pacificação formula uma espécie de tese cuja ambíguidade impede uma leitura linear. A referência aos espíritos petrificados dos brancos, da desordem e da mentira, incapazes de susterem o avanço dos deuses africanos pode de facto ser lida retroactivmente tanto como figura metafórica (metáfora da independência) como sinédoque de um fenómeno geral aculturativo representado pela personagem Matias tal como é descrito na sua relação com o universo dos curandeiros (das palhotas das serpentes mortas e vivas)e que determinará o seu destino, profetizado na parte II por sua mulher africana, agora morta:
Não tens salvação Matias és preto e por mais que escarres, por mais que insultes estes pretos, não voltarás nunca à tua terra com a riqueza aqui tirada, porque há muito que foi dito que morrerás nestas terras. E a tua sepultura estará ao lado dum preto.(…).

A história de Matias, pela inserção de elementos que suscitam analogias, possibilita em simultâneo a representação do Tempo da colonização como um universo extinto pela voragem de um novo Tempo, o da troca de bandeiras. Desse Tempo anterior permanece como um rasto um velho colono consumindo todo o vinho que resta na casa deserta e que o vomita ao ritmo do único disco de fado (de Amália Rodrigues) existente, clichês simbólicos que (de)compõem a sua diluida identidade.

Contrariamente a Matias, João não tem história própria. A sua identidade é forjada pela função de testemunha que desempenha na diegese e por uma subalternidade difusa que o leva a acompanhar o patrão, pela propriedade devastada, obedecendo de forma mecânica a ordens que se repetem, num silêncio que quase lhe retira humanidade. Estas características colocam João quer no interior da focalização, como duplo do narrador, quer como destinador das acções de Matias, observando-as sem perplexidade, sem interrogações, sem dó.
O novo Tempo (o da independência) que sucede ao extinto Tempo da colonização, é vivido de forma indiferente quer por Matias o patrão, quer por João o empregado, nivelados, não por quaisquer transformações sociais motivadas pela violência que levou à destruição da propriedade, mas pela inércia e solidão que compartilham.
(…) trabalhadores eufóricos que arrancavam o milho a florescer, a mandioca a brotar e o amendoim a rebentar. E como se isso não bastasse, sabotavam as máquinas que davam pelo nome de tractores sob o olhar impassível do patrão que deixava os pretos, que outrora se arrojavam a seus pés, bradarem pelo kululeko, nome que a independência leva, e estragarem tudo excepto as casas, o armazém, a loja e o restaurante porque os que se aproximaram do cimento com os machados e as tochas e a fúria assassina tiveram uma morte instantânea e inexplicável aos olhos do vulgo, afora os curandeiros (…)
Como personagens fora da moldura deste quadro, Matias e João fundem-se no espaço de desolação dominado por uma natureza anárquica onde animais repelentes e plantas desordenadas substituem a antiga ordem, de que sobra, como relíquia arqueológica o  fantasmagórico e simbólico cimento, impenetrável mas inútil, das casas. A simbologia do cimento como refúgio dos espíritos dos brancos, enquadrada num campo de racionalidade assumida pelo narrador e integrada no imaginário em que as personagens estão mergulhadas, reforça o questionamento identitário subjacente a todo otexto.

Imersa num cenário apocalíptico A solidão do senhor Matias clarifica a sugestão lançada pela citação de Marguerite Yourcenar numa das epígrafes. a felicidade é frágil e quando não a destroem os homens ou as circunstâncias, ameaçam-nas os fantasmas Contida nesta citação ficam as possibilidades alegóricas permitidas por possíveis analogias entre os termos da alegoria. Felicidade-destruição-circunstâncias e fantasmas (re)aparecem pois reconstituidos, na trama narrativa, legitimando o carácter disfórico do percurso das personagens.

As profecias da mulher, incluindo a da sua própria morte, (no dia em que os pretos como eu entrarem por estas terras com as armas em riste) e a de Matias, (recuperadas pela memória deste), fazem inflectir a narrativa para outro dos campos privilegiados por Ungulani ba ka Khosa, em que o sagrado funciona como elemento ordenador das acções das personagens. Submetidas ao poder da profecia e destituidas de autonomia, estas cumprem em geral um destino que as aniquila, o que acontecerá a Matias, no final, cavando a sua própria sepultura, numa regressão animalesca, uivando prolongadamente.

Se a memória convoca o Tempo histórico – a destruição da propriedade convoca a  independência e a morte violenta da mulher, a guerra que se lhe seguiu  , o fim de Matias acumula em si os sinais de um destino individual, não histórico, dependente de desígnios proféticos. Esta particularidade aliada ao papel reservado a João – o de testemunha distanciada, com função de coro    impede uma grelha realista da leitura, remetendo texto para um nível de oscilação em que a História é interpelada.

Vários séculos de reflexão sobre o potencial retórico da palavra remetem-nos, hoje, para posicionamentos que privilegiam o acto de leitura como meio para completar, ou mesmo materializar, essas intenções textuais que comumente designamos por significações, sendo o seu resultado múltiplo e variado, visto que dependem em grande medida do lugar em que nos colocamos enquanto agentes, mas também sujeitos dessa leitura.

Se retormarmos a dedicatória expressa em Orgia dos Loucos, A todos nós vítimas da nossa condição, seremos inevitavelmente encaminhados para a instabilidade das significações que podem emergir de A solidão do senhor Matias. Mantido nesse nível de imponderabilidade, o texto atrai-nos, enquanto leitores, para o Tempo da História, numa referencialidade que o integra num Espaço e Tempo concretos – Moçambique antes e depois da independência e da guerra que se lhe seguiu durante 16 anos.

Contudo em simultâneo as possibilidades dessa referencialidade diluem-se pela imposição de um campo dominado por critérios só admitidos pela imaginação artística. A escolha de anti-heróis para corporizar esta narrativa, caracterizados por um alheamento da sua condição, acaba por perturbar as possíveis afinidades com realidades empíricas. Mantidas sob a vigilância de processos estilísticos que as configuram fora de um quadro de verosimilhança, as bizarras personagens de Matias e João parecem querer justificar a segunda epígrafe no meu país/a única forma de liberdade permitida/ é a loucura extraida de um poema de Jorge Viegas, poeta moçambicano contemporâneo de Ungulani ba Khosa. Como uma espiral, a rede de significações produzida pelas conexões entre epígrafes, dedicatória e narrativa, instiga a uma infinidade de diálogos não necessariamente coincidentes mas certamente inspiradores.

Bibliografia
Afolabi, Niyi (Ed.) ¬ Emerging perspectives on Ungulani ba ka Khosa. Trenton NJ: Africa World Press. Inc., 2010.
Afonso, Maria Fernanda ¬ O conto moçambicano – escritas pós-coloniais. Lisboa: Caminho, 2004.
Chabal, Patrick¬ Vozes moçambicanas. Literatura e nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994.
Laban, Michel ¬ Moçambique encontro com escritores Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998.
Leite, Ana Mafalda ¬ ´´Oralidade, escrita, história¬Ungulani ba ka Khosa´´. In Oralidades & escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Colibri, 1998.p.81-96.
Matusse, Gilberto ¬ A construção da imagem de moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani ba ka Khosa. Maputo: Universidade Eduardo Mondlane, 1998.
Noa, Francisco ¬ ´´A dimensão escatológica da ficção moçambicana: Ungulani ba ka Khosa e Mia Couto´´. In A escrita infinita: Maputo, 1998.
Saúte, Nelson ¬ Os habitantes da memória. Praia: Embaixada de Portugal/CCP, 1998

 

São 60 anos de uma vida de sorrisos e de reboliços. 30 anos de uma carreira e, como resultado, oito livros na prateleira. A Universidade Pedagógica (UP), considerando os feitos de Ungulani Ba Ka Khosa no país e na diáspora, tornou o dia do autor de “Ualalapi” um viveiro de emoções.
A Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) parecia ter-se mudado para a Biblioteca Central da UP. Não só os amigos escritores de infinitas tertúlias se encontravam na sala, outros amigos: familiares e demais personalidades foram testemunhar mais uma homenagem ao escritor.
Foi um evento marcado por discursos entre académicos, literários e, por que não, filosóficos; mas também por momentos culturais, com destaque para a música e humor. 
No final do evento, apenas aos microfones do “O País” Ba Ka Khosa exortou aos seus leitores e aos demais para serem coerentes com eles próprios: “a coerência acima de tudo é que deve nortear a nossa conduta e o nosso dia-a-dia”. Mais nada. Só que antes, enquanto agradecia pela homenagem – esta que iniciou em Niassa, sua segunda das demais terras – prometeu voltar a cutucar “Ngungunhana”, este que preenche as últimas obras de Mia Couto em trilogia. Desta vez, Ba Ka Khosa fala sobre as mulheres do Rei de Gaza. O autor encarna essas mulheres e conta o drama que elas passaram saídos de Lisboa a São Tomé. “Quatro delas regressaram a Moçambique em 1911 e passaram despercebidas no país. Achei por bem prestar um grande tributo às mulheres do imperador que estará provavelmente, em Fevereiro ou Março, à disposição dos leitores”, prometeu.
Como forma de retribuir ao gesto da UP, Ungulani diz que sem dúvida o livro será lançado naquele espaço, garantindo assim que a classe académica seja a primeira a ser atingida com esta trama que foi completamente ignorada pela história moçambicana.
Sobre o livro, o autor não deu mais detalhes, prometendo que em momento oportuno irá se pronunciar. Ao “O País” prometeu exclusividade. Menos mal, e desde já aguardamos.
O evento foi bastante rico, entre risos e aplausos foi decorrendo à festa. Não foi uma cerimónia formal, mas não deixou de respeitar o espaço académico. Foi presenciado pela vice-ministra da Cultura e Turismo, Ana Comoana, e pelo reitor da UP, Jorge Ferrão, (ainda que este não estivesse ali fisicamente). 
Para o grande amigo de Chico, tal como é tratado informalmente, Ungulani tem um valor universal, mas “eu sinto que existe um défice de informação sobre Ungulani nas escolas, até nos estudantes do Ensino Superior, porque também é uma pessoa retraída e por querer esconder-se dele próprio e do resto país, fez com que ele adoptasse um nome que se torna difícil encontrar e o reencontrar”.
Como acontece em todas as festas, a família juntou-se ao centro da sala para cortar o bolo. Ainda que a sua voz as vezes lhes pregue partidas, o seu ar (mostrando ser mais eficiente) apagou as velas do bolo e acendeu os cânticos e aplausos.
Assim foi a passagem do sexagésimo aniversário de Ungulani; o pai, irmão e avô Francisco ou melhor o Chico.
 

O L’Atelier, uma das mais prestigiadas competições artísticas de África e entrou este ano na sua 32.ª edição. Esta competição anual tem como principal objectivo estimular jovens talentos nas artes visuais, servindo como uma plataforma para que os jovens artistas emergentes se afirmem na arena da arte africana e mundial. Ao longo dos anos, esta competição tem sido um instrumento fundamental no lançamento de muitas carreiras no campo das artes visuais. Este ano, a estratégia passou por abranger ainda mais países no continente africano. 
Nesse âmbito, nesta edição, o L’Atelier abriu as suas portas aos jovens artistas de países como o Gana, Quénia, a Zâmbia, Uganda, as Maurícias, as Seychelles, a Tanzânia, o Botswana, a África do Sul e Moçambique onde, pela primeira vez, esta competição procura distinguir, também, artistas a residir em Moçambique, contando com o apoio do Barclays Moçambique e da Fundação Fernando Leite Couto.
O concurso teve início a 20 de Fevereiro de 2017 e decorreu até 24 de Abril de 2017. As inscrições para esta competição, foram realizadas online, através do portal da instituição. Em Moçambique, dos 8 artistas que se apresentaram a concurso com um total de 19 obras, foram seleccionadas 5 obras, dos quais 3 artistas foram eleitos para a final, tendo a avaliação sido efectuada por um júri composto por profissionais experientes nesta área, garantindo assim uma avaliação isenta dos trabalhos a concurso. Moçambique será então representada pelas obras de Mauro Vombe, Titos Pelembe e Luís Santos.
De acordo com Luís Santos, artista plástico ” é uma oportunidade espectacular participar num concurso com tanto prestígio, visibilidade e consideração para com os seus participantes. Dá-nos uma perspectiva muito boa do que é o mundo da arte, para além das nossas fronteiras”.
A noite de premiação irá realizar-se no próximo dia 13 de Setembro de 2017, em Joanesburgo, África do Sul, na Galeria ABSA. Todos os trabalhos serão devolvidos às suas origens, em Novembro de 2017, e, no caso de Moçambique, haverá uma exposição das obras no final de 2017, na Fundação FLC.
Refira-se que esta competição tem sido extremamente bem-sucedida ao longo dos anos, com grande destaque no calendário artístico e cultural. A competição tem sido fundamental na projecção das carreiras de jovens artistas que passaram a ser procurados nacional e internacionalmente. O foco da organização não é apenas anunciar o vencedor e enviá-los de volta, há todo um trabalho durante e depois do concurso, monitorando as carreiras dos artistas e dando-lhes assistência e orientação sempre que possível, para uma melhor inclusão no mundo global das artes.
 

Ungulani Ba Ka Khosa teve um presente de natal fora de órbitra, em Dezembro de 1998. Numa altura difícil da sua vida, oescritor conheceu Salomé de Sousa Pinto. Num ápice, amor a primeira vista. Graças a Salomé, o escritor reencontrou-se e continuou a sorrir para a vida. Salomé é o pilar do lar de Ungulani. Com o suporte da mulher, o escritor continua a desempenhar o papel de bom pai, marido e avô que é. 
Na Salomé, Chico tem, não apenas uma esposa, mas uma musa, amiga e cúmplice de todas as coisas. Nela, as leitoras de Ungulani têm uma razão para serem invejosas, não fosse Salomé a primeira leitora, revisora e crítica dos livros do escritor. Por isso, não poderia deixar de ter um livro de eleição: “Entre memórias silenciadas”, que bem recupera a narrativa de “Fragmentos de um diário”, de “Orgia dos loucos”, o livro que mais marca Khosa. 
A esposa de Ungulani vive os livros antes de serem escritos e tem a responsabilidade de gerar o ambiente para que existam. Assim foi, por exemplo, com “Os sobreviventes da noite”, escrito quando o casal encontrava-se num retiro, na Moamba. Mas esse não é a única circunstância em que o maridão de Salomé cria: “o Chico escreve em qualquer ambiente. “É incrível! Para ele não importa se há barulho, multidão ou silêncio. Escreve à vontade”, admira a esposa, lembrando que, nos tempos em que ela cursava Direito, juntos acordavam à madrugada para cada um exercer a sua actividade. Ela cedia à falta de concentração. Então, ao invés de estudar, ficava ali, olhando o marido escrever afincadamente. Falando apenas quando oportuno, apenas para responder a alguma pergunta que permitisse a tinta da pena do autor deslizar. 
Como marido, Ungulani é um sujeito tranquilo, atencioso, carinhoso. Salomé não se lembra de, em nenhum momento, terem-se aborrecido com seriedade. Estão juntos há 19 anos e, de mãos dadas, vão cumprindo os deveres paternais e de avôs com a dedicação de sempre.
Olhando para trás, Salomé não hesita, assume que valeu a pena ter-se deixado conquistar porque Ungulani é um homem maravilhoso. Então, um desejo: “continues sendo esse maridão, amigão, que eu amo-te muito e tu sabes bem disso”. E como sabe, por isso o escritor é adolescente quando o assunto é o seu amor. Aos 60 anos, Chico passeia com a esposa por tudo quanto é lado. Salomé é a asa de um escritor livre, desinibido, corajoso, determinado, mas frágil nos assuntos que dizem respeito ao coração. 
Mas porque a vida não é apenas feita de momentos felizes, nove anos depois de se juntarem, Salomé sentiu o medo e a angústia a abraçar-lhe intensamente. O seu Chico, forte como um touro, foi diagnosticado um cancro. O assunto era grave. As lágrimas teimavam em jorrar a catadupas. De urgência, Salomé e o cunhado Elias, irmão mais velho de Ungulani, levaram o escritor a África do Sul, onde deveria ser operado. Antes disso, o médico foi claro: “vamos operar, mas há 70% dele perder a língua e 30% de a operação dar certo. Na verdade a operação não foi necessária, ficou-se pelos tratamentos fortes de quimioterapia e radioterapia. Esse foi o único momento da vida que Ungulani quase desistiu. Mas um Khosa é teimoso. Voltou a erguer-se, graças a Deus e ao sucesso dos tratamentos. Mas havia uma contrapartida: o escritor já não devia consumir álcool nem tabaco como se tivesse 30 anos. Nada de terrível, afinal, ainda podia dizer que te amo, Salomé. 
 

“Não há investimento cultural para páginas literárias neste país, como não há, no próprio texto jornalístico que nós lemos nos jornais, o mínimo de eficácia comunicacional, de referencialidade à língua portuguesa (se é escrita em português) que seja perceptível de alguma maneira”. Estes foram os pronunciamentos de Luís Carlos Patraquim à volta do tema “Jornalismo, engrenagem literária” num debate havido sexta-feira na Fundação Fernando Leite Couto.
Patraquim é uma voz autorizada quando o assunto é jornalismo e artes no país, até porque foi por isso que o autor da recente obra “Deus Restante” foi convidado como orador dessa palestra testemunhada maioritariamente por jovens escritores e jornalistas. Ou seja, público certo.
Patraquim não se deu o trabalho de procurar palavras mais suaves para exteriorizar o seu pensamento sobre aquilo que é o jornalismo cultural praticado actualmente: “Não temos uma página cultural em Moçambique a sério, ninguém liga a isso”, reclamou.
No segundo momento, Patraquim disse haver “falha de qualidade muito grande, muito sinceramente”, reiterou. No pensamento do pseudo-jornalista esse problema deve-se a educação defeituosa conjugada com outros assuntos. Para o orador é um “grande equívoco pensar que o erro é uma derivação nacionalista do moçambicanismo que não está lá. Por que não está lá? Porque essas coisas não se inventam, vão acontecendo num processo sociológico, político, cultural, de aprendizagem”.
Precisamente, Patraquim critica o facto de as páginas dos jornais esquivarem-se por completo dos assuntos culturais: “Não há nenhuma análise crítica de absolutamente nada”, rematou. Concorda apenas que há pequenas notícias, regra-geral, repetindo comunicados de imprensa de algumas entidades.
Como que a identificar o problema de facto, num tom certeiro, o palestrante disse que peca-se quando se transforma a oralidade para a escrita. Neste quesito há questões de gramática e de técnicas que os jornalistas desrespeitam por incompetência. “Estamos numa sociedade de pequeno espectáculo e de muita ignorância a este nível”, despejou.
Em Moçambique vive-se com medo
Não é só de jornalismo cultural que Patraquim dissertou na sessão de aproximadamente duas horas, que contou com a moderação do jornalista José dos Remédios. O jornalismo investigativo também foi chamado à mesa, mas a crítica não mudou. Aliás, para o orador nem se quer existe o jornalismo de investigação, porque quem o fazia foi assassinado 
“Neste momento, há medo. Em Moçambique vivemos com medo, acabou o jornalismo de investigação”, concluiu. 

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