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Seca e Guerra devastam agricultura no Sudão

El Niño atrasa as chuvas e reduz os níveis do Nilo, agravando a crise alimentar num país já devastado pela guerra e pelo aumento dos custos de produção

Ao longo das margens ressequidas do Nilo, no Sudão, agricultores lutam para levar água às suas plantações, enquanto outros recorrem a orações para pedir chuva sobre uma terra marcada por profundas fendas.

Em todo o país, vastas áreas agrícolas que poderiam contribuir para alimentar milhões de pessoas permanecem abandonadas. A guerra, a escassez de combustível e fertilizantes e, agora, a falta de chuva estão a empurrar os agricultores para uma das épocas agrícolas mais difíceis de que há memória.

O Sudão enfrenta desde Abril de 2023 uma guerra entre o exército e as Forças de Apoio Rápido, conflito que provocou centenas de milhares de mortos e deixou milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar.

A crise agravou-se com o aumento dos preços dos combustíveis e fertilizantes, num contexto de perturbações no abastecimento internacional. Agora, o fenómeno climático El Niño veio acrescentar uma nova ameaça, atrasando as chuvas e contribuindo para a redução dos níveis de água do Nilo.

Ao sul de Cartum, o agricultor Al-Tigani Fadlallah aponta para uma ilha de areia que normalmente estaria coberta pelas águas do rio nesta época do ano.

“Normalmente, a água cobre tudo em Julho, mas já é possível ver agora”, afirmou Fadlallah, citado pela AFP, considerando o aparecimento do banco de areia um mau presságio para as suas culturas.

De norte a sul, agricultores relatam dificuldades semelhantes. A água não chega em quantidade suficiente através do rio e as chuvas, essenciais para as culturas de sequeiro, tardam em aparecer.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alerta que a actual campanha agrícola decorre sob elevado risco climático, associado às condições do El Niño, caracterizadas por chuvas tardias e abaixo da média, bem como períodos prolongados e frequentes de seca.

O cientista climático e hidrólogo Elfatih Eltahir, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que há três décadas estuda a relação entre o El Niño e o Nilo, considera que existe uma forte ligação entre o fenómeno climático e a redução do caudal do rio.

Segundo a sua investigação, quando o El Niño se manifesta no final da Primavera, aumenta a probabilidade de ocorrência de seca no sudeste do Sudão e no noroeste da Etiópia, região onde nasce o Nilo Azul.

Dados da Universidade de Tübingen, na Alemanha, indicam que os níveis de água no reservatório da Grande Barragem da Renascença Etíope, no Nilo Azul, estavam, em Julho, cerca de seis metros abaixo dos registados no mesmo período do ano passado.

Eltahir defende, por isso, maior transparência e cooperação entre a Etiópia, o Egipto e o Sudão na gestão dos recursos hídricos do Nilo, sobretudo num contexto de alterações climáticas que favorecem fenómenos extremos, como secas e cheias mais intensas.

No Estado de Gedaref, junto à fronteira com a Etiópia e uma das principais regiões produtoras de sorgo e sésamo do Sudão, os efeitos da seca já são visíveis.

Com a chegada de Agosto, campos que habitualmente apresentam uma paisagem verde permaneciam castanhos e secos. Agricultores reuniram-se junto de líderes religiosos para rezar por chuva.

“Precisamos destas chuvas para as nossas plantações e para o nosso gado, e elas estão atrasadas”, afirmou o agricultor Abdelmajid Hussein, depois de uma oração.

A ministra da Agricultura, Ismat Qurashi, disse que os agricultores estão a ser aconselhados a optar por culturas mais resistentes à seca e a adiar o período de plantio.

Moussa Yaacoub, de 75 anos, cultiva sésamo há décadas e já enfrentou três campanhas agrícolas durante a guerra. Cada uma, segundo relata, foi mais difícil do que a anterior.

Com a terra novamente rachada pela seca, o agricultor teme não conseguir suportar os custos da próxima campanha, que, segundo afirma, estão quatro vezes mais elevados.

“Não consigo ter um momento de paz”, lamenta.

Mais abaixo, no Estado de Al-Jazira, outra importante região agrícola e produtora de cereais, Hassan Ahmed observa a propriedade da família, cultivada há cerca de um século.

Depois de regressar à exploração no ano passado, na sequência da recuperação da região pelo exército, Ahmed encontrou a propriedade saqueada e as árvores debilitadas pelo calor.

Juntamente com os filhos, começou a recuperar a fazenda, mas este ano voltou a enfrentar dificuldades devido à falta de água.

“Tenho 63 anos e nunca vi o Nilo tão baixo em Agosto”, afirmou. Segundo Ahmed, nesta altura do ano a água deveria ter encharcado o solo a vários metros de profundidade, permitindo a utilização das bombas de irrigação.

A combinação entre a escassez de água, o aumento dos custos de produção e um mercado profundamente fragilizado está a levar muitos agricultores a abandonar as suas terras.

Cerca de 65 por cento das extensas terras aráveis do Sudão são consideradas inutilizáveis, agravando uma crise alimentar que já afecta milhões de pessoas.

Alguns agricultores chegaram a iniciar o cultivo, mas acabaram por abandonar as plantações quando perceberam que a colheita não compensaria os custos.

“Plantaram as suas culturas, mas depois deixaram-nas morrer porque simplesmente não valia a pena fazer a colheita”, afirmou o jovem agricultor Mohamed al-Tijani, citado pela AFP, nas proximidades de Cartum.

O Sudão depende da importação de combustível e de grande parte dos fertilizantes utilizados na agricultura. Os custos destes produtos terão aumentado até cinco vezes este ano, agravando as dificuldades provocadas pela guerra e pela crise económica.

Para muitos agricultores, o risco é perder não apenas a colheita, mas também o investimento realizado.

Ainda assim, alguns insistem em continuar a trabalhar.

O agricultor veterano Ahmed Othman sabe que poderá não recuperar o dinheiro investido na campanha, num mercado debilitado e com grande parte da população sem emprego.

“Mas pelo menos posso dizer que estou a trabalhar”, afirmou, mantendo-se nos campos apesar das condições adversas.

Entre a guerra, a seca e a crise económica, os agricultores sudaneses enfrentam uma realidade em que produzir alimentos se tornou cada vez mais difícil, justamente quando o país mais precisa da sua agricultura para combater a fome.

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