Os jovens muçulmanos são chamados a preservar os valores espirituais adquiridos durante o mês do Ramadão como forma de garantir uma vida mais ética, equilibrada e socialmente responsável. A recomendação foi feita pelo líder religioso Sheik Mussagy Abdul Rahman, no âmbito das celebrações do Eid al-Fitr, que marcam o fim do jejum islâmico.
Segundo o Sheik, em entrevista no programa Manhã Informativa da Stv Notícias, o verdadeiro teste da fé começa após o Ramadão, quando termina o período de maior intensidade espiritual. “Somos seres humanos, não conseguimos manter o mesmo estado emocional ou espiritual por muito tempo. Isso é natural. Mas os valores essenciais devem permanecer”, afirmou.
Entre esses valores, destacou a modéstia, a honestidade, o senso de justiça e o perdão. “Os jovens devem centrar-se nesses princípios e procurar praticá-los no seu dia-a-dia, seja na escola, no trabalho ou na família”, acrescentou.
O líder religioso sublinhou que o Ramadão não é, também, um momento de transformação pessoal. “O objectivo do mês é alcançar a piedade e temer a Deus. Por isso, a mensagem é que continuemos com essa consciência ao longo do ano”, disse, defendendo que este período deve servir para “corrigir o rumo das coisas que não estavam certas”.
Para além da dimensão espiritual, o Sheik destacou a importância da solidariedade como um dos pilares centrais do Islão. Durante o Ramadão, os muçulmanos intensificam práticas como a zakat, contribuição obrigatória sobre os bens acumulados, e a sadaqa, de carácter voluntário.
“No Islão, o sucesso individual não é visto de forma isolada. Existe uma responsabilidade social. Devemos retribuir à comunidade, sobretudo aos mais desfavorecidos”, afirmou.
No Eid al-Fitr, esta responsabilidade materializa-se na sadaqatul fitr, uma contribuição destinada a garantir inclusão social. “Não devemos permitir que alguém se sinta excluído no dia da festa. É fundamental envolver os mais pobres, os órfãos e os vulneráveis”, sublinhou.
Num país caracterizado pela diversidade religiosa como Moçambique, o Sheik Mussagy Abdul Rahman defende uma convivência baseada no respeito mútuo. “O Alcorão incentiva o bom relacionamento com pessoas de outras religiões. Existe uma base comum entre todas, assente no bem, na caridade e no respeito”, afirmou.
Para o líder religioso, essa base comum deve ser o ponto de partida para fortalecer a coesão social. “Falamos todos de valores universais como o amor, o perdão e a solidariedade. É nesse espaço que devemos construir a nossa convivência”, acrescentou.
Abordando a situação de insegurança no norte do país, o Sheik rejeitou a associação entre terrorismo e religião. “Grande parte das vítimas do terrorismo em Moçambique são muçulmanas. É um erro apontar o dedo ao Islão por falta de investigação séria”, afirmou.
Segundo explicou, elementos religiosos podem ser usados como forma de camuflagem. “O uso de vestuário ou expressões religiosas não é prova. É preciso responsabilidade e capacidade de análise para não criar estigmas”, alertou.
O líder religioso apelou ainda ao reforço da solidariedade para com os deslocados e vítimas de conflitos e desastres naturais.
Apesar de a maioria dos muçulmanos moçambicanos celebrar o Eid na mesma data, persistem algumas diferenças. “Mais de 90% da comunidade celebrou esta sexta-feira, mas ainda há grupos que optam por outro dia. A jurisprudência islâmica permite, mas o ideal é a unidade”, explicou.


