O País – A verdade como notícia

Foto: Fernando Hua

 

O novo livro de Teresa Noronha foi apresentada ao público esta sexta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, na Cidade de Maputo.

O Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, abriu as portas a um Tornado feito de letras. O livro de Teresa Noronha, editado pela portuguesa Exclamação, em Março deste ano, depois de alguns adimentos, foi finalmente lançado numa cerimónia bem concorrida.

A função de apresentar a obra laureada na primeira edição do Prémio Literário Maria Velho da Costa, criado pela Sociedade Portuguesa de Autores, foi confiada a Álvaro Carmo Vaz. De acordo com o professor catedrático, Tornado retrata o que raramente é falado, não de quem morre mas de quem fica, o vazio que permanece após o acontecimento, o desaparecimento do ponto de apoio e o desequilíbrio do mundo. Para Carmo Vaz, igualmente, “Tornado é um livro duro, não nos poupa. E exige investimento por parte do leitor, a narrativa não segue uma cronologia linear, do mesmo modo que as nossas recordações, as memórias que lembramos ou imaginamos, também não o são”.

Ainda na apresentação do livro, esta sexta-feira, Álvaro Carmo Vaz referiu-se ao que é um exemplo para a literatura moçambicana. “Há um último aspecto que gostaria de referir neste belo livro de Teresa Noronha – o da escrita. Li e reli o livro e a escrita é perfeita”. Dito isto, o apresentador da obra acrescentou: “Não encontrei uma palavra que devesse ser outra, uma frase que ficaria melhor num outro sítio. Este livro, parece-me, não é fruto de um rasgo de inspiração, de uma escrita a jacto. Para se chegar a este apuro da escrita, imagino que frases, parágrafos, páginas inteiras, foram reescritas duas, três, dez vezes, com a autora a agonizar sobre a justeza de cada linha, sobre o encadeamento das frases, sobre a arrumação dos episódios”. E Carmo Vaz sentenciou: “É um grande exemplo para nós, em Moçambique, onde se publicam inúmeros livros, muitos deles com excelentes ideias, sem que se lhes seja dado o necessário tempo de maturação, do repensar, do reescrever, que uma obra séria exige.

Ao longo da sessão de apresentação do seu livro, Teresa Noronha contou que Tornado faz parte da sua história, que, obviamente, começa no país onde nasceu, muito antes de se mudar para Europa. Em condições normais, o livro devia ter sido lançado em Portugal, no entanto, questões de ordem logística impediram que o evento acontecesse. Ao invés de ficar triste, com efeito, a escritora que tem editado vários livros infanto-juvenis pela Escola Portuguesa de Moçambique, ficou satisfeita. “Este livro tinha de ser lançado, primeiro, em Moçambique. Este é um livro que faz parte da minha história em Moçambique, sobretudo. Portanto, estou muito contente de estar a ser lançado em casa, antes de ter sido lançado em outro lugar qualquer”.

Tornado é um livro constituído por 155 páginas, cuja história retrata temas como a infância, a nostalgia e o drama da morte. Ao longo do discurso, a narradora retrata certas ocorrências que caracterizaram o tempo colonial, o ano da transição para independência nacional ou relacionadas com os primeiros anos da independência de Moçambique.

Ao escrever o livro, Teresa Noronha investiu num relato intimista e intenso, tendo uma narradora a contar eventos como quem se lembra do que aconteceu e nunca devia ter acontecido: um suicídio.

 

O secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos sugere a valorização do legado deixado por Sérgio Vieira no mundo literário. O escritor Juvenal Bucuane descreve Sérgio Vieira como um impulsionador da literatura moçambicana.

A morte de Sérgio Vieira está a merecer reacções da classe dos escritores pelo seu papel como entusiasta da poesia, com um dos livros emblemáticos publicado “Também Memórias do Povo”.

Segundo Carlos Roque, Secretario Geral da AEMO, o livro prova o quanto era apurada a veia literária do Sérgio Vieira, e afirma categoricamente que é expoente da literatura moçambicana. “Perde a cultura moçambicana mas o papel próximo é valorizar a sua obra porque este é uma grande fonte de expiração da nova geração de poetas Moçambicanos”. Disse.

O escritor Juvenal Bucuane diz que suas obras marcaram a história do país no combate ao colonialismo, recorda ainda sobre a sua entrada na agremiação em 1983. “Eu e outros jovens, estou a falar dos escritores actuais, aproximamos na associação e Sérgio Vieira já estava la. Tinha a tradição de todas as sexta-feira fazer leituras literárias, em que se declamava poesia, discutia-se muito sobre a literatura”.

Como membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, Sérgio Vieira exerceu várias funções, entre elas, de Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

O romance Os sobreviventes da noite, da autoria de Ungulani ba ka Khosa, foi reeditado pela Cavalo do Mar. A apresentação aos leitores aconteceu esta quinta-feira, na Cidade de Maputo.

12 anos depois do livro ter esgotado, Os sobreviventes da noite volta a merecer destaque nas livrarias nacionais. A obra literária de Ungulani ba ka Khosa foi reeditada pela Cavalo do Mar e a apresentação pública da nova edição aconteceu no Auditório do Moza Banco, na baixa da Cidade de Maputo.

Na cerimónia restrita, Ungulani ba ka Khosa agradeceu à Cavalo do Mar, pela qualidade de edição, e sublinhou que nenhum país se firma no quadro das nações se não estiver alicerçado à sua cultura através das várias disciplinas que a compõem. A agradecer o gesto do patrocinador da obra, Moza Banco, o autor disse que o apoio à cultura é fundamental e que um livro só existe quando está disponível ao leitor. “Vi na editora do Mbate [Pedro] a qualidade que ele imprime nos livros. Nós passamos a amar os livros antes de os ler, e isso é maravilhoso porque tocamos nos livros e sentimos vivacidade”.

Depois de lançar uma obra literária, Ungulani ba ka Khosa não tem o hábito de voltar a lê-la. No entanto, fascinado pela qualidade da edição da Cavalo do Mar, o autor confessou que voltou a ler Os sobreviventes da noite para saborear, igualmente, o projecto gráfico.

Na cerimónia, Ungulani contou ao público que o livro foi escrito numa espécie de bolsa literária no Distrito de Moamba, Província de Maputo, graças a um cunhado que o emprestou um lap top, numa altura em que esse tipo de aparelho quase que só era usado por funcionários dos bancos. Armando Artur, amigo do autor e apresentador do livro, lembrou-se desse episódio, pois, quando Ungulani ainda escrevia o livro, foi lá visita-lo. “Lembro-me que, quando fui ter com ele a Moamba, um dia desses, de muito calor, encontrei-o de tronco nu. Na verdade, ele próprio parecia um sobrevivente da noite”, brincou o poeta.

Para Armando Artur, todos os livros de Ungulani ba ka Khosa merecem ser editados, pela sua qualidade literária e porque são livros que marcam a literatura moçambicana.

O anfitrião da cerimónia de apresentação da nova edição de Os sobreviventes da noite foi João Figueiredo, em nome do Moza Banco, para quem “Ungulani nos deixa todos orgulhosos pelas suas obras. O Moza Banco quis dizer que sim, que o nosso apanágio é viver a cultura de uma forma muito presente e muito constante”.

No Auditório do Moza Banco, esta quinta-feira, a actriz Ana Magaia, que, segundo Ungulani, “tem a particularidade de pegar num texto e pôr as palavras a vibrarem”, leu algum excerto do livro que, assim, excitou alguns leitores.

Os sobreviventes da noite é um livro intenso, que ficciona a memória da guerra, retratando momentos dramáticos e trágicos, tendo as crianças no centro da narrativa.

A iniciativa da Bawito Music, Festa das estrelas, foi lançada esta quinta-feira, na Cidade de Maputo, e conta com apoio do Governo.

Esta quinta-feira, no Hotel Glória, na Cidade de Maputo, a Bawito Music apresentou, oficialmente, o projecto Festa das estrelas. Essencialmente, trata-se de um movimento que pretende ser anual, durante o mês de Dezembro, com o propósito de unir cantores, músicos, produtores, DJ, apresentadores de TV, locutores, modelos, estilistas e todos aqueles que contribuem para a promoção do entretenimento e das artes em geral no país e no estrangeiro.

No evento, o responsável da Bawito Music, Mr. Bow, reforçou que é fundamental enaltecer aqueles que ajudam a divulgar as artes e a cultura moçambicanas. “Estamos aqui com pessoas muito especiais, que representam a nossa cultura e que são muito amadas, no país e pelo mundo fora. Infelizmente, não foi possível estar com todos os artistas, mas temos aqui pessoas que representam os artistas que não puderam cá estar. Esta iniciativa veio para ficar”, garantiu Mr. Bow.

Segundo acredita Mr. Bow, o intercâmbio proporcionado pela Festa das estrelas vai trazer benefícios visíveis porque havia artistas que nunca tinham tido uma oportunidade de conversar. “Os artistas vão conhecer-se ainda melhor, trocar ideias e fazer colaborações. Muitos sucessos vão aparecer por causa desta iniciativa”, vaticinou o fundador da Bawito Music.

A Festa das estrelas, nesta primeira edição, conta com apoio do Governo, que, no Glória Hotel, fez-se representar pela Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula. A este respeito, Bow afirmou: “a presença da Ministra significa que não estamos sozinhos. Recebemos, através dela, a mensagem do Presidente da República, Filipe Nyusi, que nos felicita e faz votos de que esta postura continue entre nós”.

Na primeira pessoa, Eldevina Materula explicou que o Governo esteve representado no evento porque está e deve estar com os artistas. “Estas estrelas, que estão aqui representadas por este pequeno número de artistas, mostra que foram resilientes, reinventaram-se a meio da pandemia para poder ter o seu pão à mesa. Estas estrelas não estão aqui para reclamar, mas para celebrar a vida, a moçambicanidade, reconhecendo que há muitos desafios e muito por fazer, conscientes da importância da sua arte, da sua cultura e do seu trabalho para o nosso país. Por isso, temos de estar com a Bawito Music, com o Mr. Bow e com todos os que têm levado a bandeira de Moçambique além-fronteiras”.

Para os artistas convidados, Festa das estrelas é um evento necessário, e justificaram: “Festa das estrelas é evento muito positivo e bonito. É importante que os artistas se reúnam. A música e as artes são fontes que aliviam as pessoas. Nós, como músicos, já nos encontramos algumas vezes, mas, desta forma… isto vai valer muito para o público moçambicano”, afirmou Ziqo.

A reforçar, Nelson Nhachungue acrescentou que a união entre os artistas e promotores do entretenimento é essencial porque assim o nome de Moçambique pode ser bem projectado para o estrangeiro. “É salutar, num evento deste, conviver e trocar ideias com os colegas. Talvez, neste evento, possam surgir algumas parcerias entre os artistas, o que é necessário, principalmente para esta fase em que vivemos”.

A finalizar, Júlia Duarte disse que é importante o intercâmbio promovido pela Bawito Music “porque há muito tempo que não nos víamos e não nos reuníamos. De uma forma ou de outra, este evento vai reanimar alguns artistas que estavam desanimados porque já não trabalham como deve ser. Penso que para o ano faremos um balanço positivo do resultado das parcerias que surgiram neste evento”.

Próximo domingo, o bailarino Ídio Chichava vai apresentar-se no Espaço Recreativo Makhall’s Arte, no Bairro Polana Caniço, na Cidade de Maputo. A partir das 17 horas, 30 pessoas (no máximo) vão poder ver uma performance preparada para um espaço alternativo, tornando-se, assim, a dança acessível a novos públicos.

A performance de Ídio Chichava, que já foi apresentada em digressão em espaços alternativos da França, onde o bailarino vive e trabalha, vai durar 20 minutos. SmogForever é o título do espectáculo de Chichava e aborda a temática do aquecimento global e a responsabilidade colectiva e individual na tomada de consciência para acções mais saudáveis ao meio ambiente. “Nesta performance, normalmente, faço-me acompanhar com Frank Micheletti, que é um criador sonoro e director artístico da companhia francesa Kubilai Khan, com a qual trabalho há 16 anos. Infelizmente, ele não estará presente, mas os seus sons estarão presentes na performance”.

Com apresentação SmogForever no Espaço Recreativo Makhall’s Arte, portanto, a pretensão de Ídio Chichava é entregar a arte à apreciação de todo tipo de pessoas e levar o público habituado a salas convencionais a espaços da periferia. “Isto justifica, também para mim, uma formação prática de novos públicos para dança e teatro”. Além disso, o artista acrescenta que a sua performance acontece, simplesmente, com o objectivo de dizer que a arte contemporânea pode ser apreciada e apresentada nos bairros populares. “A arte não é só feita para a burguesia. Deste modo, criamos variedade de lugares para apresentação performativa”.

SmogForever será a primeira performance apresentada em Moçambique depois de dois filmes de Ídio Chichava e Ívan Barros, Último berro e Começa a ficar tarde, terem sido distinguidos com duas menções honrosas no Le Grand Bivouac – Festival de Documentários e Livros, em França, em Outubro deste ano.

Por: Andes Chivangue[1]

 

O que significa ser escritor em ambiente de pobreza, fome e doença endémicas? Qual é a função da literatura quando o sonho teima em morrer com o por do sol? Para quem escrevemos e com que finalidade? Escritores e críticos de literatura têm explorado com alguma profundidade questões desta natureza e muita da reflexão disponível reflecte uma perspectiva eurocentrada sobre a matéria. Com efeito, uma coisa é escrever no espaço schengen e outra, completamente diferente, é fazê-lo nos intervalos de múltiplos empregos de baixos salários, nas noites em que nos cabe a vez de guardar a casa contra os tantos males que permeiam a noite, corrupção de níveis paroxísmicos e o desespero por não sabermos que futuro espera os nossos descendentes. Nestas circunstâncias dificilmente teremos uma escrita cujo papel primário seja o de entreter, apenas a função lúdica. O contexto impelirá sempre o escritor a engajar o desconforto que vê ou experiencia.

A leitura do livro “Vestidos de Terra”, de Rogério Manjate, não só nos permite desfrutar de estórias narradas com mestria, mas também fazer uma incursão sobre as questões levantadas mais acima. Portanto, sob o ponto de vista de ferramenta de trabalho abordo este livro recorrendo a dois tipos de leitura: uma interna e outra externa. A primeira foca-se na arquitectura das estórias e a segunda assenta na interpelação política que a maioria dos textos sugere. Esta forma de análise é proposta por J.M. Coetzee, em Stranger Shores (2001), um livro de ensaios elaborados entre 1986 e 1999. Iniciemos, então, com análise interna que, de forma breve, procura, abordar a estrutura dos contos e seu conteúdo.

Em “Vestidos de Terra” as estórias traçam uma trajectória histórica desde o período do final da colonização (em “Imagem e Semelhança”), passando pela modernização coerciva (em “Magoda e Jubeta” e em “E Tudo a Chuva Molhou”), as promessas da revolução (em “Emproibido Machico”) e as representações e simbologias dos papéis sociais no seio familiar (“Feitiço?” e “Malaque”). Este alinhamento, intencional ou não, demonstra que a tradição constitui uma ordem transpessoal da qual não podemos escapar, na qual nos procuramos situar, sendo nela onde a nossa vida é definida e continuamente redefinida através de sucessivas gerações. Deste modo, “Vestidos de Terra”, embora divido em dois, “Imagem e Semelhança” e os contos reeditados de “Amor Silvestre”, ambos representam uma unidade que procura retratar a manutenção de sistemas institucionais extractivistas e opressores que perduram no tempo. Portanto, uma característica distintiva do texto Vestidos de Terra é o facto de apresentar contos com múltiplas histórias que ecoam das estórias nucleares.

E é precisamente a habilidade de tecer enredos com diversas camadas que torna o autor deste livro um dos melhores, senão o maior contista da minha geração. E posso garantir-vos que esta afirmação está longe de ser um lugar comum com o intuito de massajar egos ou entreter plateias. Trata-se de uma constatação que procurarei demonstrar ao longo desta comunicação.

Todo o artista que se preze procura esquivar-se ao “beijo da morte”, o que só parece ser possível quando – e aqui aludo ao raciocínio de Margaret Atwood, no livro Negotiating with the Deads – conseguimos negociar com os mortos, no sentido em que contar estórias consiste em estabelecer uma relação entre eventos que se desencadeiam ao longo do tempo, daí a diegese estar profundamente imbricada no tempo. Numa situação em que tenhamos um relógio temos, igualmente, a morte e pessoas mortas, sendo que estas são separadas dos vivos justamente pelo tempo. E os mortos persistem na mente dos vivos”. E a que mortos interessa fazer alusão aqui? Os parentes e amigos, mas, sobretudo os escritores. Dito de forma simples, é a negociação bem-sucedida entre os autores vivos e os clássicos que eternizam a obra. No caso de “Vestidos de Terra”, tudo indica que o principal defunto com o qual Rogério Manjate negociou foi João Guimarães Rosa. As marcas desse diálogo são pronunciadas nos textos “Amor Silvestre” e “Magoda e Jubeta”. Com efeito, neste último conto encontramos a densidade imagética, de acção e inflexões vocabulares, muito comuns nos livros de Guimarães Rosa, com o poder de imprimir maior verosimilhança na narrativa, tal como podemos observar no seguinte excerto:

Suores para todos; o calor de dezembro afoga-se na xilalasana fresca e discute-se gargantas. Magoda é homem de bebida mais futebol desde a reforma, e dono da jovem esposa Jubeta. E Jubeta? – só panela e fogão. Com o caminhar dos anos ela também aprendeu o serviço da bola e kanika quando ia todas as noites ao quintal da Zafita carregar o marido bêbado. Oh wê! e o quando o Maxaquene perde? (pag. 145).

 Só este parágrafo já é em si um micro-conto ao estilo de Ana Maria Shua, apresenta todos os elementos importantes do conto e o enredo fica para o leitor, nas entrelinhas do que não é dito. Imaginemos, então, uma estória contada com esta densidade! É, decerto, um tipo de texto para ir digerindo sem pressa e saborear cada palavra que o compõe. No entanto, Manjate não negoceia apenas com os mortos, mas também com os vivos, podendo destacar-se, dentre vários, dois autores expressivos: António Lobo Antunes e Mia Couto. As marcas do primeiro autor podem ser encontradas nas primeiras linhas do texto “Malaque”:

 

– Já passeaste a Julie?

Já passeaste a Julie foi o boa-tarde como estás querido Malaque, que o homem recebeu nessa tarde já torta sobre os telhados alaranjados pelo sol horizontal (pag. 11).

 

E essa marca mantem-se ao longo do texto quando, nas páginas subsequentes, a conversa telefónica entre Malaque e Malinde vai ecoando na sua cabeça:

 

– Já passeaste a Julie?

            – Sim.

            – Quero encontrar-te em casa Malaque.

            […]

            – Vais fazer arroz de tomate (pags. 22 e 13).

 

Por seu turno, os vestígios da estética de Mia Couto são notórios no trabalho subversivo do autor sobre a gramática em palavras como “varanda” que no texto “Emproibido Machico” transformam-se em verbo quando este protagonista “avarandava-se em baixo da mangueira, andando à roda do sol que o fazia mudar de posições” (pag. 59). Contudo, estas marcar, tanto dos escritores vivos quanto dos clássicos, são trucidados por via do que Harold Bloom (2001: 30) chama de “embricamento criativo”, no seu livro “A Angústia da Influência”. Não nos esqueçamos que um bom escritor é sempre um genocida em potência. O que seria então essa “angústia da influência”? Trata-se de um acto complexo de leitura errónea forte, de uma interpretação criativa. Aquilo que os escritores podem sentir como angústia, e que as suas obras podem ser levadas a manifestar, é consequência do embricamento poético, e não a sua causa. A leitura errônea forte acontece primeiro; tem de existir um acto profundo de leitura que é uma espécie de paixão pela obra literária. Todavia, esta referência parece ser aplicável aos escritores mortos, sendo que estes ressuscitam quando o trabalho do escritor vivo é bem-sucedido.

Em termos técnicos, encontramos no livro uma outra importante valência do autor: o poeta. De facto, a poesia no livro “Vestido de Terra” está ao serviço da narrativa, sem, no entanto, distrair o leitor do essencial, a estória. Aliás, é justamente essa valência, resultado do seu trabalho como poeta –nos livros “Casa em Flor” e “Cicatriz Encarnada” – que o permite escolher cuidadosamente cada palavra que compõe o conto. Em outro ensaio tive a oportunidade de mencionar o seu último livro de poesia como uma das mais importantes obras publicadas nos últimos tempos pela qualidade estética e unicidade temática. Tal como em “Cicatriz Encarnada”, em “Vestidos de Terra” o bairro da Malanga continua a ser o espaço e a atmosfera preferencial para as suas estórias. E a Malanga, com os seus baneanes, muchinas, xinguerengueres e os mortos do sujeito poético no seu bolso, não constitui um micro-cosmos exclusivo a essa parte da cintura da cidade de Maputo, mas, sim, a experiência de toda uma nação sujeita ao mesmo paradigma institucional, económico, político e social. Qualquer pessoa que tenha vivido este período, já com consciência política, e que leia estes textos, terá de se confrontar com a sua própria trajectória como cidadão.

Nestes contos, a personificação é o recurso estilístico mais utilizado, sendo comum encontrar frases como “Dos olhos do pai do menino brotavam noites, plantou-os durante três dias no céu sem que a lua aparecesse” (pag. 141); “…[a] vergonha do velho puxa o banquinho…” (pag. 149), “…vidros e pregos que guarneciam o chão…” (pag 152). A escolha da personificação não é aleatória, cumpre uma função específica na relação entre os protagonistas e o meio que os envolve.

Por outro lado, como é recomendado, Manjate não se preocupa em dar-nos o make-up psicológico dos personagens, mas é a sua acção ou inação perante determinado estímulo que nos permite captar o seu perfil. Esta constatação é particularmente aplicável ao texto “Malaque”, no qual um homem  moderno que cuida da casa, do cão, do filho, porém, cleptomaníaco e mitómano, vive a tensão entre o seu papel de dono de casa, a falta de dinheiro e o apelo da cidade que o arrasta a uma solução de desespero, seja porque lhe é vedada a possibilidade de nela perder-se, onde outrora mentia para os transeuntes como estratégia de extorsão, seja pelo amor ao seu filho que fica como penhor junto a uma banca de cigarros e chocolate, ou até pelo que o texto não diz – sobre a provável traição da sua mulher.

Nestes contos, as frases são curtas, vigorosas, energéticas e claras. O diálogo, tal como está magistralmente conseguido em “Amor Silvestre”, constitui a pura expressão dos protagonistas e transcende as especificidades do espaço e do tempo, tornando a conversa no texto – e parafraseando Francine Prose em Reading Like a Writer – fresca e assombrosamente contemporânea. E, de acordo com a mesma autora, “se quisermos escrever ficção alicerçada pelo contexto em que vivemos é útil estudar a obra dos autores dotados de um ouvido para o diálogo, para a locução que as pessoas utilizam, a poesia acidental através da qual os humanos expressam os seus pensamentos e emoções” (2012: 165).

Sob o ponto de vista temático, alguns dos símbolos que constituem padrão são nestes contos são a loucura, a pobreza, a morte e, em última instância, a grande traição ideológica à colectividade (sendo que está última só é identificável no subtexto). A narração, feita através de economia e compressão, não estabelece fronteiras entre a primeira e a terceira pessoas. E em alguns textos como “Feitiço”, a omnisciência do narrador não é de todo imparcial, reflectindo a secular tensão na divisão doméstica do trabalho e a mulher como eterno símbolo sexual. Em termos de estilo estamos perante tragédias, consistentes com os sucessivos choques que representam a vida num contexto institucional frágil, como irei demonstrar, a seguir, a partir da leitura externa. Nesta segunda dimensão da análise, o livro “Vestidos de Terra” cumpre uma função activista. Tudo indica que Rogério Manjate tem clareza sobre o público para o qual escreve e sobre a influência do texto para além do efeito lúdico.

 

Neste livro observamos a existência de dois níveis: o primeiro é o da estória e o segundo é uma espécie de narrativa profunda, onde se conta uma outra história, com recurso a um vocabulário e imagética de sentidos ocultos, na qual são expostos problemas de ordem humana intratados, concretamente a miséria infligida à maioria dos cidadãos, sejam eles bichantes para comprar 1 kg de tripas no Xiphamanine, seja o motorista de classe média – medida pelo bife à mesa à hora do almoço – que se suicida traído pelo amor da sua vida. Consistentemente, em “Jorogina e o Mar”, retrata-se a vida de uma prostituta que utiliza água de colónia, simultaneamente como chamariz de clientes e contraceptivo. O infortúnio, a que é forçada pela pobreza, acaba por decidir entre ela e o mulatinho a quem dá à luz, sendo igualmente uma decisão sobre quem merece ser banhado pela luz da lua.

Se prosseguirmos com esta imersão no plano do subtexto, deparamo-nos com “O Menino do Nada na cidade”. Aqui ressurge a pobreza, de forma mais intensa, e nos são insinuadas as causa da sua prevalência: os revolucionários que traíram os dois únicos heróis, até ao momento, merecedores de estátuas no país. “O Menino do Nada” palmilha a cidade à procura de algo para matar a fome. O único alimento que consegue é apenas um bolo de chocolate imaginário que degusta em desespero. Os dois heróis de braços levantados – como que a indicar uma terceira via – são os únicos que o amparam. O sangue desta criança faminta, que molha os sapatos da estátua do livro, parece prenunciar a marcha do campesinato em direcção aos locais onde contas podem ser pedidas, ajustadas e saldadas.

O conto “Emproibido Machico” epitomiza o contexto frágil em que o autor vive. De facto, Machico, trabalhador reformado e inconformado da Frilixo, autodidacta, depois de 32 anos a limpar casas de banho, a servir café e a congeminar uma rebelião, já em casa, fica a saber através do Jornal que os seus chefes, Jonasse Corrupito e Messias Fraude, são sequestrados pelos trabalhadores e obrigados a limpar retretes. Os apelidos destes directores denunciam o seu comportamento corrupto e de fraude. Esta atitude, praticada à escala, transforma o Estado numa espécie de sofá velho com alguns dos seus pés seus substituídos por tijolos, o qual, à primeira, parece seguro, mas que depois nos damos conta de, ainda que irmanados, nele acoitados, estamos “pálidos, calados e doentinhos” (pag 67). E este estado pode ser o resultado de múltiplos factores, estando a qualidade humana de quem deve dar o exemplo no centro de todos. A fome, muito bem ilustrada no conto “O recado do Gumende no Bazuca” mostra a dificuldade em que, por vezes, em tais circunstâncias, a solidariedade demite-se, desencadeando um ciclo vicioso em que todos saem a perder, como nos é elucidado pelo trecho a seguir:

Com os pedidos indeferidos, Gumende se afastou e acendeu um cigarro. Fumava muito nervoso e rápido a acompanhar o ritmo do motorista. Virou-se para o dono do burro que puxava a carroça com tripas que ele queria comprar e disse-lhe:

—Sabe, eu até conheço mãe deste burro.

— Isso não é nada, tem que bichar. Você se chama senhor Cunha?

— Não.

— Então bicha.

— Não, eu já não quero mais as tripas. Eu só quero transmitir recado que mãe deste burro me mandou, caso eu encontrar com ele.

— Isso só? À-vontade, senhor!  (…..)

— Um estrondo paralisou o Bazuca. O burro ao ouvir o inferno de tão perto, pediu socorro a Deus e estrebuchou com toda a força possível. A carroça capotou de lado. O burro também caiu de lado sufocado pela carroça e não podia se mexer. As tripas e o homem despejaram-se espalhados no matope. (…) Os bichantes não tinham cara suficiente para esconder o desespero pelo jantar de tripas adiado.

Vão lhe bater — pensei. Dei um salto e interpus-me entre Gumende e a multidão. Mas, este, impávido e terreno, não tugia nem fugia; me olhou nos olhos, confiante, pedindo que eu me afastasse só com o olhar. O desgraçado homem do burro perguntou-lhe com a voz lacrimosa:

— Afinal é o quê que disseste Vai-Com-Deus?

— Eu só dei a ele recado que mãe de Vai-Com-Deus me deu.

— Oh diabo. Mas o quê antão?

— Gumende respondeu todo sentimentiroso:

— Bem, eu só disse que mãe dele morreu.

— O burro zurrou como que a confirmar, “sim”.

A degradação de valores, como consequência da auto desresponsabilização das elites dirigentes, atinge níveis inaceitáveis quando Machico tem de puxar o autoclismo pelos chefes, depois destes defecarem. E esse limiar, que empurra o cidadão à indigência no mais fundo da indignidade, leva os trabalhadores a se rebelarem e, mantendo os chefes Corrupito e Fraude em cativeiro, a defecarem um por um e os obrigarem a ver os dejetos, a puxarem o autoclismo e a lavar a sanita. No fundo, a palavra antropofagia que Machico rumina até à exaustão, mesmo sem conhecer o seu significado, representa esse Leviathan em que o Estado se pode transformar quando as instituições não são inclusivas. O título “Vestidos de Terra” não só constitui uma potente metáfora sobre a vida degradante a que estão sujeitos os protagonistas destes contos, mas também, a porosidade das estruturas políticas e económicas nas quais se movimentam. A esperança, desde os tempos da escravatura, continua a residir nas canções, nas estórias e na poesia. E o poeta de serviço neste livro consegue esse efeito com perfeição no texto “E tudo a chuva molhou”.

E para encerrar retorno à análise interna do livro e brevemente vou abordar dois contos, “Bendita Dhinda” e “A Cama”. “Bendita Dhinda” é estória de uma mulher que caminha nas redondezas do tempo, com ramo de flores silvestres, tronco nu, peito maduro e tentador, porém louca. É um texto curto, de estrutura simples, porém eficaz. Ao abordar o amor e a loucura, o autor explora oposições binárias que mantêm a estabilidade do texto, o que se encaixa nas proposições de Jaques Derrida e o pós- estruturalismo (sem, contudo, haver da minha parte intenção de encaixar este livro nessa ou em quaisquer outras teorias, dada a inutilidade desse tipo de exercício). Com efeito, no limite, o amor constitui o único influxo energético que dá sentido à vida e a sua ausência pode desencadear uma disfunção nos processos químicos e neurológicos do ser humano. E visto sob este ponto de vista, faz sentido que o narrador, sentindo-se pouco preparado para se deixar enfeitiçar pelas canções de Dhinda, adie esse confronto para a velhice, pois está ciente da insignificância da vida sem a experiência do amor, ainda que seja por uma louca.

As oposições binárias a que me referi no parágrafo anterior são mais expressivas no texto A Cama, no qual, num primeiro momento, o narrador nos apresenta uma interacção com a sua namorada e num segundo uma situação de violência doméstica, em que uma mulher agride física e verbalmente o seu esposo. Nos dois casos, o símbolo no centro da interacção é uma cama e, mais uma vez, no centro da cama o amor e a morte.

Rogério Manjate, profissional do teatro e docente na ECA – Universidade Eduardo Mondlane, é um autor com diversos prémios nacionais e internacionais, tendo publicado, para além dos já mencionados, os seguintes livros: O Coelho que Fugiu da Estória (2019) e Wazi (2017).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bloom, Harold. 2007. A Angústia da Influência. 2ª edição em português. Lisboa: Livros Cotovia.

Coetzee, J. M. 2002. Stranger Shores. Essays 1986-1999. London: Vintage Books.

Prose, Francine. 2001. Reading Like a writer: A Guide for People Who Love Books and for Those Who Want to Write Them. London: Auro Press.

Manjate, Rogério. 2021. Vestidos de Terra. Maputo: Cavalo do Mar.

 

[1] Escritor e activista social.

O escritor moçambicano Ayrton Cassamo lança, hoje, a obra intitulada “Uma viagem para vida”. Trata-se de um livro que discorre sobre as riquezas de Moçambique, desde as diferentes culturas e etnias, a gastronomia, as praias paradisíacas e sobre os desafios enfrentados na Província de Cabo Delgado, norte do país.

Segundo descreve o autor, o livro “é um retrato profundo do país, seus cantos e encantos, suas terras e seu povo, representado num manuscrito que promete decalcar uma viagem feita de Maputo até Rovuma”.

A obra literária “Uma viagem para vida” nasce de um périplo feito por Ayrton Cassamo pelo país, onde foi constatando os diversos desafios que o país enfrenta, mas também contemplando a vastidão das riquezas de Moçambique.

No livro cujo prefaciador é Helder Ernesto Injojo “os leitores vão encontrar um mapeamento da realidade de um país que parte dos grandes centros urbanos às pequenas aldeias”, garantiu.

A obra será lançada hoje às 18h, na biblioteca da Universidade Pedagógica (UP), Cidade de Maputo. O evento contará com a presença do Magnífico Reitor da UP Jorge Ferrão e outras individualidades.

Ayrton Cassamo é um jovem de 30 anos de idade, nascido em Quelimane e que, actualmente, vive em Maputo. Formou-se em Engenharia Electrónica pela Universidade Eduardo Mondlane, onde foi igualmente presidente da Associação dos Estudantes Universitários, membro do Conselho Universitário e membro do Conselho Nacional do Ensino Superior de 2011 a 2013.

Sob o lema “A língua é a minha verdadeira casa”, o Projeto Raízes e Cultura, que congrega escritores cujo o idioma usado para escrever suas obras é o português, vai decorrer de 14 a 16 de Dezembro. O intercâmbio constitui o primeiro encontro literário de língua portuguesa – “ Mapas da Língua.”

A iniciativa da Fundação Fé e Cooperação conta com a participação de autores da CPLP e vai decorrer no formato online, a ser transmitido nas páginas FECONGD e parceiros.

Dentre os autores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa o destaque vai para o moçambicano Armando Artur, Vera Duarte, de Cabo Verde, Joana Bértholo, de Portugal, Luís Cardoso, de Timor-Leste e João Fernando André, de Angola.

O Encontro Literário da Língua Portuguesa terá como mote o papel da literatura na construção de uma comunidade.

Com este intercâmbio, o projecto pretende promover aprendizagem sobre a cultura local, semelhanças e constrangimentos no que concerne a literatura e a promoção e valorização da cultura, de uma forma geral; potenciar novos interesses e despertar novos horizontes e desafios no âmbito cultural em cada um dos países; potenciar novas oportunidades de desenvolvimento de trabalho e criação de sinergias e reforçar a advocacia para a importância da valorização da cultura, sobretudo da literatura e actividades com ela relacionada, na promoção da coesão, memória comum e identidade dos moçambicanos.

O Projecto Raízes e Cultura: “Empreendedorismo Cultural e Reforço da Identidade e Cultura Moçambicana” é implementado pela Fundação Fé e Cooperação em parceria com a Khandlelo – Associação para o Desenvolvimento Juvenil, financiado pela União Europeia e Camões.IP.

Por: Albino Macuácua

No dia 18 de Abril de 1857, é publicado, em Paris, O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, obra fundadora do Espiritismo. Neste livro, encontram-se sistematizados os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade de acordo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns.

Um dos aspectos retratados neste livro diz respeito à distinção entre «espírito» e «matéria». Ora, «“a matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua acção”. Deste ponto de vista, pode-se dizer que a matéria é o agente, o intermediário com o auxílio do qual e sobre o qual actua o espírito» (Kardec, 1944, p. 62). Poderíamos afirmar que a matéria é o despojo do espírito que tanto pode impressionar os sentidos assim como não. Em termos ilustrativos, isto explica por que razão o corpo é a matéria a partir da qual o espírito age, é ou mostra ser.

E o que [o] espírito é? A compreensão sobre o espírito é complexa. NO Livro dos Espíritos, o espírito é concebido como «“[o] princípio inteligente do Universo.”» (Kardec, ibidem) e não é fácil analisar a sua natureza íntima, pois, entre os homens, «ele não é nada por não ser palpável […] E ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe» (Kardec, 1944, p. 63). Na linguagem dos homens, o espírito é um ser imaterial, porquanto povoa fora do mundo material, ou como Kardec (1944, p. 87) o diz, os espíritos constituem um mundo à parte, um mundo das inteligências incorpóreas e é este mundo que preexiste e sobrevive a tudo, ou seja, é o mundo espírita (ou incorpóreo) que está na ordem de todas as coisas que existem, sendo por esta razão que os espíritos estão por toda a parte, numa espécie de continuum vital. Portanto, podemos afirmar com Carrara (2007, p. 11) que os espíritos são nada mais do que seres humanos após a morte do corpo, num outro estágio de vida; são criaturas despojadas do «corpo de carne». De resto, embora matéria e espírito sejamcategorias distintas uma da outra, a sua união é necessária para intelectualizar a matéria, ainda que se possa conceber espírito sem matéria.

A principal razão destas considerações sobre matéria e espírito radica na história contada e retratada neste romance, A Sina de Aruanda, de Virgília Ferrão. É um romance sobre a vida – e quem diz vida também diz morte, a maior sina do ser humano –, por outras palavras, este romance é uma prerrogativa para reflectirmos sobre a vida e seu lado místico,ancorado nos princípios correlacionais entre o espírito e a matéria, muitas vezes absorvidos pelo mundo corpóreo, o mundo das coisas ou, como diria Edmund Husserl, o mundo dos fenómenos, mas A Sina de Aruanda é igualmente um romance de resgate de memórias, um romance de amor, doverdadeiro amor, aquele que resiste ao tempo e à morte.

De uma escrita simples, fluida e sem rodeios, com ecos da concisão de Ernest Hemingway, e de um enredo que prende o leitor com uma cuidada dosagem de suspense, A Sina de Aruanda é um romance polifónico, onde povoam e confluem diversas vozes, pondo em paralelo duas histórias somente separadas em termos peridiológicos uma, do século XIX, outra, do século XXI, cujo equilíbrio não está necessariamente na sua distribuição, mas na forma como os micro-mundos ou enredos se constroem e se ligam. No século XIX, temos a história do Prazo de Aruanda, cujos senhores são o capitão-mor Bento Noronha e sua esposa, dona Luísa, e que tinham um filho chamado Pedro Lucas. Sargento Pedro Lucas, Puca para os mais próximos e para os amigos (como, por exemplo D. Fernando, médico da família) tem compromisso com Isabel Sabrina, filha de Lorde Sean, governador da nova Companhia, mas não a ama. Trata-se de um compromisso forjado pela condição e meio aristocráticode que ambos fazem parte. A história da família deste Prazo é marcada, por um lado, pela relação amorosa escondida entre Pedro Lucas e a criada da casa, baptizada como Carina de Sousa – prometida do Foquiço, «um dos mais fiéis soldados do capitão Bento», e, por outro lado, pela morte de Pedro Lucas num dia em que Lorde Sean ia retirar da casa do capitão Noronha a criada e sua mãe, acusadas de feitiçaria e rezas diabólicas que matavam os seus homens. Anos depois, Carina de Sousa, que teve uma filha, Maria Cristina de Sousa, com Puca, é acometida pela morte.

Esta bonita história de amor que ultrapassou as diferenças de raça e classes sociais e que se escondeu, porém, nas sombras das proibições da época, não foi plenamente vivida, mas, ainda assim, o tempo e a morte e, se quisermos, o fim do Prazo de Aruanda, não foram capazes de apagá-la. Um pouco mais de um século depois, precisamente no ano de 2005, Pedro Lucas e Carina de Sousa reencontram-se, mas como espíritos (re)encarnados, respectivamente em Daniel de Barros e Maria Cristina, ou seja, reencontram-se como almas.Aliás, por um lado, Pedro Lucas, no momento da agonia,recorda-se, por meio de perguntas, do que a sua amada Carina lhe dissera sobre a morte: «Será que tenho o que esperar? Haverá mais, depois da morte, como dizia Carina?» (Ferrão, 2021, p. 222). Por outro lado, ainda no momento da agonia, com a alma como que suspensa num espaço indefinido, entre o corpo e o regresso ao mundo espírita, Pedro Lucas vê-se a si próprio em 2022, numa espécie de memória futura, mas com a alma encarnada em Daniel de Barros:

Observo os meus próprios movimentos: estou a enfiar-me numa camisola de malha e a puxar um cobertor felpudo para cima das minhas pernas. As luzes da cidade irrompem timidamente pelo escritório e tomam lugar entre os retratos espalhados pela escrivaninha ao lado das três estátuas prémios. Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, entre uma golada e outra de chá. Tento absorver cada pedaço destas novidades, destas informações. A minha tese de doutoramento. O aroma dos biscoitos de chocolate que penetra este lugar tão inesperadamente familiar. A camisola de malha. O cobertor.

Ouço um som agudo. Uma campainha. E agita-se o meu peito. A minha alma sabe! Tenho a instantânea certeza de que outro lado da porta, espera-me a minha amada. Carina (Ferrão, 2021, p. 223).

É curioso que o fim da história é, contra todas as lógicas do tempo natural, anunciado com antecipação no excerto que acabámos de ler, e tal se compreende quando este mesmo excerto resolve o suspense ou as incertezas que se verificam no último capítulo de romance quando Daniel de Barros, no ano de 2022, faz exactamente o que Pedro Lucas vê, em agonia, em particular no momento em que, depois de ouvir a campainha, se levanta para abrir, terminando, deste modo, o romance. O que com isto queremos dizer é que a história acaba no instante em que Pedro Lucas vê, no momento da agonia, a sua vida futura.

No ano de 2005, Daniel de Barros, consultor na área do ambiente, e Maria Cristina, uma estudante de Direito que, como já o dissemos, são, respectivamente, a reencarnação de Pedro Lucas e Carina de Sousa, conhecem-se aquando do pedido de estágio de Maria Cristina, Angelina Manhiça, Frederico e outros colegas, na firma onde Daniel de Barros trabalha e é sócio, a CRW, e vão-se aproximando, vão-se conhecendo até descobrirem, por assim dizer, o mútuo interesse pela história de Aruanda e Missão de Mobora, e a intenção de Daniel de Barros era de transformar o então Prazo num museu. Havia aqui nascido um conflito entre Daniel de Barros e o seu grupo de estudantes e uma empresa, a Zumbire Investimentos, que pretendia deitar abaixo este património histórico e cultural para construir um centro comercial. A grande luta consistia em impedir que tal acontecesse, através de uma ordem de embargo, despachada em tribunal que, embora tivesse chegado tarde às mãos de Daniel, evitou que a demolição, que já havia começado, avançasse. No entanto, é nessa situação que Maria Cristina, depois de declarar o seu amor a Daniel de Barros – que depois se deu conta quetambém a amava – morre devido ao desabamento da Missãode Mobora que resultou do início das demolições.

E a sina de Aruanda repete-se! O impreterível e o inevitável. No domínio espírita e até espiritualista, é transversal, nas diferentes concepções sobre Aruanda, a ideia de ser um lugarde paz, considerado um paraíso, onde se encontra tudo quanto é necessário para evolução do espírito e compreensão das transições de vidas. Deste modo, embora transfigurado em Prazo, compreendemos que Aruanda simboliza, neste romance, um espaço eterno (veja-se: outrora um Prazo, Aruanda, mais de 100 anos depois, é preservado, passando a ser «a maior atracção turística do país»). É neste espaço eterno onde os espíritos, de facto, vão evoluindo, vão-seaperfeiçoando e expiando as suas imperfeições. Pedro Lucas e Carina de Sousa – ou, se quisermos, Daniel de Barros e Maria Cristina – são um exemplo desta evolução contínua, de reencontros e, sobretudo, exemplos de que a morte não é o fim, a morte não existe, e a parte final do romance demonstra-o perfeitamente:

A temperatura voltou a descer. Enfio-me numa camisola de malha, e puxo o cobertor felpudo para cima das pernas. […] Compenetro-me a rever a minha tese de doutoramento, já bem avançada, entreuma golada e outra de chá. Esta cidade europeia enche-me os olhos de maravilhoso, mas nada se compara com estar em casa. Mergulho um biscoito de chocolate no chá e ajeito-me na manta. Ouço então a campainha.

Surpreendo-me, pois não aguardo ninguém. A campainha volta a tocar.

– Um minuto!

[…]

Hoje sei que nunca estarei só. Alcanço a porta e giro a maçaneta (Ferrão, 2021, p. 239).

Assim, tal como Pedro Lucas teria compreendido que a sua morte não era o fim, compreendendo de igual modo a morte da sua amada, Daniel de Barros compreendia que a morte da sua Maria Cristina não era o fim da vida e, principalmente, do amor que tinham um pelo outro. Estas almas ou espíritos encarnados, como Kardec (1944, p. 123) explica, não tendo alcançado a perfeição durante a vida corpórea podem (e podiam) depurar-se, sofrendo prova de uma nova existência.Por isso, esta sina (o impreterível ou o inevitável) a que nos referimos há pouco não nos parece que, neste romance, seja uma condição de fatalidade; aliás, a encarnação

[…] Para uns, é [para a] expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação» (Kardec, 1944, p. 105).

Portanto, em A Sina de Aruanda, todas as personagens relevantes da história são encarnações: Daniel de Barros, Maria Cristina e Angelina Manhiça (esta foi D. Fernando, médico e melhor amigo de Pedro Lucas no Prazo de Aruanda). É Angelina o meio através do qual se revelam a Daniel de Barros e Maria Cristina as suas vidas passadas, por meio de regressões orientadas pela mãe desta, Irina.

Num romance multifacetado que, como foi possível perceber, para além desta memória à história de Moçambique, através do Prazos do Vale do Zambeze, Virgília Ferrão descortina os mistérios da vida, fazendo-nos viajar pela dimensão imaterial do mundo, pela imortalidade da alma, pelos liames do corpo edo espírito, revelando a misticismo e os mistérios da vida, ao mesmo tempo que os firma e reforça, fazendo-nos reflectir sobre o que somos, sobre as nossas escolhas, sobre a essência humana e nossa existência.

Devo afirmar que, quando comecei a ler este romance, havia recebido um trabalho de fim de curso de uma estudante que decidira estudar as fronteiras entre o real – entendido como empírico – e o ficcional em Ualalapi, de Ungulani ba kaKhosa e Mbelele e Outros Contos, de Aníbal Aleluia. A realidade empírica e a realidade ficcional umas vezes se demarcam, outras vezes se diluem, ocultando as suas fronteiras dentro de toda a ambivalência que o termo «fronteira» encerra. Ora, aproveitando-me deste trabalho de fim de curso, vi, à primeira, em A Sina de Aruanda, uma ficção cujo diálogo com a realidade é distante do mundo material, mas, se cada um de nós olhar para dentro de si e à sua volta, talvez compreenda que todos somos mais do que seres corpóreos; somos, por conseguinte, almas, e a ficção é um modo de nos compreendermos cada vez mais como seres humanos.

Termino este texto com uma frase de Ernest Hemingway, precisamente para me referir a este livro que hoje é publicado: «Todos os bons livros se parecem: são mais reais do que se tivessem acontecido de verdade.»

Obrigado pela atenção e parabéns à escritora!

 

Autores citados

Carrara, Orson Peter. (2007). Espíritos. São Paulo: MythosBooks.

Ferrão, Virgília (2021). A Sina de Aruanda. Maputo: Fundação Fernando Leite Couto.

HUSSERL, Edmund. (2000). A Ideia da Fenomenologia. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70.

Kardec, Allan (1944). O Livro dos Espíritos. Princípios da Doutrina Espírita. 93.ª ed. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira.

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