“Laye, mesmo consciente dos graves problemas que o seu
continente passava, sendo ele negro colonizado, optou em
escrever sobre sua participação nas cerimónias de iniciação,
festas na aldeia, suas férias, etc. sem mencionar a luta
antecolonial ou a violência colonial, Laye ignorou o contexto
histórico do seu continente.” Bano (2017)
É uma honra para mim, e, ao mesmo tempo, um desafio analisar este clássico da literatura Guineense sob o tema acima apresentado. A obra “O Menino Negro” é considerada a primeira da literatura guineense, a história da literatura desse país começou com esta obra.
Os livros clássicos são como a bíblia sagrada, devem ser analisados com todo o cuidado possível, sob pena de se escrever blasfémias contra eles.
Toda a análise solicita, imperiosamente, uma base teórica sobre o assunto que se pretende abordar, por isso, a seguir apresento conceitos-chave que me serviram de subsídio.
Olhando para o conceito e indício, Barthes citado por Reis Lopes (1996), entende que são unidades integrativas, cuja funcionalidade se situa num nível superior de descrição e análise, elas adquirem o seu valor no quadro da interpretação global da história. Os indícios têm sempre significados implícitos, e, frequentemente, só se decifram a nível da detecção dos valores conotativos de certos lexemas ou expressões.
No tocante à negritude, Goncalves (2016), diz que este movimento tinha como prosta promover um momento de tomada de conciesncia de se ser negro e de assunção dessa identidade negada no processo da colonização. Todavia, Cesaire (2010) define a negritude como sendo a tomada de consciência da diferença, como memória, como fidelidade e solidariedade, ela é um despertar de dignidade, ela é luta contra a desigualdade.
Para Pinheiros (2015) a negritude define-se pela valorização das práticas culturais, tradicionais pela formar como essas práticas devem ser respeitadas. No entanto, Margarido (1964) estabelece pontos de articulação da negritude os quais são: o racismo antirracista o sentimento do colectivismo, a comunicação com a natureza, o culto aos antepassados, etc.
Na mesma senda, Martins (2019) diz que a negritude traz em sua identidade elementos referenciais, como vida simples e instintiva, a predominância da natureza, o culto a ancestralidade, ideia de espontaneidade, pureza e inocência inata a raça negra, o regresso a origem a musicalidade, o ritmo e a dança.
Sobre o nosso o objecto de análise, Bezerra, Lima, Secco. Freitas (2022) dizem que
a obra mais conhecida e importante de Laye é sem dúvidas “L’Enfant Noir”, onde ele narra a história de uma criança africana que vive em um meio tradicional até chegar à maturidade, passando por provas iniciáticas e rituais tradicionais, até o momento em que deixa sua terra para ir estudar na França. Entendem ainda os autores supracitados, que Laye se envolveu muito na tradição sobre a qual escreveu e que se apropria da tradição para criar sua obra.
O movimento negritudinista esteve dividido em duas partes, uma política e outra literária. É possível notar no enquadramento teórico acima, que os autores apresentam diversas abordagens sobre a negritude. As questões que ficam são: Enquanto uns escreviam livros contra o colonizador, outros não podiam escrever livros de representação das suas tradições africanas? Afinal a ideia não era lutar por África em todos os aspectos e se exaltar a cultura?
A seguir apresento uma reflexão (análise) sobre a negritudinisse de O menino negro
de Camara Laye.
- A Valorização das práticas culturais e tradicionais
1.1. Falar com a natureza
Vimos, na base teórica que, segundo Pinheiros (2015) a negritude pode ser entendida como a valorização das práticas culturais, tradicionais. No nosso objecto de análise, notasse a comunicação com a natureza por parte de algumas personagens. Este fenômeno não constitui algo estranho nalgumas tradições africanas, o seja não estamos diante do fantástico. As religiões modernas é que marginalizaram este fenômeno, pois, desde os tempos primórdios (khokhoi, San e Bantu), comunicar-se com a natureza era visto como algo natural, porém, não era qualquer um que tinha este poder:
“Um dia notei uma pequena cobra negra que se dirigia a oficina/essa cobra é o gênio do teu pai/é essa cobra quem avisa de tudo, não me espanto nada/ tude me é revelado durante a noite/devo tudo a cobra, ao gênio da nossa raça” (p.17 e 19)
1.2. O culto aos antepassados
É uma característica daS religiões africanas invocar os antepassados, de modo que protejam e abençoem seus entes queridos. No nosso objecto de análise, encontramos episódios implícitos em que os antepassados são invocados de modo que abençoasse o protagonista da trama. Um primeiro caso é “o gênio da nossa raça, a cobra”, o pai do narrador teve-o por meio dos seus antepassados, desde o momento que entrou em contacto com ela entrava também em contacto com estas entidades sobrenaturais, seus antepassados.
- Expressões e nomes tipicamente africanos
Se para Reis e Lopes (1996) os indícios têm sempre significados implícitos, e
frequentemente, só se decifram a nível da detecção dos valores conotativos de certos lexemas ou expressões, julgamos conveniente apresentar algumas expressões utilizadas pelo autor na construção do texto, pois estes, constituem, ao nosso entender, indícios que possivelmente tenham também a função de elevar a obra ao carácter negritudinista:
“O Menino Negro/Cobra Negra/o gênio da nossa raça/griot/kapokier/Framager/kola/
cabelos ainda negros/quadro negro/tantã”
Estes elementos podem, simplesmente, ter uma função estética na obra, entretanto,
não descartamos a ideia de que o autor socorreu-se de elementos pertencentes a África, no caso de nomes de árvores, objectos, etc., de modo a passar ao leitor a ideia de estar diante de uma obra da lietrarura africana, são traços pequenos mais de grande relevância olhando para o tempo em que foi escrito este livros.
- A ideia de Superioridade da raça branca
Visto que a negritude visava não só o despertar e tomada de consciência de se ser
negro, mas também a luta pela igualidade, e era um movomento antirracista, retomamos o pensamento de Margarido (1964), que diz que o humanismo negro só podia legitimar-se como um convite ao conhecimento, a consciência de um nacionalismo africano que se opõe a existência de uma consciência nacional europeia, no entanto, o negro considera o branco superior apenas pelo facto de este dominar as técnicas, por ser engenheiro eletrônico ou engenheiro mecânico. Vimos no nosso objecto de análise, a ideia de que o branco é superior ao negro o que Munanga (2016), chama de mito da civilização ocidental como modelo absoluto.
“Mal cheguei ao Cais fui assaltado pelas lisonjas. «tu já és tão sábio como os brancos!» «tu já és realmente tão grande como os brancos »/essa foi a primeira noite que passei numa casa europeia/era uma casa confortável, com uma cama macia, muito mais macia que qualquer daquelas em que se estenderá até então/de início, a minha cubata fora como todas as outras. Depois, pouco a pouco, acabara por revestir um aspecto que a aproximava da Europa/será que o médico branco conseguiria ser bem-sucedido precisamente onde os nossos curandeiros tinhaM falhado?/ os brancos não morrem de fome/ são gente que nunca está satisfeita com nada, eles sempre querem tudo! Não podem ver uma coisa sem que queiram logo possuí-la” (p.118, 122, 141, 148, 156 e 157)
Nestes trechos, pode-se ver construída a ideia da superioridade do homem branco em relação ao negro. O que a negritude lutou contra, pois, toda a raça tem a sua riqueza, seu valor, como defende Pinheiros (2015). O trecho acima conota a ideia de que é verdade que os brancos tinham, naquele tempo, total superioridade em um e outro aspecto, mas também a ideia de que nós, os africanos, podíamos sonhar alto. Pessoas de igual nível de desenvolvimento não têm como ensinar um ao outro não acham?
- O distanciamento dos problemas enfrentados pelo seu continente
Numa época em que muitos países do continente africano estavam sobjugo colonial, “O Menino Negro” é publicado em 1953. Para Bano (2017), Laye mesmo consciente dos graves problemas que seu continente passava, sendo ele negro colonizado…ignorou o contexto histórico do seu continente. Entendo que o movimento da negritude já existia na altura em que Laye escreveu sua obra, prefiro achar que Laye, sendo um indivíduo culto, como diz o nosso objecto de análise (se olharmos pela análise biografista), ele teve conhecimento deste movimento tanto no âmbito político assim como literário. Não acho que sua obra, pelo facto de não tocar na questão da colonização em África distancie-se da ideologia política da negritude.
Nesta obra, Laye, como autor empírico, denuncia a brutalidade nos ritos de iniciação, denuncia as injustiças que algumas crianças passavam nas escolas do seu país, as quais ele passou. Portanto, não seria justo dizer-se que esta obra, pelo facto de não apontar o dedo ao colonialismo, não se tenha importado com o estado do seu país, do seu continente. Se quisermos criar um juízo sobre o porquê de Laye não falar do contexto histórico do seu país e do seu continente e em que medida isso pode distanciar sua obra da negritude, devemos primeiro entender qual era o principal objectivo da Negritude quando foi criada, esta resposta nos é dada por dois autores. A primeira por Pinheiros (2015) que diz que a negritude define-se pela valorização das práticas culturais, tradicionais pela forma como essas práticas devem ser respeitadas e a segunda por Goncalves (2016), que diz que a negritude tinha como proposta, promover um momento de tomada de conciesncia de ser negro e de assunção dessa identidade negada no processo da colonização. Portanto, penso que na medida em que a negritude liga-se à ideia de luta contra o colonialismo, assume o seu carácter político. Portanto, concluo que “O Menino Negro” de Camara Laye é um marco quando se fala da negritude na literatura da Guiné Konacri, quando se está a olhar na vertente de valorização da cultura e tradição da antiga Alta Guine. Na vertente de contributo na luta contra a exploração do homem pelo homem, na luta contra o racismos, contra o colonialismo, contra desigualidade social, contra o espirito de superidade do raça branca, O Menino Negro não é uma obra negritudinista, pois não apresenta nenhum indício daquele que era o objectivo da negritude nesta vertente.
- Referências Bibliográficas
Bano, Issaka Maїnassara. (2017). O Menino Negro: As Memorias de Camra Laye. Cadernos
Ceru. v.28, n.2, 2-8. Acesso em: 11 de Junho de 2025.
Bezerra, A., Lima. T., Secco. C. T. & Freitas. S. (2022). Literatura Desigualdade Ensino.
Natal: Caule de Papiro
Cesáire, Aimé. (2010). Discurso sobre a Negritude. Belo Horizonte: Nandyala
Goncalves, Dayane de Oliveira. (2016). De Volta a Negritude: das Origens a alguns
Desdobramentos. Revista Versalete. v.4, n.7, 104-120. Acesso em: 02 de Junho de 2025.
Laye, Camara. (1979). O Menino Negro. Lisboa: Edições 70.
Margarido, Alfredo. (1964). Negritude e Humanismo. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império.
Martins, Cesar Francisco. (2019). A Negritude na poesia cabo-verdiana: uma polemica.
Mariana: UFUP.
Moniz, Antônio; Paz, Olegário. (1997). Dicionário Breve de Termos Literários. Lisboa: Editorial Presença.
Pinheiros, Lizandra Barbosa Macedo. (2015). Negritude, apropriação cultura e a crise conceitual das identidades na modernidade. Lugares dos Historiadores: velhos e novos desafios. 1-14. Acesso em: 15 de Junho de 2025.
Reis, Carlos; Lopes, Ana Cristina M. (1996). Dicionário de Narratologia. 5 a ed. Coimbra: Livraria Almedina