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O País – A verdade como notícia

Uma nova corrida ao ouro está em curso no distrito de Gondola, província de Manica, após a descoberta de um filão na região de Mucododzi. A informação espalhou-se rapidamente entre as comunidades locais e em poucos dias, centenas de pessoas, maioritariamente jovens, acorreram ao local, na esperança de mudar de vida através da mineração artesanal.

A zona, até então desconhecida do público como ponto onde ocorre ouro, transformou-se num autêntico centro de mineração artesanal, com dezenas de pequenas escavações improvisadas, tendas rudimentares e intensa actividade comercial associada à mineração informal.

O cenário, que se repete em várias partes da província, volta a levantar preocupações em torno da segurança, da exploração desordenada de recursos naturais e da fragilidade das instituições no controle deste tipo de extração de ouro.

Face à crescente concentração de pessoas no local, a Polícia da República de Moçambique (PRM) mobilizou-se até à área de garimpo, com o objectivo de dispersar os populares e prevenir riscos de desabamentos, conflitos ou outras tragédias.

No entanto, a operação não produziu os resultados esperados. Os garimpeiros resistiram e mantiveram-se firmes, desafiando as ordens das autoridades.

Uma fonte da Polícia referiu que a acção visava apenas garantir a ordem pública e travar a aglomeração, num ponto já considerado ilegal. Segundo a fonte, o local representa não só um risco ambiental, como também à integridade física dos envolvidos, devido à total ausência de condições técnicas e de segurança.

No local, a presença policial não passou sem controvérsia. Alguns dos mineradores acusam os agentes de, além de dispersarem os populares, também terem recolhido quantidades não especificadas de areia supostamente contendo ouro.

“Dispararam armas e nós fugimos, entramos no mato. Lançaram gás lacrimogéneo e não conseguimos trabalhar. Disseram que ninguém irá trabalhar porque vocês não estão organizados para poderem trabalhar”, disse António José, um dos que olha na mineração com futuro promissor.

A província de Manica continua a ser uma das mais afectadas pelo crescimento desordenado da mineração artesanal, um fenómeno complexo que envolve questões económicas, sociais e ambientais. Em muitas comunidades, a mineração informal representa a única fonte de rendimento diante da escassez de empregos formais e oportunidades de sustento sustentável.

O novo ponto de mineração em Mucododzi já começa a atrair atenção de fora do distrito, sinalizando que o número de garimpeiros poderá aumentar nos próximos dias.

Enquanto isso, o ouro continua a brilhar como promessa de riqueza fácil, mesmo que, à custa da vida, degrade o ambiente e contrarie a legalidade.

Pelo menos 10 professores foram mortos em oito anos de insurgência armada na província de Cabo Delgado, segundo estimativa apresentada nesta terça-feira pela Organização Nacional dos Professores (ONP).

“A estatística nos confirma dez professores mortos por insurgência no período em referência”, disse à Lusa Teodoro Muidumbe, secretário-geral da ONP, organização sindical que representa a classe no país.

Entretanto, a Secretária Provincial da Organização Nacional dos Professores  (ONP) de Cabo Delgado, Dinita Dinís, disse que foram 16 os professores que morreram vítimas do terrorismo em Cabo Delgado.

“Desde o ano de 2017 a província foi assolada pelos ataques terroristas destes malfeitores que culminaram com a morte de 16 professores”, confirmou, apelando para que a data em que se comemora a classe sirva de referência para as autoridades reflectirem em relação à qualidade de ensino e aprendizagem, para além de “condições de trabalho e valorização da figura do professor”.

Durante a recepção da saudação pelo Dia Nacional do Professor, na segunda-feira, o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, prestou uma homenagem “especial” aos professores e profissionais da educação, nomeadamente naquela província, que, mesmo em situações “adversas”, impostas pelos ataques terroristas em Cabo Delgado, doenças e fenómenos climáticos extremos, “sempre encontram alternativas para garantir que o processo de ensino-aprendizagem não pare”.

Em Setembro, a Associação Nacional dos Professores de Moçambique (ANAPRO) repudiou os actos “bárbaros e inaceitáveis” em alegados ataques rebeldes registados em Cabo Delgado, norte do país, com a confirmação da morte de um membro da classe.

“Repudiamos reiteradamente os atos bárbaros e inaceitáveis que atentam contra a dignidade humana e que estão contra um direito fundamental à vida”, referia-se num comunicado da ANAPRO.

Nas celebrações do dia na província de Cabo Delgado, nesta segunda-feira, alguns professores disseram que apesar da falta das condições de segurança em quase todos dos distritos afectados pela insurgência, casos de Mocímboa da Praia, Muidumbe, Macomia e Palma, muitas vezes são obrigados a regressar aos seus postos de trabalho, mesmo quando as autoridades têm conhecimento de que a situação de segurança continua instável.

Na ocasião, o governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, reafirmou que o Governo está a trabalhar para garantir que os professores possam exercer as suas funções com mérito e com segurança.

Já o Secretariado Distrital da Organização Nacional dos Professores (ONP) em Meconta lançou um forte apelo aos protagonistas da violência em Cabo Delgado para que ponham fim às hostilidades, de modo a permitir que milhares de crianças regressem às salas de aula e que os docentes exerçam a sua missão sem intimidação.

“A guerra rouba o futuro das crianças. Sem escolas seguras não há desenvolvimento”, sublinhou o secretariado num comunicado.

Os professores reafirmaram que a paz é condição essencial para a reinvenção da educação em Moçambique.

Um grupo de funcionários do Instituto Nacional da Marinha (INAMAR), que ficou de fora do processo de transição para o recém-criado Instituto de Transporte Marítimo (ITRANSMAR), submeteu, esta segunda-feira, uma petição ao Presidente da República, solicitando a sua integração na nova instituição.

A decisão surge após várias tentativas fracassadas de diálogo, a última esta segunda-feira, em Maputo, com as direcções do INAMAR e do ITRANSMAR, num processo que os trabalhadores consideram pouco transparente, marcado injustiça e favoritismo.

“Fomos ignorados durante todo o processo. Tentamos dialogar, pedimos esclarecimentos, mas nunca houve abertura para o efeito, sempre, limitaram-nos para falar nos encontros, como foi o caso de ontem (segunda-feira). Agora somos obrigados a aceitar funções que nada têm a ver com o nosso perfil”, afirma um dos funcionários afectados, sob anonimato.

Segundo os queixosos, a reunião realizada esta semana, em Maputo, entre os trabalhadores excluídos e os líderes das duas instituições, agravou o clima de tensão. Os funcionários denunciam que não houve espaço para debate nem explicações claras sobre os critérios usados na selecção dos quadros que transitaram para o ITRANSMAR.

“O ambiente era de total indiferença. Os presidentes comportaram-se como se estivessem acima de qualquer questionamento”, disse uma funcionária, visivelmente indignada.

A indignação dos trabalhadores aumenta considerando que o ITRANSMAR lançou um concurso público para novas admissões, mesmo com técnicos experientes, até então no activo no INAMAR, deixados de fora do processo de transição.

“Isso prova que a exclusão foi deliberada. Há um concurso a decorrer, enquanto nós, com experiência e formação no sector, somos simplesmente descartados”, denunciou outra funcionária.

Para os excluídos, o processo de reestruturação do sector marítimo está a ser conduzido com critérios duvidosos, alimentando suspeitas de interesses particulares e clientelismo. Eles também questionam a criação de múltiplas instituições com funções semelhantes, o que, no seu entender, apenas agrava a desorganização no sector.

“Não faz sentido termos duas ou três instituições a fazer a mesma coisa. Isso só cria confusão e espaço para manobras políticas que penalizam os técnicos que sempre trabalharam com dedicação”, conclui um dos queixosos.

Diante do impasse, os trabalhadores agora depositam esperança na intervenção do Presidente da República, Daniel Chapo, a quem apelam através de uma petição de três páginas para garantir justiça, equidade e respeito pelos direitos dos funcionários lesados neste sector.

Na petição, os queixosos dizem que esperam resultados concretos sobre “a transferência integral imediata dos 103 funcionários restantes, totalizando os 180 profissionais originais da Marinha Mercante,  que a decisão seja tomada sem interferências, volte a ser plenamente operacional, contribuindo activamente para a economia, segurança dos transportes marítimos e reposição do pagamento do subsídio de serviço marítimo, como um acto de justiça e restauração da dignidade profissional”.

O Edil de Pemba ameaça processar criminalmente e exigir indemnização aos Megaprojectos, que operam em Cabo Delgado, devido a suposta poluição ambiental provocada por uma empresa especializada no tratamento de resíduos considerados perigosos.

O presidente do município de Pemba já havia mandado encerrar a Moz Enviromental, a empresa responsável pelo tratamento de resíduos considerados tóxicos, produzidos pelos Megaprojectos que operam em Cabo Delgado, mas o Tribunal Administrativo ao nível da província ordenou a reabertura por alegadamente não ter constatado poluição.

A Moz enviromental considera estranha a intenção do edil de Pemba, e suspeita que haja outras intenções ocultas que levam as comunidades que vivem ao redor da empresa a realizar manifestações de forma constante, devido a poluição ambiental.

Entretanto, o presidente do município de Pemba diz que não tem conhecimento da ordem de reabertura, e nega todas suspeitas da Moz environmental sobre incitação às comunidades locais, que exigem o encerramento da empresa. No entanto, Satar Abdulgani confirma a submissão de um recurso contra a decisão do Tribunal Administrativo de Cabo Delgado.

Apesar de todos os problemas que estão a ser levantados pelo município de Pemba e pelas comunidades locais, a empresa vai continuar a operar normalmente, até que haja uma decisão contrária.

Oficialmente não está confirmada a poluição ambiental em Pemba, mas o edil promete lutar até que a empresa seja fechada ou, no mínimo, que haja garantia de condições para a empresa operar sem poluição.

A Moz Environmental está preocupada com as intenções do edil de Pemba e prevê prejuízos não só para a empresa, mas também para os Mega-Projectos que operam em Cabo Delgado, em particular, e para o país no geral.

A Moz environmental opera em Cabo Delgado desde 2018, mas só no ano passado é que a população e o município de Pemba começaram a reclamar da suposta poluição.

A Agência de Controlo de Qualidade Ambiental, AQUA, prometeu pronunciar-se sobre o caso que ameaça comprometer as operações dos Mega Projectos em Cabo Delgado.

O conflito entre os vendedores informais e o Município de Nampula está longe do fim. Os vendedores tomaram de assalto algumas avenidas e ruas do centro da cidade. Já no mercado grossista, o actual cenário é de desorganização e problemas de saneamento. A edilidade fala de planos para reverter o cenário.

A desordem começa na Estrada Nacional n.°13, no desvio que vai ao mercado grossista Waresta, na periferia da cidade de Nampula. Motorizadas, carros, vendedores e peões disputam o mesmo corredor e o ambiente é de “salve-se quem puder”. 

Passa-se à rasca porque os vendedores informais transformaram as estradas e os passeios em locais de comércio. O chefe do mercado diz que há trabalho para melhorar a gestão de vendedores, assim como do lixo, mas tem sido difícil devido a falta colaboração de muitos dos informais.

O mercado Waresta é o maior mercado grossista no Norte do país. O aspecto que apresenta atenta contra a saúde pública, por isso o Município fala de planos para a sua requalificação.

No centro da cidade, os focos de venda informal voltam a ganhar espaço a olhos vistos. Na zona chamada bombeiros, a estrada e os passeios cederam para o comércio informal.

Uma actividade que decorre na parte exterior do Mercado Novo. Os principais protagonistas são vendedores de telefones celulares e seus acessórios. Outros são apenas intermediários de negócios.

O certo é que ainda não há uma solução concreta para os vendedores, e a forma como tomaram o local põe em causa a postura municipal.

Pelo menos 51 casas, uma igreja e uma escola primária foram destruídas em ataques atribuídos a terroristas desde finais de Setembro no distrito de Memba, província de Nampula. A informação foi avançada pelo administrador local, nesta segunda-feira.

De acordo com o administrador de Memba, Manuel Cintura, os ataques aconteceram nos dias 30 de Setembro e 03 de Outubro, nos postos administrativos de Lúrio e Chipene, e resultaram na destruição, maior parte delas incendiadas, de 51 casas, contra o balanço inicial de 45, além de uma igreja e da estrutura de uma Escola Primária Completa local, além de queimadas as cadeiras de outra instituição de ensino no mesmo posto administrativo.

“Tivemos destruição, incêndio de muitas residências, destruição de uma igreja, destruição na íntegra de uma escola, carteiras e uma outra EPC no posto administrativo de Chipene”, disse Manuel Cintura, nesta segunda-feira.

O administrador acrescentou que, embora parte da população esteja a regressar às zonas de origem, muitos habitantes continuam a evitar dormir nas próprias casas, por receio de novos ataques, que até agora não provocaram vítimas mortais em Nampula.

“A situação continua agitada, a população está a regressar directamente para as zonas de origem, mas uma parte ainda continua a não dormir em casa”, referiu.

Manuel Cintura admitiu ainda a presença de cidadãos naturais de Memba entre os grupos armados que têm protagonizado ataques no Norte do país, apontando as ligações históricas da população local com comunidades pesqueiras de zonas anteriormente ocupadas por insurgentes na vizinha província de Cabo Delgado.

Quase 40 mil pessoas fugiram de seis distritos de Cabo Delgado, e ainda da província vizinha de Nampula, devido ao recrudescimento dos ataques terroristas no norte de Moçambique, segundo o último balanço da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

De acordo com o mais recente relatório do terreno daquela agência das Nações Unidas, entre 22 de Setembro e 06 de Outubro, a escalada de ataques e a insegurança provocada por grupos armados” levou a “novos deslocamentos”, num total de 39 643, equivalente a 12 335 famílias, essencialmente nos distritos de Balama, Mocímboa da Praia, Montepuez e Chiúre, Cabo Delgado, mas também em Memba, província de Nampula.

A província de Cabo Delgado, rica em gás, é alvo de ataques terroristas há oito anos, com o primeiro ataque registado a 05 de Outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia, sendo que o Governo afirmou esta semana que continua a fazer esforços para garantir a segurança às populações e bens para que estas comunidades permaneçam nos seus lugares de origem em paz.

O Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED) contabiliza 6257 mortos ao fim de oito anos de ataques terroristas em Cabo Delgado, alertando para a instabilidade actual, com o recrudescimento da violência.

Mais de metade das mulheres diagnosticadas com cancro da mama em Moçambique perderam a vida no último ano. Os números, que revelam um cenário devastador, refletem não apenas a gravidade da doença, mas também o impacto da falta de diagnóstico precoce e de acesso a tratamento especializado. A Primeira-Dama da República, Gueta Chapo, descreve a situação como alarmante e defende que o país não pode continuar a assistir, de braços cruzados, à morte silenciosa de tantas mulheres.

Foi no distrito de Jangamo, província de Inhambane, que Gueta Chapo deu o pontapé de saída para a campanha Outubro Rosa, uma iniciativa mundial que, todos os anos, mobiliza governos, instituições e comunidades para a prevenção e combate ao cancro da mama e do colo do útero. O ambiente era de esperança e reflexão, com dezenas de mulheres, profissionais de saúde e líderes locais unidos por uma causa comum: salvar vidas.

Durante a cerimónia, a Primeira-Dama foi clara e emotiva: “Estamos aqui hoje com um propósito comum, que é reforçar o nosso compromisso inabalável de garantir que nenhuma mulher perca a vida por falta de acesso ao rastreio, ao diagnóstico precoce e ao tratamento do cancro da mama. Este é um direito fundamental — o direito à saúde, à dignidade e à vida”, afirmou.

Segundo dados divulgados pela própria Gueta Chapo, em 2022 foram registados em Moçambique 2.048 casos de cancro da mama, dos quais 1.207 resultaram em óbitos. “Esses números são graves. São vidas interrompidas. São mães, irmãs e filhas que deixaram famílias em luto por uma doença que, se diagnosticada a tempo, tem cura”, sublinhou.

Em tom firme, a Primeira-Dama lembrou que a luta contra o cancro é uma responsabilidade coletiva, que deve envolver toda a sociedade — desde o setor público até as famílias: “O governo de Moçambique, através do Ministério da Saúde, tem feito esforços significativos na expansão dos serviços de rastreio e diagnóstico precoce, mas esta batalha não pode ser apenas do Estado. Requer uma mobilização nacional e internacional. Precisamos do envolvimento das comunidades, dos profissionais de saúde, dos meios de comunicação e do setor privado”, apelou.

Enquanto as autoridades discursavam, na plateia estavam mulheres que são o verdadeiro rosto desta luta. Histórias de dor e superação davam corpo à mensagem do Outubro Rosa.

Uma delas, de 57 anos, escolheu o anonimato, mas aceitou partilhar o seu testemunho. “A situação começou a agravar-se e comecei a ter corrimentos e sangramentos. Fiz quimioterapia no Hospital Central de Maputo durante seis meses. Agora já me sinto bem, estou muito melhor”, contou, com um sorriso tímido de quem venceu a batalha mais dura da vida.

Outra mulher, de apenas 33 anos, descobriu através de um autoexame que tinha cancro da mama. “O doutor disse-me que precisava tirar toda a mama. Tive muito medo, porque sou a primeira pessoa na família com esta doença. Mas percebi que não havia outra saída senão seguir as recomendações médicas”, relatou.

Hoje, curada, ela reconhece que a sua sobrevivência foi fruto da atenção que teve ao próprio corpo. “Acredito que, se eu não tivesse feito o autoexame, não estaria viva. Quando a doença é descoberta tarde, já não há cura”, afirmou, com a voz embargada, mas cheia de força.

Gueta Chapo, sensibilizada pelos relatos, destacou a importância de dar continuidade às campanhas de sensibilização e de aproximar os serviços de rastreio das comunidades mais distantes. “É vital que todas as mulheres, independentemente da sua origem, da sua cor ou da sua religião, possam fazer o rastreio precocemente. Quando o cancro é detetado cedo, é possível tratá-lo e garantir a cura”, disse, num tom que misturava compaixão e determinação.

A Primeira-Dama elogiou ainda o trabalho dos profissionais de saúde e dos parceiros que apoiam o combate ao cancro. “Quero expressar a minha gratidão ao Ministério da Saúde pelo esforço técnico e humano dedicado a esta causa. E agradeço aos nossos parceiros institucionais, comunitários e internacionais pela solidariedade e compromisso contínuo. Aos líderes comunitários, muito obrigada por levarem a mensagem às nossas comunidades”, afirmou, arrancando aplausos da plateia.

Num discurso que combinou emoção e pragmatismo, Gueta Chapo apelou também aos homens para se envolverem: “Convido os nossos papás a aderirem aos serviços de saúde e a acompanharem as mulheres. Não esperem pelo mês de outubro — todos os dias as nossas unidades sanitárias estão abertas, os nossos profissionais estão lá para atender. A morte não avisa, por isso devemos prevenir”, alertou.

Ao longo da cerimónia, ficou claro que o Outubro Rosa não é apenas uma campanha simbólica, mas um movimento que pretende transformar mentalidades e salvar vidas. Em Moçambique, onde o cancro ainda é um tema rodeado de tabus e medo, falar sobre a doença é, também, um ato de coragem.

No encerramento, a Primeira-Dama deixou uma mensagem que ecoou entre os presentes: “Cuidar da mulher é cuidar do futuro das famílias, das comunidades e do país. Não se trata apenas de saúde, mas de justiça social, de equidade e de desenvolvimento sustentável.”

O evento terminou com centenas de mulheres a inscreverem-se para o rastreio gratuito do cancro da mama e do colo do útero — o primeiro passo de uma jornada que Gueta Chapo quer ver multiplicada por todo o território nacional.

O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, exaltou hoje, em Maputo, o papel dos professores na construção de uma sociedade instruída, justa e desenvolvida, ao receber uma saudação da classe docente por ocasião do 44º aniversário da Organização Nacional dos Professores (ONP), celebrado a 12 de Outubro.

O Chefe do Estado afirmou que “ser professor é formar carácter, é inspirar sonhos e é tocar o futuro com as mãos do presente”, destacando a docência como uma missão nobre e indispensável ao progresso nacional.

No seu discurso, o Chefe do Estado felicitou todos os professores do país pela dedicação e sentido de compromisso, afirmando que “o professor é o arquitecto do profissional moçambicano e, quiçá, da nossa sociedade, no geral”. Sublinhou que, mais do que transmitir conhecimentos, o professor contribui para a formação moral e cívica das novas gerações, sendo “a forja do homem novo e o farol cintilante que guia a sociedade da ignorância para a sabedoria”.

O Presidente Chapo prestou homenagem especial aos professores que exercem a sua missão em contextos difíceis, particularmente nas zonas afectadas pelo terrorismo, cheias, ciclones e outras adversidades. “Mesmo em situações adversas, sempre encontram alternativas para garantirem que o processo de ensino-aprendizagem não pare. Por este acto de coragem, peço uma grande salva de palmas para esses profissionais!”, declarou.

O governante reconheceu o empenho do Ministério da Educação e Cultura e da ONP no apoio à classe docente, sublinhando que a valorização do professor é um compromisso assumido pelo Governo.

Recordou que “celebrar o Dia do Professor é mais do que reconhecer uma profissão; é valorizar uma missão e reconhecer um dom que Deus deu a cada um dos professores”.

O Chefe do Estado condenou, com veemência, os actos de vandalização de escolas registados em várias províncias, denunciando que 139 escolas e dezenas de outras infra-estruturas públicas foram destruídas durante manifestações violentas, com prejuízos estimados em 32,2 mil milhões de meticais.

“Destruir uma escola é destruir o futuro de uma Nação inteira”, afirmou, orientando as autoridades competentes a responsabilizarem exemplarmente os infractores.

Ademais, alertou que tais práticas “machucam os corações de todos os professores, magoam a alma de todos os pais e ferem o bom senso de todos os cidadãos do bem”, apelando à sociedade para isolar os promotores de violência. Acrescentou que os recursos destinados à reconstrução das escolas poderiam ser aplicados em novas infra-estruturas, medicamentos e transporte público.

Reconhecendo os desafios ainda existentes no sector, o Presidente da República mencionou a sobrecarga de trabalho, o excesso de alunos por turma e o atraso no pagamento das horas extraordinárias. “O Governo não ignora esta dívida, nem pretende ignorar esta situação. Está em curso um plano de pagamento faseado e continuaremos a

agir na medida da disponibilidade possível dos recursos financeiros”, garantiu.

O Chefe do Estado reafirmou o compromisso de investir na expansão da rede escolar e na melhoria das condições de trabalho dos professores. Lembrou que, nos últimos cinco anos, foram construídas mais de 6.500 novas salas de aula e que o Governo prevê edificar pelo

menos 1.500 por ano. “Valorizar o professor não se esgota no pagamento do salário. É investir nas condições de vida do professor, da sua família e também do trabalho”, destacou.

Por seu turno, o presidente da ONP, Rosário Quive, afirmou que a presença dos professores junto ao Chefe do Estado simboliza “o compromisso inabalável de colaborar com o Governo na construção de uma educação verdadeiramente para todas as crianças, jovens e adultos”. 

Reiterou que a ONP continuará a ser uma voz activa na defesa dos direitos dos professores e na promoção de um ensino de qualidade, inclusivo e transformador para Moçambique.

O director da Faculdade de Ciências de Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica de Maputo, Paulino Fumo, considera que, apesar dos avanços registados nas últimas décadas, a educação moçambicana enfrenta hoje desafios significativos que comprometem a qualidade do ensino. Segundo o especialista, factores como a superlotação de turmas, a insuficiência de recursos, a motivação reduzida dos professores e a instabilidade curricular dificultam o processo de aprendizagem e a consolidação de um ensino verdadeiramente inclusivo e eficaz.

“Estamos a lidar com situações em que um único professor é responsável por turmas de 60, 70 ou mais alunos, muitas vezes distribuídos em dois ou três turnos diários. Como podemos garantir qualidade quando os docentes não têm condições adequadas para acompanhar cada estudante?”, questiona Fumo. O director alerta que, embora o ensino seja centrado no aluno, sem infraestrutura adequada e professores motivados, o objectivo de formar cidadãos críticos e preparados para os desafios do país permanece distante.

Fumo destaca que a introdução das línguas locais no sistema de ensino representa um avanço estratégico, permitindo uma educação mais inclusiva e culturalmente relevante. No entanto, a implementação efectiva depende da formação de professores capacitados para actuar em diferentes realidades regionais, respeitando as especificidades linguísticas e culturais de cada comunidade.

Outro desafio emergente apontado pelo Director da Faculdade de Ciências de Linguagem, Comunicação e Artes da Universidade Pedagógica de Maputo é a incorporação da inteligência artificial (IA) na educação. Segundo o professor, o uso de tecnologias digitais oferece oportunidades de personalização do ensino, avaliação mais precisa e gestão pedagógica mais eficiente. “A IA pode ser uma ferramenta poderosa, mas exige investimentos, formação contínua e infraestruturas adequadas. Sem estes elementos, o seu impacto permanece limitado”, explica.

Além destes factores, ressalta que a constante alteração dos currículos dificulta a consolidação de práticas educativas consistentes. “A mudança permanente dos programas compromete a estabilidade do ensino e impede que professores e alunos alcancem resultados sólidos. Precisamos de currículos estáveis, adaptáveis à realidade regional, mas que permitam consolidação e progresso ao longo do tempo”, sublinha.

Fumo também aponta que a formação docente, embora tenha registado avanços desde a independência, ainda é insuficiente para atender à demanda crescente de profissionais qualificados, especialmente no ensino primário. “Os institutos de formação e universidades trabalham arduamente, mas o país ainda precisa de mais estratégias para preparar professores que respondam às necessidades específicas de cada comunidade”, observa.

O especialista lembra que o país tem avançado em vários aspectos desde 1975, com a expansão da rede escolar, massificação do ensino e criação de programas de formação docente, mas a realidade diária nas escolas continua a desafiar o potencial de progresso. A infraestrutura escolar, em muitas regiões, permanece inadequada, com crianças a estudar em condições precárias, sem materiais suficientes e em ambientes improvisados, como salas temporárias ou mesmo debaixo de árvores.

O tema ganha maior relevância com a celebração do Dia do Professor, comemorado este domingo a nível internacional. Para Fumo, a data não deve servir apenas para homenagens simbólicas, mas como um momento de reflexão sobre a necessidade de valorizar os docentes, garantir melhores condições de trabalho e reconhecer a importância da profissão na construção do país. “Restaurar a dignidade do professor é restaurar a dignidade da escola e da educação”, conclui.

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