Seis meses depois de a edilidade de Maputo ter flexibilizado as regras para o exercício do comércio informal nos arredores do Mercado de Xiquelene, vendedores voltaram a ocupar passeios e outros espaços considerados impróprios, contrariando as orientações municipais e reacendendo o debate sobre a organização da actividade na capital do país.
Em Agosto do ano passado, depois de uma operação de retirada que gerou tensão entre as autoridades municipais e os vendedores, o Conselho Municipal da Cidade de Maputo recuou da decisão de interdição total do comércio informal nos passeios das avenidas que cruzam a Praça dos Trabalhadores.
A medida tinha como objectivo libertar os passeios e melhorar a circulação de peões e viaturas numa das zonas mais movimentadas da cidade.
Após negociações com os comerciantes, a edilidade acabou por flexibilizar a decisão e permitiu que os vendedores continuassem a exercer as suas actividades nas imediações do mercado, mas apenas a partir das 16 horas. A solução foi apresentada como uma forma de equilibrar a necessidade de organizar o espaço público com a realidade de milhares de famílias que dependem do comércio informal para garantir o sustento diário.
Contudo, seis meses depois do entendimento alcançado entre o município e os vendedores, a realidade no terreno revela que o comércio informal voltou a ocupar os passeios em praticamente qualquer momento do dia.
Uma ronda feita nas imediações do Mercado de Xiquelene pela equipa de reportagem do “O País” mostra vendedores instalados desde o início da tarde, e em alguns casos ainda mais cedo, ocupando espaços destinados à circulação de peões.
Na Avenida Guerra Popular, no entroncamento com a Avenida 24 de Julho, um dos pontos onde a polícia municipal já foi interventiva no passado para impedir a ocupação dos passeios, os vendedores informais voltaram a instalar-se.
Alguns comerciantes reconhecem que os locais não são apropriados, mas afirmam que a necessidade de garantir rendimento diário os obriga a regressar aos pontos mais movimentados.
Segundo o vendedor, Ambrósio Zibia, muitas vezes os vendedores aguardam apenas a saída das equipas de fiscalização para iniciar a actividade e reconhecem o perigo naquele local. “Até eles saírem, assim que saírem, é a hora que nós estamos a começar a trabalhar, sabemos que é muito perigoso, mas não temos muitas opções, é pelo rendimento, se nos tirarem, vamos levar nossas coisas e sair”.
O comerciante, Samuel explicou a dinâmica que ocorre no local, “o município proibiu aqui, porque nós começamos a vender às 13, às vezes às 14, não aceita para nós começar a vender logo de manhã, tirar nós daqui, não ficar pessoas aqui.”
A Polícia Municipal reconhece que, apesar de se tratar de uma actividade considerada ilegal quando exercida em locais impróprios, o comércio informal constitui uma fonte importante de sobrevivência para muitas famílias.
De acordo com a corporação, a realidade socioeconómica do país faz com que milhares de pessoas dependam desta actividade para garantir o sustento diário. “Muito mais mesmo para alguma renda, que está mesmo de sobrevivência, subsistência, várias famílias sobrevivem através do trabalho informal, este é um facto que temos que reconhecer e também reconhecemos a existência, sim, de vendedores de uma forma recorrente a ocuparem lugares impróprios para esta actividade que é, na verdade, de subsistência”, afirma o porta-voz da Polícia Municipal, Naftal Lay.
Apesar disso, as autoridades defendem que a actividade deve ocorrer dentro de regras que permitam manter a organização da cidade e garantir a circulação segura de peões.“Ela tem que ocorrer, ela tem que ser feita de uma forma ordeira”, aponta Lay.
A edilidade assegura que não recuou do plano de reorganização do comércio informal na capital do país. Segundo o município, foram indicados espaços onde os vendedores poderiam exercer temporariamente as suas actividades enquanto decorre um processo mais amplo de reorganização.
“Os vendedores foram indicados onde pudessem exercer alguma actividade de uma forma temporária enquanto a reorganização de grande vulto ainda esteja a ocorrer.”
Mesmo com estas alternativas, muitos comerciantes continuam a preferir os locais de maior movimento, como os passeios próximos ao Mercado de Xiquelene e às principais avenidas da zona, onde acreditam ter mais possibilidades de venda.
Para lidar com o problema e encontrar soluções mais estruturais, a Polícia Municipal anunciou a criação de um Grupo Multissetorial de Mercados e Mobilidade, que deverá estudar mecanismos de reorganização do comércio informal sem criar embaraços à circulação de pessoas e viaturas nas principais vias da cidade.
Enquanto isso, no terreno, o cenário mantém-se praticamente inalterado, vendedores ocupam novamente os passeios nas imediações do Mercado de Xiquelene, evidenciando os desafios enfrentados pelas autoridades municipais para conciliar a organização urbana com a sobrevivência de milhares de famílias que dependem da economia informal em Maputo.