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Recuse que Moçambique seja vale de ossos secos

Com muito agrado li a carta que me enviaste, meu filho. Não apenas pelo carinho implícito nas tuas palavras, mas sobretudo pela maturidade intelectual e cívica com que analisaste os processos políticos, económicos, sociais e culturais do nosso país. A tua inquietação não é ingénua nem superficial; é profunda e legítima. Tocaste num ponto sensível e perigosamente negligenciado: a forma como os moçambicanos falam de si próprios, das suas famílias, dos seus dirigentes e da sua nação.

Vivemos um tempo em que o insulto foi normalizado, a desqualificação tornou-se linguagem corrente e a palavra negativa passou a ser confundida com pensamento crítico. Criticar deixou de ser um acto de responsabilidade cívica para se transformar, muitas vezes, num exercício de ódio verbal. Em Moçambique, fala-se mal como quem respira sem consciência das consequências.

E isso começa em casa. Sempre  disse aos meus amigos, quando era criança, que brincássemos, que discordássemos, que questionássemos, mas que nunca envolvêssemos os pais nem os dirigentes em chacota. Não por medo, mas por sabedoria. Toda a sociedade que perde o respeito simbólico pelas suas figuras estruturantes, pais, professores, líderes, instituições, prepara o terreno para a sua própria desintegração.

Na minha infância, mesmo em tempos politicamente difíceis, havia limites. Havia músicas que exaltavam os dirigentes, não por culto à personalidade, mas por reconhecimento da autoridade enquanto pilar da ordem social. Isso tinha raízes culturais e também espirituais. A Bíblia, o livro da vida e da sabedoria é clara quando assevera que  toda a autoridade vem de Deus (Romanos 13:1) e honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias (Êxodo 20:12). Estes princípios não prometem obediência cega, mas alertam para uma verdade dura: o desprezo sistemático pela autoridade tem custos sociais, morais e históricos.

Hoje, porém, o que vemos? Vemos filhos a chamarem os pais de “loucos”, “bêbados”, “inúteis”. Pais a chamarem os filhos de “burros”, “atrasados”, “xipunta (parvo)”. Esposas a chamarem os seus esposos de “6:30”, “corno manso”, “dranwanwa”(matreco). Casais a tratarem-se com insultos como se isso fosse linguagem doméstica aceitável. Isto não é liberdade de expressão. Isto é violência simbólica.
E violência simbólica gera violência real.

São palavras lançadas diariamente como se fossem inofensivas. Não são. São profecias. A palavra cria ambiente psicológico, molda relações, estrutura expectativas e, com o tempo, transforma-se em realidade social. Famílias desestruturadas produzem comunidades tensas. Comunidades tensas produzem lideranças frágeis ou predatórias. E depois nos perguntamos por que razão o país não avança.

Há um erro grave que cometemos enquanto sociedade: achamos que amaldiçoar o país é sinal de consciência política. Não é. É sinal de desistência moral. Basta entrar numa roda de conversa  numa família, no transporte público, no café  para ouvir o mesmo refrão: Este país não presta. Esta terra é uma desgraça. Aqui nada vai mudar. Poucos percebem que a pobreza tem ouvidos, a miséria tem ouvidos, o fracasso colectivo também. Um país que se diz morto todos os dias acaba por viver como tal.

A Bíblia oferece uma imagem poderosa em Ezequiel 37: um vale de ossos secos. Deus não pediu ao profeta para analisar as causas da morte nem para enumerar culpados. Pediu-lhe algo mais difícil: profetizar vida onde só havia morte. E, quando a palavra certa foi dita, os ossos juntaram-se, ganharam carne, fôlego e tornaram-se um exército vivo.

Moçambique hoje é, em muitos aspectos, um vale de ossos secos na ética pública, na confiança institucional, no tecido social, na esperança colectiva. Mas a pergunta central não é apenas o que está mal. É outra, mais incómoda: o que estamos a dizer sobre isso? Profetizamos morte ou vida? Caos ou reconstrução? Cinismo ou responsabilidade?

O que muitos ignoram é que também temos ossos secos na vida individual. Pessoas que se dizem fracassadas acabam por viver como fracassadas. Famílias que se amaldiçoam desintegram-se. Nações que se desprezam tornam-se ingovernáveis.

Criticar é necessário. Fiscalizar é saudável. Denunciar corrupção é um dever cívico inegociável. Porém, amaldiçoar o país é suicídio colectivo.

Fugir para a diáspora falando mal da própria terra não apaga a verdade histórica: muitos regressam ainda que seja apenas para serem enterrados. Uma nação não existe para receber mortos. Existe para gerar futuro.

Moçambique não é um acaso histórico nem um erro geográfico. É uma terra abençoada com uma costa única, recursos naturais abundantes, diversidade cultural riquíssima e um povo resiliente. O problema não é a terra. É a narrativa que construímos diariamente sobre ela.

As palavras são armas poderosas. Verdadeiras bombas atómicas. Podem destruir um país sem disparar um tiro ou podem reconstruí-lo sem derramar sangue. Cada cidadão é um agente profético, queira ou não. Não existe neutralidade quando se fala.

O desafio que lanço a ti, meu filho, e à sociedade moçambicana,  é claro e profundamente político no melhor sentido da palavra. Não nos cabe apenas denunciar o que está mal; cabe-nos, sobretudo, escolher com responsabilidade aquilo que afirmamos como possível. Um país não se constrói apenas com leis, recursos naturais ou discursos políticos, constrói-se também com as palavras que repetimos até que se tornem verdade.

Profetizar dirigentes íntegros é recusar a narrativa fácil de que todo líder é, por natureza, um monstro. É exigir ética sem desumanizar, é fiscalizar sem destruir, é compreender que a degradação permanente da liderança acaba por produzir exactamente o tipo de dirigentes que dizemos combater. Quando uma sociedade só sabe gerar ódio, acaba governada pelo ressentimento.

Profetizar famílias estruturadas é romper com a normalização do insulto doméstico, da humilhação quotidiana e da violência verbal mascarada de franqueza. Lares tóxicos não produzem cidadãos livres nem líderes responsáveis. Produzem medo, cinismo e desconfiança. Uma nação forte começa onde há respeito entre pais e filhos, entre cônjuges, entre gerações.

Profetizar mudança responsável é rejeitar o culto ao caos como se ele fosse sinónimo de coragem política. O colapso pode parecer revolucionário, mas raramente é construtivo. A verdadeira transformação exige maturidade, paciência histórica e sentido de responsabilidade colectiva. Sociedades que glorificam o caos acabam prisioneiras dele.

E profetizar prosperidade com trabalho é abandonar a ilusão perigosa dos milagres vazios. Nenhuma nação se desenvolve à base de slogans, promessas ocas ou discursos messiânicos. A prosperidade nasce do esforço continuado, da disciplina, da ética, do investimento no conhecimento e da valorização do mérito.

Estas não são frases bonitas. São escolhas civilizacionais. O que afirmamos hoje molda o país que herdaremos amanhã. As palavras que lançamos ao espaço público tornam-se cultura, e a cultura acaba por se transformar em destino.

Recusar que Moçambique seja “ossos secos” não é romantismo. É um acto de coragem cívica e responsabilidade histórica. Que da nossa boca saia vida. Porque, em grande medida, a nação vive daquilo que o seu povo diz sobre ela. Não desistir de Moçambique não é romantismo, é responsabilidade histórica. Eu profetizo bençãos e prosperidade para a tua vida.

Amo-te, filho.

Este artigo é dedicado ao Pr. Ricardo Nganhane

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