O País – A verdade como notícia

A arte de matar nas redes sociais

Está a tornar-se viral no país alguém anunciar, em grupos de WhatsApp ou noutras redes sociais, a morte de uma figura pública ou de anónimos, evocando o Coronavírus, quando, na verdade, essas pessoas estão vivas e nem sequer se encontram infectadas.

Este tipo de notícias cai com muita naturalidade no seio da sociedade, pois, numa altura destas, pode esperar-se tudo. Lamenta-se pelo sucedido. Gera-se um ambiente de medo, pânico e de incerteza sobre quem será a próxima vítima.

A dor e a consternação tomam conta, imediatamente, dos amigos, familiares, vizinhos, colegas de serviço, admiradores, enfim, de pessoas muito próximas ou que conviveram com o fulano.

A mentira só é descoberta quando no meio de muita tristeza, há quem, com alguma frieza, resolve procurar a confirmação do caso.

No último fim-de-semana, aconteceram dois ou três episódios que me deixaram sem chão e completamente gelado. É que deparei-me, num dos grupos de Whatsapp, com a informação que dava conta de que Dom Dinis Sengulane nos tinha deixado vítima da covid-19.

Tal aconteceu quando acabava de ver imagens televisivas relacionadas com o seu programa denominado “Vida Plena” que passa aos domingos num dos canais privados da TV em que ele aparecia.

Confesso que fiquei bastante chocado e tentava digerir a notícia quando soube de outros membros do grupo que afinal ele está bem vivo e que quem morreu foi o seu irmão Moisés Sengulane. Triste.

Ao tentar refazer-me do susto, eis que num outro grupo de Whatsapp, um sujeito que se identificou como sendo jogador do Clube de Chibuto, apareceu como que a confirmar a morte do presidente do clube, Yunusso Valente Albino, igualmente vítima da covid-19.

Deixei-me cair na ratoeira porque era alguém muito próximo do dirigente do clube em causa. Infelizmente, mais uma vez estava em presença de uma brincadeira de mau gosto praticada por indivíduos IRRESPONSÁVEIS e sem escrúpulos. Pessoas que nada têm a fazer na vida que não seja inventar mortes.

Para fazerem acretidar-nos nas suas invenções, evocam sempre, como motivo de falecimento, o coronavírus. Antes destes dois casos, circulou, em quase todos os grupos de que sou membro, e não são poucos, a informação da morte do sociólogo Gulamo Taju. Teve que ser ele próprio a entrar em alguns dos grupos e desmentir a notícia. Vejam só até onde as coisas chegaram.

Outros casos semelhantes acompanhei, com tristeza, durante a semana passada, envolvendo alguns anónimos que, entretanto, não morreram coisíssima nenhuma, o que é, no mínimo, desagradável.

Os mentores destas falsas notícias brincam com os sentimentos das pessoas. Mexem com os corações de todos nós já cheios de preocupações e com a nossa sensibilidade. Desestabilizam todo o mundo.

Antes de postarem este tipo de coisas, deviam pensar um pouco sobre o impacto negativo que isso representa no seio da família do visado. Da sua comunidade. Do seu bairro. Dos seus amigos, vizinhos e colegas de serviço. Coloquem-se no lugar de todas estas pessoas.

É preciso ter muita coragem para anunciar a morte de alguém que nem sequer está doente. Criar pânico e agitação nas pessoas e divertir-se com isso.

Os responsáveis por estes anúncios de mortes falsas, quando localizados, devem ser denunciados às autoridades para que sejam punidos exemplarmente e através deles, desencorajar futuros casos.

Aliás estou espantado que até hoje a Polícia não tenha iniciado uma aturada investigação para prender estes malandros. Afinal porque é que nos obrigaram a registar os nossos números nas operadoras de telefonia móvel? Não era para, em caso de necessidade, rastrear um e outro número e chegar aos criminosos, burladores e outros? Se é isso, de que é que estão à espera?

Pulula, nas redes sociais, todo o tipo de criminosos, em particular burladores, que tentam, a todo o custo, enrolar pessoas honestas e tirar-lhes dinheiro, usando muitos esquemas. Desde fulanos que enviam mensagens aleatoriamente, dizendo: “envia aquele dinheiro para este número de Mpesa”. Alguns com transferência pendente, caem nessa ratoeira e enviam o dinheiro para uma pessoa errada. Às vezes são valores altos.

Outros pedem que lhes enviem alguns valores em nome de pessoas amigas ou chefes hierárquicos para resolver certas preocupações urgentes. Que os beneficiários do apoio não podem pedir pessoalmente porque estão reunidos, etc. etc.

Conheço pessoas que também caíram nessa armadilha. Houve um caso que envolveu o nome de um ministro que, consultado depois da burla consumar-se, disse que não tinha sido ele a solicitar a ajuda. Quinze mil meticais foram-se num lapso.

Como estes, há muitos casos criminais que rolam, de diversas formas, nas redes sociais e que alguém tem que se encarregar de parar com estas brincadeiras. Crimes que têm estado a lesar muita gente. É tempo de a polícia levar a sério esta situação. Já temos uma lei que aborda os crimes cibernéticos, uma boa base para actuar.

Quem fala de burla, pode falar de indivíduos que brincam com a imagem do Presidente da República. Usam algumas plataformas para denegrir a imagem de algumas pessoas. Gente que coloca em circulação documentos oficiais, a exemplo de decretos e outros, antes de serem divulgados por vias normais.

Algumas dessas coisas ultrapassam a fronteira da brincadeira e são autênticos actos criminais puníveis por lei. Tudo ocorre à luz do dia, dai que a polícia não nos venha dizer que està à espera que alguém submeta uma queixa para poder actuar.

Os factos são tão evidentes que chegam a dispensar qualquer tipo de denúncia. O que falta mesmo é a acção policial. Mãos a obra rapazes! Mostrem-nos serviço. Protejam-nos contra os crimes cibernéticos, pois é para isso que pagamos impostos. Façam a vossa parte com zelo e profissionalismo e nós, contribuintes, faremos a nossa para que não vos falte o salário.

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