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Resiliência e Esperança na luta contra a malária em Inhambane

A malária, uma das doenças mais persistentes em Moçambique, continua a desafiar comunidades e autoridades de saúde na cidade de Inhambane. Embora os números mais recentes apontem para uma redução significativa de casos, a doença ainda afecta milhares de pessoas e traz consigo histórias de luta, dor e superação. No primeiro trimestre de 2025, foram registados cerca de 4 mil casos de malária, um número que, apesar de elevado, representa uma redução considerável em comparação com os 10 mil casos reportados no mesmo período do ano passado.

Por trás destes números estão rostos como o da dona Cartilia. Quem a vê a caminhar pelo bairro Chamane não imagina as dificuldades que já enfrentou. “Era muito frequente ter malária. De dois a três episódios por ano, e houve uma vez em que quase perdi a vida. Foi preciso ir até Maputo para conseguir tratamento, e, graças a Deus, sobrevivi”, conta, com a voz embargada. A sua casa, na altura rodeada por pequenas poças de água acumulada e lixo, era um reflexo de um problema estrutural que alimenta a proliferação de mosquitos nas zonas urbanas e periurbanas de Inhambane.

Para combater a malária, as autoridades têm apostado em campanhas de pulverização intradomiciliária, uma medida eficaz, mas que não abrange toda a população. Felizarda, moradora do bairro Liberdade, é uma das beneficiárias dessa intervenção. “Aceitei logo a pulverização. Depois disso, notei que os mosquitos diminuíram bastante. Já não temos tantas picadas e, acima de tudo, as crianças estão mais protegidas”, relata, visivelmente aliviada.

Contudo, nem todos têm acesso à pulverização. A senhora Elisa é uma dessas pessoas. A sua casa, feita de chapas de zinco, não pode ser pulverizada devido à ineficácia do produto nesse tipo de material. “Gostava muito de poder fazer a pulverização, mas disseram que o medicamento não funciona no zinco. Fico preocupada, porque os mosquitos não escolhem casas”, desabafa, evidenciando as desigualdades na proteção contra a doença.

Dércio Rafael, responsável pelo programa de combate à malária em Inhambane, explica os motivos técnicos que limitam a pulverização em casas de zinco. “O produto utilizado não se fixa nas paredes de zinco, anulando o seu efeito. Estamos cientes deste desafio e a estudar alternativas que possam beneficiar estas famílias, pois queremos garantir que ninguém fique desprotegido”, afirma.

Apesar das dificuldades, Inhambane tem registado uma redução consistente nos casos de malária. Em 2023, foram reportados cerca de 50 mil casos, número que caiu para 28 mil em 2024. Este ano, no primeiro trimestre, a diminuição continuou, com 4 mil casos, uma redução significativa face aos 10 mil registados no mesmo período de 2024.

Dércio Rafael acredita que esta tendência é fruto de um esforço conjunto entre autoridades e comunidades. “Temos apostado na sensibilização das famílias, na eliminação de criadouros e na distribuição de redes mosquiteiras. Estes resultados mostram que estamos no caminho certo, mas ainda há muito a fazer”, explica. Ele destaca, no entanto, que a urbanização desordenada e a falta de saneamento básico em muitos bairros continuam a ser grandes obstáculos na luta contra a doença.

Além disso, Dércio sublinha um aspecto positivo: “Mesmo com o elevado número de casos, não tivemos óbitos por malária este ano. Isso demonstra que os nossos esforços para tratar os pacientes precocemente estão a dar frutos.”

Nos bairros mais afectados, como Chamane, Salela e Machavenga, as comunidades têm-se mobilizado para combater os criadouros de mosquitos. Mutirões organizados por líderes locais têm ajudado a limpar áreas arborizadas, remover águas estagnadas e sensibilizar os moradores. João, um desses líderes, partilha a sua experiência: “A malária mata. Não podemos ficar de braços cruzados. Estamos a unir forças para proteger as nossas famílias e tornar os bairros mais seguros.”

Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Durante a época chuvosa, as poças de água tornam-se um terreno fértil para a reprodução dos mosquitos. “É frustrante ver o nosso esforço ameaçado por problemas que não conseguimos controlar, como a falta de saneamento e o lixo que se acumula em áreas vulneráveis”, lamenta João.

As autoridades de saúde de Inhambane sabem que o combate à malária exige soluções sustentáveis e de longo prazo. Dércio Rafael adianta que estão a ser exploradas novas estratégias, como o uso de larvicidas em áreas críticas e a ampliação das campanhas de educação comunitária. “Queremos que a redução dos casos seja permanente. A malária é evitável, mas isso depende de um compromisso coletivo”, reforça.

Para pessoas como Cartilia, Felizarda e Elisa, a luta contra a malária é diária e pessoal. Enquanto umas celebram as melhorias trazidas pela pulverização, outras enfrentam limitações que as deixam mais vulneráveis.

A redução dos casos é uma vitória importante, mas não elimina as dificuldades enfrentadas por milhares de famílias. A esperança, contudo, permanece viva, alimentada pela determinação de uma cidade que não quer mais perder vidas para esta doença.

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