O País – A verdade como notícia

O Governo autorizou a reabertura de teatros e centros culturais. Alguns fazedores de arte e profissionais da área cultural já têm exposições agendadas, mas entendem que o número de pessoas permitidas actualmente devia ser um pouco maior.

Com um protocolo rigoroso de segurança sanitária e limitação da capacidade máxima, as salas de teatros e centro culturais já estão abertos ao público, aliás estes últimos são a “cereja no topo do bolo”, pois sem eles a manutenção, não só das instalações teatrais assim como dos actores fica condicionada.

Face a esta reabertura ao fim de dois meses, os actores estão eufóricos.

“Estou muito feliz, já sentia falta deste calor do público”, disse gargalhando Cesarina Cossa, actriz

Como não há bela sem senão, as novas regras geram desconforto por parte dos gestores. O primeiro grito de socorro vem da Associação Moçambicana de Teatro, que afirma não ter motivos para festejar, pelo menos por enquanto, “Estamos a ser violentamente agredidos com estas medidas que não compensam, o teatro desempenha um papel importante para educar e consciencializar a sociedade, em tempos de crise que passamos, outro aspecto pretende-se as contas que temos por pagar, os outros sectores foram contemplados como do desporto por exemplo e nós, como ficamos? questionou Alvim Cossa, Presidente Da Associação Moçambicana De Teatro

A Companhia de Teatro Gungu não disfarça a satisfação pela reabertura, tanto que vai brindar ao público nos próximos três meses, com a reestreia do espectáculo intitulado ˝Lar Amargo Lar˝.

A gestora da companhia considera que a limitação determinada no Decreto do Conselho de Ministros, sobre a Situação da Calamidade Pública, não vai permitir cobrir os prejuízos na colecta de receitas, depois de meses com as portas encerradas.

˝Durante este tempo que estivemos encerrados, as contas de água e luz não deixaram de vir sequer de serem pagas˝, concluiu Juju Rombe, actriz e gestora Gungu.

No meio do desalento, existe quem já corre atrás do prejuízo. É o caso do Centro Cultural Brasil-Moçambique, que também tem eventos agendados para os próximos dias. Os centros culturais têm agora a oportunidade de multiplicar as actividades.

Para que continuemos com as gargalhadas estampadas no rosto ao assistir uma peça, o caminho é claro…Usar máscara sempre que estiver no recinto cultural e não só. E por fim,não menos importante, fazer a pré-marcação e chegar ao local com a devida antecedência. Lembrando que as salas não devem exceder 30% da capacidade máxima.

O sequestro do fujão ou o desamparo das flores no escuro é o título da história de Miguel Luís que se destacou na edição 2020 do Concurso Literário Maria Odete de Jesus. O anúncio foi feito esta terça-feira.

 

São 10 horas em Sintra, Lisboa. O escritor Sérgio Raimundo (Poeta Militar) pega no seu celular e informa ao amigo Miguel Luís que em Portugal chegam boas notícias de Moçambique. Como que excitado pela novidade revelada pelo autor de A ilha dos mulatos, Miguel Luís interrompe o trabalho por breves minutos e vai ao Facebook. Lá vê um post do escritor Pedro Pereira Lopes, dando a conhecer que O sequestro do fujão ou o desamparo das flores no escuro é o grande vencedor do Concurso Literário Maria Odete de Jesus 2020. Nesse instante, o prémio logo significou ao laureado reconhecimento de um trabalho contínuo que envolve muita leitura, escuta e escrita, e, claro, soou-lhe como uma voz especial que lhe sussurra aos ouvidos: “coragem, Miguel!”.

Depois de ver a publicação sobre a atribuição do prémio ao seu texto, Miguel Luís entrou em contacto com a organização do prémio, conforme a recomendação, já que a organização não conseguia o contactar. E o autor de O sequestro do fujão ou o desamparo das flores no escuro compreendeu que ali não havia equívocos. De facto, a sua narrativa infanto-juvenil, que explora o drama do sequestro e o tráfico de menores em Moçambique, destacou-se num concurso constituído para incentivar o gosto pela leitura, bem como a valorização da produção literária.

A escrita de O sequestro do fujão ou o desamparo das flores no escuro começou com uma voz que andava na cabeça do autor, a gritar memórias de alguns episódios da sua infância. “À determinada altura, a voz tornou-se muito presente e incómoda. Quando vi o regulamento do concurso, pensei que seria interessante juntar o útil ao agradável e comecei a escrever. No fim da primeira versão do texto, notei que se tratava de uma narrativa que ia para além da minha infância”, explicou Miguel Luís, esta terça-feira, a partir de Sintra, onde trabalha.

Ao compor a sua história, Miguel Luís quis expor que o drama do sequestro e o tráfico de menores roem o sorriso das crianças e o futuro do país. “Por isso que, para mim, escrever este livro serviu como um acto de resistência contra alguns dos vários silêncios que fazemos como nação. O sequestro do fujão ou o desamparo das flores no escuro é para mim um grito contra aqueles que tentam transformar as crianças em flores murchas”.

A história de Miguel Luís foi escrita entre Janeiro e Fevereiro deste ano, tendo-se destacado num concurso que teve 16 participantes. A distinção no Concurso Literário Maria Odete de Jesus contempla um valor pecuniário de 50.000 meticais, além da edição em livro. Quanto à entrega do prémio, será Novembro, em Maputo.

A edição 2020 do Concurso Literário Maria Odete de Jesus, promovido pela Universidade Politécnica, esteve aberta à literatura infanto-juvenil (prosa). O júri foi constituído por Gilberto Matusse (professor de literatura, presidente), Maria João de Ataíde Carrilho Dinis (pesquisadora de língua portuguesa) e Teresa Noronha (editora).

 

O autor Miguel Luís

Miguel Luís José nasceu em Maputo. Frequentou o curso de Licenciatura em Relações Internacionais e Diplomacia no Instituto Superior de Relações Internacionais (Maputo), o qual interrompeu em 2016, para tirar o curso de Licenciatura em Direito na Universidade de Lisboa, onde foi tutor da cadeira Economia II do primeiro ciclo, e também frequentou as pós-graduações em Ciência da Legislação e Legística e Pós-graduação em Corporate Finance. Actualmente, é Advogado-Estagiário na Abreu Advogados, Presidente do Grupo Especial de Jovens Advogados da Federação dos Advogados de Língua Portuguesa e frequenta o Mestrado em Estratégia de Investimento e Internacionalização no Instituto Superior de Gestão, em Lisboa. Tem colaborado em publicações com jornais e revistas moçambicanas, como O País, Revista Literatas, Pirâmide, e internacionais, como os jornais portugueses Público e É Agora. Em 2015, foi distinguido com a Menção Honrosa do Prémio Eloquência Camões 2015 e, em 2021, foi distinguido com a Menção Honrosa do Prémio Hernâni Cidade 2020.

Durante 30 dias, o Prémio Literário Nó da Gaveta recebeu propostas de textos infanto-juvenis de todas as regiões do país. Dos 65 contos submetidos ao concurso, 63 foram aprovados. Os outros dois não passaram do crivo da organização por terem violado as recomendações previstas no regulamento.

De acordo com a nota de imprensa sobre o concurso, os textos foram escritos por autores com idades compreendidas entre 12 e 43 anos, sendo 46 homens e 19 mulheres, de todas as províncias do país. “Os textos, na sua maioria, descrevem uma infância perturbada pela pobreza, guerra e desrespeito aos mais elementares direitos da criança, mas também, por outro lado, exaltam a infantilidade como a melhor fase do ciclo da vida e projectam melhores dias, onde a esperança é a tónica reinante”, avança a Associação Cultural Nkaringanarte.

Segundo Elcídio Bila, representante da Nkaringanarte, a participação em massa já denota a sede que muitos escritores têm em ver as suas obras publicadas e, por isso, acredita que esta iniciativa desencadeada em parceria com a Kuvaninga cartão d’arte é de salutar à medida que vai permitir, pelo menos, a publicação de três obras. Para Bila, uma das vantagens do concurso é permitir que as províncias do Centro e Norte também possam ter um vencedor cada, o que obriga, tal como preconiza o certame, a publicação das suas obras, um exercício inicial por parte da Kuvaninga que durante nove anos se viu impedida de escalar outros pontos do país devido às limitações financeiras.

Além do concurso permitir o lançamento de três obras inéditas, de autores que ainda não têm livros publicados, irá garantir que outros palcos geográficos conheçam a plataforma de livros com capas de cartão reaproveitado. “Já estivemos na Beira, em 2019, durante a Feira do Livro Infantil da Kulemba (FLIK), onde desenvolvemos actividades de pintura a capas de cartão em crianças para o livro de Mauro Brito, O Luminoso Voo das Palavras, mas esta será a primeira vez que alargaremos a actividade para pessoas de todas as idades”, disse Elcídio Bila, acrescentando que se soma a viagem à província de Nampula, a partir da Ilha de Moçambique, como um novo destino para este tipo de iniciativas.

O Prémio Literário Nó da Gaveta foi lançado a 18 de Agosto e pretende distinguir três trabalhos inéditos de ficção, sendo um no Sul (Maputo, Gaza e Inhambane), outro no Centro (Manica, Sofala, Tete e Zambézia) e outro ainda no Norte (Nampula, Niassa e Cabo Delgado).
As três obras premiadas serão editadas pela Kuvaninga cartão d’arte, com recurso a capas de cartão reaproveitado, e os seus autores terão uma gratificação pecuniária de 10 mil meticais cada.

Quito Tembe é Director da Plataforma Internacional de Dança Contemporânea-KINANI e foi indicado como novo curador associado do International Tazmesse, plataforma profissional de dança contemporânea na Alemanha.

Assim, de acordo com a nota de imprensa sobre o assunto, junto dos outros curadores e em coordenação com a direcção do evento, a equipa de Quito Tembe será responsável pela selecção das apresentações que farão parte da programação do Tanzmesse internacional nrw 2022, bem como a composição do programa de espectáculos, dos Open Studios e Pitches.

No entendimento do Director do KINANI, citado no comunicado, a indicação constitui um grande ganho para o país e para o continente, na medida em que, com a sua participação no processo de selecção dos espectáculos, pode influenciar a escolha de trabalhos de jovens da região e moçambicanos.

Quito Tembe também é co-curador do Festival Afro-Vibes 2021, em Amsterdão, Países Baixos, e membro da direcção artística do Festival Danse L’Afrique Dance 2021, em Marrakech, Marrocos. Agora, está no Tanzmesse, importante ponto de encontro para criadores internacionais de dança. “A cada dois anos, no final de Agosto, mais de 2.000 expositores e visitantes internacionais se reúnem em Düsseldorf para apresentar um amplo espectro de expressões estéticas e práticas artísticas. A próxima edição (14ª) decorrerá de 31 de Agosto a 3 de Setembro de 2022 em Düsseldorf”, acrescenta a nota de imprensa: “No Programa de Performance da internationale tanzmesse nrw, os artistas apresentarão obras seleccionadas no palco, ao ar livre e de forma digital para os visitantes internacionais e um público amante da dança”.

Sangue negro, de Noémia de Sousa; Nós matamos o cão-tinhoso, de Luís Bernardo Honwana; Silêncio escancarado, de Rui Nogar; O regresso do morto, de Suleiman Cassamo; A inadiável viagem, de Luís Carlos Patraquim; Terra sonâmbula, de Mia Couto; e País de mim, de Eduardo White; são os títulos que fazem parte da colecção de livros que as bibliotecas municipais de Maputo receberam, esta quarta-feira, do Porto de Maputo.

Segundo avança o comunicado municipal, as obras são destinadas primordialmente a prover as bibliotecas escolares e públicas, no intuito de promover o gosto e o hábito de leitura, sobretudo junto dos jovens, que de outro modo não teriam acesso às obras de autores nacionais. “Pretende-se, finalmente, resgatar na sociedade moçambicana o valor e o prestígio social do livro e a sua centralidade no quotidiano. Uma sociedade não se constrói sem cultura”.

No comunicado lê-se ainda que através da parceria com a empresa Porto de Maputo, o Conselho Municipal de Maputo conseguiu concretizar mais uma acção cultural em prol dos munícipes, ao materializar os benefícios proporcionados pelos hábitos de leitura, resultando no recebimento de mais de 70 livros, que serão colocados na rede das bibliotecas municipais.

O Conselho Municipal de Maputo entende que a leitura, além de fortalecer questões identitárias e de cidadania, contribui para o fortalecimento de uma sociedade mais justa e inclusiva. “O Conselho Municipal de Maputo está sempre com as portas abertas para desenvolver qualquer parceria que gere esse tipo de benefício. Quando optamos em colocar as bibliotecas (num total de 10) nos distritos municipais, junto dos munícipes, sabíamos que precisaríamos da colaboração da sociedade/empresários e que não teríamos dificuldades em encontrar interessados em apoiar esse projecto”, afirmou Neyma Madaugy, chefe das bibliotecas municipais de Maputo.

O primeiro livro de Aurora Psico será lançado esta quinta-feira, em Maputo. Intitulado Rute, o livro retrata um conjunto de vivências e histórias de superação.

Esta quinta-feira, a partir das 16 horas, no Montebello Indy Village, na Cidade de Maputo, Aurora Psico vai lançar o seu livro de estreia. Rute, de forma resumida, é uma história baseada em factos reais, que retrata a vida de uma determinada família moçambicana. Além do título do livro, Rute é o nome da protagonista da narrativa, pretexto, afinal, para partilhar vivências e momentos de superação.

Embora a narrativa parta de episódios reais, não se trata de uma descrição de eventos com precisão, antes reflecte um toque novelesco.

Rute é um livro com 260 páginas, escrito como quem aprende. “Escrever este livro foi como percorrer um caminho igual ao de uma criança, dar os primeiros passos cambaleante, titubeante, mas com a certeza de que se deve percorrer tal caminho; foi como aprender a caminhar”, explicou a escritora.
Nesta primeira aventura pelo mundo dos livros, Aurora Psico gostaria que os seus leitores captassem a importância da família na construção de indivíduos solidários. Ou seja, que Rute seja uma aurora. “Espero que durante a leitura compreendam que o lar é um lugar de amor, de paz, de solidariedade e que tenham a consciência de que todos somos partes de um ecossistema. Devemos nos apoiar uns aos outros e não sermos focos de conflito”.

O primeiro livro de Aurora Psico conta com o prefácio de Benvida Levi, que também vai apresenta-lo esta quinta-feira. Além da apresentação, o evento terá actuações de Lucrécia Paco e Roberto Chitsondzo.

Aurora Psico nasceu em Tete e fez o ensino primário e secundário na Zambézia. Apaixonou-se pelos livros muito cedo, por influência do seu pai. É activista no empoderamento e desenvolvimento das jovens. Tem um Mestrado em Finanças para o Desenvolvimento, pela Universidade de Stellenbosch (África do Sul), e uma licenciatura em Administração e Gestão de Empresas, pela Universidade A Politécnica. Aurora Psico tem certificações em Gestão de Projectos pela Universidade de Cape Town (África do Sul) e em Consultoria Mindfulness pela Escola Transpessoal de Portugal.

O escritor Agnaldo Bata participa, dia 25, na mesa-redonda “Angola-Moçambique, será que a literatura africana lusófona conta outras histórias? Olhares cruzados”, na primeira edição da Feira do Livro Africano em Paris.

Próximo sábado, arranca a primeira edição da Feira do Livro Africano em Paris. No evento, estarão representados 30 editores e livreiros e 200 autores. Um dos autores em causa é Agnaldo Bata, que vai participar numa mesa redonda com o escritor angolano Ondjaki, tratando do tema “Angola-Moçambique, será que a literatura africana lusófona conta outras histórias? Olhares cruzados”.

Na capital francesa, a sessão irá decorrer entre às 11h30 e às 12h30, tendo como moderadora Maria Teresa Salgado, professora de literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A participação de Agnaldo Bata na sessão literária acontece graças ao convite feito pela Livraria Portuguesa-Brasileira em Paris, que se dedica à promoção da literatura dos países falantes de língua portuguesa. Segundo entende o autor de Na terra dos sonhos e de Sonhos manchados, sonhos vividos, a sua participação na feira é “uma oportunidade ímpar de conhecer outros artistas africanos e com eles trocar experiências sobre a produção literária no nosso continente. Estar ao lado do Ondjaki, um ícone da literatura angolana e mundial, é uma grande honra”.

A primeira edição da Feira do Livro em Paris é dedicada exclusivamente às literaturas africanas e a programação do evento inclui sessões de desfiles de moda, exposições, música e projecção de filmes. Segundo constatou Agnaldo Bata, trata-se de um evento que se pretende anual, com a ambição de descobrir e fazer eco da pluralidade da escrita de um continente em plena mutação.
Em Paris, Agnaldo Bata e Ondjaki, em princípio, serão os únicos escritores da CPLP que irão participar numa feira maioritariamente dominada por artistas provenientes de países de língua oficial francesa e inglesa.

A mesa-redonda “Angola-Moçambique, será que a literatura africana lusófona conta outras histórias? Olhares cruzados” será presencial, no Mairie du 6è arrondissement de Paris. Depois da mesa redonda, Agnaldo Bata e Ondjaki irão assinar autógrafos no segundo dos três dias do evento literário.

Por: Editora Kapulana

Em 20 de Setembro de 2021 completam-se 20 anos do lançamento da primeira edição de Sangue Negro, de Noémia de Sousa, a “Mãe dos poetas moçambicanos”

20 de Setembro é uma data a ser destacada em nossos calendários! Foi nesse dia, em 1926, que nasceu Noémia de Sousa, escritora moçambicana, a Mãe dos Poetas Moçambicanos.
Em 20 de Setembro de 2001, foi publicada a primeira edição de um dos livros mais importantes da literatura moçambicana – Sangue negro – colectânea de 46 poemas, escritos entre 1948 e 1951, por Noémia de Sousa (1926-2002). Essa primeira edição, da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), foi organizada por renomados pesquisadores – Fátima Mendonça, Francisco Noa e Nelson Saúte – que contribuíram com textos importantes que fazem parte da obra. A capa, de António Sopa, é um ícone da arte africana.
10 anos depois, em 2011, a editora Marimbique, sob a direcção de Nelson Saúte, lançou a segunda edição do livro de Noémia de Sousa. Essa edição não só é uma homenagem à escritora, mas um marco na produção editorial de Moçambique.
Em 2016, em Novembro, mês da Consciência Negra, a Editora Kapulana publica no Brasil Sangue negro, cujos poemas já faziam parte do universo dos leitores brasileiros, mesmo não havendo ainda uma edição nacional até aquele momento. Os versos de Noémia de Sousa finalmente aportaram em território brasileiro. Um ano antes vieram pelas mãos do consagrado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa para a casa da Kapulana.
A edição brasileira traz magnífica capa de Amanda de Azevedo, ilustrações internas inesquecíveis de Mariana Fujisawa, que nos fazem retornar à leitura de cada poema, e cuidadosa coordenação editorial de Rosana M. Weg. Os importantes ensaios da primeira edição, de Fátima Mendonça, Francisco Noa e Nelson Saúte, foram mantidos.
Além disso, a Kapulana recebeu de muitos, generosamente, textos e artes em homenagem a Noémia de Sousa, que fazem parte da edição brasileira. Encontramos aí uma conversa de inestimável valor entre a arte de Noémia de Sousa e a de emocionados amigos, parentes, conhecidos, artistas plásticos, poetas, prosadores, estudiosos, activistas culturais; mais jovens, mais velhos; brasileiros, moçambicanos, angolanos, portugueses, goeses… A todos, a Kapulana não se cansa de agradecer:
Adelino Timóteo, Aldino Muianga, Ana Mafalda Leite, Calane da Silva, Carmen T. Secco, Clemente Bata, Domi Chirongo, Fátima Mendonça, Francisco Noa, José dos Remédios, José Luandino Vieira, José Luís Cabaço, Lucílio Manjate, Luís Carlos Patraquim, Marcelino Freire, Mariana Fujisawa, Mia Couto, Nazir Ahmed Can, Nelson Saúte, Rita Chaves, Roberto Chichorro, Sílvia Bragança, Suleiman Cassamo, Tânia Tomé, Ungulani Ba Ka Khosa e Virginia (Gina) Soares.

Os poemas de Noémia de Sousa impressionam por sua universalidade e pelo impacto que têm ainda hoje nas vidas de pessoas de várias nacionalidades. Seus versos atravessam mares, ares e terras, e encontram ressonância em todos os cantos do mundo. São lidos ou ouvidos por pequenos grupos, em reuniões familiares, em saraus; em revistas, em antologias e livros didáticos; nas redes sociais e em eventos maiores como nas feiras literárias.
Hoje, a voz de Noémia de Sousa ecoa dramaticamente por sua actualidade, por expressar o sofrimento e a luta contra o racismo, a intolerância e a opressão. Os versos de Noémia, ao mesmo tempo que emocionam por sua beleza, alertam o leitor e o ouvinte para que se mantenham sempre atentos e firmes na luta contra o opressor.
Um pouco da voz de Noémia:
NOSSA VOZ (06/08/1949)
Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques de guerra
nossa voz negra gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando!

Se estivesse viva, Noémia de Sousa completaria, hoje, 95 anos de idade. 20 de Setembro é importante por isso e, também, porque foi nesse dia que a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) finalmente editou Sangue negro. Reconhecendo a importância da obra literária e do grande feito de Nelson Saúte, Fátima Mendonça e Francisco Noa, na edição da obra, esta segunda-feira, o jornal O País revive uma escrita e uma voz importantíssima para Moçambique.

“Noémia de Sousa não é apenas uma grande dama da poesia moçambicana. É, também, uma grande dama da poesia africana em língua portuguesa, tendo em vista sua voz ardente ter ecoado por diversos espaços e compartilhado seu grito com outras vozes, em prol dos que lutaram e clamaram pela liberdade dos oprimidos, entre os anos 1940-1975, no contexto do colonialismo português”. Assim inicia o prefácio da versão brasileira (Kapulana – 2016) de Sangue negro, assinado por Carmen Lucia Tindó Secco. A afirmação da professora brasileira resume a posição defendida por Teresa Manjate, professora de literaturas africanas de língua portuguesa, nesta ocasião em que se celebram os 20 anos de um livro que é parte de Moçambique.

Teresa Manjate conheceu Noémia de Sousa em Lisboa, em 1988, quando lá se encontrava a estudar. Mais tarde, já em Maputo, a professora universitária organizou uma conferência com a “mãe dos poetas moçambicanos” no Camões. Na poeta, Teresa Manjate reconhece uma figura incrível, combativa, importante para vários movimentos literários dos anos 40 do século passado a esta parte, conforme também defende Secco. Entretanto, ainda que a sua obra continue com eco em Moçambique, alimentando a alma de todo um povo, Noémia de Sousa é uma figura pouco conhecida com profundidade. Por isso mesmo, um dos projectos que Teresa Manjate tem é produzir uma biografia detalhada sobre Noémia de Sousa, de modo que os moçambicanos a possam conhecer ao pormenor. “Apesar desta dinâmica à volta do pensamento de Noémia de Sousa, eu penso que falta uma coisa: uma trajectória bem desenhada, uma biografia profunda de todo o percurso desta senhora que foi poetisa, agora diz-se mais poeta, tradutora e jornalista. Nós vamos conhecendo fragmentos desta vida tão forte e tão dinâmica”.

Dito isso, a professora de literaturas africanas de língua portuguesa revelou a novidade. Eu não sei se deveria guardar como surpresa para quem quer seja, mas eu estou a pensar seriamente em fazer uma biografia, seguindo a trajectória desta escritora, não só por causa da escrita, mas por causa da dimensão do trabalho que ela fez em torno da palavra, do pensamento e da ideia de resistência. É todo um percurso tão cheio, tão vivo, que muita coisa se nos escapa. Há muita coisa que nós não temos acesso porque nos circunscrevemos muito a Moçambique. Há toda uma trajectória que é importante que se siga, que se pensa e se reflicta”.

Teresa Manjate pensa em Noémia de Sousa, igualmente, como uma das primeiras escritoras moçambicanas que fez a ponte entre a imprensa e a literatura, com colaborações em Moçambique, Portugal ou Brasil.

Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu no dia 20 de Setembro de 1926, na Catembe, Lourenço Marques, hoje Cidade de Maputo. Começou a ler aos quatro ou cinco anos de idade e aos 16, quando morreu o pai, passou trabalhar para ajudar na educação dos irmãos. A essa altura, passou a estudar Comércio à noite. “A combatividade poética e política de seus poemas, assinados com as iniciais N. S. ou com o pseudónimo literário Vera Micaia, acarretou à autora o exílio. Junto com João Mendes e Ricardo Rangel, foi presa por atacar, frontalmente, o sistema colonial português em Moçambique”, escreve Carmen Lucia Tindó Secco no prefácio da edição Kapulana de Sangue negro.

Na introdução da primeira edição de Sangue negro, editada a 20 de Setembro de 2001, Nelson Saúte conta como foi editar a obra que hoje, certamente, é uma das grandes referência literárias de Moçambique:

“A primeira vez que aterro em Lisboa, cometo a ousadia de telefonar à Noémia. Levava comigo o seu número de telefone, dado pela Fátima Mendonça. Começa tudo aí, nesse encontro em Algés, festejando a nossa independência – era Junho! –, comendo feijoada e lendo Carlos Drummond de Andrade. Nos anos que em Portugal errei como estudante, fui visita constante de Noémia de Sousa. Hoje, quando lá vou, não posso regressar sem a ver.

Em todos estes anos insisti, como o fizeram muitos, na edição dos seus poemas.

Noémia arranjou todos os subterfúgios, mas há alguns anos, depois de ter recusado convites de Manuel Ferreira, Michel Laban, entre outros, ela acedeu publicá-los.

Houve diversas iniciativas para o fazer através da Associação dos Escritores Moçambicanos, a que estiveram ligados primeiro Rui Nogar e Calane da Silva, depois Leite de Vasconcelos com Fátima Mendonça e Júlio Navarro.

Não se concretizaram essas iniciativas (tratava-se, sobretudo, de fixar o texto definitivo e obter assentimento da poeta em publicar), mas Noémia reconheceu finalmente que a sua modéstia não deveria constituir impedimento para a publicação do livro – o que para muitos permanecia inexplicável – e confiou-me a grata tarefa de organizar a edição do mesmo.

Na altura, Rui Knopfli – foi Noémia de Sousa quem mo apresentou, em 1989, tantas vezes confidenciei a minha admiração por ele! – ficou encarregado do prefácio. Knopfli exilou-se definitivamente deste reino sem ter escrito o texto.
50 anos depois do abandono da escrita, temos o beneplácito dos deuses e este Sangue Negro é finalmente editado. Noémia de Sousa não o releu, nem o corrigiu, tendo concordado que os poemas permaneceriam na versão (original) policopiada, que se encontra depositada no Arquivo Histórico de Moçambique, devendo apenas ser actualizada a respectiva ortografia”.

Além da edição da AEMO, Sangue negro foi editado pela Marrinbique, em 2011. Com efeito, hoje, precisamente, passam 20 anos desde que Nelson Saúte, Fátima Mendonça e Francisco Noa conseguiram finalmente reunir os textos de Noémia de Sousa, escritos entre 1948 e 1951. A “mãe dos poetas moçambicanos” morreu a 4 de Dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.

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