O País – A verdade como notícia

O histórico bairro da Mafalala, na capital do país recebe o Festival Poetas d’Alma a partir desta quinta-feira, 18 de Julho com uma série de momentos dedicados a poesia, teatro e passeio turístico de intercâmbio cultural.

Com duração de 4 dias, o festival começa às 17h00, com a inauguração da exposição “Mafalala Poética, Nossa história”, onde estarão patentes obras de José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Nogar – consideradas grandes figuras da literatura nacional.

Às 18h30, o colectivo Poetas d´Alma socorre-se de artistas nacionais e internacionais para homenagear Nelson Mandela, a propósito da celebração do seu nascimento num recital poético designado “Ubuntu, num só”, por vozes de Moçambique (Entrecho), do Brasil (Melvin Santhana, Yayungai), da Alemanha (Theresa Hahl), da Suiça (Valério Moser), entre outros.

Segundo Féling Capela, curador do Festival, Mafalala está no roteiro do evento pelo histórico dos poetas que nasceram ou parte da sua vida cruzou com aquele bairro e, porque não, a revolução literária e política começou lá.

Capela não tem dúvida que se não fossem os poetas, escritores e líderes da Mafalala “nós não seríamos nada, por isso temos de fazer um tributo lá, sendo este espaço um satélite para o país e para o continente”. E sobre a homenagem ao líder africano o curador esclarece: “queremos reconhecer Mandela que nos deu a luz e provou que o mosaico de nacionalidades não pode colocar fronteiras”, frisou.

No dia 21, Mafalala volta a ser palco de um momento cultural. Desta vez será a apresentação da peça teatral “Esperando Zumbi”, com a direcção da Cristiane Sobral – uma das mais influentes actrizes brasileiras. No dia seguinte, à partir das 14h00, porque é sempre melhor conhecer profundamente o bairro que durante quatro dias se abre aos poetas e “performers” do país e do mundo, a Associação IVERCA irá coordenar um passeio turístico em locais emblemáticos e desvendar as suas estórias.

 

Esta quinta-feira, quando forem 16 horas, o Centro Cultural Brasil-Moçambique, na cidade de Maputo, realiza um debate sobre literatura e negritude.

O debate vai focar-se na história do povo brasileiro e moçambicano, tendo a negritude enquanto movimento político, ideológico e cultural.

“Se a independência tornou este debate menos pertinente em Moçambique, no Brasil é hoje ainda mais urgente. Se em Moçambique nomes como Noémia de Sousa, José Craveirinha ajudaram-nos, a partir da literatura, a perceber este dilema; no Brasil nomes como Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e, na história mais recente, Cristiane Sobral, Nelson Maca, Jô Freitas e Débora Garcia usaram e têm usado a literatura num sentido de militância”, adianta a organização.

Nesta quinta, a mesa de debate será composta por Aurélio Cuna (professor de Literatura Moçambicana, UEM), Nelson Maca (poeta, escritor e professor de Literatura Brasileira), Álvaro Taruma (Poeta) e Izzy Gomes (académica e jornalista cultural brasileira). Este debate será construído sob moderação da plataforma Mbenga Artes e Reflexões.

O debate sobre a negritude desta tarde insere-se no programa a caminho do Poetas d’Alma Festival de Poesia e Artes Performativas, que vai acontecer de 25 a 27 deste mês. Durante três dias, no Centro Cultural Moçambicano-Alemão e Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, vão participar mais de 60 artistas, provenientes de 18 países, como Alemanha, África do Sul, Argentina, Brasil, Cuba, eSwatini, Reino Unido, Suíça, Estados Unidos da América, França, Ilha Reunião, Espanha, Angola, Itália.

 

De um total de 76 crianças confirmadas para actuarem nesta segunda edição do Mozkids Talents, na primeira gala, realizada este sábado, entre às 11 e 13 horas, subiram ao palco do Cine Scala, na cidade de Maputo, 34. A questão é simples. À imagem da primeira edição, a organização, por questões logísticas, decidiu não colocar tantos petizes a partilhar os mesmos bastidores.

Assim, na gala inaugural do concurso infantil realizado pela Stv em parceria com a Dstv, Gotv e Movitel, divertiram-se, mostrando o talento que têm 34 concorrentes, no entanto, como é de um concurso que se trata, conseguiram garantir o apuramento para a fase seguinte 23 crianças. Com a excepção da categoria Instrumentos Musicais, com três concorrentes apurados, todas as outras, designadamente, Canto, Dança, Teatro e Poesia, têm cinco.

A concorrente que teve a oportunidade de inaugurar a segunda edição do Mozkids Talents foi Délfia Vanda, menina que declamou o poema “Xigubo”, da autoria de José Craveirinha. Na sua actuação, a pequena declamadora conciliou recital de poesia com alguns passos coreográficos que logo à partida tiveram impacto no Scala. Depois, seguiu-se uma outra grande actuação. Desta vez, de Tiago Manhiça, menino que já aprendeu a compor seus próprios textos. A esta fase do Mozkids Talents, Manhiça chegou depois de ter declamado o poema “Kapulana”, por ele escrito. Na gala inaugural, o concorrente de Poesia deixou os tecidos de lado e foi inspirar-se numa tragédia que assolou vários moçambicanos no Centro do país. Manhiça declamou “Idai”, trajado de roupa rota, como quem sugerisse que ficou sem nada devido àquela calamidade. Mais uma vez, do lado do auditório surgiram palmas e o Tiago saiu do palco com sensação de dever cumprido. Se a primeira concorrente de Poesia escolheu o autor importante da literatura moçambicana, a penúltima não foi diferente. Elisa Senguele escolheu “É preciso plantar”, de Marcelino dos Santos.

A segunda categoria disputada na primeira gala foi a de Instrumentos Musicais. Destemido ou pelo menos aparentemente à vontade, Stefanny Alexandre recorreu aos teclados para tocar “Marshmello”. A actuação foi muito consistente, mas, se calhar porque o tema não é assim tão popular, os aplausos não foram ensurdecedores. O mesmo não se pode dizer da segunda actuação. Shanikwa Apolinário tocou um tema muito conhecido no Sul do país, principalmente para os que frequentam igrejas ou velórios: “Tsovelo”. Então, enquanto a menina tocava o seu teclado, em coro o público, acompanhando-a do princípio até ao fim. Momento único no Scala. Os pais e encarregados de educação esqueceram-se que aquela era uma adversária dos filhos e sujeitaram a gozar o momento. O cenário quase que se repetiu quando Kiyone Roseley, menina que diz ter um talento forte, interpretou o tema “Elisa”, o clássico da Orquestra Djambo. No caso, através do seu violino.

A seguir à categoria de Instrumentos Musicais, seguiu-se a de Canto. Nesta, 11 concorrentes disputaram cinco vagas. E o grande destaque da manhã foi para Aleixo Chavate, que interpretou “Chega dos casamentos prematuros”, tema da autoria de Justino Ubakka. Vestido a gentleman, Chavate cantou com confiança que lhe value muitos sorrisos do público. Se Aleixo convenceu o auditório em geral, Yasmim Fakir deixou a mãe orgulhosa, convencida de ter tomado decisão acertada ao inscrever a filha no concurso. Por isso, Juju, mãe da pequena Yasmim, espera que a filha assimile nesta edição do programa infantil os conhecimentos importantes para sua formação no futuro.

Ouvidos os potenciais cantores, seguiu-se a categoria mais bem disputada, a de Teatro. Sempre em duplas, os meninos interpretaram o quotidiano dos moçambicanos, entre o sarcasmo e a denúncia de casos graves que se passam nas famílias. As crianças ridicularizam os adultos, expondo os seus males, as suas arrogâncias como que a sugerir um reparo de comportamentos. Por isso mesmo, todas as cinco duplas foram apuradas pelo júri, o que significa que ninguém ficou para trás.

A categoria de Dança ficou para o fim. E, nesta, entre alguns bons dançarinos, revelou-se um fenómeno. Seu nome? Elton Macuácua. Deve ter ficado no palco mais ou menos quatro minutos. E foi incrível. Movimentos coordenados, complexos, forma física invejável, sintonia, enfim, o “Macuacuinha” dançou como poucos concorrentes o fizeram no palco Scala, mesmo a contar com os da primeira edição. A manter a performance, há-de dos grandes favoritos da categoria de Dança nesta edição.

Portanto, fazendo balanço da gala inaugural, os membros do júri (Maria Helena Pinto, Dadivo José e Dudas Alled) mostraram-se satisfeitos pelo facto de as crianças, em geral, terem-se preocupado em levar ao palco do Scala propostas que combinam com a faixa etária em que se encontram. Para o júri, os concorrentes de Poesia, de alguns de Canto e sobretudo de Teatro, levaram à primeira gala temas educativos e construtivos. No próximo sábado, às 10h30, no Scala, o júri, como se tem dito, querem mais do mesmo.

 

Os concorrentes apurados

Dos 34 concorrentes que se apresentaram no Cine Scala foram apurados os seguintes: Tiago Manhiça, Délfia Vanda, Carla José, Elisa Senguele, Shantel Macuvel (Poesia); Stefanny Alexandre, Shanikwa Apolinário e Kiyone Roseley (Instrumentos Musicais); Aleixo Chavate, Júlcia Nhavene, Rindzela Carmen, Maida Horácio, Yasmim Fakir (Canto); Nicole Mucambe e Gina Lichavão, Tamirys Chiluvane e Toyvo Chiluvane, Jéssica Abílio e Joaquina, Sinezia Sataca, Yunat Dengo e Charlise Kan (Teatro) e Elton Macuácua, Margarida e Chiomara, Naima Carimo e Nazira Carimo, Alysha Francisco, Alfredo Nhancupe (Dança).

 

Os actores Gigliola Zacara e Fernando Macamo juntaram-se para adaptar um livro infatil-juvenil de Mia Couto para o teatro. Assim, sob direcção de Zacara e encenação de Macamo, O gato e o escuro vai ganhar outra vida no palco do no Auditório do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na cidade de Maputo, num espectáculo teatral infantil a realizar-se este sábado, às 10h30.

Segundo entende o Franco-Moçambicano, O gato e o escuro é uma espectáculo que faz parte de uma colectânea de histórias e mitos de tradição oral que são recriados e ilustrados por escritores e pintores do país, com o objectivo de revelar a riqueza do imaginário moçambicano e aproximá-lo das suas crianças em formato de conto. 

Nesta história, o gatinho preto nem sempre foi dessa cor, antes era amarelo com pintas, tal que se chamava Pintalgato. O por do sol fazia a fronteira entre o dia e a noite, a mãe do gatinho se afligia de dia, só de pensar que o seu filho passasse além do pôr de algum sol. O filho fingia obediência, mas quando o Pintalgato chegava no limite da fronteira espreitava o lado de lá, no mundo estranho proibido. Seus olhos brilhavam tanto, até que um dia atreveu-se a passar totalmente para o outro lado, repetindo por vários dias, até que se transformou num gatinho preto.

O espectáculo adaptado do texto original de Mia Couto tem interpretação de António Sitoi, Fernando Macamo e Gigliola Zacara e a música está na responsabilidade de Célia Madime.

 

África é um continente cheio de boas narrativas, as quais devem contribuir para que o mundo saiba quem são e como são os africanos. Esta é a perceção de Kalaf Epalanga, escritor angolano que em Maio lançou o livro Também os brancos sabem dançar, na cidade de Maputo. Segundo entende Epalanga, os escritores africanos têm a missão de contribuir para que o Ocidente perca os preconceitos sobre o Berço da Humanidade.

Também os brancos sabem dançar é o título do seu primeiro romance. Que relação quis aqui estabelecer?

O livro é inspirando num provérbio angolano que diz “também os brancos conhecem boas cancões”. Troquei o cantar por dançar. E, essencialmente, o provérbio traz-nos aquela ideia de que não devemos julgar alguém pelas aparências. Na verdade, este é um livro de viagens identitárias, nas quais abordo muitas questões de migração, nesta fase em que a Europa quase rejeita os emigrantes.

Foi uma forma de retratar as suas próprias migrações?

Sim, quis retratar a minha própria emigração, motivada pela música. Eu comecei a viajar pela Europa por causa da música. Fiquei na Europa por causa da música. O meu plano inicial era o de chegar lá e ter uma formação académica e voltar para Angola, mas a música convidou-me a ficar a contribuir para o desenvolvimento das cidades por onde passo. O livro começa com uma viagem que fiz em 2008 com Buraka Som Sistema, grupo do qual sou membro. Nessa viagem perdi o meu passaporte em Paris, mas decidi continuar com a viagem porque os meus dois últimos concertos, na altura, na Suécia e na Noruega, eram os mais importantes, daqueles que iriam nos consagrar ou não. Para além de que a banda nem quis fazer os concertos sem a minha presença. Então, a banda pegou um avião e eu decidi entrar num autocarro, já que tinha um cartão de residência no estrangeiro. Correu tudo bem para o concerto da Suécia. Quando já estava para saltar a fronteira para Noruega, entram os polícias de migração e fui detido. Tive de ir parar a cadeia. Dentro desse processo de ter que provar a minha identidade, já que estava sem passaporte, e de reflectir sobre as minhas escolhas de vida, começou o romance.

Este livro tem três narradores. Um deles é uma professora de quizomba. Há uma razão?

Gosto e promovo bastante a quizomba. Não sou um bom dançarino de quizomba, mas acho que é o género pop criado neste universo que se expressa em português que mais chance de expansão tem. Só que é considerada arte menor, do subúrbio e de pessoas sem grande intelecto. Eu discordo. Acho que as pessoas que promovem, fazem e criam quizomba têm um génio artístico que merece ser valorizado.

E o terceiro narrador é o polícia que lhe prende?

Sim, através desse narrador aproveito para contar a história da emigração na Noruega e os contributos dos emigrantes. Por exemplo, a Noruega é conhecida como um exemplo da exploração do petróleo. Eles têm um fundo do petróleo que ajuda em muitas questões sociais, inclusive na diversificação da economia. Tem uma coisa que muitos noruegueses não sabem. Uma das pessoas mais importantes na organização da economia do petróleo e todos os investimentos que surgiram dessa exploração foi um emigrante iraquiano, que se mudou para Noruega porque estava com problemas de saúde de um dos filhos. Esse emigrante já tinha experiência de trabalhar no Iraque e no Kuwait e foi pedir emprego a recém-formada empresa de exploração de petróleo. Assim contribuiu para tornar a Noruega nessa grande potência.

Quando se deu conta de que a sua história poderia dar um romance?

Por acaso foi o escritor José Eduardo Agualusa, de quem sou amigo, que me despertou. Dele escuto todos os conselhos com atenção. Estávamos no Brasil, numa conferência em que ele entrevistava-me, sobre o kuduro, o género musical que eu promovia com a minha banda. Como estávamos com uma audiência brasileira que, na maioria, não sabia o que era kuduro, eu assumi a missão didáctica de explicar quando o género nasceu, quem são as figuras importantes e as influências mais marcantes. No final da conferência, Agualusa virou-se para mim e disse-me que devia escrever a biografia do kuduro. Na altura estava em digressão e não tinha tempo de ir para Angola entrevistar os músicos todos. O conselho de Agualusa foi um mote e, depois, as coisas expandiram-se por outras discussões.

Quis que o protagonista de Também os brancos sabem dançar fosse parecido consigo?

Não essencialmente. A minha biografia dava-me jeito porque tive uma relação e tenho uma relação próxima com o kuduro e com a quizomba. Poderia ser outro personagem, mas achei que aquele episódio na Noruega me daria para trazer outras discussões sobre a Europa. Ou seja, colocar um angolano naquele ponto do globo achei interessante. Obviamente que poderia inventar, mas, como os outros escritores dizem, a realidade é a melhor ficção. Nada melhor que uma história verdadeira para ficcionarmos.

Já reparou que está a construir uma carreira literária que reflecte a internacionalização do angolano nos espaços europeus? O seu livro anterior também é um exemplo disso, com o angolano que comprou lisboa.

Quando editava O angolano que comprou Lisboa, um conjunto de crónicas, todos os jornais portugueses tinha como manchete? “os angolanos estão a comprar Portugal”. Foi o período da nossa economia que permitiu aos nossos empresários cometerem essa loucura. Digo loucura porque o nosso país tem carências graves e aquele dinheiro até nos fazia muito jeito. Então, houve um grupo de empresários angolanos que viu uma oportunidade de investir em Portugal e os jornais ficaram preocupados em perder a sua soberania. Achei graça àqueles tipos de manchete. Inclusive aconteceu um episódio. Às vezes, gosto de sair à rua de fato e gravata. Enfim, porque gosto do fato e da maneira como o mundo se comporta de forma diferente quando nos vê de fato e gravata. Não sei porquê, mas acontece. Nesse dia, de fato e gravata, estava numa tasca perto da minha casa, na altura em que vivia na Baixa de Lisboa. O senhor da tasca saiu muito aflito e perguntou-me se eu era angolano. Eu disse-lhe que sim. Então convidou-me para comprar o restaurante ali no momento. É óbvio que, eu sendo angolano, perguntei-lhe qual era o preço. Dessa situação absurda, revelou-se o escritor e decidi fazer alguma coisa desse momento.

A sua vida parece uma autêntica ficção…

É… na verdade ser escritor é ser uma pessoa atenta, como uma antena. O escritor deve saber ouvir. Muitas vezes o ser humano quer apenas ouvir-se a si próprio ou que as suas ideias sejam ouvidas e validadas. E nunca o contrário. É preciso sabermos ouvir outros pontos de vista.

A literatura é para si a continuidade do que não valeria exprimir por via da música?

A música é mais imediata e, por isso, as reacções são muito rápidas. O processo, com os livros, é mais lento, por isso duram mais. Não escrevo livros em busca do meu eu. Ou seja, gosto de escrever livros que sejam importantes para o meu tempo e que possam ajudar os que vierem a seguir. Tento, com os meus livros, deixar pistas, mapas e ferramentas para que os que vierem a seguir tenham uma vida um pouquinho mais facilitada. Penso que essa também é minha função.

Como começam as suas narrativas?

De variadas formas. Com uma conversa, uma cancão, uma notícia de jornal. Mas é mais com conversa. Mesmo os que não estão publicados.

Por que resolveu lançar o seu primeiro romance em Maputo?

Porque preocupo-me com ideia de manter vivo o diálogo entre as culturas dos PALOP. Para mim, os livros e a música são pretextos para me aproximar das culturas e das pessoas dos países pelos quais tenho amor e respeito. A literatura é essencialmente uma conversa.

Já agora, o que move a configuração do espaço na sua narrativa?

Sou um autor preocupado com o espaço urbano. Até porque nas minhas viagens pelo mundo encontro os que não nos imaginam com espaços urbanos ou cidades com problemas de trânsito. Divirto-me muito com isso. Então, quando penso em escrever, penso em trabalhar nos lugares que os autores que me formaram não chegaram ou então que se consagraram com uma literatura mais apegada ao espaço rural. Acho que nos cabe a nós fazer com que o Ocidente conheça os nossos países do nosso ponto de vista e não daquela maneira romântica, paisagística. Precisamos de muitas narrativas, em diversas artes, que nos permitam dizer ao mundo o que somos e como somos.

O que gostaria que os leitores moçambicanos encontrassem em Também os brancos sabem dançar?

Razões para sorrir, para gostarem da sua própria música, da sua própria cultura, e, com isso, passassem a entender que merece estar nesses grandes palcos, que essa cultura precisa estar nesses grandes palcos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o livro Luanda, Lisboa, paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida, e o disco Mati, de Selma Uamusse.

PERFIL

Kalaf Epalanga nasceu em 1978, em Benguela, Angola. Também os brancos sabem dançar é o seu primeiro romance. Publicou os livros de crónicas, O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço) e Estórias de amor para meninos de cor. Foi cronista do jornal Público e da Rede Angola. É membro da banda Buraka Som Sistema. Actualmente, vive em Berlim, na Alemanha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cantor, compositor e guitarrista sul-africano, Jeff Maluleke, irá realizar um concerto no Hotel Terminus.

O artista que se vai unir a instrumentistas moçambicanos, cujo os nomes preferiu não revelar, promete uma noite singular, onde vai passear pelos seus quatro álbuns, retirando o melhor da sua música.

O concerto enquadra-se no conceito do “Only Jazz Without Stress” que quase todos finais de semana exibe o melhor da música nacional e internacional no que concerne ao jazz.

Durante noventa minutos, êxitos como “Byala bya xintu”, “Sala”, “Juliana”, “Vukati” e “Kilimanjaro” vão saborear a noite e, claro, tirar o stress da semana laboral.

Gigliola Zacara encontra-se em Luanda a participar na 14ª edição do Festival Internacional de Teatro do Cazenga (FESTECA), com o espectáculo a solo Ihaya.

Entretanto, nesta passagem pela capital angolana a actriz não se restringiu à representação. Igualmente, dirigiu uma oficina de teatro com 24 crianças, que se insere no plano de incentivo à leitura e escrita através de actividades lúdicas, no Centro de Animação Artística do Cazenga. O lema da oficina foi “Do livro ao palco”, de acordo com Gigliola Zacara, um projecto que está a ser desenvolvido pelo Centro de Recriação Artística de Maputo? “Este projecto vem como um modelo no que concerne ao incentivo, promoção, desenvolvimento de actividades artísticas, recreativas e sociais”.

A oficina de Gigliola Zacara durou três horas e incluiu a adaptação do livro da escritora Rosa Pereira para o teatro. O livro em causa intitula-se O sonho da menina Kissanga, que retrata a história de uma personagem que nasceu e cresceu numa aldeia. E Zacara conta? “ela sonhava em formar-se em engenharia e viver na cidade grande, Luanda. Certa vez, uma tia que residia na cidade foi visitar a família de Kissanga, e convenceu os pais dela que na cidade teria mais oportunidades. Os pais aceitaram e deixaram que a menina fosse viver com a tia. Depois de algum tempo, a tia diz a sobrinha que já não podia viver com ela, que iria deixá-la em casa de outro familiar, numa casa onde só viviam mulheres. Nessa casa, a menina Kissanga era maltratada pela prima mais velha, que a fazia trabalhar como uma condenada. Kissanga viu os seus sonhos afundarem-se. Então decidiu regressar para a sua aldeia. Quando chegou, contou o sucedido aos pais, que lamentaram por tudo e prometeram que acontecesse o que acontecesse lutariam arduamente para que o seu sonho se realizasse. Anos mais tarde, ela formou-se em Agronomia e ficou na sua aldeia a apoiar a sua gente”.

Em Luanda, Gigliola Zacara dedica-se à oficina com crianças porque acredita ser necessário formar-se novos artistas. Como é na meninice que quase tudo desponta, a actriz resolveu passar a fazer das crianças o seu principal grupo-alvo, afinal trabalhar com tenra idade é uma paixão antiga. Todavia, a oficina de Luanda também contou com a presença de adultos que participam no FESTECA. Para a actriz, a experiência foi muito boa, pois “percebi que a nível das periferias, como é o caso do município de Cazenga, estão a fazer um trabalho incrível no que se refere ao teatro para crianças e com as crianças”.

Quanto à Ihaya, esta é a segunda vez que a actriz participa com o espectáculo num festival internacional. Antes de Angola, a primeira vez foi na 10ª edição do Drama For Life International Conference and Festival, que se realizou na cidade de Joanesburgo, África do Sul, ano passado.

SOBRE IHAYA
Ihaya é uma peça contemporânea inspirada no quotidiano duma sociedade actual, na qual pessoas se questionam constantemente sobre elas mesmas, isolando-se do mundo  em busca de respostas. O enredo da peça gira em torno da vida de uma mulher, de berço conservador, educada para ser mãe e esposa, ameaçada por uma sociedade que não a compreende por não seguir as convenções. As suas atitudes são vistas como repugnantes e enfadonhas, enquanto ela procura questionar-se sobre si própria, seu ser mulher, seu ser estranho e todas as transformações que em si são desconhecidas. Como viverá com seus inimigos e sobreviverá aos seus constantes abusos sem nunca quebrar o silêncio? Esta é a questão que fica no ar.

 

 

No âmbito do intercâmbio cultural entre Moçambique e China, artistas do país participam a partir do dia 12 de Agosto nas celebrações dos 70 anos da fundação do Instituto Cultural da China.

São no total 12 artistas entre músicos, bailarinos e corégrafos que vão expor as potencialidades culturais do país, na China nas celebrações 70 anos da fundação do Instituto Cultural da China.

Na expectativa estão os artistas que representam as três regiões do país e que levam na bagagem uma mistura diferente, uma simbiose da música e dança, representado o que de melhor existe no pais em termos de arte.

Para o Ministério da Cultura, esta iniciativa vai reforçar a cooperação entre os dois países.

Na China além de espetáculos e exposições, o grupo vai participar em palestras nas universidades onde vão debruçar sobre a diversidade cultura dos dois países.

 

 

A música moçambicana está a crescer muito nos últimos anos. A convicção é de Albino Mbie, cantor, compositor e guitarrista moçambicano a viver nos Estados Unidos de América lá vão bons anos. Ainda assim, segundo entende o músico, os artistas nacionais precisam de se reinventar todos e todos os dias, pois “estamos a precisar de nos acomodar ao que o mercado nos pressiona a ser, de modo que consigamos exportar o nosso produto com qualidade desejada”.

De maneira a concretizar-se o propósito de se exportar mais obras de artistas, Mbie sugere que os moçambicanos invistam mais em eventos com músicos nacionais, pois só assim os produtores de fora podem perceber o valor da arte musical que produzimos. E, para o efeito, a organização é indispensável. “Precisamos de nos organizar porque aí reside a chave do sucesso. Se não nos organizarmos, ninguém fará por nós. E essa organização inclui a cadeia toda? os artistas, os produtores ou público em geral. Por exemplo, penso que o Ministério da Cultura e Turismo deveria ajudar os músicos a fazerem digressões, mesmo dentro de Moçambique, porque estamos a precisar de dar valor aos criadores internamente”.

Albino Mbie é autor de dois álbuns, Mozambican dance e Mafu. A fim de promover o segundo disco, o artista foi ao Parque dos Poetas, na cidade da Matola, domingo, e fez parte da iniciativa Dia do CD, organizada por Gilberto Phulume Jr., e que serve para aproximar os discos e os artistas aos seus admiradores. O evento acontece todos os domingos, entre 10 e 21h.

Foi naquela sessão aberta que o autor de Mafu referiu-se à importância da organização e do que o seu segundo CD representa para si. Para Mbie, Mafu é um lugar onde as almas e as sensações encontram-se. “E o facto de o CD unir temas relacionados com o amor ou com as tradições realiza o meu grande objectivo de comunicar com todas as idades, etnias e percepções de vida através da música”.

A propósito de encontros, na perspectiva de Albino Mbie, o contacto com o público significa ter um momento muito íntimo com quem gosta da sua música. “Penso que que constitui uma boa oportunidade para que as pessoas saibam quem é Albino Mbie”.

Estando a investir numa carreira fora do seu país, o autor de Mafu encontra na particularidade de se encontrar distante da sua terra uma oportunidade para reavaliar o que lhe caracteriza como moçambicano e o seu papel como representante das culturas de Moçambique no estrangeiro. “Cantar a minha terra é uma forma de me comunicar com o meu eu e com o meu país. Além disso, investir numa carreira fora do meu país, no caso, Estados Unidos, é uma oportunidade porque a concorrência num mercado como o da América é algo que nos faz crescer. Tenho vindo a aprender a cada dia e cada dia, para mim, é um sonho e uma oportunidade”, revelou.

 

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