Há pelos 100 casas destruídas e famílias ao relento em Nhamuza, no distrito de Chibuto, depois da demolição das suas casas. Os afectados acusam o Governo de injustiça e dizem ter perdido habitações avaliadas entre 200 e 300 mil meticais, construídas ao longo de anos de sacrifício. Sem abrigo, algumas famílias enfrentam, agora, falta de comida e a perda de material escolar dos filhos. O Município de Chibuto diz, entretanto, que a operação ocorreu numa área reservada pelo Estado para a construção do Hospital Distrital.
Passa já uma semana desde a demolição de cerca de 100 residências, na zona de Nhamuza, no distrito de Chibuto, em Gaza.Entre os afectados está Carlota, de 56 anos de idade, que diz ter perdido, de uma só vez, três casas que construiu durante anos de sacrifício.
“Entre pedras, estacas partidas, chapas e outros pertences espalhados pelo chão, procuro aquilo que restou.”
Ao lado, dois dos seus seis filhos menores ajudam na procura. Há uma semana, aquele espaço era o lar da família. Hoje, restam escombros.
“Há poucos dias, aquelas casas eram o nosso lar e o nosso refúgio. Hoje, já não temos uma casa onde nos abrigar. Estamos aqui, expostos ao frio e sem saber onde vamos dormir nos próximos dias”, lamentou.
A demolição não levou apenas o tecto da família. Com as casas, desapareceram também alimentos, roupas e parte do material escolar das crianças, que, segundo Carlota, deixaram de frequentar a escola.
“Não temos comida e estamos a morrer de fome. Estamos tristes com tudo isto e exigimos medidas contra aquilo que consideramos uma injustiça. Não sabemos como vamos alimentar os nossos filhos nem como eles vão continuar a estudar.”
O drama de Carlota repete-se por Nhamuza. Ao longo da zona, chapas, blocos partidos, caniço, roupas e outros pertences espalham-se pelo chão, denunciando a destruição das casas de cerca de 100 famílias que agora dizem estar sem abrigo.
As famílias contestam a forma como o processo foi conduzido e dizem não compreender como perderam, de um momento para o outro, habitações que construíram ao longo de anos e que, segundo os afectados, estavam avaliadas entre 200 e 300 mil meticais.
“Construímos estas casas com muito sacrifício. Fomos comprando material aos poucos, com o dinheiro do nosso trabalho. Não é justo perder tudo desta maneira e ficar sem saber para onde ir.”
Entre os afectados está Puka Lhaio, que considera a área uma herança da sua família e questiona a destruição das habitações.
“Esta área é uma herança da minha família. Não aceito que as casas sejam destruídas desta maneira. Há pessoas que perderam tudo e ficaram sem abrigo. Queremos que as autoridades superiores intervenham para esclarecer esta situação e encontrar uma solução para estas famílias.”
A revolta cresce entre os moradores, que dizem ter sido surpreendidos pela operação de demolição e contestam a alegação de que foram devidamente informados para abandonar a área.
“Não queríamos chegar a este ponto. Se havia um problema com a ocupação da área, deviam sentar connosco e explicar-nos claramente o que estava a acontecer. Não se pode simplesmente destruir uma casa onde vivem famílias.”
Mas o Município de Chibuto apresenta uma versão diferente. Justino Macondzo diz que os residentes foram notificados por três vezes para abandonar a área, sem sucesso.
“Os residentes foram notificados por três vezes para abandonar a área, mas, apesar das notificações, permaneceram no local. A intervenção ocorreu depois de esgotadas essas comunicações.”
A autarquia sustenta ainda que a operação decorreu numa área destinada a uma infra-estrutura pública. Segundo o Município, a decisão é suportada por um Direito de Uso e Aproveitamento da Terra, DUAT, emitido em Dezembro de 2022, que estabelece a área como reserva do Estado para a construção do Hospital Distrital de Chibuto.
“A área em causa está reservada para a construção do Hospital Distrital de Chibuto. A nossa intervenção teve como objectivo garantir a disponibilidade do espaço destinado à construção daquela infra-estrutura.”
Os proprietários das casas rejeitam, contudo, a versão do Município e dizem que o processo foi conduzido de forma coerciva, sem que fossem apresentadas soluções para as famílias desalojadas.
E, entre as escombros, cerca de 100 famílias procuram uma resposta para o que fazer depois de perderem aquilo que levaram anos a construir.