Comunidades camponesas denunciam alegadas irregularidades no processo de inscrição dos proprietários das machambas onde deverão ser construídas 25 mil casas na cidade da Beira. O processo iniciou-se na passada segunda-feira, mas o município diz desconhecer a iniciativa.
O caso ocorre no bairro da Maraza, onde o Município da Beira pretende erguer 25 mil casas, com apoio de parceiros nacionais e estrangeiros, para garantir habitação condigna e resiliente às mudanças climáticas a milhares de cidadãos.
Na passada segunda-feira, os proprietários das machambas localizadas nas áreas abrangidas pelo projecto foram informados de que se iniciaria o processo de inscrição para efeitos de compensação.
Segundo os camponeses, o processo está a ser marcado por alegadas irregularidades, com a inscrição de pessoas que não seriam proprietárias das machambas e a exclusão dos verdadeiros titulares das terras.
“Trouxeram cinquenta Bilhetes de Identidade de pessoas desconhecidas, e nós ficámos sentados nas nossas machambas sem perceber o que estava a acontecer. Alguns indivíduos até pagavam para constar das listas”, denunciou Maria Vinho.
A camponesa acrescenta que os produtores ficaram ainda mais perplexos quando perceberam que algumas listas já estavam preenchidas, enquanto os legítimos proprietários das machambas ainda não tinham sido contemplados.
Os camponeses dizem estar a ser excluídos das listas pelos secretários dos bairros e afirmam que, quando procuram esclarecimentos, não obtêm respostas.
“Eles nos ignoram quando questionamos, não respondem absolutamente nada”, disse um dos camponeses.
Para a comunidade, a situação representa o risco de perder as terras de cultivo e, consequentemente, a principal fonte de sustento. Muitas das famílias dizem cultivar aquelas áreas há várias gerações.
“A minha mãe começou a fazer uso desta terra ainda na era colonial. Hoje ela já é incapaz, e eu passei a trabalhar aqui”, contou Isabel Bundo.
Perante a situação, os camponeses exigem a suspensão imediata das inscrições até que seja feita uma verificação rigorosa dos verdadeiros proprietários das machambas abrangidas pelo projecto.
“Queremos que cada proprietário seja inscrito na sua própria machamba. Isso vai evitar infiltrados”, exigiu um dos camponeses.
Contactada pela nossa equipa de reportagem, a vereadora para a área da Agricultura, sem gravar entrevista, disse que o Município da Beira desconhece o processo de inscrição que está a decorrer nas áreas abrangidas pelo projecto das 25 mil casas e prometeu averiguar a situação.