O País – A verdade como notícia

O assalto

XIPIKIRI A chave rodou. O veículo respondeu ao golpe da ignição com um solavanco tímido, mas conteve a precipitação. O motor soltou-se e gemia: hmmmmmmmm! Trémulo, o carro parecia nervoso. O molho de chaves pendurado na ignição tilintava. O escape arfava em suspiro contínuo. Senti uma inquietação súbita, uma quase cócega no peito. A minha […]

“Cicatriz encarnada”: o retrato do espaço

Porque a alma não vive entre as coisas/ mas na acção ousada de as decifrar Raquel Lanseros Os subúrbios de Maputo encerram, na sua essência, vários momentos importantes da vida dos moçambicanos. Por isso, não faltam autores que encontram naqueles espaços a lanterna que ilumina o poder da criatividade literária. Um desses autores é Rogério […]

“Rei Artur” deposto, Conde humilde posto

É virtual campeão, a duas jornadas do fim do Moçambola, com um avanço que não deixa dúvidas. Diante das câmaras da televisão, apresentou-se cansado, denotando rouquidão, mas alegria e gratidão. É o Chiquinho Conde que todos (re)conhecemos, vindo de uma família de Condes em que mais três irmãos jogaram na Selecção Nacional, algo que deveria […]

Passado: uma mazela em Asas quebradas

O passado é sempre uma ilusão, um devaneio da nossa imaginação Carlos do Santos Voar com asas quebradas é péssimo para qualquer pássaro que quer esbanjar-se na beleza de ser ave. É difícil e isso resulta num conjunto de problemas que fazem do voo um acto de sobrevivência. E sobreviver é tudo que Celinha, a […]

A intolerância em “o mundo que iremos gaguejar de cor”

Somos, cada vez mais, os defeitos que temos, não as qualidades José Saramago A intolerância é um incidente constante em o mundo que iremos gaguejar de cor, de Pedro Pereira Lopes. Manifestada de formas diferentes, aquela mácula aparece categoricamente no livro mesmo com alguma finalidade: discriminar, condenar ou punir. Nisso, são várias as personagens, sobretudo […]

A função dos nomes em “o deus restante”

Um nome é um corpo vivo fervilhando de energia Paulina Chiziane A poesia moçambicana continua a merecer atenção, com poetas que não sabem fazer outra coisa senão o bom uso da pena. Nesta vegetação, com vários oásis, não nos faltam essas vozes do silêncio feitas de solidão, desejo e viagem, como quem rema para adiar […]

Quelimane: rescaldo de uma festa rija e bonita…

Xi-Cau Cau Edil em grande plano… do governador, nem sombra! Antes de moçambicanos, somos manachuabos. Este foi o “pano de fundo” que uniu e levou a Quelimane, na Semana da comemorações das Bodas de Diamante, pessoas com ligações à terra, vindas de vários lugares do Mundo, que se juntaram aos que vivem na terra do […]

As dimensões da palavra em Armindo Mathe

Quero partir a palavra aos pedaços para que volte a ser inteira JR A escrita literária ainda é o ocaso que conduz a uma peregrinação além do espaço. E nessa peregrinação inusitada quanto fascinante, tudo é feito em várias simetrias, como acontece em Romaria: três dimensões do vento, de Armindo Mathe (autor duas vezes distinguido […]

“VISÃO”: quando a bondade é conversa para boi dormir

A bondade é o mais precioso de todos os tesouros Máximo Gorki Em Albergue nocturno, Máximo Gorki manifesta um raciocínio: “a bondade é o mais precioso de todos os tesouros”. De facto, o autor russo tem muita razão, quase que na mesma proporção que João Paulo Borges Coelho, quando, em Água, salienta uma verdade: “deste […]

“Recados da alma”: do amor à reconstrução da memória

Você pode apaixonar-se por belos estranhos e pelas promessas que eles fazem Dire Straits Como contar a história dos últimos 50/ 60 anos? Certamente, esta pergunta não merece resposta inquestionável. Não existe uma fórmula definitiva, mas sempre há possibilidades de se recuar no tempo e, das suas entranhas, retirar-se o que de mais impactante encontra-se. […]