O País – A verdade como notícia

Zero sobre Zero – O espião que veio de Kigali*

Por Jorge de Oliveira

 

O desafio de escrita de um Policial é um enigma em si, por um lado, porque se quer saber até que ponto o escritor tem o tato, a habilidade e a sabedoria, para um Género tão exigente (sem se pretender dizer que os outros géneros não são exigentes, este encerra em

si o mistério), que vive do Suspense, e sobrepõe a incógnita à história, exalta-se mais pela curiosidade em saber «quem fez»; por outro lado, ao lado (passe a repetição) do estilo e do músculo, o leitor é chamado a participar como parte da obra, ao longo do texto, transforma-se em detetive, vai igualmente forjando os seus palpites, faz os seus prognósticos.

Neste livro, a curiosidade nasce logo com o título, «Zero sobre Zero – O Espião que veio de Kigali», pois no vocábulo «espião» assenta a justificação e vontade de ler a construção até ao fim, e ajuda sempre a atiçar o leitor, visto que qualquer pessoa se sente atraída onde se fala em «Segredo» ou «Mistério» ou «Espionagem»: é o reflexo natural, a ponta do iceberg que arrasta as multidões que querem destapar o véu, ver o grand finale.

Sobre isto, importa ouvir Agata Christie quando avisa que «a melhor receita para um romance policial é o detetive nunca saber mais que o leitor», ideia que se materializa ao longo desta narrativa, na qual, afinal, determinada personagem 

« – É testemunha-chave contra o Reverendo! – disse Bachiro a pousar carinhosamente a mão no ombro de Joseph – Encontrei-o semi-morto naquele anexo da casa. Mantenham-no vivo. Nós vamos sair e voltamos com reforço em dois tempos!

– Corremos o risco de ser emboscados à saída! – disse Morito.

Enquanto os polícias e os dois espiões conversavam, One Shot voltava a si, decidido a vingar-se da coronhada que o derrubara. O relampejado de fogo cuspido da pistola sacada da cintura pegou de surpresa os circunstantes.

Como um tronco de bananeira decepada pela base, Joseph tombou sobre o soalho. Um botão vermelho de sangue adornava-o a testa.»

 

E o que é que traz, então, este «Zero sobre Zero», uma operação aritmética que, no fim da estrada, tem como resultado a nulidade? O serviço da Polícia, os enigmas que o seu dia a dia procura desvendar (caso contrário, não seria empreitada policial), os espiões, os espiões dos espiões e a corrupção que sempre grassa na relação entre agentes e criminosos (haverá outra forma destes dois se relacionarem que não seja envenenada pela

improbidade?).

 

A nossa sociedade é corrupta, e, de tão podre que estamos, aceitamos que essa corrupção

– forma de ser e estar – faz parte da nossa cultura, hábitos e costumes, incluindo evidentemente dos detetives, neste caso, ao serviço do Estado. Como resultado, quando se

escreve um romance policial no nosso país a corrupção tem uma palavra a dizer, ajuda-nos

a entender uma ínfima fatia do sub-mundo com o qual vivemos (o crime), presente onde está presente o homem, mas que tentamos ignorar. Dói-nos saber que existe alguém que faz do crime a sua actividade normal, e lá vamos nós seguindo o enigma que é relacionado/provocado pelo espião junto com a descoberta de oficiais corruptos, o que resulta do tratamento das pistas que vão surgindo.

O Género Policial, a acção, a aventura, o crime, sempre cativam o leitor, o telespectador, o ouvinte, porque se quer os polícias a vencerem os ladrões, mesmo quando o malfeitor é simpático ou por qualquer razão ganha a indulgência do destinatário, como neste livro em que se tem um padre envolvido, e, só por isso, se supunha ser límpido nas palavras, nos actos e no coração. Pode-se, aqui, pedir emprestado o ditado, e, no lugar de chorar, relembrar o quanto de carne e osso se faz qualquer um, pois é, no melhor homem cai a nódoa, quer seja filho de Deus ou diabo, jante com um com outro.

Aonde quer chegar este texto? Será que transporta o leitor para a beleza da literatura? Cada um chegará às suas conclusões, mas pelo menos, não foi envenenado pela tentação do uso abusivo de terminologia/cientificidade do mundo da investigação criminal, tocou ao de leve nos formalismos da ciência policial e, quando o fez com maior profundidade, soube fugir ao texto didático/científico/académico – livrou-se dos «pedregulhos», por exemplo, lembrando o equipamento de espionagem, canetas que tiram fotos ou papéis que se auto-destroem, ou narrando factos ligados à investigação, apontando-se aqui a interceptação de um diário com informação de utilidade para a investigação ou a desmontagem de um Cubo de Rubik:

 

«No 2 o andar do prédio do DEOPE, através do intercomunicador, Lioste ditava um texto de e-mail a Marta. Vinheta calculava as horas que seguiam na asa do tempo desde que tomara conhecimento da presença, em Maputo, do espião de Kigali. Rememorou as convicções do reverendo Candanga sobre a necessidade de o continente africano abolir o visto de entrada. «Até os brancos que inventaram a Conferência de Berlim para dividir África já aboliram as fronteiras dos próprios países. Mas nós, os pretos, escolhemos continuar aqui, enjaulados na nossa própria terra»».

 

Zero sobre Zero é um espião, sim, procurado pela Polícia, dentro de uma trama que vai até

ao terrorismo em Cabo Delgado, passa pelos refugiados e emigrantes clandestinos, grupos

numerosos que, nas últimas décadas, chegam a Moçambique com cada vez mais frequência.

 

Dos enfeites da narrativa

É bela e cativante a colocação de provérbios na literatura moçambicana, «Não é preciso uma grande isca para um grande animal», «O rio segue sempre na mesma direção», «Não é o anzol que apanha o peixe», segue-se o Mestre Saramago e faz-se muito bem. Quando surgem no momento certo e lugar adequado mostram elegância, vitalidade e profundidade.

A descrição dos espaços é minuciosa (escritório – rectangular, divisórias pintadas de branco, focos de Led que estrelavam o tecto do cubículo), com marcas profundas do texto dramático – escrita de detalhe e bastante pormenorizada, visto que é lavrado para ser encenado, escrito sem sequer pensar nos leitores – destino ao qual o autor não consegue fugir, por ser a veia de dramaturgo a que serve de fundação da sua prosa e aquela a que mais se afeiçoou e melhor aperfeiçoou como escritor. A narrativa decorre com tiques dramatúrgicos, conta-se de um modo tão detalhado quanto fílmico (de filme – para ser encenado ou feito Sétima Arte),

 

«Lioste passeou vagaroso o olhar pelo perímetro do escritório, um rectângulo que o fazia sentir-se de corpo confinado nas paredes e de espírito subjugado pela inacção. Para afastar a sensação de clausura, disparou o interruptor e as divisórias pintadas de um branco algo desmaiado ressuscitaram para uma tonalidade bastante viva ao foco da luz que jorrava de quatro focos de Led que estrelavam o tecto do cubículo. Em vista panorâmica, de quando em vez, detinha o olhar para fazer uma levíssima pincelada de pestanas na textura dos móveis, com delicadeza de borboleta que voltea pétalas de um arbusto encalhado no jardim».

 

Junte-se a sua marca como cronista, também escreveu crónicas, e ter-se-á um escritor de cento e oitenta graus, qualidade exigível a quem escreve um policial, pois segundo Sherlock

Holmes, «para uma mente ampla, nada é pequeno», o que aqui se encontra, por exemplo,

quando se conta que determinada personagem

 

«Não admitiria que Jofrice saísse sem pagar mais trinta mil do agenciamento. O sangue buliu-lhe na cabeça. O fel da raiva amargou-o na boca e ninguém viu de onde sairia a navalha que Jaguar empunhou para decepar o pénis de Jofrice. No dia da leitura da sentença, na qual o juiz condenou Jaguar a oito anos de cárcere, o castrado estremeceu na língua de rancor ao ameaçar: – Eu sou de Mambone, morrerás morto pelas tuas próprias mãos, Jaguar».

 

Escritor fundamental integrado num momento geracional da literatura moçambicana, a Geração Oásis, neste Zero sobre Zero, Aurélio Furdela conta a história de vários crimes (uma sucessão, incluindo remessas (retroativas) para momentos anteriores àquele em que  se desenrola), apresentando uma antologia de passos de criminosos, escondidos ao longo da narrativa, quando, junto com a explosão da botija de gás, se desfaz o novelo que envolvera polícias, refugiados, imigrantes e mensageiros de Deus, incluindo o mistério em volta da identidade do bandido. Que vilão mais inusitado! O reverendo molda-se num perfil psicológico marcadamente criminoso, com a crença de que o crime compensa ou de que é uma pessoa intocável, mentalidade normalmente presente nos bandidos que capturaram o Estado (que Estado mais frágil!!!).

 

Furdela demarca-se do campo magnético que o obrigaria a escrever lugares comuns, produz uma narrativa que empurra para a compreensão da dinâmica do emaranhado na prosa policial, aponta os pilares que a compõem, 1) Vítimas – o motorista da furgoneta, o jovem do ginásio e do jaguar, 2) Crime – extorsão e corrupção, 3) Investigação – Operação Lucas 12 e na tentativa de descobrir quem é e ao que veio o espião, podendo-se, se quisermos, incluir mais um 4) Culpado ou culpados, descobertos ao cair do pano. Vê-se, ao

longo do texto, o ambiente no qual os inspectores trabalham, «Pilhas de processos mantinham ocupados os agentes visíveis nas cadeiras, trajados de blazeres e gravatas coloridas. Ao passar pelos agentes, Bachiro mastigou um bom dia e, em cinco passos, entrou na sala de trabalho partilhada no dia a dia com Morrito. No edifício central, mesmo ao lado, funcionava o gabinete do Comandante Jane e o do Chefe das Operações, para além da secretaria e, ao fundo, duas celas para onde atiravam detentos.

– Ainda bem que chegas… Operação Lucas 12, sabes de alguma coisa disso?

– Não mais do que tu próprio sabes. – ripostou Bachiro de olhos postos na bíblia que Morrito folheava – Uma operação secreta para investigar e purificar fileiras!»

Habitada por um perfume tocado pela espionagem, com um criminoso internacional, uma máfia e até o envolvimento de detetives, esta narrativa leva-nos a seguir pistas, tentar descobrir o que está à vista mas os olhos não conseguem ver, assim se construindo o policial, uma obra de alegria trágica, tendo o suspense como ponto central, inclusive quando

há um espião que chegou misturado entre a gentalha, facto que não escapou aos “radares” da polícia. No lugar de se manter passiva, a Polícia preferiu a perseguição, afinal, os fora da

lei deixam sempre um rasto, ou se não o deixam o pessoal da secreta inventa, desde que, no fim da linha, pelo farejar qual cão pisteiro se chegue a esses camuflados que colocam o Estado em risco. O que é pôr o Estado em risco? É assunto para outro livro, até porque o nosso não está em risco, há muito que se eclipsou. E segue o livro, sucedem-se as surpresas e a escrita assustadora, quando «Bachiro desejava sair daquele esconderijo que o mantinha com a pele perfurada pelos espinhos. A passos de lã, e resguardado de olhares, caminhou em direcção às dependências da casa. Ao entrar numa delas, sentiu que reinava uma escuridão de breu. Um odor calcinante, quase de queimar as entranhas, cortou-lhe momentaneamente a respiração.»

 

Zero sobre Zero é uma cruzada cujos líderes são polícias/detetives que montam peças soltas até ao desvendar de um negócio de uma máfia igual a tantas e tantas por esse mundo fora. Calhou neste caso que essa criminalidade se tenha vindo instalar em Maputo, local chamado ao texto por algumas das suas avenidas e pelo Portugália, mítico bar incrustado no coração do bairro Central, referência da capital moçambicana.

 

Aurélio Furdela faz o texto singrar por múltiplas vias, com efeito, onde entra a Polícia, vive-se sempre uma situação desagradável, devido sobretudo àqueles que não estão em conformidade com as leis que os humanos seguem. O fluir do texto não desperdiça as técnicas narrativas e permite que mesmo quem não é profissional também possa aprofundar as linhas de investigação rumo ao ponto final.

É gratificante passear no interior deste romance policial, onde a escrita substitui a já batida e muitas vezes esbatida sétima arte, procurando respostas ao mesmo tempo que se tenta satisfazer a curiosidade que este género suscita. Pois. Se Agatha Christie defende que «a evolução é um processo lento», seguindo as coordenadas desta estória, encontra-se um escritor constante, que tem corrido ao longo das últimas duas décadas, e cujo livro conduz ao desdobramento da investigação, fio condutor que apresenta, nos últimos momentos da narrativa, um cair do pano feito à medida.

Não se pede nem exige que este seja o maior e o melhor livro policial escrito em Moçambique, não se pretende, aqui, transformá-lo no best-seller da literatura moçambicana

ou universal, assume-se, tão somente, o texto de um autor que, sendo inicial neste género,

mostra que sabe por que linhas se cose o romance policial, e que, se por esse caminho for,

certamente alcançará o que de melhor este tipo de texto nos pode oferecer.

De Edgar Allan Poe, pai do romance policial, a quem é atribuída a figura dos eyes like windows – mais ou menos, os olhos são o espelho da alma, lembramo-nos ao ler este romance policial, que não deixa de ser um jogo de espelhos, uma convivência com sombras, um vulto de mistérios, porque o um que não existe, por ser zero sobre zero, tem pelo menos duas dimensões:

– um número trinta (30) que é trinta e um (31), ou

– um número trinta e um (31) que é trinta (30).

Afinal, o que é a vida senão um mistério sobre o que será o amanhã?

Cansados que estamos de ver desfilar, em vermelhas passerelles, um marginal que, não se aguentando ele próprio, arma-se em carapau de corrida, qual promotor artístico, e coloca em si próprio uma coroa de nome importado e anglicizado, ainda somos obrigados a  admitir a utilização do nosso belo e profundo MOZ por um qualquer macaco de imitação, sem simbolismo, significado ou validade.

Apesar da coroação da mediocridade e do embrutecimento generalizado, Edgar Allan Poe pode ficar descansado, em Moçambique, a sua arte está bem entregue.

* Título original do texto: A CAMINHO DO DESCONHECIDO

 

Partilhe

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos