Há uma linha invisível a ser cruzada em Inhambane — silenciosa, mas perigosa. De um lado, um dos mais ricos ecossistemas costeiros de Moçambique; do outro, a pressão humana que, pouco a pouco, o empurra para o colapso. No meio, comunidades que dependem do mar para viver, mas que também, muitas vezes sem alternativa, acabam por contribuir para a sua degradação. É neste ponto de tensão que surge uma nova aposta: juntar ciência e conhecimento local para travar um ciclo que ameaça tornar-se irreversível.
A província de Inhambane possui cerca de 18 mil hectares de mangal ao longo da sua extensa linha costeira, um património natural estratégico para a protecção contra a erosão, para a reprodução de espécies marinhas e para a própria sobrevivência das comunidades costeiras. Ainda assim, a realidade no terreno mostra um cenário inquietante: apesar das campanhas de repovoamento, o mangal continua a ser destruído a um ritmo preocupante, sobretudo pela acção humana.
Corte indiscriminado, expansão de actividades económicas desordenadas e falta de alternativas sustentáveis estão entre os factores que alimentam este processo de degradação. O resultado é visível: zonas outrora densas em biodiversidade transformam-se em áreas frágeis, vulneráveis às alterações climáticas e cada vez menos produtivas para as comunidades que delas dependem.
É neste contexto que a Escola Superior de Desenvolvimento Rural, da Universidade Eduardo Mondlane, prepara a criação de um Centro Comunitário em Inhambane — uma iniciativa que pode marcar um ponto de viragem na forma como o país encara a conservação dos seus ecossistemas marinhos.
A proposta rompe com abordagens tradicionais. Em vez de soluções impostas de fora, a ideia é simples, mas poderosa: colocar lado a lado quem estuda e quem vive o problema diariamente. Académicos e comunidades passam a partilhar o mesmo espaço, o mesmo debate e, sobretudo, a mesma responsabilidade.
A bióloga marinha Denise Nicolau explica que o centro pretende dar voz a quem, até aqui, raramente participa nas decisões que afectam directamente o seu modo de vida.
“Esperamos que a abertura deste centro dê espaço às mulheres, aos jovens e aos homens que sofrem directamente os efeitos das mudanças climáticas, para que participem com a academia na tomada de decisões, mas também na produção de conhecimento sobre os ecossistemas costeiros e marinhos”, afirmou.
A abordagem vai além da teoria. O objectivo é trabalhar sobre realidades concretas: mangais, dunas costeiras, ervas marinhas, recifes de coral e as espécies que dependem desses habitats. Tudo isso será analisado não apenas sob o olhar científico, mas também a partir da experiência prática das comunidades.
No terreno, o centro será um espaço de acção. Formação técnica, partilha de conhecimentos e desenvolvimento de soluções práticas fazem parte de um pacote que pretende mudar comportamentos e criar novas oportunidades económicas.
“Vamos trabalhar em acções concretas para restaurar ecossistemas costeiros e marinhos, formar as comunidades sobre como gerir áreas de conservação comunitária e integrar questões de género na tomada de decisão. Há também componentes ligadas à produção animal, pesca e aquacultura”, explicou Denise Nicolau.
No fundo, trata-se de aproximar dois mundos que, durante muito tempo, caminharam em paralelo: a academia e as comunidades. Uma aproximação que, para muitos especialistas, pode ser decisiva.
A Universidade Eduardo Mondlane acredita que o conhecimento não começa nas salas de aula, mas nas próprias comunidades. O desafio, segundo o docente Isidro Muhale, é transformar esse conhecimento em ferramenta de mudança.
“O conhecimento existe nas comunidades. O que é necessário é trabalhar na consciencialização e na persuasão. Pode haver alguma resistência inicial, mas com estratégias adequadas e mostrando as vantagens, é possível envolver as comunidades e gerar mudanças reais”, explicou.
Mas há um ponto em que todos os intervenientes convergem: sem o envolvimento directo das comunidades, qualquer estratégia está condenada ao fracasso.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) defende que a chave está em partir daquilo que as pessoas já sabem e vivem.
“Qual é a relação com a natureza? Qual é a relação com o oceano? Partimos precisamente dessas bases, do conhecimento que as próprias comunidades já possuem e da forma como interagem com o oceano, para encontrar soluções que tornem, por exemplo, os seus negócios mais resilientes”, explicou Tara Shyan, representante da organização.
Essa lógica tem vindo a produzir resultados encorajadores. As comunidades envolvidas no projecto têm assumido um papel activo, não apenas na implementação de soluções, mas também na sensibilização de outras pessoas.
A participação vai além do discurso. Está ligada à melhoria directa das condições de vida das famílias, numa relação clara entre conservação e sobrevivência económica.
Num território onde a pesca e o turismo são pilares da economia local, proteger o ecossistema não é apenas uma questão ambiental — é uma questão de sobrevivência.
A iniciativa surge, por isso, num momento crítico. As alterações climáticas intensificam a pressão sobre os ecossistemas costeiros, enquanto o crescimento populacional aumenta a procura por recursos naturais.
Se nada for feito, o risco é claro: perda de biodiversidade, redução das capturas pesqueiras, aumento da pobreza e maior exposição a fenómenos extremos como ciclones e inundações.
Mas há também uma janela de oportunidade.
Ao apostar na integração entre ciência e conhecimento local, Inhambane pode estar a ensaiar um modelo que vai além da conservação ambiental. Um modelo que coloca as comunidades no centro das soluções, não como vítimas, mas como protagonistas.
A questão que se coloca agora é simples, mas decisiva: será esta abordagem suficiente para travar a degradação que há anos se arrasta?
A resposta ainda está em construção. Mas, pela primeira vez em muito tempo, há sinais de que o caminho pode ser diferente.