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Plataforma da ponte-cais de Inhambane continua submersa um mês depois do ciclone Gezani

Um mês depois da passagem do ciclone Gezani, a plataforma flutuante de atracagem de embarcações da ponte-cais de Inhambane continua parcialmente submersa, num cenário que revela danos mais graves do que inicialmente se pensava e que pode comprometer os prazos para a reposição desta importante infraestrutura de mobilidade entre as cidades de Inhambane e Maxixe.

Trata-se de uma estrutura flutuante com cerca de 200 toneladas, essencial para o embarque e desembarque de passageiros e mercadorias na travessia marítima entre as duas margens da baía. A plataforma acabou por afundar depois de ser violentamente atingida pelas ondas provocadas pelos ventos do ciclone Gezani, fenómeno climático que deixou um rasto de destruição em várias infraestruturas da província.

Apesar de as equipas técnicas terem sido mobilizadas pouco depois do incidente para iniciar os trabalhos de recuperação, a situação no terreno revelou-se mais complexa do que se previa. Parte da estrutura permanece submersa e os técnicos enfrentam desafios técnicos significativos para conseguir estabilizar a plataforma e iniciar o processo de reposicionamento.

O responsável técnico pela obra, Nelson Domingos, explicou que a forma como a plataforma cedeu durante o ciclone tornou o trabalho de recuperação particularmente difícil. Segundo o técnico, no momento em que a estrutura foi atingida pelas ondas e acabou por ceder, o balastro — material utilizado para dar estabilidade à plataforma — deslocou-se todo para o mesmo lado, deixando a estrutura inclinada e mais pesada de um dos lados.

“Quando houve o ciclone e a queda da plataforma, todo o balastro deslocou-se para o mesmo lado, acompanhando a inclinação da estrutura. Esse tem sido o principal desafio que estamos a enfrentar neste momento”, explicou.

De acordo com o responsável pela intervenção, a operação em curso exige um trabalho minucioso de redução de peso na plataforma para permitir que a estrutura volte gradualmente à superfície. A primeira etapa consiste na retirada do balastro e da água acumulada no interior da plataforma.

“Estamos neste momento a trabalhar na redução do peso da estrutura. Primeiro estamos a retirar o balastro e depois a drenar a água acumulada no interior para tentar fazer a plataforma subir um pouco”, afirmou.

Depois desta fase, será necessário recorrer a equipamentos de grande capacidade para tentar equilibrar a estrutura.

“Com recurso a diferenciais de grande tonelagem vamos puxar do lado oposto para tentar equilibrar a plataforma e reposicioná-la”, acrescentou.

As avaliações técnicas realizadas até agora indicam que a entrada de água na plataforma ocorreu através de algumas tampas de serviço localizadas na parte superior da estrutura. Segundo os técnicos, estas tampas já não beneficiavam de trabalhos regulares de manutenção, situação que pode ter facilitado a infiltração da água quando a estrutura foi atingida pelas ondas do ciclone.

Nelson Domingos explicou que, do ponto de vista estrutural, a parte inferior da plataforma permanece relativamente estável, mas a zona superior sofreu maior impacto.

“A plataforma ainda está em boas condições na parte de baixo. A parte que mais sofre é a parte de cima. A água entrou pelas tampas de serviço”, disse.

Para o técnico, a degradação das vedações destas tampas, associada à ausência de manutenção regular, pode ter contribuído para que a água entrasse rapidamente na estrutura, acelerando o processo de afundamento.

Perante a dimensão dos danos, o governador da província de Inhambane, Francisco Pagula, deslocou-se ao local para acompanhar de perto os trabalhos em curso e avaliar o estado real da infraestrutura. No terreno, o governante reconheceu que o cenário encontrado é mais preocupante do que inicialmente se imaginava.

Segundo o governador, os primeiros planos apontavam para uma recuperação relativamente rápida da plataforma, mas a realidade encontrada pelas equipas técnicas obrigou a reavaliar o calendário de intervenção.

“De princípio, este trabalho estava previsto para 12 dias, mas a situação no terreno acaba por revelar uma realidade diferente”, explicou.

Francisco Pagula acrescentou que as condições climáticas também estão a dificultar o avanço das operações.

“Estamos em plena época chuvosa e as correntes que se fazem sentir no mar acabam por dificultar o trabalho dos técnicos, sobretudo dos mergulhadores que estão envolvidos na operação”, disse.

Diante destas dificuldades, o governador admitiu que os prazos inicialmente previstos para a recuperação da plataforma terão de ser revistos. A empresa responsável pelos trabalhos deverá apresentar em breve um novo calendário para a conclusão da intervenção.

“O que a empresa nos informou é que, dentro de dois dias a contar de hoje, deverá apresentar um novo prazo para a conclusão dos trabalhos”, afirmou.

Enquanto a plataforma flutuante não é recuperada, as autoridades provinciais decidiram reforçar as medidas de segurança no ponto atualmente utilizado para o embarque e desembarque de passageiros.

A travessia entre Inhambane e Maxixe continua a ser garantida através de soluções provisórias, mas o movimento diário de passageiros exige uma vigilância permanente para evitar acidentes.

Francisco Pagula explicou que equipas especializadas foram destacadas para acompanhar o processo de travessia e garantir que todas as operações decorrem em segurança.

“Estamos a fazer de tudo para garantir que a segurança esteja assegurada. Neste momento temos colegas afetos a tempo inteiro para monitorar o processo da travessia”, afirmou.

As autoridades chegaram a estudar a possibilidade de instalar um corrimão mais longo na zona improvisada de embarque para facilitar o acesso dos passageiros, mas a solução acabou por ser abandonada após testes no terreno.

Segundo o governador, verificou-se que a presença do corrimão dificultava a atracagem das embarcações maiores que operam na travessia.

“O corrimão acabava por não facilitar a atracagem dos barcos maiores, por isso tivemos de repensar essa solução”, explicou.

Em alternativa, as autoridades apostam agora na sensibilização dos operadores das embarcações e dos próprios utentes da travessia para evitar comportamentos que possam colocar vidas em risco.

“O maior problema que podemos enfrentar é quando várias pessoas tentam embarcar ou desembarcar ao mesmo tempo. Por isso estamos a sensibilizar para que haja organização e prioridade no momento da travessia”, acrescentou.

A monitoria permanente no local está a ser assegurada por equipas da Administração Marítima e do Instituto Nacional do Mar, que acompanham diariamente o movimento de passageiros e embarcações.

Este não é o primeiro episódio em que as plataformas flutuantes das pontes-cais da província sofrem danos provocados por fenómenos climáticos extremos. Em 2017, durante a passagem do ciclone Dineo, a plataforma flutuante da ponte-cais da cidade da Maxixe também acabou por afundar, obrigando a uma intervenção de recuperação semelhante.

A repetição destes episódios levanta novas preocupações sobre a vulnerabilidade das infraestruturas costeiras da província de Inhambane, numa altura em que eventos climáticos extremos se tornam cada vez mais frequentes.

Enquanto decorrem os trabalhos de recuperação, moradores, operadores de transporte marítimo e passageiros que dependem diariamente da travessia entre Inhambane e Maxixe aguardam com expectativa pela reposição da plataforma flutuante, considerada uma peça fundamental para garantir a normalidade da mobilidade entre as duas cidades.

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