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A minha sombra é de coqueiro

Só tenho a sombra do coqueiro para me proteger dos raios impiedosos do sol do verão. Movo-me a cada instante, seguindo o desenho das folhas, para me esconder também da chuva intensa que cai como um lamento antigo e afunda o sofrimento num silêncio envelhecido.

As folhas secas do coqueiro são o abrigo que a vida me concedeu, frágil refúgio contra a fúria da natureza. Encosto-me ao tronco alto e, nas noites caladas, contemplo o mundo em silêncio. Com os meus frágeis dedos beijo as cordas da minha guitarra, que sopra melodias feitas de solidão, um som antigo e clássico, cobiçado apenas por ouvidos atentos e pensamentos nobres.

 Só tenho a sombra do coqueiro para esconder a vergonha do sofrimento que a vida me oferece. Nos dias em que a chuva sopra do Índico, o mundo observa, impaciente, a dor com as cores de pena e cara de frio. Às vezes abraço o coqueiro para me proteger do gelo da chuva e penso na ausência da vida humanizada.

 Renuncio ao prazer nas noites em que, sozinho, tento aquecer a areia que a lua deixou fria. Deitado, com as mãos sobre a barriga vazia, que o mundo não conseguiu alimentar com um pão, agradeço aos ancestrais pelo dom da vida, ainda que o mundo a tenha desprezado com o tom amargo do sofrimento.

 Quando imagino a esquina onde encosto a cabeça para sobreviver, surge-me a história da criança de rua como eu, que perguntou a um casal nobre, ao passar a beira das suas mãos estendidas:

“Se eu tocar minha viola cansada e cantar com a voz pobre uma canção cheia de dor, o mundo pode oferecer-me um prato de comida?”

 Sereno como a gaivota, não desenho desejos nem convido o prazer, pois este mundo oferece apenas sombra de coqueiro para nos proteger do desprezo e da maldade dos corações, onde o sorriso do pobre é sepultado sem regra, enquanto a dança dos ricos enche celeiros de abundância.

 Então chamo pela voz da minha mãe, para me tirar das noites de vento sob a sombra do coqueiro e me levar além do horizonte, onde espero encontrar a riqueza do silêncio para cobrir a nudez das palavras e sentar-me, enfim, a assistir ao jogo da vida sem me abraçar à sombra magra do coqueiro. Sim, invoco a voz da minha mãe, onde quer que eu esteja, para trazer o manto que me protege do desprezo do mundo e torna a vida frágil como a sombra do coqueiro, cujas folhas deixam passar o sol ardente e as gotas geladas da chuva.

Preciso de palavras líricas e ricas de esperança, que formem frases com rimas que devolvam a dignidade da vida, salvem o pobre do sofrimento sem fim e ofereçam cobertura divina durante a travessia da existência nesta terra de sacrifício.

FIM.JS

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