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Representantes de diferentes organismos do Estado, associações profissionais, instituições financeiras e organizações sociais prestaram, hoje, homenagens à antiga Primeira-Ministra de Moçambique, Luísa Dias Diogo, durante as cerimónias fúnebres realizadas em sua memória.

Antigos Secretários-Gerais e Secretários-Permanentes dos Ministérios recordaram Luísa Diogo como uma dirigente exigente, disciplinadora e rigorosa, mas profundamente humanista, sublinhando o seu papel decisivo na reforma do sector público e na modernização da administração do Estado. Destacaram ainda a sua capacidade de liderança, de construção de consensos e o elevado sentido de patriotismo.

A Associação Moçambicana de Economistas descreveu a antiga governante como um “capital intelectual raro” do país, realçando o seu contributo para a consolidação do quadro macroeconómico, a gestão das finanças públicas, a renegociação da dívida e o diálogo com instituições financeiras internacionais, sempre em defesa da soberania nacional. Para os economistas, a sua obra permanece como património duradouro da economia moçambicana.

O Absa Bank Moçambique, onde Luísa Diogo exerceu funções de liderança, destacou a sua integridade, visão estratégica e humanidade, sublinhando o impacto do seu exemplo na formação de lideranças conscientes e responsáveis.

Por sua vez, a Organização da Mulher Moçambicana (OMM) enalteceu Luísa Diogo como referência incontornável na luta pela emancipação feminina, lembrando o seu percurso como a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra e o seu compromisso permanente com o empoderamento das mulheres e o desenvolvimento do país.

As mensagens convergiram no reconhecimento de Luísa Dias Diogo como uma estadista de exceção, economista de mérito e mulher que deixou marcas profundas na história política, económica e social de Moçambique.

A família da antiga Primeira-Ministra de Moçambique, Luísa Diogo, prestou hoje uma homenagem marcada por emoção, gratidão e sentido de missão, durante a cerimónia fúnebre oficial realizada em sua memória. Numa mensagem lida em nome dos filhos e familiares, Luísa Diogo foi evocada como uma mulher de integridade, conhecimento e generosidade, cuja vida foi inteiramente dedicada ao serviço do país, da família e de Deus.

“Com um coração pesado, mas também com um profundo sentido de gratidão”, assim começou a mensagem familiar, que destacou a onda de solidariedade nacional e internacional que se seguiu ao anúncio da sua morte. Mensagens vindas de diferentes partes do país e do mundo celebraram as múltiplas dimensões da antiga governante: líder, economista, humanista, conselheira, mentora e amiga.

A família sublinhou que, acima de todos os cargos que exerceu, Luísa Diogo foi, sobretudo, uma mulher movida pelo espírito de serviço. Como cristã católica, acreditava que a liderança não é poder, mas responsabilidade; não é vaidade, mas entrega; não é privilégio, mas missão. Segundo os familiares, uma das últimas mensagens deixadas aos filhos resumia a sua filosofia de vida: cumprir o dever, com retidão e com amor.

No testemunho, foram recordados episódios marcantes da sua trajectória pessoal e profissional, que ilustram o seu sacrifício e resiliência desde muito cedo. Ainda estudante da Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, percorreu longas distâncias a pé durante a gravidez do primeiro filho, encarando as dificuldades não como obstáculos, mas como motivação para construir um futuro melhor. Mais tarde, conciliou maternidade, formação académica avançada e responsabilidades de elevada exigência no Ministério das Finanças e em instituições internacionais.

Após uma carreira ímpar ao serviço do Estado, que incluiu os cargos de Ministra do Plano e Finanças e Primeira-Ministra da República, Luísa Diogo continuou a servir o país e a comunidade internacional em várias frentes. Foi Presidente do Conselho de Administração do ABSA Moçambique durante mais de uma década, da Global Alliance Seguros por mais de oito anos e, durante cerca de 14 anos, conselheira e membro do Conselho de Administração do Programa de Liderança Ministerial da Universidade de Harvard.

A mensagem destacou ainda o seu empenho em causas humanistas e, nos últimos anos, a dedicação à sua fundação, com foco na educação, dignidade e autonomia como pilares do desenvolvimento humano. A família manifestou especial reconhecimento pelo carinho recebido de colegas internacionais, comunidades académicas e parceiros globais, que viam em Luísa Diogo não apenas a dirigente, mas a pessoa íntegra e generosa que sempre foi.

Num dos momentos mais tocantes, os familiares lembraram as suas origens humildes, evocando a história da mãe que a deu à luz numa machamba de arroz, símbolo das raízes profundas que moldaram o seu carácter e a sua capacidade de cuidar, resistir e fazer florescer mesmo em contextos difíceis.

A homenagem incluiu também palavras de gratidão aos pais, pelo incentivo à educação sem distinção de género, e ao marido, descrito como companheiro de vida e parceiro de caminhada, que sempre acreditou no valor e na voz da mulher.

Dirigindo-se aos netos, a família afirmou que o amor não termina com a morte, mas transforma-se, permanecendo vivo na fé, nos gestos de bondade, na busca pelo conhecimento e nos sonhos que continuam a crescer.

“Hoje despedimo-nos com dor, mas também com orgulho”, afirmou a família, sublinhando que, embora nenhum tempo ao lado de Luísa Diogo fosse suficiente, há serenidade na certeza de que cumpriu a sua missão ao mais alto nível.

A mensagem terminou com palavras simples e carregadas de significado: “Descanse em paz, mamã. Cumpriste, tatenda”.

Diversas personalidades nacionais reagiram com profunda consternação à morte da antiga Primeira-Ministra de Moçambique, Luísa Dias Diogo, ocorrida no dia 16 de Janeiro, vítima de doença. As reacções convergem num ponto comum: o país perdeu uma das suas maiores referências políticas, económicas e humanas.

O antigo Primeiro-Ministro da República, Carlos Agostinho do Rosário, afirmou que Moçambique perdeu “uma grande mulher, combatente e visionária”, que dedicou a sua vida ao serviço do país. Para Agostinho do Rosário, Luísa Diogo acreditava firmemente na capacidade de Moçambique se desenvolver e lutou pela igualdade de género, deixando como principal lição a necessidade de os moçambicanos continuarem comprometidos com o crescimento e o progresso da pátria.

Por sua vez, o antigo presidente da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), Agostinho Vuma, saudou a decisão do Governo de realizar uma cerimónia oficial em sua homenagem, considerando o gesto uma forma de eternizar a sua vida e obra. Segundo Vuma, Luísa Diogo “não pertence apenas à família Diogo, mas a todos os moçambicanos”, sendo um verdadeiro património do Estado. Destacou ainda o seu papel histórico como a primeira mulher a exercer o cargo de Primeira-Ministra, sublinhando que, para além de inspirar mulheres, também inspirou homens pela forma como liderou transformações económicas num contexto de consolidação da democracia em Moçambique.

O Provedor da Justiça classificou a morte de Luísa Diogo como “uma perda irreparável” para o país, lembrando a sua enorme contribuição para o desenvolvimento económico nacional. Para Isaque Chande, trata-se de um dia de luto para todos os moçambicanos, tendo descrito a antiga governante como uma mulher de grande firmeza e compromisso com o futuro do país, que deixa um exemplo duradouro para as gerações vindouras, sobretudo para as mulheres.

Por sua vez, o Secretário de Estado da Ciência e Ensino Superior, Edson Macuácua, destacou as qualidades humanas e profissionais da antiga Primeira-Ministra, descrevendo-a como uma grande líder, gestora e académica, marcada pela humildade, inteligência e elevados valores humanistas. Macuacua sublinhou o seu papel determinante na governação económica e financeira, liderando reformas estruturantes e processos estratégicos de reconstrução nacional, combate à pobreza e desenvolvimento.

Entre os legados mais marcantes deixados por Luísa Diogo, Macuácua evidenciou a forma como conduziu a gestão da dívida pública, especialmente da dívida externa, num período crítico em que a soberania económica do país estava ameaçada. Segundo o académico, a sua liderança permitiu aliviar o peso da dívida, renegociar compromissos internacionais e libertar recursos para o investimento social e o desenvolvimento económico e humano do país.

Luísa Diogo é recordada como uma figura íntegra, uma referência de boa governação e uma das grandes filhas de Moçambique, cujo contributo continuará a marcar a história nacional.

As cerimónias fúnebres, da antiga Primeira-Ministra, Luisa Diogo, arrancaram na manhã desta sexta-feira, marcadas pela realização de uma missa de corpo presente, na paróquia Santo António da Polana, na cidade de Maputo.

A cerimónia foi dirigida pelo Arcebispo de Maputo, Dom Carlos Nunes, no local onde Diogo passava parte do seu tempo em orações.

Ao descrever o seu percurso, o representante da igreja falou de uma mulher activa com as causas divinas e sempre presente.

Coube ao seu irmão, apresentar os momentos que mais marcaram a sua vida e a biografia da mulher que dedicou parte da sua vida à economia e á política e que destacou-se em Moçambique por ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeiro-Ministro.
“Entre as características que definem a Luísa estão o humanismo e intelectualidade única, ensinou e demostrou que por mais que tenha nascido numa machamba de arroz pode atingir paramares. É um ícone para as mulheres com fortes convicções”.

Participam das cerimónias os familiares, amigos, colegas e corpo diplomático.

A Estrada Nacional Número 1 no sentido Maputo a Gaza continua intransitável e já com degradações visíveis em locais onde a água tende a baixar. A Administração Nacional de Estradas, na província de Gaza, diz ser ainda prematuro aferir categoricamente os impactos ao longo da via, mas afirma que os troços da zona norte da província estão degradados.

A situação das estradas na província de Gaza é preocupante, numa altura em que as águas das chuvas continuam a fazer estragos nas infraestruturas. A Estrada Nacional Número 1 está dividida na zona de Incoluane. Mas há muitos outros troços em condições deploráveis neste momento.

No troço entre a ponte de Angolazane e a ponte sobre o rio Limpopo, a Estrada Nacional Nº 1 apresenta, a priori, condições razoáveis de circulação, apesar da apresentação de alguns pontos irregulares.

Outra via afectada pelas cheias e inundações é a ponte sobre o rio Limpopo, em Chicumbane. No referido troço, a N1 encontra-se em excelente estado, sendo uma dos corredores mais resistentes da região.

Situação diferente regista-se no troço entre Incoluane e 3 de Fevereiro, onde o cenário é dramático e crítico. No referido corredor estima-se que mais de cinco quilómetros encontram-se alagados e degradados, comprometendo a mobilidade e colocando em risco a circulação rodoviária.

Ao longo da N1, no troço da baixa da cidade de Xai-Xai, a estrada está totalmente degradada e fissurada, num momento em que as águas continuam a escorrer em alta pressão.

Nesse local a ponte que se encontra no centro da cidade está destruída e a estrada  consumida pelas águas.

Segundo a Administração Nacional de Estradas em Gaza, a situação das vias pode ser pior do que se pode ver ou imaginar.

“A estradas que neste momento estão cortadas e que a transitabilidade não é possível, nomeadamente a N221, entre Chibuto e Guijá, onde encontramos alguns cortes na zona de Guele-Guele, e também de Guijá para Mabalane, onde temos cortes logo depois da vila de Guijá, há cortes na baixa de Incoluane, e também na zona de Niza, há 20 quilómetros antes da viola de Mabalane, entre outras vias”, segundo disse Jeremias Mazoio, delegado da ANE em Gaza.

Quase todas as estradas da zona norte de Gaza foram afectadas, segundo disse Jeremias Mazoio, o que dificulta qualquer mobilidade em terra neste momento, até porque “não é possível chegar a Massangena, num cenário que se repete na estrada Muambe a Mackenzie e na estrada Ndonga a Ndindiza”, realçando que todos os distritos da zona norte da província de Gaza tem transitabilidade difícil ou quase impossível, recomendado a monitoria e que as populações fiquem atentas as actualizações, para evitar danos para as pessoas.

Mas nem tudo está mal! Segundo a ANE, neste momento já é possível chegar a Macia seguindo a Estrada Nacional 101 que liga Macia e Chókwè.

“Há algumas que é possível transitar, com destaque para N101, que sai da vila da Macia até Chókwè, que já esteve intransitável porque esteve submersa, sendo uma via que pode ser usada para chegar a Macarretane e Massingir”, disse Jeremias Mazoio.

As estradas não são as únicas vítimas das cheias em Gaza, infra estruturas do Estado e privados encontram-se submersas ou severamente afectadas.

 

Assembleia da República conforta vítimas das inundações na cidade de Maputo

A Assembleia da República prestou apoio alimentar às famílias afectadas pelas chuvas e inundações, acolhidas em dois Centros de Acomodação, localizados no distrito municipal da Katembe e no bairro da Maxaquene “C”, na cidade de Maputo.

Na ocasião, a Presidente da Assembleia da República, Margarida Adamugi Talapa, que se fazia acompanhar pelos Vice-Presidentes e Chefes das Bancadas Parlamentares, transmitiu às famílias acolhidas nos dois centros uma mensagem de conforto e solidariedade dos Deputados, reiterando o compromisso humanitário da Assembleia da República para com todos os  afectados em todo país. 

Margarida Talapa explicou que o cenário que se vive nos bairros da capital do país não é exclusivo, uma vez que a cidade da Matola, a província de Maputo, bem como Gaza, Inhambane, Manica e Sofala sofrem igualmente os efeitos das chuvas, cheias e inundações.

A Presidente Talapa destacou que, nos dois centros, os membros da Comissão Permanente procederam à entrega de mil refeições quentes prontas a consumir, dois mil pães e água, sublinhando que o donativo inclui ainda produtos alimentares não perecíveis, nomeadamente 2,5 toneladas de arroz, uma tonelada de farinha de milho, 240 kg de açúcar, 50 caixas de sabão e 270 capulanas.

A Presidente do Parlamento apelou às famílias acolhidas nos referidos centros de acomodação para que não regressem às suas casas enquanto prevalecer o cenário de inundações.

A chefe do parlamento assegurou que o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, está envolvido nas coordenação das acção do governo visando, o salvamento das pessoas sitiadas, acomodação das pessoas cujas residências estão inundadas e garantiu a alimentação nos centros de acomodação provisórios.

Os dois Centros de Acomodação visitados pelos parlamentares acolhem um total de 490 pessoas. A Escola Primária Completa de Maxaquene “C” acolhe 250 pessoas, cerca de 93 famílias, e a Escola Primária de Guachene acolhe 234 pessoas, cerca de 76 famílias.

Na semana passada, a Assembleia da República entregou ao INGD 2,7 milhões de Meticais em apoio às vítimas das chuvas, cheias e inundações. O valor resulta da contribuição dos Deputados e  corresponde a dois dias de salário

O Presidente da República orientou a criação de uma Sala de Operações de Emergência na Presidência da República para assegurar o acompanhamento permanente da situação de calamidade provocada pelas chuvas intensas. Na ocasião, foi identificada a subida de preços de bens essenciais em Gaza, levando o Chefe do Estado a determinar medidas para aumentar a oferta, através da mobilização de reservas das províncias do centro e da utilização da via marítima a partir do Porto de Maputo, com vista a normalizar o abastecimento e estabilizar os preços.

O Presidente da República, Daniel Chapo, orientou, nesta quinta-feira, a montagem de uma Sala de Operações de Emergência, na Presidência da República, com o objectivo de assegurar o acompanhamento permanente da situação de calamidade que o país enfrenta, em resultado das chuvas intensas, inundações e cheias que afectam as regiões Sul e Centro.

A Sala de Operações, cujo estabelecimento ocorre dias depois da decretação, pelo Conselho de Ministros, da Situação de Emergência, tem como missão primordial centralizar a coordenação interinstitucional, monitorizar a evolução da situação no terreno e garantir uma resposta célere, eficaz e integrada às necessidades das populações afectadas.

No âmbito deste acompanhamento, foi identificada uma preocupante subida dos preços dos produtos de primeira necessidade na província de Gaza, com maior incidência nas cidades de Xai-Xai e Chibuto, sobretudo nas zonas altas onde se encontram as populações deslocadas, bem como nas áreas que acolheram pessoas reassentadas.

Face a este cenário, o Chefe do Estado orientou para que a Sala de Operações estabeleça um diálogo directo com outros pelouros governamentais, com vista à definição de mecanismos que permitam aos fornecedores e distribuidores de bens essenciais — como arroz, feijão, farinha, óleo alimentar e outros produtos da cesta básica — aumentarem a oferta nesses mercados locais.

O reforço da oferta é considerado a via mais eficaz para a estabilização dos preços, assegurando o acesso da população aos bens essenciais.

Os operadores económicos dispõem de produtos na região Centro do país, onde mantêm armazéns e sistemas logísticos em várias províncias. Assim, foi recomendada a mobilização das reservas existentes em Manica, Sofala e Tete — províncias geograficamente mais próximas — para abastecer a província de Gaza, com especial incidência em Xai- Xai, Chibuto e Chókwè.

Esta medida visa normalizar o abastecimento e contribuir para a estabilidade dos preços dos bens de primeira necessidade. Na ocasião, foi igualmente apresentada a proposta de utilização da via marítima para o transporte de alimentos do Porto de Maputo para a província de Gaza, aproveitando a infra-estrutura recentemente montada no contexto da exploração das areias pesadas naquela região.

Esta solução permitirá que os meios de transporte naval movimentem os produtos alimentares até ao Porto de Chongoene, de onde serão encaminhados para o armazém regional que está a ser montado naquele ponto estratégico.

A iniciativa visa reforçar a capacidade de resposta humanitária, equilibrando e complementando o fornecimento proveniente da zona Centro, garantindo uma assistência alimentar mais eficaz às populações afectadas.

Silvano Langa, antigo director do INGC, diz que as águas que inundaram as províncias de Maputo e Gaza reflectem a fragilidades do Estado na priorização de infraestruturas de controlo e gestão da água. Langa defende que o país deve traçar uma agenda climática vinculativa de todos os governos.

Moçambique, outra vez, foi fustigado pelo efeito da mudança do clima e como no passado, foi encontrado despreparado, embora antes de Outubro as instituições técnicas tenham dado antevisão de que a época chuvosa teria efeitos catastróficos. o Economista e antigo Diretor do INGC, Silvano Langa, em grande entrevista da STV, desafiou o país a melhorar o sistema de aviso prévio.

De fora para dentro, Silvano, com base na sua experiência, entende que os planos de contingência têm encontrado resistência de financiamento dentro do sistema governativo, o que gera impacto catastrófico nas populações.

Segundo o entrevistado, há uma quebra de memória institucional de quadros devidamente treinados para liderar emergências. Por isso, recomenda que o presidente do INGD esteja rodeado de técnicos especializados e multissectoriais. 

As águas que inundaram Maputo e Gaza, segundo Silvano, reflectem fragilidades do Estado na priorização de infraestruturas de regulação das águas – as barragens hidrográficas.

O grande entrevista com Silvano Langa pode ser visto na integra na STV PLAY

Em Manica, contabiliza-se 27 pessoas que já perderam suas vidas, vítimas de afogamento e descargas atmosféricas  durante esse período das chuvas. O Chefe da brigada central de assistência a província de Manica, Celso Correia, apela à solidariedade e apoio às vítimas das enxurradas.

As chuvas intensas que têm vindo a cair nos últimos dias, um pouco por todo país, causaram em  Manica a morte de um total de 27 pessoas, sendo 14  por afogamento, e 13 por descargas atmosféricas. 

Na sua chegada à cidade de Chimoio, Celso Correia, chefe da brigada central de apoio a província, disse que o país está atravessar um momento difícil e que precisa de união e esforços  para minimizar o impacto causado pelas intempéries.

Durante três dias,o chefe da  brigada central de apoio à província de Manica vai trabalhar e vai orientar o Seminário de Capacitação no âmbito da Preparação da realização da Décima Primeira Conferência Nacional de Quadros.

Dez pessoas da mesma família morreram afogadas ao tentar sair da Ilha Josina Machel em busca de um lugar seguro para estar. Centenas de pessoas continuam a ser resgatadas na ilha diariamente e há quem ainda não teve resgate, passados oito dias dentro da água.

As inundações tendem a alastrar-se em vários cantos da Província de Maputo, deixando milhares de pessoas sitiadas, mesmo depois dos apelos para retirada das zonas de perigo.

É o caso da Ilha Josina Machel, no distrito de Manhiça, onde centenas de pessoas continuam sitiadas e à espera de resgate. Para esta operação, é usado um helicóptero, que pousa a cada cinco minutos num campo aberto do Posto Administrativo 3 de Fevereiro.

São crianças no colo das suas mães, outras carregadas por voluntários, idosos que mal conseguem andar e trazem consigo trouxas, mas acima de tudo carregam muita dor e luto.

Algumas mulheres choram quando chegam ao local seguro, não de emoção por terem sido salvas, mas porque, mais do que perder tudo nas águas, perderam membros das suas famílias.

De uma só vez, morreram 10 pessoas da mesma família. “Perdi 10 pessoas. Estavam a bordo de um barquinho a tentar atravessar, mas este naufragou e todos morreram. São dois filhos, um deles tem 18 anos de idade, o outro tem 13, e alguns netos”, contou Julieta Matsolo, vítima das inundações na Ilha Josina Machel.

A dor é intensa no seio da família Matsolo, que nem mesmo o apoio de outras pessoas consegue consolar Julieta Matsolo, que, lamentando, diz que na Ilha Josina Machel “não há sítio nem para parar”.

São pessoas que estiveram no meio das águas por seis dias. Chegaram ao local seguro do posto administrativo 3 de Fevereiro, em Manhiça, completamente molhadas, com água a escorrer pelo cabelo e pelas roupas e a tremerem sem parar, não só de frio, mas do medo que os assolava por todos estes dias.

“De onde venho, a água está na altura do peito. Eu imaginava que talvez pudesse morrer estando lá”, revela Monsa Aléx, outra vítima.

Cada relato é uma história que até chega a ser difícil de acreditar. Afinal, é difícil imaginar alguém viver seis dias dentro da água e, para agravar a situação, com crianças.

“Colocaram blocos até ao nível do tecto para conseguirmos dormir com as crianças. Colocaram blocos também para conseguirmos cozinhar”, disse uma das vítimas.    

Neste processo de resgate, há crianças que chegam sozinhas e não sabem onde estão os seus pais. É o caso de Olívio José, que não sabe onde a família está e muito menos se está viva ou não.

Mas mais do que os resgatados, no posto administrativo de 3 de Fevereiro há um outro aspecto que chama atenção: muita gente no campo onde chegam os helicópteros. Aparentemente meros espectadores que querem ver o show dos helicópteros, mas não são pessoas que estão há dias à espera de ver os seus familiares descerem das aeronaves.

Sandra Sebastião, uma das afectadas, ficava ansiosa sempre que um helicóptero  chegava, porque a expectativa é que chegue sempre um familiar. Está no campo desde sexta-feira e conta que vai lá todos os dias, à espera de boas notícias.

“Estamos aqui todos os dias, à espera das nossas famílias que estão lá em Jamariá. Encontrámos alguém que nos disse que estão lá perto de uma companhia. As outras pessoas chegam amanhã (referindo-se a hoje), mas falta uma pessoa, a nossa avó”, contou.

E quando uma aeronave chega e não vê seus familiares, vem a desilusão. Porém, há quem tem tido sorte e reencontra quem esperava ver, tal como aconteceu com Fernando Sousa, que espera seu familiar.

“Estive muito mal, no coração, porque não estive com ele desde as seis. Não me sentia bem. Até mesmo para comer, não conseguia. Assim, agora que estou a ver a minha mãe, já estou mais tranquilo”, revelou, acrescentando ainda que não sabia se a mãe ia chegar.

Ao todo, na Ilha Josina, estavam mais de 600 pessoas, não há terra firme e, por isso, estavam todas dentro da água. Até esta quarta-feira, já tinham sido resgatadas mais de 300 pessoas.

O resgate continuou nesta quinta-feira, com a chegada à zona segura de mais pessoas vindas da Ilha Josina Machel e de outros pontos da região, onde as águas inundaram tudo e nenhuma terra firme há para contar história.

 

Nasce na Beira movimento solidário para apoio às vítimas das inundações

O sector empresarial e a sociedade civil da província de Sofala lançaram, nesta quinta-feira, uma campanha massiva de apoio às vítimas das inundações, através de um movimento solidário. Os apoios acontecem devido às intensas chuvas que assolam as regiões Sul e Centro do país, onde existem crianças a dormirem ao relento, pais sem saber como proteger os seus filhos, idosos que ficaram apenas com a esperança de que alguém lhes estenda a mão.

Foi diante desta realidade que foi criado, na cidade da Beira, um movimento solidário para com as vítimas das cheias que assolam o país.  O movimento solidário nasce de uma união da sociedade civil da província de Sofala, da Associação Comercial da Beira, Conselho Empresarial de Sofala e de vários cidadãos.

O movimento tem como objectivo levar apoios imediatos às famílias afectadas pelas inundações, nomeadamente alimentos, bens essenciais, materiais de abrigo, segundo deu a conhecer o porta-voz do movimento, Félix Machado.

“Cada gesto conta. Um saco de arroz, um cobertor, uma contribuição financeira pode significar uma refeição, uma noite segura, uma nova esperança. Os empresários moçambicanos sempre demonstraram responsabilidade social nos momentos mais difíceis do país. Hoje, essa força colectiva volta a ser chamada e devemos agir para garantir que a ajuda chegue com rapidez, dignidade e impacto real na população”, disse.

Félix Machado, presidente da Associação Comercial da Beira, que falava em nome do sector privado, indicou ainda que este movimento é inclusivo e construído em conjunto, transparente e humanitário guiado pelo espírito de entreajuda.   

“Não podemos controlar a chuva, mas podemos controlar a nossa resposta. A solidariedade é o nosso maior abrigo. Hoje, mais do que nunca, Moçambique precisa de união. Juntos pela vida, juntos por Moçambique.”

Refira-se que as chuvas que caem desde Outubro do ano passado e com maior incidência há cerca de um mês já mataram mais de uma centena de pessoas, deixaram centenas de famílias sem casas e sem os bens mais básicos e destruíram diversas infra-estruturas sociais.

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