O País – A verdade como notícia

O interesse pela literatura moçambicana é cada vez mais notável no Brasil. De acordo com a Directora da editora Kapulana, Rosana Weg, o interesse em causa tem-se reflectido nos estudos realizados por jornalistas e professores universitários brasileiros.

 

Avenida Francisco Matarazzo (1752), São Paulo, Brasil. Nesse endereço funciona uma editora que já publicou 33 obras literárias de 23 autores moçambicanos. Por cá já se ouviu falar muito dessa instituição cujo nome é inspirado num tecido de Moçambique: Kapulana. Então, além de honrar o nome, em oito anos de existência, a editora brasileira tem contribuído na divulgação da arte literária nacional no Brasil, com a publicação de obras e criação de oportunidades para os escritores da Pátria Amada participarem em palestras, lançamentos de livro ou worshops.

Como consequência da actividade da editora Kapulana, aumenta nos brasileiros o interesse pelas letras moçambicanas, daí, neste campo, haver um intercâmbio cultural notável entre  Moçambique e Brasil, com  vários escritores nacionais a participarem em actividades culturais e académicas nas terras da Vera Cruz. E com mais impacto dos escritores moçambicanos naquele país americano, igualmente, realça-se o interesse dos pesquisadores universitários e jornalistas, que se dedicam a estudar e a publicar textos sobre a literatura moçambicana, e o aumento de leitores que (também) demonstram o entusiasmo pelos livros de cá nas redes sociais.

Para Rosana Weg, Mestre e Doutora em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo, com ênfase em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa, grande parte das universidades do seu país têm hoje departamentos próprios e centros de pesquisa para o estudo das literaturas africanas de língua portuguesa, importantes porque geram interesse nos estudantes mais jovens, que se tornam também pesquisadores da literatura moçambicana. Com efeito, o público leitor das obras moçambicanas no catálogo da editora é maioritariamente jovem-adulto e adulto. Entre eles encontra-se um público (educadores) para a literatura infantil: “quando promovemos actividades com as crianças com os livros moçambicanos, é sempre sucesso, principalmente sobre livros que versam sobre as histórias tradicionais do país”.

Na lista de livros da Kapulana existem dois grupos de escritores mais procurados: os já consagrados, como Noémia de Sousa, Ungulani Ba Ka Khosa, Luís Bernardo Honwana, Suleiman Cassamo, Aldino Muianga e João Paulo Borges Coelho; e os mais jovens, que despertam a curiosidade do leitor brasileiro pelos temas que tratam e por sua expressão literária, como Lucílio Manjate, Sangare Okapi, Adelino Timóteo e Clemente Bata.

Actualmente, entre as obras literárias moçambicanas do catálogo da Kapulana que despertam interesse nos leitores brasileiros destacam-se o romance e o conto. “A poesia é bastante aceita, mas é consumida, muitas vezes, em outros formatos, mais oralizados, como saraus, sessões de poesia, clubes de leitura. Sangare Okapi, Luís Carlos Patraquim, Sónia Sultuane, Lica Sebastião e Noémia de Sousa são autores de obras de alta relevância literária que a Kapulana colocou no mercado editorial brasileiro e que emocionam o leitor brasileiro”, diz Rosana Weg.

 

Momento COVID

Numa altura em que o Coronavírus tem causado a morte de muitas pessoas em todo o mundo, a Directora da Kapulana afirma que a sua editora tem contado com o apoio dos seus escritores, ilustradores e prefaciadores, para divulgar as obras pela internet. “Com as livrarias, bibliotecas e centros culturais fechados, passamos a colocar mais foco em nossos livros digitais e em nossa comunicação pela internet. Convidamos nossos escritores a participar de eventos online connosco, como leituras de trechos de suas obras, bate-papos e entrevistas. A resposta foi incrível e, em pouco tempo, conseguimos produzir peças audiovisuais maravilhosas, que estamos divulgando aos poucos em nossas redes sociais. Mesmo em isolamento físico, é animador perceber que escritores e leitores podem estar bastante próximos uns dos outros”. Além dos escritores, lembra Rosana Weg, a Kapulana tem contado com o apoio de entidades moçambicanas que acreditaram em seu trabalho desde o início, como a Escola Portuguesa de Moçambique (EPM), a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), O País e Stv.

 

O encerramento das fronteiras nacionais trouxe alguns desgostos aos artistas plásticos, pois os seus fornecedores não têm como ir buscar no estrangeiro material profissional que falta no país. Se, por um lado, a crise pode ser vantajosa, em termos criativos, tem-se revelado ainda caótica para aqueles que clamam por uma tela, acrílico ou mesmo apoio para comercializar as obras já criadas. Este é o cenário descrito por Bena Filipe, Huwana Rubi, Butcheca e Sebastião Matsinhe.

 

Os artistas plásticos nacionais já se encontravam numa fase menos boa, antes da COVID-19. Agora, com o Estado de Emergência que lhes impede de continuar a expor os seus trabalhos como vinham fazendo, as coisas complicaram-se ainda mais, pois os clientes “desapareceram”, o que obriga a muitos venderem as suas obras a um preço relativamente baixo, que não cobre os investimentos feitos no processo de produção. Em geral, esta situação negativa é fundamentada por Bena Filipe, Huwana Rubi, Butcheca e Sebastião Matsinhe. Para os artistas plásticos, o actual momento é tão hostil que, por causa do encerramento das fronteiras nacionais, já falta material profissional para a pintura.

Na percepção de Sebastião Matsinhe, na rua há muita mensagem para os artistas plásticos. Em contrapartida, faltam condições materiais para os artistas traduzirem o que captam, pois “não existem telas profissionais neste momento. O país não produz tintas de óleo e acrílico para as artes plásticas. Então, o encerramento das fronteiras nos prejudica, e a mim esta situação encontrou em contra pé. Com o lockdown na África do Sul, onde vivo, e com a declaração do Estado de Emergência em Moçambique, não tive como regressar”.

Não tendo como viajar para África do Sul e muito menos onde adquirir material profissional para pintar, o que resta a Matsinhe é registar à lápis, no papel, de modo que as ideias não fiquem perdidas. Mas não é o ideal. A impossibilidade de não exercer a sua profissão de feição é sempre algo desagradável, difícil de aceitar: “acho que se devia auscultar as necessidades dos artistas, de modo que continuassem a trabalhar. Por exemplo, “os directores nacionais de cultura deviam usar os protocolos para a aquisição de material para os artistas. Se há escassez de material em Maputo, nem quero imaginar nas outras províncias do país”.

45 dias depois do confinamento, Bena Filipe, que também é médica, admite, a angústia e a ansiedade fazem parte do quotidiano dos artistas. “Ficamos a pensar se o Estado, o povo ou as ONG vão apaziguar esta intempérie, e até agora nada aconteceu. Estamos num momento de agonia, ferida artística, cujo tratamento remete-nos a uma reinvenção que exige uso de tecnologia de comunicação, para diminuir e confortar o distanciamento social”, que, para Huwana Rubi, não é o problema em si. Até porque os artistas plásticos habitualmente criam as suas obras estando isolados. Ou seja, de acordo com a pintora, este até é um bom momento para os criadores reestruturarem os seus pensamentos. Entretanto, porque os artistas são humanos e fazem parte de um meio social, vão-se ressentido das restrições causadas pela COVID-19. Por exemplo, a artista perdeu a oportunidade de expor as suas obras mês passado. O mesmo pode acontecer com Sebastião Matsinhe, que tem uma colectiva agendada para a Fundação Fernando Leite Couto e uma individual para os Países Baixos, em Junho.  

Com algum material que conseguiu reservar, Butcheca vai tirando o proveito possível deste momento do ponto de vista criativo. “Como qualquer outra crise, esta é boa em termos de criatividade porque nos enche de imaginação, para além de que nos obriga a ficar muito tempo no mesmo espaço. Logo, aproveitamos para aperfeiçoar a pintura e para pintar ainda mais, fazendo descobertas constantes”. Dito isto, Butcheca considera que os artistas plásticos precisam de galerias que lhes ajudem a expor em plataformas online. Além disso, Butcheca entende que a grande ajuda aos artistas plásticos seria um financiamento em que os criadores pudessem pagar com as suas obras. “Segundo, do mesmo jeito que se está a apoiar os músicos, as instituições devem também apoiar os artistas plásticos”.

Quando esta crise toda passar, acredita Huwana Rubi, haverá mais trabalho para os artistas, pois os novos ventos estão a ensinar às pessoas a perceberem a importância da arte em geral na sociedade. Ou seja, na óptica de Rubi, está-se numa situação de perdas e ganhos simultâneos. Assim, o que deve acontecer? “Temos de nos alimentar de coisas boas, para que o futuro nos traga coisas positivas. Se cultivarmos esperança, trabalharmos na arte, certamente, iremos colher o fruto das nossas criações. Acredito muito nesta energia das cores que temos dentro de nós”.

“O croniconto dos 200 quilómetros da dona abistra e o cunhado comissionista” foi a crónica premiada no Concurso de Crónicas Memórias do Idai. O texto de Francisco Raposo distinguiu-se entre 90 trabalhos submetidos à iniciativa da editora Fundza, sedeada na cidade da Beira.

Reagindo ao reconhecimento do seu texto, Raposo confessou que, ao concorrer ao concurso, não lhe ocorreu que pudesse ganhar. Na verdade, a grande expectativa era ser seleccionado para fazer parte da antologia que será lançada pela Fundza ainda este ano. “Quando fiquei a saber que fui o primeiro classificado, a alegria duplicou”, afirmou.

De acordo com o regulamento do concurso literário, os autores que quisessem concorrer deviam escrever uma crónica que retratasse pelo menos um episódio sobre o ciclone que em Março do ano passado abalou o Centro do país. Entretanto, Raposo, que não é raposa, através de uma personagem, procurou retratar diferentes peripécias que se passaram quando o Idai atingiu Moçambique. Assim, em “O croniconto dos 200 quilómetros da dona abistra e o cunhado comissionista” estão, sobretudo, imagens e situações reais, escritas com a paixão de quem, na altura da calamidade natural, sentiu a tragédia na pele, ali mesmo na cidade da Beira, onde vive há seis anos. Inclusive, certos episódios por si vividos passou à uma personagem do seu texto agora vencedor.

Ao escrever “O croniconto dos 200 quilómetros da dona abistra e o cunhado comissionista”, Francisco Raposo pensou que poderia criar um texto que permitisse às pessoas captarem aspectos peculiares do que se passou durante à calamidade natural no Centro. Por isso, levou ao texto o que, segundo acredita, não foi relatado pelos órgãos de informação e não pode sequer ser “imaginado” por quem não se encontrava na cidade da Beira na altura dos acontecimentos.

Francisco Rafael José Raposo nasceu a 21 de Fevereiro de 1997, no distrito de Búzi, em Sofala. Escreve desde 2012, e tem um projecto de livro poético pronto a lançar. É licenciado em Análises Clínicas e Laboratoriais, pela Universidade Católica de Moçambique (UCM).

 Além de ser editado em antologia, com mais 25 autores, a distinção no concurso da Fundza valeu-lhe um encaixe de financeiro na ordem de 15 mil meticais. O segundo e o terceiro classificados do Concurso Literário Memórias do Idai, Basílio Mazoio e Otildo Guido, acumulam, respectivamente, 10 mil e 5 mil meticais.

O concurso da editora Fundza teve como membros do júri Paulina Chiziane, Pe. Manuel Ferreira, Cristovão Seneta, Manuel Mutimucuio e Dany Wambire.

A partir de segunda-feira, a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) terá uma sala equipada para realizar eventos online. De acordo com uma nota de imprensa, trata-se de um passo importante para o objectivo da instituição de internacionalizar a literatura moçambicana.

“Numa altura em que o país encontra-se a enfrentar a batalha contra o novo coronavírus e com as várias impossibilidades causadas pela necessidade de restringir a aglomeração de pessoas, em mais uma medida de prevenção à pandemia, a instituição literária já vem se readaptando às tecnologias de informação e comunicação para prosseguir com as suas actividades no âmbito da promoção do debate e reflexão literárias, pensamento social e artístico”, avança a nota da AEMO.

Uma actividade da Associação dos Escritores realizada com recurso às plataformas digitais é o ciclo de palestras “No gume da palavra”, o que permite a participação de moçambicanos no país ou mesmo de cidadãos residentes em outros cantos do mundo.

De acordo com o Secretário-Geral da AEMO, citado no comunicado, as tecnologias estão a ter um impacto positivo nas actividades organizadas pela instituição que dirige, pois garantem o alcance nacional e internacional através de vídeo-conferências: “os amantes da literatura passam, a partir de segunda-feira, a dispor de uma sala instalada com equipamento de vídeo e áudio, preparada para passar a acolher os eventos, com as condições devidas para a participação do público em qualquer parte que se encontre”, afirmou Carlos Paradona.

Deste modo, acredita a AEMO, fica reforçada a visão da instituição de internacionalização da literatura moçambicana, divulgando os autores nacionais e permitindo o intercâmbio literário.

O primeiro evento a ser realizado nas novas condições será com José Castiano, às 18h de terça-feira. Conforme publicado neste jornal, o filósofo vai dirigir uma palestra patrocinada pela Austral Seguros, com o tema “Reinventar o humanismo Ubuntu para resistir ao COVID-19”.

 

 

O actor leva mais uma sessão do seu “Karingana wa karingana" ao público infanto-juvenil, a partir de domingo.

 

Durante seis semanas, Yuck Miranda vai proporcionar histórias gravadas em vídeo às crianças. Com o seu “Karingana wa karingana", o actor pretende preservar a oralidade e divulgar contos de autores moçambicanos e portugueses.

As sessões de teatro de sombras, que serão disponibilizadas todos os domingos, no Facebook e Instagram do Camões – Centro Cultural Português em Maputo, traduzem a necessidade que o artista teve de se reinventar e, assim, continuar a chegar ao público neste Estado de Emergência. O grande propósito é manter o teatro vivo, criando conteúdos para família. “A sensação que tenho é que o público infanto-juvenil é o mais prejudicado com esta nova situação que enfrentamos. Então, pensamos em criar conteúdos para as crianças consumirem a partir de casa”, além disso, realça o artista, “esta é uma forma de manter viva a oralidade africana e portuguesa”.

Mesmo a propósito de oralidade portuguesa, uma das histórias que serão contadas ao longo das seis semanas do “Karingana wa Karingana” é O silêncio da água, de José Saramago, escrita pelo escritor Nobel a partir de uma recordação de infância.

Numa parceria com o actor George Cabral, a primeira sessão de histórias de Yuck Miranda, com 10 ou 15 minutos de duração, pode ser acompanhada a partir das 7 horas deste domingo

Além de representar, Yuck Miranda trabalha com música, dança e cria trabalhos focados na defesa de crianças, LGBTQ + e igualdade de género. Desde 2010, tem participado em eventos como Transform Tour 2019 (Kigali, Ruanda; Cidade do Cabo, Joanesburgo; Harare, Zimbábue) e ASSITEJ 2019, na Noruega. Entre Novembro do ano passado e Janeiro deste ano, esteve em Paris. Na capital francesa, desenvolveu a fase de pesquisa do seu projecto: “Identidades não identificáveis”, focado em narrativas de membros LGBTQ + em diferentes países do Mundo.

A nova iniciativa de Yuck Miranda surge na sequência de uma sessão de histórias que o actor protagonizou na Fundação Fernando Leite Couto, mês passado.

   

 

 

 

Ano passado, a editora Kapulana lançou a obra literária As visitas de Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho. Assim, uma vez mais, o escritor moçambicano volta a ser publicado no Brasil com a mesma chancela.  

Na nova edição, Crónica da Rua 513.2 possui 316 páginas e conta com o prefácio de Nazir Ahmed Can, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador da obra de Borges Coelho. O romance do Prémio LeYa 2009, na leitura da Kapulana, é uma história que se passa em uma rua fictícia de Maputo, onde convivem personagens mortos (antigos moradores da época em que o país era dominado por Portugal) e vivos (personagens que vivem no momento presente, pós-independência). “Apesar de ser uma obra de ficção, a narrativa de Borges Coelho se confunde não só com a realidade, mas também com a própria história de Moçambique, país que ficou mais de 400 anos sob domínio português”, e ascrecenta a editora: “Obra indispensável para quem quer conhecer mais a história moçambicana, Crónica da Rua 513.2 mescla história e ficção nesse livro que apresenta uma sociedade em busca da própria identidade”.

Na Kapulana, Crónica da Rua 513.2 integra a colecção “Vozes da África”, um projecto com a pretensao de divulgar a literatura africana de língua portuguesa e estrangeira no Brasil, através de obras de ficção em prosa e poesia, voltadas para crianças e adultos.

Crónica da Rua 513.2, publicada em Abril, é a segunda obra de Borges Coelho com a chancela da editora  Kapulana.

 

Sinopse (Kapulana) de Crónica da Rua 513.2

Em uma rua fictícia da cidade de Maputo, capital de Moçambique, a Rua 513.2, convivem personagens vivas e mortas. Os mortos – espíritos nguluvi – antigos moradores das casas no período da dominação portuguesa, interferem no dia a dia dos vivos que, agora, no período pós-independência, moram nas suas casas. Vivos e mortos discutem, decidem e realizam tarefas que definem os rumos da rua e, por extensão do país. Quando esses antigos espíritos são substituídos por outros, a dinâmica histórica começa a mudar. Nesse romance surpreendente, Crónica da Rua 513.2, o moçambicano João Paulo Borges Coelho apresenta um retrato literário e cultural das relações entre história e ficção, em uma sociedade em busca de sua própria identidade.

 

 

 

 

Fredson Bacar está, desde ontem, numa visita de trabalho a Zambézia. No primeiro dia da visita, o Vice-Ministro da Cultura e Turismo visitou as obras de restauração da Catedral Velha de Quelimane, cujo plano em curso é transformá-la num museu de arte sacra e num centro cultural, no âmbito do Projecto da ABS de Reabilitação e Requalificação da Igreja de Nossa Senhora do Livramento.

De acordo com a nota do Ministério da Cultura e Turismo, Bacar esteve no Hotel Chuabo, que já foi mítico naquela província, e encontrou-se com os operadores turísticos, que vincaram as preocupações face à pandemia. O vice-Ministro partilhou as acções do Ministério em torno de várias iniciativas, visando apoiar o sector.

Hoje, o governante vai, dentre várias actividades, orientar uma reunião com os fazedores da cultura, na Cidade de Quelimane, e escalar o Distrito de Mocuba, o que acontece depois de manter encontros de cortesia com a Secretária de Estado, Judith Mussácula, e com o Governador da Província, Pio Matos.

Fredson Bacar encontra-se a trabalhar na Zambézia até sábado.

 

 

Pak Ndjamena é muitas coisas, no que à arte diz respeito. Entretanto, nesta entrevista, o bailarino e coreógrafo fala essencialmente de dança e do que esta manifestação cultural representa para si. Nesse contexto, o Director do Festival Raiz reconstrói o seu percurso, destacando o que contribui para que actualmente seja profissional de dança. Sem receios, Ndjamena também indica o horizonte que irá seguir quando, já com o peso da idade, não poder actuar em palco.

 

Considero a dança uma manifestação da alma através do corpo. Estou errado?

É com o corpo que nós expressamos os diferentes sentimentos e que fazemos uma reflexão para a sociedade.

 

Como é que o corpo se assume como um mecanismo de apreensão dos factores sociais?

Nós vivemos numa sociedade com vários estímulos, sejam políticos ou económicos. Tudo isso se reflecte no corpo. Então, de certa forma, a dança serve para colocar o corpo a apreender todos os estímulos através do movimento. Assim conseguimos transmitir alguma coisa e criar alguma transcendência para tocar as pessoas. Esse é o nosso grande desafio como artistas.

 

A dança está em justaposição com a vida, segundo sugere o seu espectáculo Justaposição “centauros”?

Sim, e essa obra foi uma colaboração com um artista visual, o Rafael Bordalo. Na altura fizemos uma pesquisa virada às sociedades de consumo e no que respeita ao poder político e económico que as sociedades têm, bem como a essa transformação que o mundo sofreu desde antes de Cristo até agora. Foi uma reflexão muito abrangente sobre essas sociedades: africanas, americanas e etc.

 

A dança consigo é, de facto, um movimento muito ligado à tradição, e que explora o social, o poder do ego e o poder do poder. Além de ser uma missão, o que a dança mais representa para si?

Eu nasci numa família de artistas. Os meus avôs dançavam para entreter e pela paixão. Eu também comecei na dança com paixão. Então, à medida que me fui profissionalizando, comecei a ter um rendimento. Para mim, a dança é vida, e surge como um dom. Não me surgiu por acaso. Eu sempre tive a dança dentro de mim, desde pequeno, e o contexto familiar favoreceu-me muito. O meu avô, João Rungo, foi um grande bailarino. Ele é uma das minhas inspirações, embora não tenha convivido com ele.  

 

Percebe que poderia investir na sua carreira quando começa a ter rendimentos?

Sim. Penso que a partir do momento que o artista passa a ter rendimento na arte que faz, torna-se profissional.

 

Começa o seu percurso na dança em 1996. Existe um período concreto para este tipo de princípio?

Para que tenhamos uma história com alguma emoção, temos de considerar os tempos primordiais. O princípio foi em 96, por causa das cerimónias familiares, em casa a dança sempre acontecia. Depois, os meus familiares aperceberam-se que eu tinha talento e a minha mãe levou-me à Escola Nacional de Dança. Foi assim que tudo começou. Claro, naquele tempo não estava preparado para as técnicas de dança modernas. Estava mais voltado para a dança tradicional.

 

Entretanto, não fica muito tempo na Escola Nacional de Dança…

Não fico muito tempo na Escola porque não me senti muito à vontade lá. Os preconceitos sobre a ideia de que o homem que faz dança é maricas e coisas assim afectaram-me emocionalmente. Curiosamente, antes de me inscrever na Escola Nacional de Dança, na altura, achava que aquela instituição era mais abrangente na questão do ensino das danças, e além do preconceito. Em pouco tempo saí e fui a um grupo cultural.  

 

Passam-se 24 anos, desde que se iniciou na dança. Comparando os anos 90 com o contexto actual, que diferenças destaca?

Naquela altura, havia muitos grupos, na cidade de Maputo, e muita dança. Por volta de 2010, muitos bailarinos começaram a trabalhar em outras coisas, deixando a dança para trás, mesmo por causa da questão sustentabilidade. Tipos como eu, Ídio e os outros que estão na Europa persistiram, reinventaram-se e conseguiram ser o que são hoje. Acho que é por esse empenho que os nossos projectos são bem recebidos a nível nacional.

 

O facto de sermos um país com muita dança tradicional torna a sua actividade mais simples ou mais complexa?

As duas coisas. Primeiro temos de ser um bailarino capaz de perceber a riqueza da dança que possuímos. Depois, é preciso haver condições de acesso e acervo. A tal preservação do património imaterial, que ainda falta.

 

É a pensar na preservação do património que faz questão de registar em vídeo os seus espectáculos?

Sim. Sempre tenho o cuidado de, ao fazer alguma obra, querer registar em vídeo ou fotografia. Repara que é com esse registo que conseguimos ter mais trabalhos.

 

Como pensa na dança nos próximos 24 anos?

Nessa altura, provavelmente, estarei fora dos palcos, a fazer coreografia. Acho que um bom coreógrafo deve ser um bom bailarino. Claro que existem bons coreógrafos que não foram bailarinos. Portanto, não me assusta a ideia de não poder dançar daqui a alguns anos, porque sempre posso fazer coreografia. A arte é vasta e a arte é incondicional.

 

Pak é um artista multidisciplinar. Existe uma área em que actua mais especial do que as outras?

Houve momentos que eu me colocava, primeiro, como bailarino. Há cinco anos, comecei a envolver-me com outras áreas artísticas. Hoje, já não me vejo apenas como bailarino. Vejo-me como artista.

 

É dos vários artistas moçambicanos afectados pela COVID-19. Por causa da pandemia, não vai poder realizar o Festival Raiz, que foi cancelado…

Infelizmente, foi cancelado. Teremos de nos reinventar. Teremos de seguir aquilo que o universo nos propõe. Por causa da pandemia, está-se a optar por eventos online. Iremos alimentar as pessoas com vídeos, memórias do festival e conversas com artistas através das redes sociais.

 

Numa conversa com Edna Jaime, a bailarina disse-me, há umas semans, que os bailarinos moçambicanos são mais valorizados no estrangeiro do que no país. Tem a mesma percepção?

Tenho, sim. Concordo absolutamente com isso, sobretudo na área da dança contemporânea. Acho que em Moçambique não existe valorização merecida. Mas acho que é assim em todo lado. Parece que basta atravessarmos a fronteira para temos valor. Nós valorizamos o estrangeiro, cá, da mesma forma que as pessoas dos outros países nos valorizam quando lá vamos actuar. O desafio é formar público, e o Festival Raiz e a ECA estão a trabalhar na preservação do património cultural moçambicano, com formação de público, de modo que os nacionais possam valorizar mais o que é nosso. Temos de levar a sério esta missão, porque em países como Senegal, sim, as pessoas têm o orgulho do que é tradicional e local.

 

É um dos bailarinos moçambicanos com uma expressão facial e corporal contagiante. O que contribui para o efeito?

Sinceramente, eu não consigo me espelhar. Espelho-me através dos outros. Fico feliz por essa observação. Acho que a expressão é das coisas mais fascinantes que temos na arte. Penso que o facto de ser actor também ajuda. Não é nada premeditado. Não trabalho a expressão facial. Acho que a minha forma de ser e de estar ajuda-me a saber como actuar.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o novo trabalho de Rodhália Silvestre.

 

PERFIL

Pak Ndjamena é nome artístico de Bernardo Guiamba, produtor artístico, bailarino, coreógrafo e performer. Nasceu em Maputo e iniciou-se na dança em 1996, na Escola Nacional de Dança. Em 2001, surge-lhe a primeira oportunidade de formação em dança contemporânea, no Projecto Alma Txina. Colaborou e participou em vários projectos nacionais e internacionais. Actualmente, também exerce a função de Director do Festival Raiz.

 

 

 

 

 

 

 

 

O poeta Léo Cote declama, esta quarta-feira, na cidade de Maputo, poemas de autores moçambicanos no sarau designado “Campo de história e poesia”.

 

Meia hora. Esse é o tempo concedido pela Fundação Fernando Leite Couto a Léo Cote. Às 18 horas desta quarta-feira, o autor de Campo de areia vai contar uma história (“A fogueira”), de Mia Couto, e dizer poesia de oito autores moçambicanos: Rui Knopfli, José Craveirinha, Rui Nogar, Heliodoro Baptista, João Grabato Dias, Sebastião Alba, Eduardo White e Luís Carlos Patraquim. Nada ao acaso. Estes são os autores que na primeira fase da vida literária marcaram o declamador.

Na verdade, a Léo Cote até ocorreu dizer poesia de mais autores relevantes da literatura moçambicana. Entretanto, porque time is Money e não se recomenda o desperdício, teve de retirar alguns poemas da sua lista, de modo a garantir que o seu sarau não exceda 30 minutos. Assim, o poeta irá recitar um texto de cada autor por si seleccionado.

Com o sarau, acredita Léo Cote, irá contribuir para combater o esquecimento dos moçambicanos em relação à escrita dos que, estando falecidos, continuam a influenciar gerações de poetas nacionais. Nisso, antevê o poeta que pela primeira vez vai recitar poesia para o público no contexto de Estado de Emergência imposto pela COVID-19, a sessão será diferente sem as pessoas presentes. “Mas irei actuar como se tivesse público. Será mais difícil, porque sinto que terei de atingir os leitores um de cada vez”.

Ora, a oportunidade de poder apresentar-se em público, num período tão hostil como este, é algo muito relevante para Léo Cote, e não é só pelo dinheiro: “além do caché, oportunidades destas garantem-nos visibilidade. De algum modo, este tipo de eventos nos permite aparecer em público e afirmar o nosso trabalho. Deste modo, evoluímos como artistas, porque temos de trabalhar sempre”. Paralelamente, entende Léo Cote, os eventos artísticos que estão a ser realizados online pelas redes sociais, como é o caso do sarau na Fundação Fernando Leite Coto, permitem a construção da memória deste período em que o mundo enfrenta um grave problema sanitário.

O sarau designado “Campo de histórias e poesia” chegará aos interessados através do Facebook e do Instagram da Fundação Fernando Leite Couto. Entre os textos seleccionados, constam: “Elegia carnívora”, de Patraquim, “Ode às palavras, de Heliodoro Baptista, “Nunca mais é sábado”, de Rui Knopfli”, e “Do amor pelas pedras”, de Rui Nogar.  

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