Dezoito anos após a sua criação, a Autogas continua a enfrentar dificuldades para firmar um contrato com o Governo para a alocação de gás natural veicular (GNV) destinado ao abastecimento do mercado, situação que contribui para o elevado custo do produto. O Executivo promete flexibilizar o vínculo, mas ainda não avançou prazos concretos.
Com cerca de 4.000 a 4.500 autocarros movidos a gás no país, a maioria concentrada na região da Grande Maputo, a Autogas pretende expandir a sua presença no mercado nacional, mas as dificuldades persistem. Desde a sua criação, a empresa tem vindo a adquirir gás junto de operadores privados, enfrentando constrangimentos para aceder directamente ao produto fornecido pela Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH).
“Estamos há quase 10 a 15 anos a tentar assinar contrato de aquisição de gás com a empresa do Estado que comercializa este produto, neste caso a ENH, mas tem sido difícil. Não sabemos quais os constrangimentos, mas continuamos a crer que um dia vamos chegar a um consenso”, lamentou Octávio Mutemba, PCA da Autogas.
A ausência de um contrato oficial também dificulta o processo de expansão dos postos de abastecimento, actualmente limitados aos municípios de Maputo, Matola e Marracuene. “Os consumidores querem o gás disponível mais próximo e maior capacidade de abastecimento. Um posto de GNV custa aproximadamente 1 milhão de dólares. Para massificar o uso do gás, é preciso investir na expansão da rede de postos e na sua capacidade. Cada novo posto deve ser acompanhado por um aumento de consumidores um novo posto não garante automaticamente mais utilizadores. Além disso, a conversão de viaturas custa, em média, cerca de 1.000 dólares”, explicou o dirigente.
Em resposta às preocupações, o Governo prometeu intervir, sem indicar datas concretas. “A infraestrutura existente será aproveitada, e o gás veicular é bastante importante, podendo suprir as necessidades de consumo local. Esta alternativa contribui também para reduzir a dependência de combustível importado, incluindo a diminuição de custos associados. É uma solução que deve ser encarada com seriedade, pois precisamos de utilizar os recursos disponíveis no país”, afirmou Estevão Pale, Ministro dos Recursos Minerais e Energia.
O governante acrescentou que a redução do custo de conversão dos veículos depende da importação de equipamentos e acessórios, sendo necessário encontrar alternativas mais económicas e envolver novos parceiros que facilitem a transição para o uso generalizado do gás veicular.
Apesar das limitações, acredita-se que a Autogas está no caminho certo. Segundo o Ministério dos Transportes, estão previstos, ainda este ano, cerca de 100 novos autocarros a gás, o que deverá impulsionar a utilização do combustível e melhorar a situação do contrato. Depois de Maputo e Marracuene, a província de Gaza será a próxima a receber um posto de abastecimento de gás natural veicular.
Gás veicular apontado como alternativa aos combustíveis
Empresários, operadores de transporte e parceiros defendem que o país deve acelerar o processo de conversão e regulamentação do uso de gás veicular, de modo a facilitar a transição no mercado, numa altura em que a Agência Metropolitana de Transportes anuncia a chegada de 190 novos autocarros movidos a gás.
Num contexto em que o mundo enfrenta dificuldades no acesso aos combustíveis, devido às tensões no Médio Oriente, agentes económicos e autoridades do sector dos transportes apontam o gás como uma alternativa viável.
Aliado a este cenário, a região da Grande Maputo prepara-se para receber uma frota de mais de 190 autocarros movidos a gás, número que poderá aumentar até 2029.
“Para o quinquénio 2025-2029, está prevista a aquisição de 1.145 autocarros para o transporte público de passageiros ao nível do país, dos quais 190 unidades serão alocadas à Área Metropolitana de Maputo e a gás (GNV). O restante será distribuído para o resto do país, movido a combustíveis fósseis (diesel)”, anunciou Armando Bembele, em representação da Agência Metropolitana de Transportes.
Enquanto Maputo avança com a implementação, o Município da Manhiça manifesta interesse em adquirir autocarros movidos a gás, mas enfrenta limitações devido à inexistência de postos de abastecimento.
Reunidos em Maputo, os intervenientes da cadeia de valor dos transportes, com destaque para a Autogas, debateram, esta quinta-feira, soluções para dinamizar o mercado, considerado uma alternativa aos combustíveis fósseis.
A Autogas tem em carteira projectos de expansão de postos de abastecimento, sendo a província de Gaza apontada como o próximo destino, mas condiciona o avanço à existência de garantias e à harmonização do quadro legal.
“A Autogas tem em carteira projectos de expansão de postos de abastecimento, sendo a província de Gaza apontada como o próximo destino. Contudo, o avanço depende da existência de garantias e da harmonização do quadro legal, para que possamos dinamizar o mercado de forma sustentável”, explicou João Neves, Director-Geral da Autogas.
Para os parceiros da empresa, Moçambique reúne condições para se afirmar como alternativa energética, sobretudo face às tensões no Médio Oriente.
“Precisamos aumentar esta utilização do gás natural, especialmente pelo que está a acontecer à volta do mundo, com o aumento dos preços do petróleo e combustíveis líquidos. Por isso, é hora de utilizar o gás natural. A boa notícia é que, por exemplo, nós viemos do Egipto, onde temos grande experiência na utilização do gás natural nas viaturas e no sector dos transportes”, explicou um representante da TAQA Arabia.
O Governo, representado pelo MIREME, acompanhou o debate e manifestou abertura para apoiar o sector, destacando os progressos na construção de infra-estruturas de transporte de gás.
Sob o lema “Aproximando os intervenientes para a massificação do uso do gás natural”, o seminário anual serviu também para reforçar compromissos do sector com vista à expansão do uso desta fonte de energia no país

