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O País – A verdade como notícia

Duas vidas à procura do mar e outros contos é o título do livro inédito de Albino Magaia que será lançado às 18 horas desta terça-feira, na Fundação Fernando Leite Couto, cidade de Maputo.

O livro de ficção lançado a título póstumo – Albino Magaia faleceu há nove anos –, na verdade, inaugura a colecção “Gosto de ler”, da Fundação Fernando Leite Couto, a qual funciona como homenagem àquele autor. E o editor Celso Muianga, da Fundação Fernando Leite Couto, explica: “É, no fundo, uma passagem de testemunho, uma homenagem a Albino Magaia. O autor, enquanto director da revista Tempo, criou a colecção gostar de ler. Não quisemos fugir a isso. Sabíamos que ele tinha no espólio alguns contos inéditos. Por isso vai inaugurar esta colecção da Fundação Fernando Leite Couto, que é uma resposta à falta de leitura”.

De acordo com Leia Magaia, a viúva de Albino Magaia, quando o marido faleceu estava a trabalhar no livro Duas vidas à procura do mar e outros contos e num outro sobre as crónicas do Niassa, onde viveu algum tempo. Então, o célebre autor deixou, além do livro agora publicado, mais textos inéditos.  “Nós já tínhamos a sede de publicar estes textos do Albino. Eu acompanhei o processo criativo dele, nos últimos anos de vida. Conheci o plano dele em termos de publicações. Além dos contos deste livro, Albino deixou mais crónicas inéditas que gostaria de ter publicado”, revelou a viúva do escritor, realçando que publicar este livro de Albino Magaia é uma obrigação dela e da família em geral.  

Além de escritor, Albino Magaia foi um importante jornalista, que, inclusive, formou muitos profissionais da área de informação a seguir à independência nacional. Graças ao escritor e jornalista, a revista Tempo teve a Gazeta de Artes e Letras (inicialmente coordenada por Luís Carlos Patraquim), privilegiado espaço de promoção de poemas, contos, autores e de debates sobre literatura moçambicana, cinema, artes plásticas e etc. Aliás, o primeiro concurso literário moçambicano, em 1980/81, foi promovido pela revista Tempo. Como se sabe, não houve vencedor, mas uma menção honrosa ao conto “Abatido ao efectivo”, de Guilherme Afonso.

Albino Fragoso Francisco Magaia nasceu a 27 de Fevereiro de 1947. Veterano de luta contra o regime colonial português, chegou a ser preso pela PIDE, o que lhe valeu a obra Yô Mabalane. Na juventude, foi membro do Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique (NESAM) e, mais tarde, membro do Conselho de Administração da Sociedade de Notícias. Foi um dos impulsionadores da Organização Nacional de Jornalista, actualmente Sindicato Nacional de Jornalistas. Magaia foi membro fundador da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). O seu espólio literário inclui ainda livros como: Assim no tempo derrubado; Malungate; A força da palavra, trilogia do amor (Prémio Consagração da Fundac); e Moçambique: raízes, identidades, unidade nacional.

Duas vidas à procura do mar e outros contos é um livro constituído por cinco textos: “Duas vidas à procura do mar”, “Itinerários”, “Os fugitivos” e “Fertilidade da terra no ventre de Ntavasse”. O leitor atento deve ter notado que falta um texto. Pois é, logo saberá qual é quando o tiver a obra nas mãos.

 

 

 

 

Mais uma edição do Vibratoques chegou ao fim. Ontem à noite, a Vodacom laureou oito autores nomeados para nove categorias. O grande vencedor, este ano, é “cabeçudo” e “chefe do quarteirão”. Não se pergunte de que bairro, pode ser qualquer um. Na verdade, “cabeçudo” e “chefe do quarteirão” são A.K.A. (também conhecido por) de Valter Artístico, menino de George Dimitrov (Benfica) que saiu do anonimato para se revelar como um talento nacional.

A propósito de revelar, um dos prémios conquistados por Válter Artístico, na gala de ontem, realizada no Hotel Glória, na cidade de Maputo, foi mesmo o de Revelação. O “chefe do quarteirão” deixou para trás concorrentes nomeados como Ayton Sacur e 11 Balas. E parece que foi consensual. Antes de se dizer o nome do vencedor daquela categoria, ouviu-se do auditório, repetidas vezes, gritar-se o nome do grande vencedor desta edição do concurso que premia os autores cujas músicas foram as mais escolhidas como tom de chamada.

Ao subir ao palco, Artístico agradeceu a Deus, à mãe com que esteve no palco, a Vodacom, ao amigo que também acompanhou-lhe ao palco, por ter acreditado nele desde o princípio. “A primeira vez que fui à televisão, Cabicho, este meu amigo, foi quem acompanhou-me ao Xipamanine para comprar roupa. Muito obrigado por confiar em mim desde o princípio”, afirmou Valter Artístico.

Minutos depois de ter ido sentar, o prémio Revelação voltou a ser convidado a ir ao palco. Na altura para receber a segunda distinção: Melhor Artista Masculino. Essa foi a terceira vez do cantor no palco do Vibratoques na noite de ontem, pois antes das distinções, ainda interpretou um dos seus mais afamados temas: “Meu gueto”.

Quanto aos outros laureados, na categoria Afrobeat, o vencedor foi Mauro Flow, na verdade, o primeiro cantor a ter o peso da estatueta nas mãos. Depois seguiu-se Mr. Bow. O autor da “Guilhermina” foi distinguido na categoria Marrabenta. O filho de machangana sorriu como se tivesse sido o primeiro prémio a conquistar na carreira. E ainda disse que reconhecimentos como os de Vibratoques nunca fartam a um criador. Por isso, Bawito está com vigor para carregar quantos mais prémios forem possível. Então podem vir mais, que a Liloca, inclusive, sempre ajuda a carregar os prémios lá para casa. Foi o que se viu. E a fã lá de casa não se fartou de se deixar fotografar com o “maridão”, que a sala do Vibratoques bem convinha para registar o momento com múltiplos flashes. É só foto. Foto. Ardiles tinha razão. Mas essa razão não foi suficiente para que um dos fundadores do Pandza vencesse a categoria com o mesmo nome. A ventura calhou a NP.

Houve mais premiados na terceira edição do Vibratoques. Lay Lizzy conquistou a categoria Hip-Hop; Cláudio Ismael é prémio Tropical; B4L Girls (grupo composto por Dama do Bling, Marllen e Lizha James) ficaram com o prémio de melhor Soul e R&B. Falta uma categoria, a de Melhor Artista Feminino. O prémio pertence a Lizha James, no Chimoio em missão de serviço. O cunhado, Mauro FLow, lá esteve no Glória para receber o prémio da cunhada.

Além das premiações, a terceira gala do Vibratoques da Vodacom teve interpretações de vários autores convidados. Wazimbo abriu a sala com dois temas. Com a afinação de outros tempos, mostrou aos mais novos que quem sabe não esquece, lembra-se.

Wazimbo à parte, no palco do Glória também estiveram Tchakaze, Abuchamo Munhoto, Eurídse Jeque e Tabasily. Rico Biosse proporcionou momentos hilariantes de stand up comedy e a dupla Duas Caras e Rui Michel, ao interpretarem “Charles”, levantaram a audiência como ninguém antes conseguiu fazer.

Para os artistas vencedores desta edição, todos eles, os prémios representam o reconhecimento do trabalho que têm vindo a fazer, o que lhes dá alento para continuarem firmes na caminhada escolhida. E para os organizadores do evento, o sentimento é de missão cumprida, pois, além da adesão do público, a gala correspondeu às espectativas. E agora? “Vamos continuar comprometidos em apoiar os artistas e em promover as suas músicas por via desta plataforma”, afirmou Yotasse Nhumaio, da Vodacom, operadora que já atingiu dois milhões de utilizadores.

Iniciou ontem a primeira noite d´alma no bairro da Mafalala, a inauguração esteve a cargo do grupo Entrecho. Entretanto, o dueto moçambicano formado por Kenobi e Eunica Riquixo não deixou o talento do Índico em mãos estrangeiras.

Entrecho recitou poemas que destacam o mosaico moçambicano, que cruzam os caminhos no nosso país e descrevem a nossa cultura.

A brasileira Yuru Yayungai subiu ao palco acompanhada pela mbira e percursão de Mbalango. Yayungai não ignorou a poesia de Noémia de Sousa no seu repertório, embora tenha viajado pelos versos de Conceição Evaristo, isso sem dispensar o seu “As mulheres inventaram o mundo”.

Nelson Maca não constava desse alinhamento mas, irresistivelmente, Féling Capela chamou-o ao palco. Não parecia ter aterrado há duas horas e isso notou-se na sintonia improvisada com o percurssionista Mbalango.

Valério Moser veio da Suíça com um ritmo mais descontraído, uma mistura entre poesia, hip-hop, com uma sonoridade mais electrónica de Darius Papp.

A noite foi encerrada por uma perfomance acústica do brasileiro Melvim Santhana. Foi uma actuação notável, onde o “ritual da água” arrancou a atenção da platéia até aos seus movimentos com o cavaquinho e o pandeiro, instrumentos que coroaram a sua perfomance que cruza a poesia e a música numa alegria contagiante, típica de brasileiros.

O Festival Internacional Poetas d´alma vai receber, nos dias 25 a 27 de Julho, 65 artistas a representarem 18 países.

Cinco guitarristas sobem ao palco do Hotel Terminus esta sexta-feira, trata-se dos músicos moçambicanos Hortêncio Langa, Roberto Chitsondzo, Chico António, Aniano Tamele e Fernando Luís.

Esta é a segunda edição em que os trovadores sobem ao palco para mostrarem o que de melhor sabem fazer com suas guitarras. O “Only Jazz Without Stress” é um espaço intimista e aprezível, é o momento para aliviar o stress da semana laboral.

Hortêncio Langa trará um repertório medido, mesmo para que os outros tenham espaço nesta hora e meia de concerto, mas passarão pela sua guitarra dedos que convoquem os melhores sucessos. Quem o conhece não vai sair decepcionado. Quem não, claramente não se vai render

Diz-se o mesmo, e com o mesmo som, sobre a actuação de Roberto Chitsondzo e Chico António. São veteranos. E chega-se a não ter o que dizer àqueles que já se sabe e se disse até por demais. Os recém-convocados – Aniano Tamele e Fernando Luís, prometem não deixar seus legítimos créditos em mãos alheias.

Este concerto é um pretexto para unir os admiradores dos cinco músicos num só espaço, uma ocasião para os guitarristas revisitarem a memória colectiva e trazer os melhores êxitos desde os anos 70.

O histórico bairro da Mafalala, na capital do país recebe o Festival Poetas d’Alma a partir desta quinta-feira, 18 de Julho com uma série de momentos dedicados a poesia, teatro e passeio turístico de intercâmbio cultural.

Com duração de 4 dias, o festival começa às 17h00, com a inauguração da exposição “Mafalala Poética, Nossa história”, onde estarão patentes obras de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar – consideradas grandes figuras da literatura nacional.

Às 18h30, o colectivo Poetas d´Alma socorre-se de artistas nacionais e internacionais para homenagear Nelson Mandela, a propósito da celebração do seu nascimento num recital poético designado “Ubuntu, num só”, por vozes de Moçambique (Entrecho), do Brasil (Melvin Santhana, Yayungai), da Alemanha (Theresa Hahl), da Suiça (Valério Moser), entre outros.

Segundo Féling Capela, curador do Festival, Mafalala está no roteiro do evento pelo histórico dos poetas que nasceram ou parte da sua vida cruzou com aquele bairro e, porque não, a revolução literária e política começou lá.

Capela não tem dúvida que se não fossem os poetas, escritores e líderes da Mafalala “nós não seríamos nada, por isso temos de fazer um tributo lá, sendo este espaço um satélite para o país e para o continente”. E sobre a homenagem ao líder africano o curador esclarece: “queremos reconhecer Mandela que nos deu a luz e provou que o mosaico de nacionalidades não pode colocar fronteiras”, frisou.

No dia 21, Mafalala volta a ser palco de um momento cultural. Desta vez será a apresentação da peça teatral “Esperando Zumbi”, com a direcção da Cristiane Sobral – uma das mais influentes actrizes brasileiras. No dia seguinte, à partir das 14h00, porque é sempre melhor conhecer profundamente o bairro que durante quatro dias se abre aos poetas e “performers” do país e do mundo, a Associação IVERCA irá coordenar um passeio turístico em locais emblemáticos e desvendar as suas estórias.

 

Esta quinta-feira, quando forem 16 horas, o Centro Cultural Brasil-Moçambique, na cidade de Maputo, realiza um debate sobre literatura e negritude.

O debate vai focar-se na história do povo brasileiro e moçambicano, tendo a negritude enquanto movimento político, ideológico e cultural.

“Se a independência tornou este debate menos pertinente em Moçambique, no Brasil é hoje ainda mais urgente. Se em Moçambique nomes como Noémia de Sousa, José Craveirinha ajudaram-nos, a partir da literatura, a perceber este dilema; no Brasil nomes como Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e, na história mais recente, Cristiane Sobral, Nelson Maca, Jô Freitas e Débora Garcia usaram e têm usado a literatura num sentido de militância”, adianta a organização.

Nesta quinta, a mesa de debate será composta por Aurélio Cuna (professor de Literatura Moçambicana, UEM), Nelson Maca (poeta, escritor e professor de Literatura Brasileira), Álvaro Taruma (Poeta) e Izzy Gomes (académica e jornalista cultural brasileira). Este debate será construído sob moderação da plataforma Mbenga Artes e Reflexões.

O debate sobre a negritude desta tarde insere-se no programa a caminho do Poetas d’Alma Festival de Poesia e Artes Performativas, que vai acontecer de 25 a 27 deste mês. Durante três dias, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão e Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, vão participar mais de 60 artistas, provenientes de 18 países, como Alemanha, África do Sul, Argentina, Brasil, Cuba, eSwatini, Reino Unido, Suíça, Estados Unidos da América, França, Ilha Reunião, Espanha, Angola, Itália.

 

De um total de 76 crianças confirmadas para actuarem nesta segunda edição do Mozkids Talents, na primeira gala, realizada este sábado, entre às 11 e 13 horas, subiram ao palco do Cine Scala, na cidade de Maputo, 34. A questão é simples. À imagem da primeira edição, a organização, por questões logísticas, decidiu não colocar tantos petizes a partilhar os mesmos bastidores.

Assim, na gala inaugural do concurso infantil realizado pela Stv em parceria com a Dstv, Gotv e Movitel, divertiram-se, mostrando o talento que têm 34 concorrentes, no entanto, como é de um concurso que se trata, conseguiram garantir o apuramento para a fase seguinte 23 crianças. Com a excepção da categoria Instrumentos Musicais, com três concorrentes apurados, todas as outras, designadamente, Canto, Dança, Teatro e Poesia, têm cinco.

A concorrente que teve a oportunidade de inaugurar a segunda edição do Mozkids Talents foi Délfia Vanda, menina que declamou o poema “Xigubo”, da autoria de José Craveirinha. Na sua actuação, a pequena declamadora conciliou recital de poesia com alguns passos coreográficos que logo à partida tiveram impacto no Scala. Depois, seguiu-se uma outra grande actuação. Desta vez, de Tiago Manhiça, menino que já aprendeu a compor seus próprios textos. A esta fase do Mozkids Talents, Manhiça chegou depois de ter declamado o poema “Kapulana”, por ele escrito. Na gala inaugural, o concorrente de Poesia deixou os tecidos de lado e foi inspirar-se numa tragédia que assolou vários moçambicanos no Centro do país. Manhiça declamou “Idai”, trajado de roupa rota, como quem sugerisse que ficou sem nada devido àquela calamidade. Mais uma vez, do lado do auditório surgiram palmas e o Tiago saiu do palco com sensação de dever cumprido. Se a primeira concorrente de Poesia escolheu o autor importante da literatura moçambicana, a penúltima não foi diferente. Elisa Senguele escolheu “É preciso plantar”, de Marcelino dos Santos.

A segunda categoria disputada na primeira gala foi a de Instrumentos Musicais. Destemido ou pelo menos aparentemente à vontade, Stefanny Alexandre recorreu aos teclados para tocar “Marshmello”. A actuação foi muito consistente, mas, se calhar porque o tema não é assim tão popular, os aplausos não foram ensurdecedores. O mesmo não se pode dizer da segunda actuação. Shanikwa Apolinário tocou um tema muito conhecido no Sul do país, principalmente para os que frequentam igrejas ou velórios: “Tsovelo”. Então, enquanto a menina tocava o seu teclado, em coro o público, acompanhando-a do princípio até ao fim. Momento único no Scala. Os pais e encarregados de educação esqueceram-se que aquela era uma adversária dos filhos e sujeitaram a gozar o momento. O cenário quase que se repetiu quando Kiyone Roseley, menina que diz ter um talento forte, interpretou o tema “Elisa”, o clássico da Orquestra Djambo. No caso, através do seu violino.

A seguir à categoria de Instrumentos Musicais, seguiu-se a de Canto. Nesta, 11 concorrentes disputaram cinco vagas. E o grande destaque da manhã foi para Aleixo Chavate, que interpretou “Chega dos casamentos prematuros”, tema da autoria de Justino Ubakka. Vestido a gentleman, Chavate cantou com confiança que lhe value muitos sorrisos do público. Se Aleixo convenceu o auditório em geral, Yasmim Fakir deixou a mãe orgulhosa, convencida de ter tomado decisão acertada ao inscrever a filha no concurso. Por isso, Juju, mãe da pequena Yasmim, espera que a filha assimile nesta edição do programa infantil os conhecimentos importantes para sua formação no futuro.

Ouvidos os potenciais cantores, seguiu-se a categoria mais bem disputada, a de Teatro. Sempre em duplas, os meninos interpretaram o quotidiano dos moçambicanos, entre o sarcasmo e a denúncia de casos graves que se passam nas famílias. As crianças ridicularizam os adultos, expondo os seus males, as suas arrogâncias como que a sugerir um reparo de comportamentos. Por isso mesmo, todas as cinco duplas foram apuradas pelo júri, o que significa que ninguém ficou para trás.

A categoria de Dança ficou para o fim. E, nesta, entre alguns bons dançarinos, revelou-se um fenómeno. Seu nome? Elton Macuácua. Deve ter ficado no palco mais ou menos quatro minutos. E foi incrível. Movimentos coordenados, complexos, forma física invejável, sintonia, enfim, o “Macuacuinha” dançou como poucos concorrentes o fizeram no palco Scala, mesmo a contar com os da primeira edição. A manter a performance, há-de dos grandes favoritos da categoria de Dança nesta edição.

Portanto, fazendo balanço da gala inaugural, os membros do júri (Maria Helena Pinto, Dadivo José e Dudas Alled) mostraram-se satisfeitos pelo facto de as crianças, em geral, terem-se preocupado em levar ao palco do Scala propostas que combinam com a faixa etária em que se encontram. Para o júri, os concorrentes de Poesia, de alguns de Canto e sobretudo de Teatro, levaram à primeira gala temas educativos e construtivos. No próximo sábado, às 10h30, no Scala, o júri, como se tem dito, querem mais do mesmo.

 

Os concorrentes apurados

Dos 34 concorrentes que se apresentaram no Cine Scala foram apurados os seguintes: Tiago Manhiça, Délfia Vanda, Carla José, Elisa Senguele, Shantel Macuvel (Poesia); Stefanny Alexandre, Shanikwa Apolinário e Kiyone Roseley (Instrumentos Musicais); Aleixo Chavate, Júlcia Nhavene, Rindzela Carmen, Maida Horácio, Yasmim Fakir (Canto); Nicole Mucambe e Gina Lichavão, Tamirys Chiluvane e Toyvo Chiluvane, Jéssica Abílio e Joaquina, Sinezia Sataca, Yunat Dengo e Charlise Kan (Teatro) e Elton Macuácua, Margarida e Chiomara, Naima Carimo e Nazira Carimo, Alysha Francisco, Alfredo Nhancupe (Dança).

 

Os actores Gigliola Zacara e Fernando Macamo juntaram-se para adaptar um livro infatil-juvenil de Mia Couto para o teatro. Assim, sob direcção de Zacara e encenação de Macamo, O gato e o escuro vai ganhar outra vida no palco do no Auditório do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, num espectáculo teatral infantil a realizar-se este sábado, às 10h30.

Segundo entende o Franco-Moçambicano, O gato e o escuro é uma espectáculo que faz parte de uma colectânea de histórias e mitos de tradição oral que são recriados e ilustrados por escritores e pintores do país, com o objectivo de revelar a riqueza do imaginário moçambicano e aproximá-lo das suas crianças em formato de conto. 

Nesta história, o gatinho preto nem sempre foi dessa cor, antes era amarelo com pintas, tal que se chamava Pintalgato. O por do sol fazia a fronteira entre o dia e a noite, a mãe do gatinho se afligia de dia, só de pensar que o seu filho passasse além do pôr de algum sol. O filho fingia obediência, mas quando o Pintalgato chegava no limite da fronteira espreitava o lado de lá, no mundo estranho proibido. Seus olhos brilhavam tanto, até que um dia atreveu-se a passar totalmente para o outro lado, repetindo por vários dias, até que se transformou num gatinho preto.

O espectáculo adaptado do texto original de Mia Couto tem interpretação de António Sitoi, Fernando Macamo e Gigliola Zacara e a música está na responsabilidade de Célia Madime.

 

África é um continente cheio de boas narrativas, as quais devem contribuir para que o mundo saiba quem são e como são os africanos. Esta é a perceção de Kalaf Epalanga, escritor angolano que em Maio lançou o livro Também os brancos sabem dançar, na cidade de Maputo. Segundo entende Epalanga, os escritores africanos têm a missão de contribuir para que o Ocidente perca os preconceitos sobre o Berço da Humanidade.

Também os brancos sabem dançar é o título do seu primeiro romance. Que relação quis aqui estabelecer?

O livro é inspirando num provérbio angolano que diz “também os brancos conhecem boas cancões”. Troquei o cantar por dançar. E, essencialmente, o provérbio traz-nos aquela ideia de que não devemos julgar alguém pelas aparências. Na verdade, este é um livro de viagens identitárias, nas quais abordo muitas questões de migração, nesta fase em que a Europa quase rejeita os emigrantes.

Foi uma forma de retratar as suas próprias migrações?

Sim, quis retratar a minha própria emigração, motivada pela música. Eu comecei a viajar pela Europa por causa da música. Fiquei na Europa por causa da música. O meu plano inicial era o de chegar lá e ter uma formação académica e voltar para Angola, mas a música convidou-me a ficar a contribuir para o desenvolvimento das cidades por onde passo. O livro começa com uma viagem que fiz em 2008 com Buraka Som Sistema, grupo do qual sou membro. Nessa viagem perdi o meu passaporte em Paris, mas decidi continuar com a viagem porque os meus dois últimos concertos, na altura, na Suécia e na Noruega, eram os mais importantes, daqueles que iriam nos consagrar ou não. Para além de que a banda nem quis fazer os concertos sem a minha presença. Então, a banda pegou um avião e eu decidi entrar num autocarro, já que tinha um cartão de residência no estrangeiro. Correu tudo bem para o concerto da Suécia. Quando já estava para saltar a fronteira para Noruega, entram os polícias de migração e fui detido. Tive de ir parar a cadeia. Dentro desse processo de ter que provar a minha identidade, já que estava sem passaporte, e de reflectir sobre as minhas escolhas de vida, começou o romance.

Este livro tem três narradores. Um deles é uma professora de quizomba. Há uma razão?

Gosto e promovo bastante a quizomba. Não sou um bom dançarino de quizomba, mas acho que é o género pop criado neste universo que se expressa em português que mais chance de expansão tem. Só que é considerada arte menor, do subúrbio e de pessoas sem grande intelecto. Eu discordo. Acho que as pessoas que promovem, fazem e criam quizomba têm um génio artístico que merece ser valorizado.

E o terceiro narrador é o polícia que lhe prende?

Sim, através desse narrador aproveito para contar a história da emigração na Noruega e os contributos dos emigrantes. Por exemplo, a Noruega é conhecida como um exemplo da exploração do petróleo. Eles têm um fundo do petróleo que ajuda em muitas questões sociais, inclusive na diversificação da economia. Tem uma coisa que muitos noruegueses não sabem. Uma das pessoas mais importantes na organização da economia do petróleo e todos os investimentos que surgiram dessa exploração foi um emigrante iraquiano, que se mudou para Noruega porque estava com problemas de saúde de um dos filhos. Esse emigrante já tinha experiência de trabalhar no Iraque e no Kuwait e foi pedir emprego a recém-formada empresa de exploração de petróleo. Assim contribuiu para tornar a Noruega nessa grande potência.

Quando se deu conta de que a sua história poderia dar um romance?

Por acaso foi o escritor José Eduardo Agualusa, de quem sou amigo, que me despertou. Dele escuto todos os conselhos com atenção. Estávamos no Brasil, numa conferência em que ele entrevistava-me, sobre o kuduro, o género musical que eu promovia com a minha banda. Como estávamos com uma audiência brasileira que, na maioria, não sabia o que era kuduro, eu assumi a missão didáctica de explicar quando o género nasceu, quem são as figuras importantes e as influências mais marcantes. No final da conferência, Agualusa virou-se para mim e disse-me que devia escrever a biografia do kuduro. Na altura estava em digressão e não tinha tempo de ir para Angola entrevistar os músicos todos. O conselho de Agualusa foi um mote e, depois, as coisas expandiram-se por outras discussões.

Quis que o protagonista de Também os brancos sabem dançar fosse parecido consigo?

Não essencialmente. A minha biografia dava-me jeito porque tive uma relação e tenho uma relação próxima com o kuduro e com a quizomba. Poderia ser outro personagem, mas achei que aquele episódio na Noruega me daria para trazer outras discussões sobre a Europa. Ou seja, colocar um angolano naquele ponto do globo achei interessante. Obviamente que poderia inventar, mas, como os outros escritores dizem, a realidade é a melhor ficção. Nada melhor que uma história verdadeira para ficcionarmos.

Já reparou que está a construir uma carreira literária que reflecte a internacionalização do angolano nos espaços europeus? O seu livro anterior também é um exemplo disso, com o angolano que comprou lisboa.

Quando editava O angolano que comprou Lisboa, um conjunto de crónicas, todos os jornais portugueses tinha como manchete? “os angolanos estão a comprar Portugal”. Foi o período da nossa economia que permitiu aos nossos empresários cometerem essa loucura. Digo loucura porque o nosso país tem carências graves e aquele dinheiro até nos fazia muito jeito. Então, houve um grupo de empresários angolanos que viu uma oportunidade de investir em Portugal e os jornais ficaram preocupados em perder a sua soberania. Achei graça àqueles tipos de manchete. Inclusive aconteceu um episódio. Às vezes, gosto de sair à rua de fato e gravata. Enfim, porque gosto do fato e da maneira como o mundo se comporta de forma diferente quando nos vê de fato e gravata. Não sei porquê, mas acontece. Nesse dia, de fato e gravata, estava numa tasca perto da minha casa, na altura em que vivia na Baixa de Lisboa. O senhor da tasca saiu muito aflito e perguntou-me se eu era angolano. Eu disse-lhe que sim. Então convidou-me para comprar o restaurante ali no momento. É óbvio que, eu sendo angolano, perguntei-lhe qual era o preço. Dessa situação absurda, revelou-se o escritor e decidi fazer alguma coisa desse momento.

A sua vida parece uma autêntica ficção…

É… na verdade ser escritor é ser uma pessoa atenta, como uma antena. O escritor deve saber ouvir. Muitas vezes o ser humano quer apenas ouvir-se a si próprio ou que as suas ideias sejam ouvidas e validadas. E nunca o contrário. É preciso sabermos ouvir outros pontos de vista.

A literatura é para si a continuidade do que não valeria exprimir por via da música?

A música é mais imediata e, por isso, as reacções são muito rápidas. O processo, com os livros, é mais lento, por isso duram mais. Não escrevo livros em busca do meu eu. Ou seja, gosto de escrever livros que sejam importantes para o meu tempo e que possam ajudar os que vierem a seguir. Tento, com os meus livros, deixar pistas, mapas e ferramentas para que os que vierem a seguir tenham uma vida um pouquinho mais facilitada. Penso que essa também é minha função.

Como começam as suas narrativas?

De variadas formas. Com uma conversa, uma cancão, uma notícia de jornal. Mas é mais com conversa. Mesmo os que não estão publicados.

Por que resolveu lançar o seu primeiro romance em Maputo?

Porque preocupo-me com ideia de manter vivo o diálogo entre as culturas dos PALOP. Para mim, os livros e a música são pretextos para me aproximar das culturas e das pessoas dos países pelos quais tenho amor e respeito. A literatura é essencialmente uma conversa.

Já agora, o que move a configuração do espaço na sua narrativa?

Sou um autor preocupado com o espaço urbano. Até porque nas minhas viagens pelo mundo encontro os que não nos imaginam com espaços urbanos ou cidades com problemas de trânsito. Divirto-me muito com isso. Então, quando penso em escrever, penso em trabalhar nos lugares que os autores que me formaram não chegaram ou então que se consagraram com uma literatura mais apegada ao espaço rural. Acho que nos cabe a nós fazer com que o Ocidente conheça os nossos países do nosso ponto de vista e não daquela maneira romântica, paisagística. Precisamos de muitas narrativas, em diversas artes, que nos permitam dizer ao mundo o que somos e como somos.

O que gostaria que os leitores moçambicanos encontrassem em Também os brancos sabem dançar?

Razões para sorrir, para gostarem da sua própria música, da sua própria cultura, e, com isso, passassem a entender que merece estar nesses grandes palcos, que essa cultura precisa estar nesses grandes palcos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o livro Luanda, Lisboa, paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida, e o disco Mati, de Selma Uamusse.

PERFIL

Kalaf Epalanga nasceu em 1978, em Benguela, Angola. Também os brancos sabem dançar é o seu primeiro romance. Publicou os livros de crónicas, O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço) e Estórias de amor para meninos de cor. Foi cronista do jornal Público e da Rede Angola. É membro da banda Buraka Som Sistema. Actualmente, vive em Berlim, na Alemanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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