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O País – A verdade como notícia

Albino Mbie está convencido disso. Quanto melhor for como pessoa, melhor será a sua música, pois, para o autor, a sua criatividade está relacionada com a necessidade de se tornar uma espécie de farol para quem o ouve. Nesta entrevista, o músico que vive nos EUA fala do que move a sua obra, referindo-se a avó como um guia espiritual ao mesmo tempo que se verga ao talento do filho, concorrente do Mozkids Talents com que actuou sexta-feira passada no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM).  

Sexta-feira, apresentou o segundo CD, no CCFM. O quão especial foi esse concerto?

Para mim, o concerto no Franco significou nascimento, a oportunidade de o álbum ganhar as próprias asas e a primeira respiração. Foi uma oportunidade de poder tocar a maior parte das músicas do Mafu, ao contrário do concerto realizado no Campus da UEM, há um ano. O concerto no Franco deu para preparar com mais tempo e foi realmente especial ter todos os elementos moçambicanos na banda.

Surpreendeu-se ao ouvir o público cantar suas músicas. Não estava à espera daquilo?

A surpresa foi maior. De facto, não sabia que os meus compatriotas conheciam as músicas do Mafu, um álbum bem recente. O público foi muito carinhoso comigo no concerto. Foi encorajador e aquilo fez com que me sentisse em casa e com obrigação de querer trazer melhores trabalhos no próximo álbum que deverá sair em 2020.

Neste Mafu, à imagem de Mozambican dance, apresenta-se como um autor apegado à sua terra e às suas gentes. Como é esse processo de manter a questão identitária preservada e o carácter universal da música intocável do ponto de vista qualitativo?

Quando estou a compor, não olho para Moçambique como um país, mas como parte do universo. Por isso, procuro compor temas que façam sentido para qualquer povo, pois julgo-me um cidadão do mundo. Temas do Mafu como “Where you come from” insere-se nessa tentativa de lançar uma luz que contribua para as pessoas pensarem sobre o seu lugar no mundo sem nunca se desinteressarem das suas origens.

Sente-se pressionado a cantar Moçambique ao mesmo tempo que se afirma um cidadão do mundo a partir do lugar onde se encontra?

Existem questões que garantem a paz interior. Por exemplo, tenho-me perguntado até onde eu sou moçambicano e até onde a cultura americana faz parte de mim. Poderia haver um conflito nisso, porque, de certa forma, contribuo para a cultura dos EUA. Estou lá há 11 anos, estudei lá e agora faço tanta coisa. Existe uma forma de garantir um equilíbrio entre isso, afinal agora temos a globalização e a adopção. Isto é, eu posso adoptar elementos da outra cultura e procurar combinar com os da minha. Isso é o que eu faço nas minhas músicas.

Os seus álbuns preservam muito a imagem de casa. O que a casa representa para si?

Primeiro, a casa para mim representa o amor. Por isso, a levarei para onde eu for. Com a casa, seguem os ritmos, as danças, a gastronomia, a língua e todo o ar moçambicano.
 
Se não estivesse a viver no estrangeiro, julga que a temática dos seus discos, muito apegada à sua terra, às vezes com o efeito da saudade, seria a mesma?

Acho que sim, de certa forma, porque eu inspiro-me numa imagem de Moçambique estagnada na minha mente. Por exemplo, o título da música “Mafu”, que intitula o disco, eu compôs quando ainda vivia cá em Moçambique, na altura para participar no concurso francófono no Centro Cultural Franco-Moçambicano, com a primeira banda que eu tive: Manganês. Isso há uns 16 anos. “Mafu” vem daí e tem uma relação com quase todas as músicas que eu escrevi. Portanto, acho que o que eu sou hoje está definido antes de deixar Moçambique.

Por que “Mafu” não teve espaço no Mozambican dance?

Não tive como enquadrar “Mafu” no primeiro CD porque a música é muito forte, como o tema “Awusiwana”, inspirado no que as cheias de 2000 causaram. Eu era bem pequeno, mas aquelas imagens nunca saíram da minha cabeça. Portanto, senti que deveria dar uma nova vida à “Mafu”.

Como é cantar serenamente, de uma forma tão pausada, num mundo à velocidade supersónica?

Para mim, ser músico rima com ser boa gente. Quanto melhor formos como pessoa, melhor será a nossa música. Então, não estou em guerra com a correria diária. Penso que nós devemos fazer o contrário da pressão que temos dia-a-dia. Temos de apaziguar as almas e dar-lhes uma luz.

É um sentido de missão…

Sinto que é, porque a paz de espírito contagia e é capaz de acalmar uma turbulência.

Portanto, a sua música representa o que Albino Mbie é interiormente e integralmente?

100%. Honestamente.

Como é que se processa em si esta ligação temática com os autores clássicos da música moçambicana sem que as mesmas percam o carácter actual?

Seja em que arte for, temos sempre de estudar os clássicos, e isso não significa copiar. Por exemplo, “Ahirimeni” é uma música feita com a pretensão de encorajar as pessoas, lembrando-as que somos todos soldados da mesma nação.

Alguma música neste Mafu que lhe tenha marcado mais?

Foi difícil trabalhar na música “Golden smile”. Precisei de muita atenção para essa música.

Como é que a sua avó aparece como um guia espiritual na música?

Eu comecei o percurso não como cantor. O canto veio com Mozambican dance, porque eu perguntava-me como a minha avó iria ouvir as minhas músicas. Muitas vezes ela pedia-me para cantar para ela, o que implicava a mensagem da palavra. Por isso, não há nada que me contenta agora do que poder cantar para ela e ver o sorriso dela quando isso acontece. Não consegui levá-la ao Franco, por isso fico a dever um concerto dedicado exclusivamente à minha avó.

 

O PRESENTE E O FUTURO NUM PALCO

Na apresentação de Mafu, no CCFM, teve um convidado especial: Jorge Mbie. Como foi actuar pela primeira com o seu filho?

Inicialmente, a ideia de o ter como convidado não me ocorreu. Depois de o ouvir a tocar, percebi que o miúdo encontrava-se num nível alto de qualidade. Além disso, convenci-me da sua paixão pela música. Então achei que não seria justo manter o talento do meu filho em segredo. Tinha de lhe apresentar ao público e foi incrível partilhar o palco com ele.

Embora o violino seja o instrumento preferido do Jorge, ele também toca saxofone e piano. Há alguma influência sua nessa paixão pela música que o menino está a cultivar?

Ainda não lhe fiz essa pergunta. Por enquanto, a minha maior preocupação é saber como é que ele está e como é que vai a escola dele. Sinceramente, não falamos tanto de música. Claro que às vezes conversamos sobre as suas preferências musicais, e até fico surpreendido com o que ele gosta. Enfim, penso que ele percebe que eu, como pai, tenho um papel para com ele. Agora, em relação à música, ele deverá seguir os seus passos e abrir as suas próprias portas.

O que sentiu quando, depois de tocar, o seu filho foi bem aplaudido na sexta gala do Mozkids Talents?

Senti-me abençoado. O talento, a simplicidade sonora e a afinação do meu filho é algo incrível. Por um segundo, senti que ele estava apenas a tocar para mim. Foi muito emocionante e saíram-me lágrimas.

O que o Mozkids pode permitir às crianças e à música moçambicana em geral?

Esta era mesmo uma necessidade cultural. Tenho mesmo de felicitar a Stv pela iniciativa. O facto de haver esta oportunidade vai dar às crianças a possibilidade delas perceberem de que a vida é feita de sacrifícios. O Mozkids não só vai ajudar as crianças a serem talentosas no que fazem, como as vai dar uma noção de que um castelo leva anos para se construir. As crianças vão aprender sobre a paciência e sobre como devem se relacionar com os outros meninos. Portanto, esta oportunidade que as crianças estão a ter no Mozkids não se limita à música.

 

Daqui a duas semanas, o maior concurso infantil de descoberta de talentos do país termina. Enquanto isso, os concorrentes desta segunda edição do Mozkids Talents vão-se afirmando. Um exemplo disso é dupla Charlize Khan e Yunat Dengo, da categoria de teatro. De há três galas a esta parte, as pequenas actrizes têm provado que estão no programa da Stv para ganhar. Por isso, têm levado propostas dramáticas que deixam o público e o júri surpreendidos, daí terem alcançado a máxima pontuação possível: 30 pontos.

Na gala de sábado, Charlize Khan e Yunat Dengo dramatizaram a crise de resultados da selecção nacional de futebol. Na peça das meninas, mais uma vez com um cenário a condizer com o tema apresentado, Charlize interepretou o papel de uma curandeira, que, a certa altura, recebe na sua palhota um jogador dos Mambas, trajado a rigor e com uma bola consigo. A pretensão do jogador ao visitar a curandeira é clara: conseguir dos ancestrais o dom da vitória.

À partida, a curandeira, mesmo antes de mergulhar no além, logo afirma que se conseguisse resolver o problema já se teria tornado milionária. Contudo, porque não controla o além, lá vai a velhota consultar os antepassados. Do além também não surge grande notícia. Para o caso das derrotas dos Mambas não há mesmo qualquer solução.

É uma peça hilariante aquela apresentada pelas crianças, que, inspiradas num assunto da actualidade moçambicana, questiona a qualidade dos jogadores da selecção ao mesmo tempo que a autenticidade dos curandeiros, verdadeiros alguns e charlatões a maioria.

Ao nível de Charlize Khan e Yunat Dengo estiveram Bruna Morais, do canto, Elisa Senguele, da poesia, e Stefanny António, dos instrumentos musicais. Todos eles tiveram 30 pontos do júri. Se, no primeiro caso, a concorrente viajou pela terra do “tio Sam” para recuperar Whitney Houston, no segundo Stefanny, mais uma vez, mostrou o quão poderoso pode ser um teclado. Dudas Aled, membro do júri e apresentador da Stv, vergou-se ao menino e, inclusive, anunciou que está a preparar um projecto musical com o miúdo.

Quanto a Senguele, Elisa apresentou-se no palco do Mozkids Talents mostrando que poderia ter concorrido para a categoria de canto. Afinada, a menina pôs-se a cantar a ridicularização de que os passageiros dos “chapas” são vítimas. Cantou e ainda ensaiou alguns passitos de dança. Os mais esquecidos devem ter-se esquecido a que categoria pertencia a menina. Ao fim de um minuto, então a poetisa revelou-se. Elisa “we” declamou o “Diário dos chapeiros”, expondo os seus exageros num tom cómico. A boa apresentação valeu muitos elogios e sorrisos e a pequena saiu do palco satisfeita.

Ora, um dos grandes momentos da sexta gala aconteceu logo na abertura. O concorrente de instrumentos musicais, Jorge Mbie, tocou e Maria Helena Pinto dançou. Sem nenhum aviso, luzes desligadas no cine Scala, afinal porque no palco estava um capitão Jack Sparrow a tocar violino ao estilo Piratas das Caraíbas e uma bruxa a dançar. A colaboração de Mbie e Mariana Helena Pinto durou um minuto e meio, tempo suficiente para comover o auditório e partir uma mala emprestada à bailarina, usada para ornamentar o cenário. Mas nem isso preocupou Maria Helena Pinto, que se divertiu como criança, rendida ao talento do concorrente.

Na categoria de dança, a sexta gala foi de Alisha Francisco, uma forte candidata à dançarina de Usher. A menina que já foi Michael Jackson nesta edição dançou ao som da música “Yeah”, do cantor norte-americano, o que a garantiu 30 pontos.
Outro aspecto a salientar da sexta gala é a actuação de Carla Timbane. A menina declamou um poema sobre uma viúva, que, desamparada, tem de aprender a viver sem o seu amor falecido. O auditório ficou em lagrimas. A menina mexeu com muitas emoções. Foi o momento mais emocionante da gala. Carla valorizou-se.

Por fim, nesta gala Inalda Sumburane, a vencedora da categoria de canto da edição inaugural do concurso, estreou uma música da sua autoria, produzida pelo cantor Ubakka, quem convidou às autoridades competentes a abraçarem o projecto e apoiarem as crianças que são realmente talentosas. Sobre o Mozkids, Inalda sublinhou que o concurso a ajudou a descobrir-se e ser ela mesma.

Na gala de sábado subiram ao palco do Cine Scala 30 concorrentes. Destes, garantiram apuramento para a semi-final do concurso 27. Mais uma vez, os concorrentes da categoria instrumentos musicais foram todos apurados.
Os apurados para a semi-final.

Dança: Ezaly Assura, Kayla Cristina e Kyara Manjate, Naima e Nazira Tuahir, Alisha Francisco, Kayane Machavane e Letícia Alzira e Tónia; Canto: Bruna Morais, Stefanny Mulumba, Rindzela Novela, Maida Horácio, Maria Teresa e Cybell Duarte; Poesia: Flórida Guambe, Shantel Macuvele, Luísa Sambo, Romena Zunguza, Carla Timabene e Elisa Senguele; Teatro: Nicole Thayla e Gina Michavão, Charlize Khan e Yunat Dengo, Riaz e Wanda, Tamirys e Toyvo Chiluvane e Jéssica Albino e Joaquina; Instrumentos Musicais: Stefanny ANtonio, Jorge Mbie, Shanikwa Boene e Kiyone Sigaúque.    

 

Albino Mbie apresentou-se no palco do Franco-Moçambicano, sexta-feira à noite, entre aplausos daqueles que lhe seguem, conhecem e passaram a conhecer. Até aí, o músico que vive e trabalha nos Estados Unidos julgou que as palmas significassem aquela simpatia do público que está prestes a conhecer algo ainda misterioso. Rapidamente, Mbie apercebeu-se, surpreendido, que boa parte dos que estavam na Sala Grande do Franco, afinal, conheciam as suas músicas.

Bem dito, a certa altura da actuação, o autor de Mafu disse: “Eu não sabia que vocês conheciam as minhas músicas”. A afirmação teve resposta pronta de um expectador. Em alto e bom-tom: “Estás atrasado. Nós conhecemos as tuas músicas há muito tempo. Já as ouvíamos mesmo antes de gravares lá nos EUA”. Albino Mbie sorriu, desvanecendo a tensão que não conseguiu disfarçar antes do espectáculo. A partir daí, o músico e engenheiro de som percebeu que a apresentação de Mafu, na verdade, seria algo conjunto. Enquanto tocava, os coros afinaram-se do lado do auditório, entre gracejos e um diálogo intermitente.

Ora, naquela sala concorrida, cheia na verdade, Albino Mbie não só tocou e cantou músicas do segundo álbum, constituído por 12 temas, como interpretou as do primeiro, Mozambican dance. Em geral, ouviu-se no Franco-Moçambicano temas como “Lirandzo”, “Xiluva”, “Rosa”, “Zula mbilo”, “Mama África” e “Awusiwana”, das mais pedidas pelos expectadores. No entanto, o melhor da noite, claramente o mais significativo, teve um concorrente da categoria instrumentos musicais do Mozkids Talents no palco. Há poucas horas de se apresentar na sexta gala daquele concurso infantil realizado pela Stv, Jorge Mbie, filho de Albino Mbie, foi ao Franco-Moçambicano tocar a “Ahirimeni” com o pai. O auditório não se conteve. Aplaudiu eufórico, alguns tentando adivinhar o grau de parentesco entre os dois. Não demorou que percebessem as semelhanças visíveis e intuitivas. E a conclusão: “Os Mbie têm dois grandes talentos”.  

Já habituado a lidar com a pressão do público nas manhãs de sábado, no Mozkids Talents, disse Jorge Mbie, menino de 11 anos, que esteve no palco a tocar com o seu herói: “Foi muito bom tocar com o meu pai. A sensação foi maravilhosa. É um prazer tocar com o meu pai porque ele é um grande artista e eu sonho um dia ser como ele.

Para Albino Mbie, esta foi a grande oportunidade de partilhar a sua música, o amor e o prazer da vida com o público moçambicano. E sobre a ideia de ter o filho como único convidado da noite? “Eu não quis puxar a ele só por ser o meu filho. Tenho visto que o talento dele está cada vez mais a salientar-se. Por isso, para mim, partilhar o palco com ele significou muito, não por ser o meu filho, mas por ele ser talentoso”.  

Durante o concerto de apresentação do álbum Mafu, Albino Mbie foi acompanhado por uma banda composta por Hélder Gonzaga (baixo), Tony Paco (percussão), Stélio Zoe (bateria), Lívio Mondlane (teclado), Sheila Jesuíta e Pauleta (coros).

É um regresso à casa, afinal a 21 de Setembro de 1960 Hélder Muteia nasceu em Quelimane. Mesmo mantendo uma ligação forte com a capital da Zambézia e com a província inteira, o poeta e escritor nunca conseguiu lançar ou apresentar livros da sua autoria na terra natal, em 31 anos de percurso literário, a contar a partir do lançamento do seu primeiro livro, Verdades dos mitos (1988). A oportunidade surge agora, assim, na asa da literatura, o autor regressa à cultura que lhe deu de beber um modo de estar na vida.

Com efeito, a cerimónia de apresentação dos livros Nhambaro e O barrigudo e outros contos está marcada para as 15h30 do dia 22 deste mês, no auditório da UniLicungo – Campus Coalane. Por esta ser a primeira vez que vai apresentar os livros na Zambézia, há em Muteia um misto de emoções que se cruzam. “Para mim é muito significativo poder apresentar os meus livros na minha terra natal. A cerimónia do dia 22 será uma oportunidade para me reencontrar, até porque quando nós partimos para a nossa origem refazemos toda uma carga emocional. Vou finalmente pagar uma dívida e creio que agora vou completar um ciclo no meu percurso”.

Muitos aspectos da obra de Hélder Muteia reflectem uma carga emotiva da sua infância, o que o autor viveu e aprendeu na Zambézia. “É verdade que também vivi três anos no Chimoio. Sem dúvidas que a província de Manica também deu-me muito. Maputo também, pois cá passo o resto da minha vida. Mas é na Zambézia onde está a minha base, o ponto de partida, e é para lá que pretendo devolver o essencial da minha obra”.

Mesmo a propósito dessa ligação com a terra natal, o que inclui a conexão com a cultura local, Nhambaro, título lançado em 1996, agora reeditado pela Alcance Editores, é o nome de uma dança muito especial da baixa Zambézia, segundo o escritor, que revela uma maneira de fazer as coisas e de estar na vida.

Hélder Muteia acredita que o acto de apresentar os seus dois livros em Quelimane constitui uma oportunidade para revigorar o espírito literário da Zambézia, província que, garante o escritor, sente a poesia de forma muito especial, por isso haver muitos poetas zambezianos.

Nesta espécie de sonho por realizar, no entanto, nem tudo é motivo para sorrir. Dói ao poeta o facto de muitas livrarias estarem encerradas na maior parte das províncias do país. “É mesmo de lamentar, creio que o Governo tem de fazer alguma coisa para que as livrarias continuem a disponibilizar livros para o público, pois sem leitura as pessoas não se desenvolvem, e sem aproximarem-se à sua cultura através da literatura as pessoas não se afirmam. Então é importante o retorno das livrarias para que no mínimo possam disponibilizar o que é produzido em Moçambique do ponto de vista literário”.

 

 

De Pretória para Ceará. Este é o trajecto de Aldino Muianga nos próximos dias. Da capital sul-africana, o escritor segue viagem para, no Brasil, participar na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará, evento a realizar-se de 16 a 25 deste mês, com o lema "As cidades e os livros".

Na bienal que harmoniza educação, cultura, conhecimento, economia e cidadania, segundo a organização, com a pretensão de contribuir para a reinvenção da vida por meio da palavra em suas múltiplas possibilidades, o escritor moçambicano vai lançar a versão brasileira de Asas quebradas, sob a chancela da editora Kapulana. Além de apresentar ao público brasileiro o romance já lançado em Moçambique pela Cavalo do Mar, Aldino Muianga estará no “Encontro de oralidade e escrita”, às 18h do dia 21 e 24, para falar de “A cidade africana e suas estórias”, sessão que, no primeiro dia, terá moderação de Andrea Muraro, e, no segundo, de Sueli Saraiva.

No dia 25, Muianga participará na “Oralidade, ancestralidade e mestres da cultura”, entre 13h30 e 16h, numa sessão subordinada ao tema “O corpo é um texto, a vida alegria (O corpo, arte, alegria e memórias)” e que terá moderação de Dane de Jade.

De acordo com Aldino Muianga, esta sua viagem à XIII Bienal Internacional do Ceará representa uma excelente oportunidade para a divulgação da sua obra e para interacção com outros escritores pertencentes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): “A minha participação naquele evento contribuirá, estou certo, para o alargamento do conhecimento sobre a Literatura que se produz em Moçambique em particular e seus autores”.

Aldino Muianga afirma que é uma grande honra ter sido seleccionado pela editora  Kapulana para a representar na Bienal deste ano no seio de um painel de escritores de prestígio internacional e com vasta experiência em literatura. “Desconheço quais foram os critérios, mas a minha alegria é manifesta”, proferiu o autor que deverá permanecer em Fortaleza, a capital do Estado de Ceará, por sete dias.

Muianga é autor da editora Kapulana do Brasil desde a publicação de O domador de burros e outros contos, em 2015. Um ano depois, publicou pela mesma editora A noiva de Kebera. Agora sai em livro com Asas quebradas, sempre na colecção Vozes da África, na qual integram títulos de tantos outros autores moçambicanos e angolanos, como Luís Bernardo Honwana, Luís Carlos Patraquim, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo, Lucílio Manjate, Lica Sebastião, Clemente Bata, Sónia Sultuane, Adelino Timóteo, João Paulo Borges Coelho, José Luandino Vieira, Ana Paula Tavares e Pepetela.

 

Na gala realizada há uma semana, os membros do júri foram deveras austeros. Por isso, das 36 apresentações apenas cinco conseguiram conquistar a pontuação máxima de 30 pontos. De acordo com Maria Helena Pinto, Dadivo José e Dudas Aled, na quarta gala, os concorrentes do maior concurso infantil de descoberta de talentos do país foram repetitivos. Logo, impunha-se que os pais e encarregados de educação ajudassem as crianças a reinventarem-se.

A recomendação e rigorosidade daqueles cujo poder de decisão influencia na permaneça dos concorrentes no Mozkids Talents em 70% pareceu que surtiu efeito. Na gala deste sábado, sempre realizada no Cine Scala, na baixa da cidade de Maputo, a maioria dos concorrentes apresentaram propostas diferentes das que têm levado ao palco habitualmente. Em geral, as crianças tiveram a preocupação de sair da sua zona de conforto e mostrar que são capazes de se apresentarem com outro tipo de propostas. Daí o júri e o público terem ficado várias vezes de boca aberta.

Quer do ponto de vista temático, quer do ponto de vista de performance, os concorrentes escolheram ser diferentes e impactantes. Assim sendo, ao contrário da quarta gala, na quinta mais crianças tiveram 30 pontos e uma vibrante salva de palmas. No primeiro caso, os concorrentes de poesia valorizaram o recém-acordo assinado entre o Governo e a Renamo, declamando paz, em nome da unidade e do bem-estar dos moçambicanos. E porque esse bem-estar depende muito da felicidade das crianças desamparadas, os pequenos actores dramatizaram a situação dos meninos de rua, retratando as causas deles abdicarem de um lar e escolherem as incertezas quotidianas, como que sugerindo mais atenção àquela realidade.

Se é verdade que o concurso iniciou com alguns concorrentes meio perdidos em termos do que lhes competia levar ao palco, na gala de sábado o cenário foi completamente diferente. Por exemplo, as crianças da categoria de dança valorizam mais o repertório cultural moçambicano. Uma das concorrentes que surpreendeu, nesse sentido, foi Erpídia Chiconela. A pequena bailarina quebrou qualquer preconceito que permite fazer do xigubo uma dança exclusivamente masculina. Ao seu ritmo, acompanhada por batuqueiros em palco, Erpídia surpreendeu a todos numa entrada triunfal que deixou toda gente petrificada. Resultado disso foram os 30 pontos arrancados entre sorrisos do júri.

Além do xigubo, a marrabenta teve razão de existir no palco nos passos da dupla Letícia e Tónia e também no dos Kayane Machavane. A reacção dos expectadores não poderia ser indiferente. Os pais e encarregados de educação apoiaram as crianças sem sequer preocuparem-se com o facto de o Mozkids Talents ser um concurso em que uns são apurados e outros eliminados. Na verdade, neste concurso da Stv, em parceria com a Dstv e Gotv, o público e os próprios concorrentes apenas lembram-se disso quando chega o momento da apresentadora Yara da Silva anunciar quem segue para a gala seguinte.

A propósito de gala seguinte, incapaz de eliminar qualquer concorrente na categoria instrumentos musicais, os membros do júri apuraram todos os quatro para sexta. Assim, os dois grandes favoritos a vencer esta categoria, Jorge Mbie e Stefanny António, têm a companhia de duas meninas, Kiyone Sigaúque e Shanikwa Boene. Para as suas actuações, os primeiros dois concorrentes foram ao continente americano buscar inspiração. Mbie tocou Michael Jackson no seu violino, enquanto António preferiu imortalizar Bob Marley.

Na categoria de canto as coisas não mudaram muito. Para gala seguinte seguem Rindzela Novela (igualmente a mais votada, e que na gala passada cantou Zaida Lhongo), Bruna Morais, Steffany Mulumbula, Maida Horácio, Sílvia Abdula, Cybell Duarte e Maria Tereza. Destas, tiveram pontuação máxima do júri Bruna Morais e Maida Horácio.

Na poesia, desta vez, o eliminado foi Tiago Luís, menino que já compõe seus próprios textos. Os apurados são Flórida Guambe (novamente a concorrente mais votada), Luísa Sambo, Carla Timbane, Shantel Macuvele, Michelle Taimo, Romena Zunguza (a que fez uma ode à mulher que lhe valeu 30 pontos) e Elisa Senguele.

Na dança, Ezaly Assura continua a liderar. A menina que teve 30 pontos do júri, este sábado, segue para sexta gala em primeiro lugar. Atrás dela estão a dupla Kayla Cristina e Kyara Manjate, as irmãs Naila e Nazira Tuahir, Erpídia Chiconela, Kayane Machavane, Alisha Francisco, Letícia e Tónia.

Na categoria de teatro, Riaz e Vanda, mesmo sem uma boa apresentação, novamente, passam para a fase seguinte em primeiro lugar. Com a dupla segue outra, a que maior produção já levou ao palco do Scala nesta edição: Charlise Khan e Yunat Dengo. Depois de muitas críticas recebidas há uma semana, as meninas mudaram tudo e levaram uma peça ousada ao Mozkids Talents, inclusive com um interessante jogo de luz. As meninas interpretaram a situação das crianças de rua e facilmente arrancaram 30 pontos do júri. A dupla Nicole Thayla e Gina Michavão também continua neste concurso. A lista dos apurados no teatro completa-se com os irmãos Tamyris e Toyvo Chiluvane, Dionísio Custódio e Jéssica Albino e Joaquina.

 

O artista brasileiro, Melvin Santhana, irá participar da primeira edição do Festival de Poesia e Artes Performativas (poetas d'alma), no Gil Vicente. O artista vai se apresentar ao palco do Gil Vicente neste sábado, num espectáculo que ele chama de “revolt'Africa”, que será marcado por música e poesia.

Este concerto acontece a pretexto da celebração do seu aniversário, mas a principal festa da noite é “o regresso do artista à África”. Aliás, é exactamente por isso que o concerto leva esse título.

Santhana, tal como outros artistas negros do Brasil, consideram-se africanos. E quando vem, como foi desta vez do festival, o sentimento não é de uma simples viagem mas do retorno às raízes e reencontro ao seu passado.

E não é um retorno físico, espiritual e psicologicamente Santhana revive África e a sua música é denunciadora desse imaginário do “berço da humanidade”. O artista celebra a africanidade em todas as suas criações, mesmo oscilando no funk, rap e samba.

“Manifesto neste concerto um amor que há pouco está desconhecido, interno e sucumbido. Hoje, revelou-se. Possui nome e um vasto apelido: Moçambique de moçambicanas e Moçambicanos das marrabentas, netas e netos de macuas, machopes, machanganas, ndaus e muitos ancestrais…”, disse Santhana numa saudação a Moçambique publicada no facebook do evento. Ainda no texto, Santhana saúda filhas e filhos de Samora e Josina, primas e primos que se apelidam Ivethianas e Azagaianos”. O artista termina a sua mensagem dizendo que “aqui descobri um verdadeiro Poeta d'alma” e compreendi o meu destino”.

O concerto está marcado para às 22h, neste sábado. A passagem de Santhana por Moçambique tem actuações no Museu Mafalala, Galeria Piriquito Arte (Polana Caniço), Associação dos Músicos Moçambicanos, Centro Cultural Franco-Moçambicano e Centro Cultural Moçambicano-Alemão.

Logo à noite, inicia a segunda série da sexta Temporada de Música Clássica de Maputo – Xiquitsi. No espectáculo de ópera que vai começar às 19h30, no Teatro Avenida, estarão 50 artistas, todos unidos numa causa: fazer desta série inesquecível.

Entre os 50 artistas que subirão ao palco do Avenida, na cidade de Maputo, encontra-se um dos melhores alunos do Xiquitsi, Estevão Chissano, que na ópera Orfeu nos infernos interpreta o papel de John Stys, personagem da nobreza e que vive das aparências. Letrado, Stys sabe usar as palavras para enganar a opinião, portanto, um ordinário.

John Stys, na verdade, é um empregado de Plutão, personagem que conduz Eurídice, mulher de Orfeu, para o inferno. Uma das tarefas de Stys é guardar a Eurídice, de modo que nenhum intruso a encontre.

Referindo-se ao texto de Jaques Offenbach, Estevão Chissano adianta que a peça é uma extensão daquilo que muitas vezes está contido nas pessoas. “No texto de Offenbach, o que na terra se proíbe, no inferno é permitido. Penso que esta peça é o quadro dos nossos desejos mais profundos”.

Segundo Chissano, nunca o coro do Xiquitsi sentiu-se tão pressionado durante a preparação de um espectáculo. Para o compositor, Orfeu nos infernos é uma obra tão exigente que os ensaios para peça começaram nos finais de Abril. O encenador da ópera, Paulo Lapa, reuniu-se com os alunos do Xiquitsi logo que terminou a primeira série da temporada deste ano. “Entretanto, há um mês começamos os ensaios intensivos para colocarmos as coisas com mais substância. E estamos a prender muitas coisas sobre encenação ou coreografia. E para nós é fundamental porque o artista deve estar pronto para estes desafios”, afirmou Chissano, quem entende que o compositor de Orfeu nos infernos tira o pano sobre o sagrado no texto, pois critica muito a divinização da própria divindade.

Ainda na percepção de Estevão Chissano, Orfeu nos infernos é uma mostra de que nunca se ama alguém acorrentado. “Isso não é amor, é dependência ou outra coisa. A Eurídice está à busca do amor, o que envolve liberdade. Nunca se ama sem liberdade. O amor é sinónimo de harmonia em quem ama e no seu meio circundante”.

Por fim, Chissano realçou que como aluno tem a sorte de estar a trabalhar com pessoas de alta qualidade no Xiquitsi. “Não estaríamos a levar a ópera ao palco se não tivéssemos qualidade. Os professores que trabalham connosco são uma espécie de inspiração porque trazem o melhor do mundo para o país. Espero que Moçambique também possa ter a capacidade de perceber que os artistas nacionais já se apresentam com protagonismo no estrangeiro”.

 

Nos dias 09 e 10 de Agosto, sexta-feira e sábado desta semana, às 19 horas o caro leitor é convidado a assistir às apresentações da versão moçambicana de “Incêndios”, texto de Wajdi Mouawad e encenação de Victor de Oliveira. Trata-se de um espectáculo de teatro inédito no país, uma proposta protagonizada por três gerações de actores moçambicanos, um elenco de “luxo” que dará vida as personagens dum dos mais conceituados e respeitados dramaturgos do nosso tempo.

Nascido em Moçambique e radicado em Paris, na França há mais de vinte anos Victor de Oliveira resolveu brindar a terra e o povo que o viu nascer com um espectáculo cujo enredo em muito dialoga com a nossa realidade, com a nossa história. Para além de ser actor e já ter trabalhado com alguns dos encenadores mais conceituados tal como Wajdi Mouawad ou Stanislas Nordey, Victor de Oliveira é também professor de teatro no Institut d’Etudes Théatrales da Universidade Sorbone-Nouvelle, Paris 3. Um artista de grande gabarito e com muito a partilhar. Tenho a sorte de ser o seu assistente de encenação.

Segue-se um pequeno apontamento sobre o texto de Wajdi Mouawad. Uma espécie de argumento do convite que dirigimos ao caro leitor.

 

Apontamentos sobre “Incêndios” de Wajdi Mouawad

A beleza do teatro reside na sua capacidade de falar da vida com o mesmo encanto e a mesma fatalidade tal como a sentimos. De repente a história que vemos desenrolar-se a nossa frente não diz respeito a personagens fictícias, inventadas pelo dramaturgo, mas na verdade é a nossa própria história diante dos nossos olhos, somos nós, nus, despidos de todo tipo de pudor, é a humanidade inteira exposta no palco da existência. E como se de morte se tratasse não há como escapar. Ninguém escapa a chama da verdade. Ninguém escapa a “Incêndios”, esta narrativa dramática em que Wajdi Mouawad fala-nos sobre as marcas indeléveis da guerra, mas também sobre a necessidade de conservarmos a esperança e o amor para podermos combater o ódio que cega os Homens.

Escrevo com a alma carbonizada, pois não pude escapar à flecha em chamas que nasce de cada palavra, de cada cena, de cada imagem, e de cada personagem deste perturbante texto de teatro, considerado uma das maiores e belas tragédias modernas/contemporânea. Não pude escapar. Impossível alhear-me de uma história que fala de mim, das vitórias e das derrotas do meu povo. Dos seus “carrascos e das suas vítimas”.

Nawal Marwan, a personagem central da peça, a rapariga que segue o conselho da sua avó Nazira e a aprende a ler, a escrever, a contar e a pensar para sair da miséria é o retrato mais profundo da importância da alfabetização, no sentido mais profundo do termo, do acesso à edução para que se derrube as muralhas da pobreza, em que vivem aprisionados milhares de moçambicanos. Quantos não têm acesso à uma escola? Quantas vidas condenados a miséria e ao ódio?

Nawal Marwal a mulher que vivencia as barbaridades da guerra, que é vitima dessa barbárie e que mesmo assim não se verga, ao meio a desgraça e desolação permanece fiel ao amor, ao perdão, o olhar “lúcido e decido” dessa personagem lembra a determinação da mulher moçambicana, tantas vezes mãe e chefe de família, tantas vezes batalhadora incansável, tantas vezes sustentáculo da nossa sociedade.

O poder do teatro traduz-se pela sua capacidade de nos fazer pensar profundamente na condição humana e plantar em nós a vontade e a crença de que é possível transformar a realidade. Não há como ficarmos indiferentes perante às chocantes revelações sobre a vida de Nawal que aos poucos, ao longo da peça, durante à busca dos seus filhos, Simão e Joana, o regresso às suas origens, às origens de tudo, do amor e do ódio que marcaram a vida dessa mulher, nos vai sendo revelando.

Tudo se passa como se alguém desfolhasse uma flor, pétala a pétala, um gesto belo e ao mesmo tempo doloroso. Talvez seja daí que resulta a poesia desta peça. A poesia de Wajdi Mouawad, a sua capacidade de falar de coisas tão perturbadoras de forma simples e bela, falar da morte como quem descreve a doçura de um beijo. Como tudo isso foi traduzido em espectáculo? Felizmente essa pertinente questão só terá resposta nos dias apresentações do espectáculo. O convite está feito. Até já!

 

Ficha técnica de “Incêndios”

Encenação: Victor de Oliveira. Texto: Wajdi Mouwad. Tradução: Mnuela Torres. Interpretação: Alberto Magassela, Ana Magaia, Bruno Huca, Eunice Mandlate, Eliot Alex, Horácio Guiamba, Josefina Massango, Rita Couto, Rogério Manjate, Suafaida Moyane. Assistência de encenação: Venâncio Calisto. Luz: Caldino Perema. Vídeo: David Aguacheiro. Música: Nandele Maguni. Figurinos: Isis Mbanga.

 

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