O País – A verdade como notícia

Chovem amores na rua do matador é uma história escrita por Mia Couto e José Eduardo Agualusa. A versão para o teatro, ainda em construção, foi encenada por Clotilde Guirrugo e Vítor Gonçalves, e foi apresentada este sábado, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane, na Cidade de Maputo. O ensaio aberto foi restrita à equipa de produção e a críticos de arte, para ajudarem a melhorar a peça.

Este 18 de Setembro de 2021 foi reservado ao ensaio aberto de Chovem amores na rua do matador. A peça foi adaptada para o teatro a partir do texto original de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, uma das narrativas que compõe o livro O terrorista elegante e outras histórias.

Com aproximadamente 90 minutos de duração, o espectáculo ainda em progressão foi apresentado à segunda edição do Festival Gala Gala (via online) e foi encenada por Clotilde Guirrugo e Vítor Gonçalves. No universo da história, encontra-se um homem chamado Baltazar Fortuna (Horácio Guiamba), que regressa à Vila Chigovia para matar as três mulheres da sua vida, como quem se vinga e tenta apagar um fardo do seu conturbado passado. As mulheres em causa são interpretadas por Josefina Massango, Joana Mbalango, Violeta Mbilane e Angelina Chavango. Para a última actriz, a experiência de participar na peça foi uma espécie de back the time. E argumenta: “Depois de muitos anos sem participar num processo igual, Vítor Gonçalves, que foi o meu professor, desafiou-me a reviver uma técnica que eu já havia ‘abandonado’. Foi um desafio porque Vítor Gonçalves mantém aquela tradição de trabalho em que a primeira coisa a fazer-se é o trabalho de mesa, que consiste na leitura do texto. Nós discutimos o texto e as personagens antes mesmo de as conhecer”, revelou Angelina Chavango, momentos depois da apresentação da peça.

Naquela sala enorme da Universidade Eduardo Mondlane, devido ao encerramento dos teatros, esteve mais ou menos uma dezena de pessoas, entre as quais os autores de Chovem amores na rua do matador. Felizes pela adaptação, os escritores explicaram o que mais os marcou na encenação e interpretação dos actores. O primeiro a falar foi José Eduardo Agualusa: “Foi uma excelente surpresa. Sinceramente, não estava à espera de algo tão denso, juntando o lado da comédia e o lado trágico. Acho que a peça acresce muito aquele conto que nós escrevemos, acresce muito neste palco, com estes actores e da maneira como foi encenada. Eu gostei muito, muito, muito”.

Sem ter ouvido a afirmação de Agualusa, Mia Couto começou por dizer o que ao falar da peça o escritor angolano reservou para o fim, como quem dá continuidade a um raciocínio: “Eu gostei muito deste espectáculo. Para mim, a relação com o teatro é muito antiga, é uma relação de escola, em que eu aprendo a escrever melhor e a perceber como é que a palavra escrita se transforma em voz e como é que ela ganha a dimensão humana. Aqui estou aprendendo uma coisa que para o escritor é importantíssima, que é a contenção. Eu sou mais escritor através desta partilha que faço com os actores, que são óptimos”.

Na versão teatral, Chovem amores na rua do matador é resultado de uma residência artística produzida pela Fundação Fernando Leite Couto e pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. A encenação foi realizada em colaboração com um colectivo composto por profissionais e estudantes de teatro.

Embora tenha cinco actores no palco, a peça precisou de muitos colaboradores, nomeadamente, Sara Machado (figurinos), Évaro Abreu (cenografia, designer gráfico), Pedro da Silva Pinto (som), Quito Tembe (luz), Edmundo Matsiyelana (costureiro), António Leonardo, Leonardo Banze e Patrício Simbine (construção de cenário), Charles e Naftal Nhacume (carpintaria), Arlindo Boca (electricidade), Sérgio Bambo (serralheiro), Francisco Baloi e Mateus Nhamuche (assistentes de luz).

A peça que na versão final deverá perder 10 minutos, é, para Vítor GONÇALVES, sobretudo “uma forma de nós procurarmos reflectir um pouco sobre a realidade cultural e social moçambicanas. Neste caso, encontramos este texto de Mia Couto e Agualusa, o que nos pareceu abordar uma série de temática, e ter uma abordagem psicológica que nos pareceu muito interessante. Para nós, Chovem amores na rua do matador impôs-se como um texto para tentar descobrir a nossa realidade”.

Na óptica de Armando Artur, Noémia de Sousa é sinónimo de nacionalismo, consciência e inspiração. Mesmo a propósito dos 20 anos da primeira edição de Sangue negro, que se assinalam esta segunda-feira, dia 20 de Setembro, Armando Artur explica por que a escrita da “mãe dos poetas moçambicanos” continua actual.

Quando o livro Sangue negro foi editado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), a 20 de Setembro de 2001, de facto, Nelson Saúte, Fátima Mendonça e Francisco Noa cumpriram a exigência da autora: editar, primeiro, o livro em Moçambique. Nessa altura, a Secretária-Geral da AEMO era Lília Momplé, que se encontra doente, e o Secretário-Geral-Adjunto era Armando Artur.

A partir de Mocuba, onde se encontra esta sexta-feira, o poeta recuou 20 anos para lembrar o contexto em que a obra saiu com saudade: “A primeira edição de Sangue negro foi uma publicação da AEMO, entanto que casa-mãe da literatura moçambicana. Lembro-me que, na altura, a AEMO também desempenhava a função de editora. Aliás, desde a sua criação, a AEMO desempenhou um papel extremamente importante na edição de livros de escritores moçambicanos. E Noémia de Sousa não podia ser uma excepção, uma vez que ela é uma das vozes poéticas mais importantes do nacionalismo moçambicano.

Além de nacionalista, Noémia de Sousa, disse Armando Artur, é uma das percursoras da literatura moçambicana. “A sua poesia, ora reunida na obra Sangue negro, influenciou em grande medida a criação da consciência mais alargada no seio dos jovens, e não só, daquela época. Estou a lembrar-me que o Presidente Chissano, por exemplo, numa das suas entrevistas, terá confessado que ganhara consciência da necessidade da luta pela independência nacional também influenciado pela poesia da Noémia de Sousa”.

Armando Artur entende que a importância da obra da “mãe dos poetas moçambicanos” é intemporal, uma vez que ela continua, até hoje, inspirando os moçambicanos no processo do seu renascimento rumo à sua plenitude”.

Noémia de Sousa nasceu no dia 20 de Setembro de 1926, na então Cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo). O seu primeiro e único livro foi editado um ano antes da poeta perder a vida em Cascais, em Portugal. Tinha, nessa altura, 76 anos de idade. Partiu apenas a artista, a obra, que reúne poesia escrita há 70 anos, permanece.

Foram hoje a enterrar, no cemitério familiar, em Marracuene, os restos mortais do artista plástico Mankew, que perdeu a vida esta terça-feira, em casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo, vítima de doença.

A última homenagem ao artista, com corpo presente, teve lugar na sua residência. Depois, seguiu-se a deslocação a Marracuene, onde se procedeu ao enterro do Mestre das artes plásticas nacionais.

Presente na cerimónia de despedida, a Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, referiu que “perdemos um artista de qualidades inestimáveis. O Pintor Mankew é e será inspiração para muitos jovens artistas moçambicanos. Através de suas obras expostas em museus, instituições públicas, privadas e casas particulares, o mestre Mankew será sempre lembrado através dos seus trabalhos. Vénia ao Mankew por ter deixado a sua marca na cultura nacional, mas sobretudo por ter feito parte de uma geração de artistas que contribuiu para a consolidade da arte moderna em Moçambique”.

Durante o seu percurso, o artista plástico levantou a bandeira de Moçambique pelo mundo fora, e fez várias exposições individuais e colectivas a nível nacional. A sua última exposição colectiva é “Tempos & Percursos em 3D” que se vai estender durante todo mês de Setembro, em sua homenagem. A mostra está patente no Museu Nacional de Arte, em Maputo.

Fonte: MICULTUR

Chamam-se Melissa Babil e Nelson Faquirá e vão representar Moçambique em na capital zambiana Lusaka, na Academia para jovens criativos de África.

De acordo com uma nota de imprensa, os jovens seleccionados iniciarão o seu programa de formação de um ano nas Academias Multichoice Talent factory (MTF), a partir do próximo mês, juntando-se a outros 58 jovens seleccionados de outros países.

A indicação dos jovens Melissa e Nelson, avança a nota, ocorre após um rigoroso processo de entrevista e adjudicação por especialistas em cinema e televisão que durou cerca de seis semanas e que teve lugar simultaneamente em 13 países africanos.

Agnelo Laíce, Director-Geral da Multichoice Moçambique, mesmo a propósito da apresentação dos representantes do país na Zâmbia, afirma: “Os estudantes moçambicanos vão integrar a incubadora que é também conhecida como Multichoice Talent factory, que é a principal actividade de Responsabilidade Social da MTF, cujo objectivo é promover o desenvolvimento do talento e da indústria cinematográfica e televisiva. Pretende-se que as histórias de África sejam contadas através do cinema, mostrando-as dentro e fora do continente. Este ano, seleccionamos dois jovens moçambicanos que são a Melissa e Nelson para integrarem a turma de 2022. Desejamos sucessos e fazemos votos para que honrem e prestigiem a participação de Moçambique, tal como o fizeram outros estudantes que participaram em 2020 e 2021”.

Depois de terminarem o curso, os estudantes estarão livres de seguir suas carreiras. Entretanto, a Multichoice seleccionou os estudantes com mérito e que neste momento trabalham em sete países. “Eu já sou técnica de multimédia e levo comigo um certo conhecimento em termos de fotografia e vídeo. Espero apreender mais experiência com outros estudantes, representando perfeitamente o país. Moçambique tem muitas histórias, muita música, muita dança. Vou levar comigo essa bagagem cultural”, explicou Melissa Babil.

Já para Nelson Faquirá: “Tenho alguma experiência a nível do cinema. Comecei há pouco tempo, mas fui agregando valor e tenho algumas obras em festivais. A minha expectativa em relação à formação é conseguir trazer mais conhecimento para acrescer valor à nossa indústria cinematográfica e representar o país condignamente. Esta é uma oportunidade que vai nos fazer mostrar o quanto podemos fazer e a palavra que Moçambique tem no cinema africano”.

No seu terceiro ano, a MultiChoice Talent Factory formou e melhorou as competências de 120 cineastas emergentes em 13 países do continente, que fazem agora parte da crescente rede de antigos alunos da MTF, os quais têm levado histórias africanas a todo o mundo.

O esforço levou a oportunidades ainda maiores, pois os alunos beneficiaram de um curso de formação online intensivo de três semanas da New York Film Academy. Formulado em parceria com a NYFA, este curso faz agora parte do currículo da MTF, no qual a nova turma aprenderá como produzir micro-documentários, anúncios de serviço público, anúncios de televisão e vídeos musicais. Este tipo de formação amplia o conjunto de competências e permite que os estudantes formados sejam economicamente activos em diversos sectores, não apenas na indústria cinematográfica.

De acordo com a CEO da General Entertainment & Connected Video, Yolisa Phahle, tal é exactamente o que a indústria precisa e o motivo pelo qual a MTF foi lançada. “Como o contador de histórias mais estimado de África, o nosso compromisso não é apenas contar histórias africanas autênticas, mas também investir nelas, é por isso que alguns dos nossos ex-alunos estão a trabalhar em produções da M-Net e Showmax. Actualmente, temos ex-alunos em sete países a trabalhar em produções da M-Net e Showmax e a lista continua a crescer. Estão a ajudar-nos a concretizar a visão de levar as histórias africanas ao mundo com uma abordagem ‘hiperlocal’, produzindo conteúdos relevantes nas respectivas regiões do nosso continente, em oposição a uma estratégia única,” lê-se no comunicado.

O currículo da academia MTF foi formulado em conjunto com as instituições parceiras da MultiChoice Africa, designadamente, a Universidade Pan-Atlantic em Lagos, a Universidade Queniatta em Nairobi, e a Universidade da Zâmbia em Lusaka, as quais conferirão a respectiva qualificação do curso após a conclusão do programa da academia. Adicionalmente, a The Henley Business School oferecerá uma intervenção de orientação para os alunos no início e no final do programa de 12 meses, bem como workshops sobre Negócios para Criativos com foco no empreendedorismo.
Além da academia, a MTF disponibiliza de várias plataformas de aprendizado por toda a África. O segundo pilar do programa da MTF são as masterclasses da MTF, que têm como objectivo melhorar a qualificação dos profissionais do sector e os criativos emergentes, oferecendo acesso exclusivo a workshops de competências práticas conduzidas por especialistas de todo o continente. Através das masterclasses, a MTF formou mais de 1000 criativos desde 2019. O Portal MTF é o terceiro pilar, posicionando-se como um mercado digital pan-africano para mais de 40 mil criativos que estão registados e têm acesso a masterclasses e perfis online gratuitos.

Por Matos Matosse*

“Não se pode banhar duas vezes nas mesmas águas dum rio.” (Rousseau)

 

 

A razão – da escolha desta frase de Rousseau: “Não se pode banhar duas vezes nas mesmas águas dum rio.” – [para servir de entrada a este ensaio literário] – e, esta de Sartre: “Somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livre.”  – será compreendida pelo caríssimo leitor ao longo do ensaio. Para já, adianto dizer que elas irão sustentar a estética da poesia arturiana.

Reconheço que não é fácil escrever sobre a obra de Armando Artur, um poeta de reconhecido mérito. Dono de uma vasta obra poética, riquíssima: Espelho dos Dias (1986); O Hábito das Manhãs (1990) – [em análise neste ensaio] –; Estrangeiros de Nós Próprios (1996); Os Dias em Riste (2002); A Quintessência do Ser (2004); No Coração da Noite (2007); Felizes as Águas (2008); As Falas do Poeta (2012); A reinvenção do Ser e a Dor da Pedra (2018); MUERY – Elegia em Si Maior (2019; Outras Noites, Outras Madrugadas (2021).

Armando Artur é um poeta moçambicano, já, com 35 anos de produção literária. Tem seguintes prémios: Prémio Consagração Rui de Noronha (2003); Prémio Nacional de Literatura José Craveirinha (2003); Prémio BCI da Literatura (2019). Foi homenageado, este ano, 2021, durante a Feira Internacional do Livro de Quelimane. Recentemente, o escritor e docente da Literatura, na Universidade Eduardo Mondlane, Lucílio Manjate, coordenou um belíssimo trabalho que consistiu em seleccionar, criteriosamente, alguns textos da extensa obra deste poeta e agrupá-los numa antologia: O ROSTO E O TEMPO (2021), sobre a chancela de Alcance Editores.

As perspectivas de análise da obra de Armando Artur são várias, porém, a motivação que nos move [a mim e aos que se interessam por estudá-la] é a mesma: fazer que a obra deste autor seja conhecida pelo público leitor.

O Hábito das Manhãs é um livro de poesia; tem 49 páginas, 41 poemas e foi publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos, AEMO, (1989).

Neste livro, Armando Artur começa a sua viagem poética com o poema intitulado: INTRODUÇÃO, pág.: 7, “Se cada dia/ triunfa um voto de viver/ a vida não será senão/ uma viagem sem fronteiras?” ‒ Nele o poeta faz uma pergunta cuja resposta [creio] não será senão uma eterna reflexão sobre a nossa existência.

Este poema prepara-nos para a compreensão dos seus textos, a intensão poética do autor. O autor pretende embarcar connosco nesta viagem reflexiva sobre a vida, e, para tal, sugere-nos duas formas: religiosa e filosófica [metafísica].

 

 [Esquema] poético

Armando Artur não toma um esquema único para caracterizar a sua poesia. Os seus poemas longos apresentam um esquema que não é o mesmo que o dos curtos. Isto constitui um lindo exercício de fazer a poesia e o de procurar marcar a peculiaridade do poeta.

Em AGORA DURMO ACOCORADO, pág.: 8, por exemplo, o autor começa o poema com o pronome condicional [se], “Se este é o tempo/ de abrir o meu coração/ fá-lo-ei agora/ sem mais demora”. Se quiser chamar para o presente ensaio o poema de Fernando Pessoa, com o título [Se], com o tema de amor: “Levava eu um jarrinho/ p`ra ir buscar vinho (…)// correu atrás/ de mim um rapaz/ foi o jarro p`ra” o chão, (…)// se  eu não levasse um jarro/ nem fosse buscar vinho, (..) nem corresse atrás/ de mim um rapaz/ nada disto acontecia.”

Podemos ver como é que os dois poetas brincam ‒ permitam-me o termo ‒ com este pronome condicional. Em Artur, o efeito deste condicional dissolve-se, logo, nas duas primeiras estâncias; não sendo fácil encontrar a sua “fragmentação” pelo resto do texto. O mesmo já não acontece, em Pessoa. Neste texto, a “fragmentação” e o efeito lexical sentem-se até ao fim do texto. “Se eu não levasse um jarro, (…)/ nada disso acontecia.” Esta terminação e carregada de culpa, de arrependimento do sujeito poético.

Retomando a Artur, este pronome condicional ‒ que se dissolve nas duas primeiras estâncias, porém, não nos dando, digamos, o “fecho”, ‒ será substituído pelo emprego de advérbios de tempo [agora e hoje], que não é, senão a mera complementaridade da ideia desenvolvida na primeira estância.

Acontece, porém, tal como em Pessoa, que Artur, igualmente, transmite-nos diversos sentimentos, como podemos ver: na 1ª estrofe e nos versos 2 e 3 da 2ª estrofe: “…como um pássaro impaciente/ à espera da manhã”; ansiedade; na 3ª estrofe, “agora, pouco a pouco minha infância/ vai perdendo o seu sentido/ apesar do equinócio/ que me promete a memória.”, – a desesperança, angústia, aflição; na 4ª estrofe, – a certeza, a queda das incertezas e angústias que corroíam o espírito do sujeito poético, [expressos nas estrofes anteriores.]

Os advérbios de tempo [agora] – nas estrofes 1ª, 3ª e 4ª exprimem significados diferentes. É estranho, não é? Estes advérbios têm a carga emocional diferente. Acentuam o estado emocional do sujeito poético. Isto funciona assim. A poesia de Artur exige de nós, enquanto leitores, analistas, muita atenção e técnica de análise aprofundada. Aliás, às vezes, para uma boa análise dos textos de Artur não basta, apenas, trabalhar-se os versos no seu todo, ou mesmo toda a estrofe, mas também palavra por palavra. Só assim se pode ter a compreensão mais profunda da sua temática e estilo que o autor adopta.

Neste [esquema] poético – traçado por Artur – o texto (o da página 8) ganha uma forma, na qual as duas últimas estrofes trazem, inquestionavelmente, o desenlace, o sossego ao sujeito poético. Finalmente! Um sossego de espírito, ora, agitado: “hoje, o meu sonho/ tem a forma dum papagaio/ que voa até se desprender/ no horizonte.”; [Voar], sentido de liberdade.

Aqui, passo por cima da palavra [acocorado] e concentro-me na palavra [mudança], ‒ ver a 5ª estrofe ‒ para cujo sentido é transcendental. Ainda que possa brotar dela o sentido de esperança, projeta o sujeito poético a outras dimensões sentimentais.

Em (ABRO A JANELA), pág.: 10, e (PRAIA DA COSTA-DO-SOL), pág.: 11, o autor faz o cruzamento temático dos dois textos. Tomemos o texto da pág.: 10 como texto A e o texto da pág.: 11 como texto B, para facilitar a nossa abordagem.

Vamos por partes: na 1ª estrofe do texto A, o sujeito poético descreve um movimento monótono do nascer do sol: “Abro a janela/ e fixo o olhar/ no sol que espreita/ devagarinho.”; contrariamente, ao texto B, a manhã nasce: “…inteira,/ redonda e geométrica/ salgada como o perfume/ de sândalo.” Na 2ª estrofe, em ambos textos, há uma revelação da esperança, “(afinal, as manhãs sobem/ como um grito de esperança)”, texto A; “e os primeiros arautos/ da maturação do amor.”, texto B. Ressalta-me a alegria que invade o sujeito poético.  Na 3ª estrofe, texto A, expressa-se a ideia de migração, de liberdade; e, no texto B, a ideia de tranquilidade, expressa com a metáfora de pureza, maciez: “aqui a manhã/ chega-me pura/ com as suas asas lisas/ como as gaivotas de setembro.”

Note este jogo que o sujeito poético faz, no texto B, nas seguintes estrofes 1ª e 3ª: “Aqui a manhã/ chega-me inteira” vs “aqui a manhã/ chega-me pura”. A escolha das palavras inteira e pura não foi propositada, assim como a similaridade na construção e arrumação dos versos: o número de versos por estrofes. O paralelismo estrutural. (Os dois textos têm 4 estrofes; as estrofes têm 2, 4, 8 versos, menos as primeiras estrofes que têm número diferente: 4 e 5 versos, respectivamente. Note como o poeta construiu a segunda estrofe, texto A e a quarta estrofe, texto B, págs.: 10 e 11: “afinal, as manhãs sobem/ como um grito de esperança” vs “nela a fluorescência da memória/ e a incandescência da esperança.”)

 

O Movimento, a liberdade na poesia arturiana

Percorrendo este livro, encontramos palavras que nos fazem inferir que a poesia arturiana exprime o movimento, a liberdade. A ideia de [movimento] é expressa com as palavras: ondas, mar, rio; águas corredoras; barcos; abordo (…) do rio Congo; (asas – as aves que empreendem voo.) O sentido da dialética é-no-los trazido, aqui, leve e docemente. Uma dialética que nos leva à compreensão filosófica da vida. À epistemologia do nosso cosmos. E quanto à liberdade, Armando Artur recorre às palavras vento, asas, etc., todavia encontramos versos elucidadores: por ex.: “Não importa esta fronteira/ que em vão nos demarca/ quando a viagem prometida/ ainda se anuncia.”, pág.: 20; “…grite e se erga livre/ um pássaro sem nome.”, pág.: 33.

Em EXURSÃO PELO RIO CONGO, EXCURSÃO PELA MEMÓRIA, pág.: 14, em que o poeta descreve uma excursão pelo rio Congo, em Maio de 1987; cujas condições são, plenamente, afloradas na terceira estrofe: dor, sofrimento, morte, fome: “na memória desenha-se minha gente:/ crianças guardando a fome, a sede, o luto/ por detrás do amargo sorriso.”; e, na estrofe seguinte, verso 5: “suas chagas abertas ao tempo.” O sujeito poético mostra-se-nos melancólico. E denuncia o sofrimento do povo: “falo apenas da dor que me acompanha/ do sangue que nasce no Índico/ e desagua no meu coração.” Aqui temos um Armando Artur que, segundo Kierkgaard, enquadrar-se-á nos seguintes estágios éticos e religiosos. É simples, Artur preocupa-se pelo outro. Quer ver o outro ‘bem’. O bem-estar do outro será a sua maior realização. Ah, os versos acalmam-no: “(…) somente alguns versos/ e alguns rostos que contemplei.”

 

O lirismo poético de Armando Artur

O lirismo poético transcorre, visivelmente, por exemplo, nos textos: CONFISÃO, pág.: 25; AQUI MURMURAVA, pág.: 28; APAGA O SOL, pág.: 31, e outros. É um lirismo que evidencia a figura da mulher; a mulher ganha um lugar especial no coração do poeta: “Felizarda sejas tu, mulher/ que trazes nos olhos e no ventre/ a palavra anunciada: ‒ luz”, pág.: 23, do poema MULHER; “Eu pinto uma mulher nua/ correndo a rédeas largas”, do poema CENÁRIO, pág.: 44.

Mas, o sujeito poético não é tão alegre em todo o processo de “amar”, em APAGA O SOL, a palavra sol não lhe é atribuída o significado de luz que alegra, mas um impedimento [oponente] para a realização ou a concretização do amor: “Apaga o sol/ que te rouba o luar/ (…) para que o amor aconteça/ nas tuas crinas.”; a lua o [adjuvante] do sujeito poético para a concretização do tão desejado, amor. (Furtei as palavras, em colchetes, usadas no modelo actancial.)

A temática da poesia de Artur

A poesia de Armando Artur é de intervenção social. Amor. A Temática de guerra é trazida de forma subtil, receosa: vale-nos as isotopias denunciadoras de tal atitude do poeta: em PAISAGEM INTERIOR, pág.: 43, “(…nenhum descampado?/ nenhuma relíquia/ dum projecto incendiando?// de longe/ somente uma brisa leve/ amortecendo a espera.// entretanto, o sangue/ e a neblina de fumo/ vão ganhando forma.”

Outra temática por entre linha

Por entre linhas, fica a temática de felicidade. Justiça. Este bem que é manifesto desejo de Armando Artur de vê-lo alcançado por todos os Homens.

 

Recursos estilísticos usados

Metáfora, parataxe, sinestesia (“…chega-me o perfume adocicado”, pág.: 10; “amargo sorriso”, pág.: 14), repetição, paralelismo estrutural, adjetivação, comparação. Contraste. Particularmente, a parataxe e a repetição são muito marcantes nos poemas deste poeta.

Armando Artur explora os elementos da natureza: arco-íris, espiga de milho, lagos, algas e outros aos quais já me referi, anteriormente.

 

O estilo

Antes de entrar, propriamente, no estilo arturiano, – se me permitir –, começaria por trazer a definição do conceito [estilo], segundo Von Rumohr, [Hegel, Estética, O Belo Artístico ou Ideal, 1964]. Estilo é uma adaptação, que se torna um hábito, às exigências internas da matéria em que o escultor esculpe as estátuas, com que o pintor compõe as suas formas.

No entanto, Armando Artur adopta um estilo próprio [tal como acontece, também, com outros escritores. Cada escritor tem o seu próprio estilo.] o estilo distingue uma obra artística da outra e um autor em relação a outro. Na pintura, é comum chamá-lo de traço.

Artur escreve versos curtos, mas profundos. Versos de cuja hermenêutica não se nos configura fácil. Concorre para isso a técnica usada pelo autor para a estruturar os seus textos; ele é bastante rigoroso na escolha de palavras, às vezes, e, propositadamente, com alguma repetição das mesmas palavras em vários textos, para sublinhar ou marcar [acho eu] com elas as isotopias que nos remetem à temática central da sua poesia. [‒ como vimos nos § anteriores.]

Para além do descrito, acima, torna, ainda, o seu estilo do poeta Artur o seguinte: riqueza lexical; jogo de palavras, através de criação de campo semântico, usando a combinação de substantivos e verbos; amor à Natureza. Uso de parênteses nos seus versos, abundantemente.

 

Síntese e fecho: O leitor deve ter notado a razão que me levou recorrer à frase de Rousseau, sobre as águas do rio para com ela iniciasse este ensaio e, a de Sartre. Era, exactamente, para sustentar esta ideia de movimento e a de liberdade que encontramos na poesia de Artur; a ideia da dialética. Da natureza. Da valorização da pessoa humana.

A sua ideia poética pode ser sintetizada no seguinte poema cujo teor é metafísico: (FUTURO: ESSA TRANSCENDÊNCIA), pág.: 39:

Onde

começam os caminhos

da transcendência?

 

no grito

inadiável sobre o tempo

 

ou no pequeno gesto

que sempre se principia?

 

onde

a imagem e o retrato

do sonho que nos habita?

 

ou ali onde a vida

se adia constantemente

e o mar e a madrugada

se enamoram nas areias?

 

 

Então, alguém pode perguntar-me: por que razão não é o poema que dá o título ao livro ‒ o centro da ideia poética deste autor? Não respondo. Deixo para reflexão.

Continuemos a estudar a poesia de Armando Artur. Esta poesia devia ser de leitura obrigatória nas nossas escolas.

Aquele abraço!

* Professor, escritor e ensaísta literário

Chonape.matosse@gmail.com

 

 

 

Aberta ao público a partir de 16 de Setembro, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, a exposição “OUTROS”, primeira apresentação individual do fotógrafo moçambicano Douglas Condzo.

Com curadoria de João Roxo, a exposição “OUTROS” apresenta um conjunto de fotografias inéditas de Douglas Condzo. As vidas de antepassados e as suas conquistas são relatadas, enquanto relações são estabelecidas entre contadores e ouvintes, os emissores da história e os seus recetores. Cada história estabelece um equilíbrio, entre aquilo que definimos como a realidade humana e a ficção, entre a objetiva e pouco flexível tangibilidade do que nos rodeia e o imaginário infinito que alcançamos quando fechamos os olhos.

A exposição “OUTROS” integra a 2ª edição do Festival Gala Gala, evento que decorre em Moçambique de 13 a 19 de setembro, e reúne variados eventos organizados por oito Centros Culturais baseados na cidade de Maputo e também a Embaixada da Espanha, numa programação conjunta que preenche os finais de tarde de toda a semana.

PERFIL DO AUTOR 

Douglas Condzo, fotógrafo e cineasta residente em Maputo, Moçambique, trabalha nas áreas da moda, documentário, retrato e storytelling. Em 2019 a sua primeira curta metragem intitulada “A voz de um pincel” retrata a poluição no bairro do Hulene, concretamente sobre a lixeira de Hulene e o seu impacto na comunidade local, que fez parte da seleção oficial da CineEco, Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, o único festival em Portugal dedicado à temática ambiental, no seu sentido mais abrangente. Em 2020 foi vencedor do festival FILMINHOS, organizado pelo Maputo Fast Forward em Maputo, com o seu curto documentário intitulado Hair Masters onde faz uma breve abordagem sobre a migração. Em março de 2021 expõe o projeto fotográfico Fragments na Eclectica Contemporary em Cape Town, numa breve abordagem sobre o comércio informal em Moçambique e em África. Em junho de 2021 expõe novamente o seu projeto Fragments na Youngblood Gallery em Cape Town.  Condzo procura iluminar e realizar momentos de ternura, complexidade e beleza através da imagem.

O artista multidisciplinar e activista, Mário Macilau, inaugura em finais do mês em curso, uma série diversificada de fotografias numa exposição intitulada “Sombras do Tempo”, um trabalho que faz parte do projecto “Ciclo de Memória” ambas exposições estarão patentes em dois diferentes espaços em Lisboa, Portugal.

A mostra é parte da série “Ciclo de Memória” é um projecto de pesquisa visual que reúne peças que retratam os edifícios coloniais abandonados e tornados legado ou património após a colonização, apesar de terem perdido as suas características de funcionalidade orgânica, cada fotografia localiza figuras, muitas vezes mulheres ou crianças, cuja imagem levita sobre difíceis encontros com as estruturas em ruínas que as envolvem. As fotografias evocam alguma melancolia, ao viver-se ao lado de despojos de uma zona devastada.

Com o “Ciclo de Memórias”, Mário Macilau faz a escolha do que é visível e do que deve estar oculto, ou por desvendar. “Aqui, os fantasmas não são as pessoas, mas o espelho de uma ideologia falhada – a ação moralmente defeituosa ou o colonialismo, com a proclamação da violência em nome do progresso”, diz o artista.

Macilau pesquisa a passagem do tempo, o espaço e a relação entre estes dois elementos com os seres vivos e como é que ambos se alteram com a passagem do tempo. Através do seu trabalho questiona também aspectos de identidade e das condições laborais ou ambientais.

No dia 30 de Setembro, Mário Macilau segue a inauguração da outra exposição individual ao centro de Lisboa, no Espaço Artroom, para apresentar “O Mundo Desmoronado”, que reflecte sobre a realidade actual através de uma pesquisa visual feita pelo artista em Moçambique.

O seu método artístico envolve um longo trabalho de pesquisa que passa pelo conhecimento cuidado das pessoas, imergindo em comunidades que documenta para compreender o lugar político do trabalho. As suas fotografias são deste modo um reflexo de processos e práticas socialmente orientadas que reconhecem o significado das imagens nas mudanças das atitudes sociais, mobilizando agenciamentos. O artista revela nesta exposição intervenções diárias das pessoas da classe trabalhadora e da comunidade em geral.

Por: Noemi Alfieri 

Investigadora/ Universidade Nova de Lisboa

 

No verso da cicatriz é o segundo romance do jornalista moçambicano Bento Baloi, editado em Portugal pela Ideia Fixa, do grupo Alêteia Editores, e em Moçambique pela Índico (ambos em 2021). O livro aborda os acontecimentos da história de Moçambique entre 1974 e 1992, ou seja, no intervalo de tempo que decorreu entre a assinatura do Acordo de Lusaka entre Portugal e a FRELIMO e o Acordo de Roma, que pôs fim à Guerra Civil Moçambicana, eclodida em 1977. Mencionadas explicitamente, essas datas ganham valor não só em função do marco que deixaram na vida política do país,mas também – e sobretudo – pelo reflexo e pelas consequências que tiveram na vida da população, na sua percepção do país, na sua forma de imaginar e viver a relação com o território e com as convulsões e mudanças que Moçambique viveu ao longo dos quase 20 anos que a narração aborda. A relação de Bento Baloi com a escrita vem de longe, tendo-se ele dedicado à redacção de peças de teatro transmitidas em emissões da Rádio Moçambique,de contos e poemas publicados em jornais e revistas, e da carreira jornalística que vem desenvolvendo há cerca de trinta anos. É este o caso em que podemos, sem sombra de dúvida, afirmar que muito temos do escritor na obra, como ele próprio esclarece, aliás, na “Nota final” que encerra o volume da edição portuguesa. A escolha do enredo tem, portanto, razões históricas, mas tenciona ao mesmo tempo homenagear aquela parte da história familiar que se funde e entrelaça com a colectiva.

Dividida em três livros (A ferida, O sangue e A cicatriz), a narração percorre o país, desde Maguaza (distrito da Moamba, província de Maputo) até Carico, passando por João Belo (hoje Xai-Xai), Inhambane, Quelimane e o Tetechegando, até a fronteira com o Malawi. A história de Bernardo Penicela Muhlanga e de Maria Helena, ambos originários de Maguaza, é assim o fio condutor de uma ficção que denota uma preocupação com a fé e com os acontecimentos à volta da comunidade das Testemunhas de Jeová em Moçambique a partir de meados do Século XX, mas que não se reduz à narração desta história. A violência do colonialismo antes e da guerra civil depois, as ingerências estrangeiras em Moçambique, os temas dorefúgio e das fronteiras, mas também do amor, são longamente abordados, numa narração na primeira pessoa e frequentemente no tempo presente, com um recurso estilístico que cola o leitor às páginas e o traz para o decorrer dos acontecimentos, aproximando-o tanto da vivência das personagens, como da crueza dos eventos

 A partir das primeiras páginas, fica evidente a pressão à qual o país esteve sujeito imediatamente após a Independência, que se refletiu, entre outras coisas, nos receios e na dificuldade geral da população em entender a escolha da comunidade Jeová em recusar qualquer alinhamento com a política, escolha essa que frequentemente foi encarada com desconfiança por parte de quem muito lutou contra um inimigo comum que muito sofrimento causou no povo moçambicano. Como o autorexplicita nas primeiras páginas:

“Não há dúvidas que as novas autoridades tenham alguns temores. Temem a reedição da tentativa de se desvirtuar a independência de Moçambique através dos acontecimentos de 7 de Setembro e 21 de Outubro que culminaram com a morte de centenas de pessoas nas ruas de Lourenço Marques. Temem a incursão de agentes da antiga PIDE-DGS que continuam a ter laços fortes com interesses coloniais em Moçambique. Temem a reacção de todas as forças, nacionais e estrangeiras, contrárias à independência de Moçambique e que podem pôr em causa a sobrevivência do próprio Estado.” (p. 38)

Neste contexto, quando o protagonista Bernardo é falsamente denunciado como sendo membro dos Jeovás pelo pai de Maria Helena, Secretário da aldeia e contrário à relação entre os dois, as longas viagens do jovem nosmachimbombos em direção aos Campos de Reeducação da zona norte do país são acompanhadas por certo sentimento de incredulidade. Consciente de que caiu numaarmadilha, Bernardo descobre o país ao mesmo tempo que descobre a violência e as contradições que são o preâmbulo da laceração que acontecerá nos anos seguintes, a ferida que dá o nome à primeira parte que constitui o livro.

Deparamo-nos, ao mesmo tempo, com a solidariedade e a determinação de uma comunidade outrora perseguida pelas autoridades coloniais pela ameaça que, segundo estas, constituíra para a chamada “unidade nacional portuguesa” e para a religião católica, outro pilar da doutrina salazarista. Desta forma, a mesma comunidade acusada em época colonial de predicar a “liberdade para todos” (posição, essa, considerada demasiado próxima do comunismo) foi, na fase de transição que caracterizou a altura imediatamente posterior à extinção dessa mesmaordem colonial, isolada por causa da sua neutralidade. OsCentros de Reeducação para os quais as Testemunhas eram enviadas não foram, contudo, os únicos existentes naquela época no país. O romance aborda também a questão da reeducação dos chamados marginais, ou “improdutivos”, civis desprovidos de documentos que foram na época enviados para a norte do país, com o intuito de favorecer o povoamento das zonas mais remotas e com densidade populacional baixa ou quase nula. Estes também aparecem na narração, representando um universo distinto do das comunidades das Testemunhas, a este acomunado, porém, pela coerção e pelo desespero gerado pelo deslocamento e pelas duras condições da reinstalação, ganha a golpes de machado cortando o denso capim.

 A fronteira, porém, não é só a fronteira interna, nem selimita à da linha Ressano-Garcia que garante a ligação entre Maputo e a África do Sul. Envolve, também, a fronteira com o Malawi, outrora transposta pelas comunidades de Testemunhas que se instalaram na zona de Carico onde, a partir de 1976, aldeias de malawianos e moçambicanos formaram-se sob a vigilância das forças militares e dedicando-se ao trabalho agrícola nasmachambas. Assim, a fronteira é transposta pelos civis das aldeias durante as fugas dos ataques de guerrilha depois da eclosão da guerra civil: é nesta altura que se aborda, após a questão das torturas, das violências contra os civis e das chacinas, a questão do refúgio, mas também da ingerência estrangeira na vida política do país e na precariedade e insuficiência do sistema de ajuda às populações por parte da comunidade internacional. Transposta a fronteira com o Malawi, alguns entre os maiores campos de refugiadosmoçambicanos, como o de Mulanji, instituídos por aquelegoverno com a colaboração das Nações Unidas e da Cruz Vermelha, representam mais uma vez um ponto de passagem precária, longe de serem um porto de abrigo para as populações que fogem dos saques e das matanças nas aldeias. Populações, essas, que enfrentam o risco de minas nas matas que separam os dois países. A coerção política e o doutrinamento, são presentes, tal como a sensação de invisibilidade que acompanha as deslocações:

“O cortejo arranca para uma longa viagem que atravessa Malawi ao meio. Nas vilas e aldeolas por onde a coluna passa, há sempre vendedores ambulantes que se desinteressam imediatamente assim que descobrem a natureza dos passageiros: refugees. Como quem diz «nem têm onde cair mortos».” (p. 202)

A  hipocrisia do apoio internacional irrompe tanto na denúncia das condições dos campos, da sua arbitrariedade e submissão a interesses políticos, como na insensibilidade das missões humanitárias e académicas, interessadas ao estudo de objectos e da cultura moçambicana numa lógica extractivista, que chega a ser isenta de sensibilidade e empatia para com a situação extrema que a populaçãoenfrenta. A fronteira é, assim, precária, representada por uma estrada de terra batida que só é transponível poralguns, e cuja travessia lembra simbolicamente a fronteira entre o tempo antes e depois da eclosão da guerra. Da mesma forma, as pessoas e as suas vivências convertem-se em testemunhas vivas da divisão. Como narra Maria Helena, uma das protagonistas:

“O velhote vira-nos as costas e segue o seu caminho. Volta ao trilho que separa os dois países. É como se ele próprio fosse a fronteira. A perna e o braço do lado direito estão no Malawi acomodados num campo de refugiados qualquer vivendo em tendas das NaçõesUnidas e alimentando-se de donativos quando não são desviados. A perna, o braço, o olho esquerdo e sobretudo o coração estão em Moçambique vigiando uma fortuna de terras que viraram mato denso cheio de minas. Ele caminha em passo firme e lento até desaparecer com a estrada na linha do horizonte.” (p.209)

A figura de Maria Helena, tal como a de Sofia e Nélson Chiláule com os quais tanto o percurso dela como o de Bernardo se entrecruzam, faz de contraponto à violência e traz para o campo a ideia de solidariedade em toda a sua complexidade. Determinada a viver a sua vida com o homem que ama, o desespero causado pelas condições do país e pela separação não impede à Maria, nem às outras figuras femininas do romance como a sua mãe, Sofia e Zuleica, de serem resolutas e tenazes e de constituir umponto firme para comunidade e para os seus homens. É a sua força que faz com que os homens continuem a resistir imaginando o futuro que elas representam e, diríamos, não é um mero acaso o facto de a parte do livro em que o seu ponto de vista é mais presente ser “O sangue”. As mulheres na guerra são despidas não só dos seus pertences, mas violadas na sua intimidade, os alvos mais fáceis da crueza e dureza do conflito. Elas, desde as mais novas até às mamanas, vivenciam na sua pele a violência sem exercê-la, a guerra sem pegar nas armas, contrariando e contrastando, contudo, as decisões dos homens quando determinadas a escolher o seu rumo.

A esperança e a determinação do povo moçambicano,constante durante e depois da época colonial reflete-se nas palavras de Nélson, que fazem parte da primeira parte do livro, mas que poderiam, igualmente, integrar a última, no horizonte que parece ser mais uns dos fios condutor da narração:

“Mas os homens da minha terra sempre tiveram um horizonte. No seu submundo, redes aconteceram, conexões solidificaram-se, sangue derramou-se e a subversão triunfou. Os homens da minha terra voltaram a pisar com firmeza a sua própria terra, o seu próprio chão, e voltaram a respirar o perfume das flores da vida.” (p. 51)

São estas conexões, diz-nos o romance, que permitem que a ferida sare numa cicatriz. Não será essa a solução que Bento Baloi propõe para o florescimento do país, para que todos os moçambicanos possam respirar a vida plenamente?

O artista plástico Mankew perdeu a vida esta segunda-feira, em casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Mankew estava doente há algum tempo.

Em Outubro do ano passado, Mankew perdeu a esposa Alice Uamba. Nessa altura, o artista de Marracuene, Província de Maputo, já não gozava de boa saúde. Viu a esposa partir e, assim, ficou a travar, sem a companheira, uma difícil luta pela sobrevivência. Mankew não se deixou abalar, no entanto, a sua saúde não colaborou. Além do peso da idade já avançada, o artista teve de enfrentar mais uma difícil realidade: a vista começou a falhar. Sem visão, não há pinceis, paletas de cor, telas, enfim, não há pintura ou desenhos. Mankew susteve a dor de perceber que a visão se esfumava vagarosamente e até participou numa colectiva intitulada Tempos e percursos em 3D, exibida no Museu Nacional de Arte, com os seus companheiros Noel Langa e Makamo.

Este ano, além da saúde frágil, o artista plástico perdeu um filho há três meses. Na verdade, foi a terceira vez que Mankew perdeu um filho seu. Entre o luto, a vontade de pintar e a vista sem nenhum vigor, Mankew ainda foi debilitado por um tumor maligno no ouvido. Muita coisa para um só homem que, há nove meses, preparava uma individual que já não vai acontecer na sua presença. Hoje, dia 13 de Setembro de 2021, por volta das 17 horas, Mankew Mahumana cedeu à morte que bateu à porta da sua casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Morreu, surpreendendo os filhos que até aí cuidavam dele.

Além de um grande artista, para Alda Costa, Mankew é um homem de uma geração importante moçambicana, um artista de transição, originário das zonas rurais, que vai à cidade colonial, que não está aberta a outras expressões culturais, para expor a sua arte. “Eu diria que Mankew faz parte de um conjunto de artistas tutelares, de uma geração que viveu o contexto colonial e que se afirmou nos primeiros anos da independência. Era uma pessoa simples, não se expunha muito”, afirmou, esta segunda-feira, a historiadora de arte.

Nos momentos altos da sua carreira, Mankew teve a oportunidade de mostrar no estrangeiro o que era Moçambique culturalmente. O artista participou em várias exposições e intercâmbios artísticos na Alemanha, onde recebeu uma medalha da Academia de Belas Artes. “É uma pessoa que só nos merece muito, muito respeito”, acrescentou Alda Costa, “por isso desejamos que a sua obra e da sua geração seja estudada, porque é a melhor forma de valorizarmos o artista. Acho isso fundamental. Não podemos fazer a história de um certo período sem referência a figuras como Mankew. Temos de continuar a estuda-lo”.

Uma das últimas exposições de Mankew foi a colectiva Simbiose, que esteve patente na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Nessa mostra, Mankew expôs com Sebastião Matsinhe, para quem Moçambique perdeu um pai, que muito contribuiu para inspirar artistas do seu tempo. À semelhança de Alda Costa, Matsinhe defendeu, esta segunda-feira, que a melhor forma de honrar Mankew é estudando o seu trabalho artístico, produzido ao longo de várias décadas.

Quando, em Dezembro do ano passado esteve numa das actividades de promoção da colectiva Tempos e percurso em 3D, no Museu Nacional de Arte, Mankew afirmou determinado: “Com esta exposição, nós quisemos dizer que ainda estamos aqui. Ainda estamos vivos e com a nossa arte. A exposição é para lembrarmos aos amantes da nossa arte, aos que nos apoiam, aos nossos governantes que continuamos com talento forte e cada vez mais forte, em relação ao que fizemos no passado”. O artista disso isso mesmo a justificar uma individual em preparação. Bastava que houvesse saúde.

Mankew Mahumana nasceu 1 de Janeiro de 1934, no Distrito de Marracuene, na Província de Maputo. Com 20 anos de idade, emigrou para trabalhar nas minas da África do Sul. Algum tempo depois, voltou a Moçambique e aí começou a pintar na área da construção civil. Lá esteve cinco anos. Quando se fartou, preferiu investir na agricultura, no seu distrito natal. A partir de 1971, decide investir nas artes plásticas, o que lhe garantiu muitas oportunidades, como exposições e intercâmbio artístico nos seguintes países: Zimbabwe, África do Sul, Egipto, Tanzânia, Alemanha, Áustria, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Itália, Cuba, Nigéria e Portugal.

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