Moradores da Cidade de Maputo denunciam que continua o fornecimento de água turva, amarelada e com cheiro nas torneiras, um cenário que tem gerado medo de doenças e crescente indignação. Enquanto isso, as águas de Moçambique asseguram que a coloração resulta da época chuvosa e não representa risco para a saúde.
A reportagem do “O País” percorreu três bairros da capital, Inhagoia, FPLM e Polana Caniço A, onde constatou, no terreno, um cenário que contraria os padrões básicos que definem a água potável. De acordo com critérios universalmente aceites, a água própria para consumo humano deve ser incolor, inodora e sem sabor. Contudo, o que sai das torneiras apresenta coloração acastanhada, turvação visível e cheiro desagradável.
Em Inhagoia, um dos bairros mais afectados, os moradores descrevem uma realidade alarmante e angustiante, “a água sai toda com sujidade, até temos medo de beber essa cor de água (…) sai um pouco amarelado, com um bocadinho de matope, mas depois deixa a matope pra baixo e fica água em cima com amarelado”, relatou um residente, evidenciando o nível de impureza visível no líquido.
A preocupação não se limita apenas à aparência da água, mas estende-se aos riscos para a saúde. Muitas famílias dizem temer o surgimento de doenças associadas ao consumo de água imprópria, sobretudo entre crianças e idosos.
No bairro FPLM, a indignação é expressa em tom de revolta e desespero. “A água que sai é suja, será que ficam felizes ou é para morrermos, não sabemos. A água cheira de verdade, não conseguimos consumir”, afirmou Clézia Jorge, uma das residentes afectadas, que questiona a segurança do abastecimento.
Na Polana Caniço A, o cenário repete-se, com relatos de problemas de saúde associados ao consumo da água. Amélia Machava descreve os sintomas enfrentados por algumas famílias, “depois já consumir com dificuldade… porém, a diarreia, dor de barriga…”
Sem garantias de qualidade, os moradores são obrigados a procurar alternativas para garantir o acesso à água. Muitos recorrem a furos ou optam por comprar água, o que aumenta significativamente os custos mensais e agrava a já difícil situação económica das famílias.
Ainda assim, o acesso a essas alternativas nem sempre é fácil. Em alguns casos, surgem conflitos entre vizinhos, sobretudo quando há partilha de água. “Quando vais pedir água, os que têm água da Católica dizem que vão cortar o fornecimento… não apanhamos água. Vamos pedir no mercado, há quem tem água dos furos”, contou Leia Gabriel, residente no bairro FPLM.
Além do consumo, a qualidade da água afecta outras actividades básicas do quotidiano, como cozinhar e lavar roupa. “Para lavar roupa, se for branca, vai sujar, deixa com nódulos… e para cozinhar também não dá, porque mesmo cozinhando pode prejudicar”, relatou outra moradora de Inhagoia, evidenciando o impacto directo na vida doméstica.
Entretanto, a empresa Águas de Moçambique assegura, em comunicado, que a água fornecida não representa perigo para a saúde pública. Segundo a entidade, a alteração na coloração está associada à época chuvosa e a ajustes operacionais no processo de tratamento da água.
“Durante o ajuste operacional do processo de tratamento, a água distribuída apresentou alterações na coloração acima dos valores normativos estabelecidos. Importa clarificar que estes parâmetros são de natureza estética e não representam risco para a saúde pública, sendo que a desinfecção foi assegurada em toda a cadeia de tratamento, não tendo sido comprometida a segurança sanitária da água”, refere o comunicado.
Apesar das garantias oficiais, a explicação não convence os consumidores, que continuam a questionar a qualidade do serviço prestado e a transparência das informações divulgadas. A desconfiança aumenta à medida que o problema persiste sem solução visível.
Outro ponto de tensão prende-se com o custo do serviço. Mesmo com a qualidade da água em causa, os moradores afirmam que as facturas continuam elevadas, o que agrava ainda mais a insatisfação. “Nós cansamos de reclamar… não tem uma factura de 500, são 700, 800, mil ou mil meticais para cima”, denunciou Clézia Jorge, acrescentando que muitos residentes já ponderam abandonar o sistema formal de abastecimento.
A possibilidade de desvinculação do sistema surge como forma de protesto e tentativa de encontrar alternativas mais seguras, embora nem todos tenham condições para tal. A sensação de insegurança é generalizada entre os moradores. “Não estamos seguros”, resumiu um residente de Inhagoia, reflectindo o sentimento colectivo de incerteza.
Para muitos, a situação ultrapassa a questão estética e coloca em causa direitos básicos, como o acesso à água potável e à saúde. Enquanto isso, as Águas de Moçambique garantem que a situação tende a normalizar com o fim dos impactos da época chuvosa.