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Combustíveis mais caros agravam custo de vida e ameaçam negócios em Mabote

Comerciantes enfrentam aumento dos custos de transporte, enquanto operadores de passageiros queixam-se da falta de clientes após agravamento das tarifas

A mais de 100 quilómetros da Estrada Nacional Número Um, o distrito de Mabote vive uma realidade onde quase tudo chega depois de uma longa viagem por uma estrada marcada por buracos, poeira e dificuldades de circulação. Num território onde o comércio constitui uma das principais fontes de rendimento para centenas de famílias, a recente subida do preço dos combustíveis veio agravar um cenário que já era desafiante para quem depende do transporte de mercadorias e passageiros para sobreviver.

O impacto da crise faz-se sentir em praticamente todos os sectores da economia local. Dos comerciantes que precisam trazer produtos da Maxixe, de Inhambane ou de outras regiões do país, aos transportadores que diariamente percorrem estradas degradadas para garantir a mobilidade das populações, todos enfrentam custos mais elevados e margens de lucro cada vez menores.

Em Mabote, a distância em relação aos principais centros de abastecimento sempre representou um desafio. No entanto, os operadores económicos dizem que o aumento do preço do combustível tornou a situação ainda mais difícil.

António, comerciante estabelecido na vila-sede de Mabote, conta que fazer chegar mercadorias ao distrito é um exercício permanente de resistência.

Segundo relata, muitos comerciantes não possuem meios próprios de transporte e dependem do aluguer de camiões para trazer produtos da Maxixe. O problema é que o estado da estrada prolonga o tempo das viagens, aumenta o desgaste das viaturas e encarece significativamente os custos de transporte.

“O sofrimento é grande. Quando chove é pior ainda. Há períodos em que uma viagem que deveria ser feita num dia acaba por levar dois dias. A estrada tem muitos buracos e há zonas onde a circulação se torna extremamente difícil”, relata.

Para os comerciantes, a degradação da via não representa apenas um problema de mobilidade. Traduz-se directamente em custos adicionais que acabam por influenciar o preço final dos produtos vendidos à população.

A recente actualização do preço dos combustíveis veio agravar esta equação.

Cassamo Luzenda, também comerciante em Mabote, explica que os custos de transporte aumentaram de forma significativa nas últimas semanas.

Segundo conta, o aluguer de um camião de dez toneladas, que anteriormente custava cerca de vinte mil meticais, pode actualmente atingir valores entre vinte e cinco e trinta mil meticais.

“O combustível subiu e isso afecta tudo. Os transportadores aumentam os preços e nós somos obrigados a suportar esses custos. Muitas vezes os clientes pensam que estamos a especular os preços, mas a verdade é que os custos de operação também aumentaram para nós”, afirma.

A situação preocupa particularmente porque a maior parte dos produtos consumidos em Mabote não é produzida localmente. Alimentos, materiais de construção, bens de primeira necessidade e diversos outros produtos percorrem centenas de quilómetros antes de chegarem aos estabelecimentos comerciais da região.

Com o aumento dos custos operacionais, os comerciantes admitem que a subida dos preços ao consumidor poderá ser apenas uma questão de tempo.

“Por enquanto ainda não alterámos os preços, mas a tendência é essa. Quando os preços aumentam na origem, mais cedo ou mais tarde acabam por chegar até nós. E quando chegam, somos obrigados a fazer reajustes para conseguir continuar a trabalhar”, explica António.

O receio dos operadores económicos é que o agravamento dos preços reduza ainda mais o poder de compra das famílias, num distrito onde muitas pessoas já enfrentam dificuldades para satisfazer necessidades básicas.

Se para os comerciantes a principal preocupação está relacionada com o aumento dos custos de abastecimento, para os transportadores de passageiros o problema apresenta uma dimensão diferente.

Dependentes do gasóleo para manter as viaturas em circulação, muitos operadores foram obrigados a rever as tarifas para conseguir continuar a trabalhar.

Em algumas rotas do distrito, os aumentos chegaram a atingir cinquenta por cento.

Félix Massingue, transportador de passageiros, explica que os reajustes foram inevitáveis.

Segundo relata, o percurso para Mussengue, que anteriormente custava sessenta meticais, passou para noventa meticais. Já outras rotas registaram aumentos semelhantes.

No entanto, a actualização das tarifas trouxe consigo um efeito inesperado: a redução do número de passageiros.

“Muitas pessoas deixaram de viajar. Algumas preferem percorrer longas distâncias a pé porque já não conseguem suportar o custo das passagens”, conta.

A realidade descrita por Félix reflecte-se nas estradas e nos terminais improvisados do distrito. Em vez do movimento habitual de passageiros, muitos transportadores passam horas à espera de clientes.

Noé, outro operador do sector, diz que o aumento do combustível acabou por criar um ciclo difícil de quebrar.

Por um lado, os custos obrigam os transportadores a subir os preços. Por outro, o agravamento das tarifas afasta passageiros e reduz as receitas.

“O combustível está muito caro. O preço da passagem aumentou, mas os passageiros desapareceram. Há dias em que faço apenas uma viagem. Hoje ainda não consegui transportar ninguém”, lamenta.

A situação levanta preocupações sobre a sustentabilidade do transporte de passageiros em algumas rotas do distrito.

Sem passageiros suficientes para garantir rentabilidade, muitos operadores receiam não conseguir manter as actividades por muito tempo.

O impacto da subida dos combustíveis em Mabote vai além das contas dos comerciantes e transportadores. Os efeitos começam a repercutir-se em toda a economia local, influenciando o custo de vida das famílias e reduzindo a circulação de pessoas e mercadorias.

Economistas têm alertado que os aumentos nos combustíveis tendem a produzir efeitos em cadeia, afectando praticamente todos os sectores de actividade. Em regiões mais remotas, como Mabote, onde grande parte dos bens depende do transporte rodoviário para chegar aos mercados, os impactos tendem a ser ainda mais severos.

A combinação entre combustível caro, estradas degradadas e baixo poder de compra cria um ambiente particularmente desafiante para a actividade económica.

Enquanto aguardam uma estabilização dos preços, comerciantes e transportadores procuram adaptar-se como podem.

Alguns reduzem margens de lucro para evitar perder clientes. Outros diminuem a frequência das viagens ou procuram alternativas para reduzir custos operacionais.

Mas há uma percepção comum entre os diferentes sectores ouvidos pela reportagem: a de que o aumento dos combustíveis veio aprofundar dificuldades que já existiam.

Num distrito onde a distância continua a ser um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento económico, cada metical acrescido ao custo do transporte tem repercussões directas na vida das famílias.

E enquanto os preços continuam a subir, comerciantes e transportadores de Mabote seguem numa luta diária para manter os seus negócios activos, preservar empregos e garantir que produtos e serviços continuem a chegar a uma das regiões mais isoladas da província de Inhambane.

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