A falta de informação sobre os preços, os elevados custos de transporte, o acesso limitado ao financiamento e as deficiências das infra-estruturas continuam a comprometer a capacidade da agricultura do país de gerar rendimentos e alimentar a indústria nacional.
Os constrangimentos afectam diferentes cadeias de valor e dificultam a transformação da produção agrícola em riqueza, apesar do potencial de recursos de que o país dispõe.
Estas são algumas das constatações apresentadas no livro Agricultura e Transformação Económica em Moçambique: Evidências, Políticas e Caminhos para o Desenvolvimento, uma obra colectiva que reúne 16 autores, entre investigadores nacionais e estrangeiros, e resulta de estudos desenvolvidos ao longo de vários anos sobre os desafios da agricultura e da transformação estrutural da economia moçambicana.
Na apresentação da obra, que teve lugar esta quarta-feira, na Cidade de Maputo, Alberto da Cruz explicou que os estudos surgiram no contexto da preparação de políticas de desenvolvimento e industrialização, tendo sido analisadas diferentes cadeias de valor, entre as quais o milho, o algodão, o frango e o feijão bóer.
O investigador destacou a falta de informação fiável sobre os preços e as dificuldades de transporte como obstáculos que prejudicam os produtores e limitam a ligação entre a produção agrícola e a indústria.
“Os agricultores, no caso do milho, não têm informação do preço. Isto é um problema, porque já não sabem como negociar”, afirmou.
Alberto da Cruz chamou igualmente a atenção para as dificuldades de escoamento da produção, que impedem que determinados produtos cheguem aos principais centros de consumo e às unidades industriais.
“A indústria agrícola não compra o milho que sai da Angónia porque não chega a Maputo”, explicou, defendendo que a industrialização do país depende também de investimentos em infra-estruturas que liguem as zonas de produção aos mercados.
“Se realmente queremos industrializar Moçambique, é preciso infra-estruturar”, sublinhou.
Baixa produtividade mantém agricultores na pobreza
Por seu turno, Egas Daniel, também autor da obra, considera que o desafio da agricultura moçambicana não se resume à quantidade de terra disponível ou ao número de pessoas envolvidas na actividade, mas à capacidade de produzir mais com os recursos existentes.
“A diferença é que há pouco rendimento nesta muita terra, neste muito trabalho”, observou o investigador, ao explicar que o crescimento da produção agrícola tem acompanhado o aumento da área cultivada e da população, sem uma evolução significativa da produtividade por trabalhador e por área.
Segundo Egas Daniel, esta realidade limita os rendimentos dos produtores e dificulta a transformação da estrutura económica do país. Para o investigador, o aumento da produtividade agrícola deve ser o ponto de partida para dinamizar outros sectores, incluindo a indústria transformadora e os serviços.
“O agricultor não é irracional. Ele não produz pouco porque não quer ganhar, os simples riscos que ele enfrenta ao produzir muito são tais que não lhe dão incentivos para ele produzir mais”, afirmou, defendendo que os riscos e os constrangimentos enfrentados pelos produtores ajudam a explicar a baixa produção.
Entre os factores identificados no livro estão as dificuldades de transporte, o acesso à terra, a falta de crédito, a ausência de seguros agrícolas adequados e as limitações do mercado de trabalho. Na perspectiva do autor, estes obstáculos estão interligados e devem ser enfrentados de forma articulada.
Egas Daniel alertou ainda para a necessidade de integrar as mudanças climáticas na planificação pública. Cheias e secas podem desencorajar os produtores a investir e comprometer até a produção que conseguem realizar, sobretudo quando não existem mecanismos de protecção adequados.
O investigador defendeu igualmente a diversificação dos mercados e o processamento da produção nacional, para reduzir a dependência de compradores externos. Como exemplo, apontou o caso do feijão bóer, cuja exportação depende fortemente do mercado indiano.
Potencial agrícola exige ligação à indústria
Na sua intervenção, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, afirmou que o país dispõe de um potencial agrícola significativo, mas continua a enfrentar dificuldades para o converter em rendimento e desenvolvimento económico.
“O nosso problema não é a ausência de potencial, mas a ausência das ligações que convertem potencial em rendimento”, declarou.
O governante recordou que a agricultura emprega cerca de três quartos da força de trabalho nacional, mas representa aproximadamente um quarto do valor acrescentado da economia. Moçambique dispõe de cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais aproximadamente três milhões têm potencial para irrigação, mas apenas cerca de 50 mil hectares estão efectivamente irrigados.
Salim Valá destacou também o baixo nível de comercialização da produção agrícola, estimando que, em média, os agregados familiares agrícolas comercializam cerca de 12% da sua produção.
“Aumentar a produção sem assegurar mercados, financiamento, logística e processamento industrial produz resultados económicos limitados”, advertiu.
Para o ministro, a transformação da agricultura exige uma abordagem que ultrapasse o aumento da produção e inclua o acesso aos mercados, a melhoria das infra-estruturas, a expansão da irrigação, o financiamento e o desenvolvimento da indústria de processamento.
“O verdadeiro valor económico da agricultura mede-se também pela indústria que alimenta, pelas empresas que dinamizam, pelos empregos que criam e pelos mercados que desenvolvem”, afirmou.
A obra apresenta, assim, um conjunto de evidências e propostas para orientar as políticas públicas e os investimentos privados, defendendo uma maior articulação entre os diferentes sectores da economia.
A mensagem central dos autores é que o potencial agrícola de Moçambique só poderá traduzir-se em desenvolvimento sustentável se forem removidos, de forma coordenada, os obstáculos que limitam a produtividade, o rendimento dos produtores e a ligação entre a produção e a indústria.
O Presidente da República, Daniel Chapo, iniciou esta segunda-feira, a sua primeira visita oficial à província de Tete, na qualidade de Chefe do Estado, com um comício popular no distrito de Moatize, marcando o arranque de uma jornada de governação que visa o acompanhamento directo das acções de desenvolvimento socioeconómico e o fortalecimento do diálogo com diferentes segmentos da sociedade.
Segundo adianta a nota da Presidência, o estadista foi recebido por uma multidão entusiástica e aproveitou a ocasião para lançar uma mensagem de união nacional, paz, amor e reconciliação.
No seu discurso, o Chefe do Estado sublinhou que leva para Tete e, a partir de Tete para todo o país, uma mensagem de “diálogo nacional inclusivo, paz, reconciliação nacional, harmonia, amor, perdão”, que considera elementos essenciais para o progresso de Moçambique.
O governante afirmou estar ciente das preocupações da população de Moatize e destacou o valor das mesmas como base para a acção governativa. “São essas preocupações que nos permitem trabalhar, as preocupações do povo é que servem de base para o nosso trabalho”.
Na nota da Presidência, pode-se ler que, entre os principais desafios apresentados pelos cidadãos constam o acesso limitado à água potável, estradas degradadas que dificultam o escoamento de produtos agrícolas, carência de professores e salas de aula, bem como a destruição de bens públicos durante manifestações violentas.
Num momento carregado de simbolismo, Chapo pediu à multidão que se colocasse de pé para, num minuto de silêncio, homenagear o Papa Francisco, falecido esta Segunda-feira. “Era um homem pelo diálogo inter-religioso, pela paz, pelo amor, pela reconciliação, pelo perdão, pela justiça social. Por isso, deixa-nos um grande legado que todos nós no mundo temos que seguir, o seu legado para que haja paz”, cita a nota da Presidência.
Ao agradecer à população de Moatize pela confiança depositada nas eleições do ano passado, o Presidente da República reiterou o seu compromisso de governar para todos os moçambicanos, sem discriminação de qualquer natureza. Enfatizou que a sua liderança é movida pelo espírito de servir e unir o povo moçambicano do Rovuma ao Maputo.
Chapo advertiu sobre os perigos do ódio e da violência, afirmando que tais práticas “não constroem, só destroem”. E acrescentou: “Nós, como Moçambique, para podermos desenvolver, a nossa base tem que ser a paz, a segurança, o amor entre irmãos, a reconciliação, porque só assim, unidos como um povo, do Rovuma ao Maputo, é que podemos desenvolver Moçambique”. A mensagem foi também uma resposta às manifestações violentas pós-eleitorais que resultaram em actos de vandalismo.
Chapo assegurou que todas as preocupações compiladas pela população foram registadas e servirão como referência para acções concretas do Governo. “Estas preocupações que escreveram na vossa mensagem vão servir de base para o nosso trabalho”, reiterou, incentivando a participação activa dos cidadãos no processo de desenvolvimento.
O Presidente da República reforçou o apelo à coesão nacional e ao envolvimento colectivo na construção de um país melhor. Disse que o Governo está comprometido em melhorar as infra-estruturas, investir na educação e assegurar condições dignas para todos. Reconheceu que o caminho é longo, mas possível com a união de esforços e espírito patriótico.
A visita a Tete prossegue com encontros com representantes locais, líderes comunitários, religiosos, empresariais e da juventude, reforçando o compromisso do Chefe de Estado com uma governação próxima das pessoas e centrada nas suas reais necessidades.
O executivo anunciou, hoje, três dias de Luto Nacional pela morte do Papa Francisco. O luto começa a ser observado a partir da meia noite do dia 24 de Abril de 2025.
De acordo com o porta-voz do Conselho de Ministros, a decisão foi tomada “em reconhecimento da sua postura de humildade, do seu compromisso com os marginalizados e da sua incansável busca incansável pela paz”.
Durante o período do Luto Nacional, a bandeira Nacional e o Pavilhão Presidencial deverão ser içados a meia haste, em todo o território nacional e nas missões diplomáticas e consulares da República de Moçambique.
Líder da Igreja Católica desde 2013, Francisco perdeu a vida na madrugada desta segunda-feira, aos 88 anos.
Já há movimentações nos bastidores e vários nomes avançados para a sucessão do Papa Francisco. Destaque vai para o Presidente da Conferência Episcopal da Itália Dom Matteo Zuppi que foi atribuído pelo Estado o título de Cidadão Honorário de Moçambique, por ter sido um dos mediadores do diálogo que levou à Assinatura dos Acordos de Paz de Roma.
Logo após o funeral do Papa Francisco segue-se à escolha do seu sucessor. O conclave para o efeito é organizado pelo Camerlengo, o cardeal americano-irlandês Kevin Farrell.
É uma reunião que ocorre à porta fechada, que terá lugar na Capela Sistina, entre os 252 membros do Colégio de cardeais, dos quais apenas 138 cardeais é que têm poder de voto.
Durante a eleição do novo Papa, que se prevê que aconteça até 21 de Maio, os 252 cardeais ficam trancados dentro do Vaticano, sem comunicação com o exterior, para impedir alguma influência.
De acordo com o Vaticano, o novo Papa deverá ser um bom “pastor de almas”, teólogo e diplomata, além de falar várias línguas, em primeiro lugar o italiano, a língua oficial do Vaticano.
E já há nomes avançados pela imprensa internacional, daquele que poderá ser o Papa número 267.
Pietro Parolin
Italiano de 70 anos – secretário de Estado da Santa Sé, desde 2013, nomeado no primeiro ano do pontificado de Francisco, por muitos considerado o “número 2” do papa. É poliglota e acumula inúmeros serviços prestados à Igreja, quase 40 anos de experiência na diplomacia da Santa Sé.
Parolin teve papel importante na intermediação das negociações que levaram à retomada das relações de Cuba e EUA, em 2015.
Matteo Zuppi
Italiano de 69 anos: arcebispo de Bolonha, actual presidente da Conferência Episcopal Italiana, se tornou uma estrela ascendente nos últimos anos, com diversos gestos de acolhimento a casais homoafetivos e tendo sido escalado por Francisco para tentar mediar o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.
Em 1990, Zuppi foi um dos mediadores que alcançaram o acordo de paz para encerrar mais de 16 anos de uma guerra civil em Moçambique, através da Comunidade de Santo Egídio do qual é co-fundador. E foi condecorado pelo Estado Cidadão Honorário de Moçambique.
Pierbattista Pizzaballa
Italiano de 60 anos, comanda desde 2016 o Patriarcado Latino de Jerusalém – uma das mais importantes arquidioceses católicas, com jurisdição sobre a Palestina, Israel, Jordânia e Chipre.
Desde o início da guerra entre Israel e Hamas, ele recorrentemente fez apelos pela paz e chegou a se oferecer em troca da libertação das crianças sequestradas pelo grupo palestino.
Luis Antonio Tagle
Filipino de 67 anos: tornado cardeal por Bento 16, é o pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização. Arcebispo emérito de Manila e proclamado cardeal em 2012. Tagle já foi apelidado de “o Francisco asiático” por conta de sua relação com os pobres.
Peter Turkson
Ganês de 77 anos – um cardeal católico ganês e prefeito-emérito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral no Vaticano.
Arcebispo emérito de Cape Coast, nomeado por João Paulo II, Turkson é o primeiro cardeal nativo da República Gana. Turkson reúne experiência, reconhecimento interno e um simbolismo poderoso: se eleito, será o primeiro Papa negro da história.
Jean Marc Aveline
Francês de 66 anos: o arcebispo de Marselha e supostamente o “favorito” do papa Francisco para sucedê-lo é conhecido pela dedicação às questões de migração e diálogo inter-religioso. Foi elevado ao cardinalato em 2022.
José Tolentino de Mendonça
Português de 59 anos: Prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, o cardeal é poeta, teólogo e ex-bibliotecário da Santa Sé. Nomeado por Francisco em 2019, é considerado da ala progressista da Igreja, com forte actuação intelectual e afinidade com o pontífice falecido.
O anúncio dos resultados da votação é feito através de uma fumaça de chaminé, na capela Sistina, de duas cores: Branca – que significa a eleição do novo Papa ou Preta, que indica a necessidade de mais uma ronda de votação. O toque dos sinos da Basílica de São Pedro deverão confirmar a eleição.
Na Beira, cidade cortada pelo rio Chiveve e marcada pela vida frenética das suas rotundas, nasceu há 71 anos Alberto da Barca. Geógrafo de formação (pela Universidade Eduardo Mondlane), trilhou os caminhos do ensino e da gestão pública, mas foi entre as páginas que encontrou a sua verdadeira morada. De 1988 a 2003, período em que o Estado detinha o monopólio da produção do livro escolar, Barca esteve totalmente ligado à Editora Escolar e à Distribuidora Nacional de Material Escolar (DINAME), com uma missão singular: levar o saber a cada canto do país. Ainda, por um ano, foi director interino do Instituto Nacional de Desenvolvimento da Educação (INDE).
Entre 1989 e 2003, Alberto da Barca escreveu cerca de 30 livros, ilustrando a maioria com a mesma paixão com que escrevia, o que o coloca no panteão dos autores mais prolíficos de Moçambique, ombreando com a Angelina Neves e o mágico Mia Couto. A partir da década de 90, Barca tornou-se uma figura central no vibrante “renascimento” (no boom) da literatura infanto-juvenil moçambicana. Considerado, com justiça, um dos seus pioneiros, ao lado de luminares como Orlando Mendes, Angelina Neves e Machado da Graça, abriu picadas narrativas que encantaram gerações de crianças.
Os seus títulos ressoam na memória afectiva de muitos: o olhar curioso de “Um Cão em Maputo”, a simplicidade lúdica de “Bola Azul”, as lições de crescimento em “Crescer Mais”, as aventuras de “O Capitão Zhua”, a eloquência inusitada de “O discurso do Sr. Lápis”, o despertar para o mundo em “As Nossas Profissões” e a descoberta da riqueza natural em “Flora e Fauna de Moçambique”. Sob o pseudónimo Mambo Djóngwé, assinou a divertida sátira “Um Mosquito no Tribunal”, enquanto João Kuimba nos convidava a ler “Chico Ndaenda e Outros Contos”. A maioria dos livros ganhou vida nas colecções emblemáticas “Ler Mais” e “Conhecer Moçambique”.
Com o seu traço seguro e sensível, Alberto da Barca também ilustrou inúmeros manuais escolares, fixando na nossa memória colectiva imagens icónicas como a do poema “Fábula”, do mestre José Craveirinha, um casamento perfeito entre a força da palavra e a expressividade do desenho.
Surpreendentemente, Alberto da Barca silenciou a sua pena há mais de duas décadas, tornando-se um nome talvez distante para o cenário literário moçambicano contemporâneo. No entanto, a sua contribuição permanece indelével, um legado de livros que iniciaram crianças no fascinante mundo da escrita, que lhes ofereceram a liberdade de pintar e desenhar os seus próprios universos, que lhes contaram histórias que embalaram sonhos e despertaram a imaginação.
Esta conversa — há muito adiada pelos tempos incertos que a pandemia da Covid-19 teimou em nos impor —, desabrocha a propósito do Dia Mundial do Livro; e sendo o Alberto da Barca um fervoroso defensor do livro, um guardião da importância da leitura como janela para o mundo e alimento para a alma, eis que ela finalmente aconteceu.
Pedro Pereira Lopes [PPL]: O seu livro inaugural, “Um Cão em Maputo”, se distancia da literatura infanto-juvenil que subsequentemente marcou a sua produção. Quando e quais foram os factores determinantes nesta transição?
Alberto da Barca [AB]: Não considero que tenha havido alguma transição porque não deixei de escrever para a faixa etária que imaginei para “Um cão em Maputo”. Houve um processo de coabitação saudável, mas com prioridades claras.
PPL: No decurso das décadas de 1980 e 1990, num contexto de acesso ainda limitado ao universo do livro em Moçambique, quais foram as obras literárias infanto-juvenis que particularmente influenciaram a sua formação como leitor e, possivelmente, como futuro autor?
AB: Bom, começando pelas obras infanto-juvenis que influenciaram a minha formação como leitor, vale dizer que remontam do período colonial quando por influência de professores e amigos frequentávamos as bibliotecas escolares e a municipal e lia uma grande diversidade de títulos. Também trocávamos livros diversos entre amigos, colegas e vizinhos.
No contexto das décadas de 80 e 90, como bem disse, o acesso ao livro em geral era tão limitado que para além dos livros amarelados do tempo colonial, por vezes apareciam, nas livrarias do Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD), alguns poucos títulos de infanto- juvenis oriundos da União Soviética (sobretudo). Não vou aqui particularizar esta ou aquela obra (cujos títulos e autores já não me lembro), pois não faço hoje a mínima ideia. Na verdade, eu não diria que me influenciaram, mas sim que me inspiraram para escrever textos ajustados ao nosso contexto, textos moçambicanos.
PPL: A tessitura narrativa de “Um Cão em Maputo” (1990) evoca ressonâncias estilísticas com obras como “Os Molwenes”, de Isaac Zita, ou “O Regresso do Morto”, de Suleiman Cassamo. Pode comentar sobre possíveis diálogos estéticos conscientes ou inconscientes entre estas obras, ou se tais similitudes seriam meramente um reflexo do contexto social e cultural da época?
AB: “Um Cão em Maputo” foi sim publicado em 1990, mas foi escrito em 1986, se a memória não me trai. Quanto a possíveis diálogos estéticos, não é de espantar, num contexto em que nessa época, o mercado livreiro era extremamente escasso, e por via disso, as possibilidades de se ler e de se deixar influenciar pelo pouco que havia sido publicado era significativa. No caso do “Cão em Maputo”, apesar do livro ter sido publicado em 1990, o cenário fictício do enredo é o da segunda metade da década de 70 e início da década de 80.
PPL: Afinal, depois, não mais escreveu para os adultos. O que foi que aconteceu?
AB: Em termos literários escrevi o “Chico Ndaenda”, o qual é um livro de contos que vai ser reeditado este ano. O que aconteceu foi o seguinte: fora do contexto literário, escrevi dois livros de autoajuda na área de criação de pequenos negócios e vários títulos de livros de bolso na área da saúde, nutrição, dentre outras. Nos últimos 5 anos tenho escrito letras para músicas infanto-juvenis e para adultos. Algumas músicas para adultos já foram lançadas e as infanto-juvenis estão em processo de preparação.
PPL: A sua produção literária para crianças e jovens manifesta-se tanto na prosa quanto na poesia. Esta fluidez entre géneros representou uma progressão natural e intuitiva no seu processo criativo, ou integrou um projecto pessoal deliberado de explorar as diversas potencialidades da linguagem literária?
AB: Creio que foi uma progressão natural e intuitiva, mas enquadrada na percepção que eu tinha na época como profissional do livro escolar. As primeiras publicações ocorrem quando estávamos no sétimo ano (creio) da publicação do livro escolar do Sistema Nacional de Educação, caracterizado por ser de um único título de cada disciplina. Estava na hora de oferecer ao mercado, às escolas em particular, livros lúdicos de leitura complementar ao livro escolar. Portanto, para ser sincero, mais do que explorar as diversas potencialidades da linguagem literária no sentido lato da expressão, foi para atender a uma necessidade objectiva das bibliotecas escolares, a maioria delas até se resumiam em caixas simples que ficavam depositadas nas salas dos professores ou nos gabinetes também precários dos directores das escolas primárias sobretudo as do meio rural.
PPL: Os seus livros de poesia, como “As Profissões” e “Flora e Fauna de Moçambique”, ostentam uma clara vocação didáctica, em contraste com a natureza mais lúdica de “Crescer Mais”. Esta distinção reflectiu uma avaliação das necessidades pedagógicas e emocionais do público infantil moçambicano da época?
AB: Sim reflectiu, porque a ideia subjacente foi, em primeiro lugar, contribuir para a formação literária dos estudantes recorrendo a estratégias diferentes, mas, no fundo, complementares. Considerando que os livros de texto eram e são escritos sobretudo em prosa, achei que o recurso à poesia, para passar informação que normalmente é passada em prosa/texto corrido, poderia estimular um interesse extra pela leitura de textos concisos e quiçá mais divertidos.
PPL: E sobre o poema “Boneca de Pano”, cuja familiaridade poderia induzir à sua classificação como pertencente ao cancioneiro popular, revela-se, contudo, uma criação da sua autoria. Pode falar um pouco sobre este texto?
AB: O poema “Boneca de Pano” é contemporâneo do livro “Um Cão em Maputo”. Vivíamos na década de 80 um período de escassez de quase tudo, desde alimentos, roupas, livros e por aí vai. Tanto os meninos como as meninas inventavam os seus brinquedos, como ainda hoje o fazem; no caso das meninas, dentre os poucos materiais disponíveis, os que estavam mais à mão eram os panos velhos ou novos que se encontravam perdidos em casa ou no chão de uma costureira ou de um alfaiate, bons para se fabricar uma boneca de pano. Mas a ideia subjacente não foi somente a de se estimular a confecção de bonecas de pano. Foi, sobretudo, usar a boneca para passar uma mensagem sobre a importância do asseio e da diversão por via da dança. Procurei escrever um texto simples para ser facilmente memorizado, com suporte de uma música. Foi assim que depois musiquei essa letra. Notei recentemente que alguns versos foram alterados por iniciativa dos professores ou das próprias crianças, deturpando o sentido. Para a letra continuar a ser fiel ao original, decidi gravar a música para maior e melhor divulgação da mesma.
PPL: Para além da sua actividade como escritor, também ilustrou muitas das suas obras. A sua experiência sugere que existe uma facilidade inerente em transpor visualmente as narrativas concebidas pela própria pena? Quais as vantagens e desafios deste processo autoral integral?
AB: Na verdade, a ilustração de textos começou com os livros escolares. Apesar de não ter sido ilustrador profissional, na falta deles, para além de escrever textos didácticos, tive que os ilustrar. Foi nesse contexto que a ilustração das minhas obras acabou entrando nessa mesma linha de produção. Portanto, sem dúvida que como autor do texto, a grande vantagem é que fica bem mais fácil ilustrar de forma fiel ao sentido prático e objectivo dos mesmos.
PPL: A Editora Escolar alcançava tiragens expressivas, chegando a atingir dez mil exemplares por título. Contrariamente, a realidade contemporânea frequentemente regista tiragens modestas. Na sua perspectiva, a ausência de uma editora com a abrangência e o alcance da “Escolar” representa uma lacuna significativa no panorama editorial moçambicano actual?
AB: Sem dúvida! Na época as nossas tiragens eram significativas como resultado da convergência de dois factores fundamentais: o primeiro tinha a ver com o facto de contarmos com uma parceria muito bem-sucedida com a ASDI (organização sueca), que desde o primeiro momento esteve ao lado da componente editorial do livro escolar e do livro
complementar para-didáctico, que subsidiava a sua produção por via do fornecimento de papel, insumos e equipamento gráfico. Por outro lado, algumas ONGs se destacaram na compra e distribuição do livro infanto-juvenil pelas escolas primárias nalgumas províncias.
Hoje, não faço ideia se essa experiência muito positiva que tivemos ainda perdura ou não, pois estou desligado do livro escolar há mais de 20 anos.
PPL: Há anos que o AB não publica. A literatura deixou de ser interessante?
AB: É verdade, passei muitos anos sem escrever, ou melhor, sem publicar. Mas saiu, na semana passada, o meu livro mais recente, “Vamos Mudar de Conversa”, um livro de contos e crónicas que já se encontra nas principais livrarias de Maputo e certamente que também estará disponível em breve nas províncias. Outro livro de contos já está escrito e poderá ser publicado ainda este ano. Também existem novos textos infanto-juvenis em prosa e poesia para serem publicados logo que surjam editoras interessadas.
PPL: Quanto aos pseudónimos… Esses alter egos representavam uma faceta distinta da sua identidade autoral, explorando territórios temáticos ou estilísticos diversos da sua voz principal?
AB: Sim, usei pseudónimos nos textos infanto-juvenis por duas, a saber: a primeira porque procurei associar os nomes às temáticas dos textos, a segunda porque pretendia incentivar outros autores a escrever para esse público, livros que a editora iria publicar. Infelizmente não tivemos muito sucesso.
PPL: E o que pensa da actual Política do Livro do país? Quais os seus pontos fortes e as suas áreas de potencial melhoria?
AB: A única política do livro que sei que existe é a do livro escolar. Em relação ao livro literário não creio que exista. Se existe, não faço ideia da sua pertinência enquanto não tiver acesso à mesma.
PPL: Finalmente, considerando a presença simbólica do livro na bandeira e no brasão de armas de Moçambique, e na sua dupla condição de professor e escritor, acredita que o livro tem recebido a valorização condizente com a sua representação simbólica no contexto social e político actual do país?
AB: O livro, tanto o escolar como o de literatura em geral, constituem um grande desafio para o país, considerando os vários factores que interferem para cada um dos casos. O livro
escolar não cobre as necessidades actuais do país na sua plenitude em termos de quantidade e distribuição geográfica atempada. Em termos de qualidade, os erros detectados acabaram por pôr em causa a credibilidade dos livros escolares na totalidade. Vai ser necessário um profundo trabalho para se recuperar a confiança que foi, em grande medida, beliscada pelo que aconteceu.
No caso dos livros literários, vivemos momentos contraditórios. Se por um lado há um boom de publicações, por outro lado, não se assiste a um processo proporcional de compra e leitura.
Há necessidade urgente de se reverter este cenário, que deverá contar com o envolvimento conjunto directo das entidades que, de uma forma directa ou indirecta, trabalham (ou deviam) com o livro quer como instrumento de aprendizagem, quer como de cultura geral. Um papel crucial têm os professores, que deverão exigir e controlar as leituras recomendadas, e os pais ou encarregados de educação, que deverão acompanhar de perto os livros recomendados pela escola, por um lado, e outros recomendados no contexto familiar. Todos os lares deviam ter uma minibiblioteca. Faltam iniciativas de estímulo à leitura (por via de concursos vários começando por redacções, escrita e declamação de poemas com prémios a ser atribuídos aos melhores). Conheço duas organizações, uma na Beira e outra em Quelimane, com iniciativas muito positivas de promoção e divulgação do livro e da leitura. O ideal seria que tais iniciativas fossem replicadas à escala nacional. Não sei se haverá outras organizações similares, que eu não tenha conhecimento. Neste contexto, fica a pergunta: por que os municípios não têm um sector vocacionado para a temática do livro como um todo? Não seria nada de inédito, pois se há mais de 50 anos havia tal boa prática, por que será que não somos capazes de a manter e perpetuar? Quanto ao livro na nossa bandeira, creio que a intenção prioritária foi na perspectiva de se priorizar a educação e combater o analfabetismo. Para que esse desiderato seja alcançado, precisamos de redobrar esforços para dignificar esse símbolo, responsabilizando a todos os moçambicanos, mas deixando bem claro de quem é a responsabilidade primeira.
O funeral do Papa Francisco terá lugar na manhã de sábado, em Roma, na Praça de São Pedro, anunciou o Vaticano.
O líder da Igreja Católica será sepultado na Santa Maria Maior, como pediu num testamento simples e simbólico. A cerimónia contará com a presença de vários líderes mundiais.
O corpo do Papa foi colocado num caixão de madeira com interior de zinco.
Segundo o Vaticano, na manhã desta quarta-feira, a urna com os restos mortais do Bispo de Roma será levada em procissão até a Basílica de São Pedro, onde ficará exposta por três dias.
Durante esse período, fiéis do mundo todo poderão se despedir do Papa. A exposição será feita de forma mais discreta, uma vez que o Papa também aboliu a exigência de caixões elevados para exibição pública.
No sábado, após o funeral, o caixão vai ser imediatamente transferido para a Basílica de Santa Maria Maior, tal como Francisco deixou escrito.
O túmulo, escreveu o Papa argentino, deve ser na terra; simples, sem decoração particular e com a única inscrição: “Franciscus”.
O Hospital Geral de Quelimane está a beneficiar de reabilitação, depois de ter sido assolado pelo ciclone Freddy, em 2023. O investimento é de pouco mais de 3,5 milhões de dólares para 2 dos três lotes previstos. No final, espera-se um hospital moderno e com equipamentos de ponta para a assistência dos cidadãos.
A reabilitação em curso vai resolver os danos causados pela depressão tropical Freddy, em 2023, que destruiu grande parte das infraestruturas. A intervenção vai decorrer por lotes. O Lote 1 compreende o serviço de urgências, incluindo o banco de sangue, bloco administrativos e outros serviços.
Já o lote 2 é correspondente ao alpendre da casa mortuária, enfermaria de cirurgia e o novo laboratório clínico. O lote 3, por sinal o último, que vai incluir enfermarias de medicina e pediatria, maternidade, cozinha, aprovisionar, lavandaria e consultas externas, está dependente de injeção financeira.
O secretário de estado da Zambézia visitou, esta terça, os trabalhos em curso.
Todos os três lotes devem terminar até Dezembro deste ano, mas, devido a desembolsos condicionados por parte do parceiro que está a financiar as obras, a previsão de alargamento dos prazos da obra é uma certeza.
Devido às obras em curso, alguns serviços estão a ser suportados pelo Hospital Central de Quelimane.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, discutiu o conflito na Ucrânia, através de uma chamada telefónica, com o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, segundo informou, esta segunda-feira, o Kremlin.
Putin delineou a posição da Rússia sobre a necessidade de abordar as “causas raiz” do conflito e garantir os interesses de segurança da Rússia, disse o Kremlin, citado por Reuters.
A CTA decidiu afastar Álvaro Massinga da corrida eleitoral para a presidência da agremiação, através de um processo disciplinar onde acusa o presidente da Câmara de Comércio de Moçambique de tentar manipular a sua eleição através de suborno e compra de consciência dos associados, entre outras várias infracções. A medida aplica-se a Câmara de Comércio de Moçambique.
O Conselho Directivo da Confederação das Associações Económicas de Moçambique, CTA, acusou Massinga de tentar influenciar indevidamente as eleições marcadas para 8 de maio de 2025. Segundo a agremiação presidida por Agostinho Vuma, Massinga teria pago quotas em atraso de cerca de 34 associações membros, utilizando fundos de origem não esclarecida, com o intuito de garantir apoio eleitoral.
Esta segunda-feira, a CTA tornou pública uma deliberação que retira todos os direitos sociais à Câmara do Comércio de Moçambique por um ano, devida a referida conduta do seu representante:
Aplicar à Câmara de Comércio de Moçambique (CCM), representada pelo Senhor Álvaro Massinga, a sanção de suspensão do exercício dos direitos sociais, nos termos do artigo 14. n.º 1, alínea c) dos Estatutos da CTA, pelo período de 12 (doze) meses, com efeitos imediatos. A sanção implica que durante esse período, a CCM perde o direito de exercício dos seus direitos sociais constantes do artigo 9.º dos Estatutos.
A CTA decidiu igualmente afastar Álvaro Massinga da corrida eleitoral para o dia 8 de maio, e de todos outros processos eleitorais que ocorrem no conjunto dos empresários por um ano.
Aplicar ao Senhor Álvaro Massinga, na qualidade de dirigente máximo da CCM e autor moral e material das Infracções apuradas, a sanção de inibição de participação em qualquer processo eleitoral da CTA, por via da CCM ou de qualquer outro membro da Confederação, durante o mesmo período de 12 (doze) meses.
Esta medida visa preservar a integridade institucional e a equidade do processo eleitoral, impedindo que, tendo actuado de forma dolosa para manipular o caderno eleitoral, o arguido venha a beneficiar de vias indirectas para contornar os efeitos da sanção disciplinar que lhe é aplicada, em razão de sua conduta pessoal e representativa.
O Documento carimbado e assinado por Agostinho Vuma aponta ainda que a agremiação irá mover um processo no Gabinete Central de Combate à Corrupção, contra Álvaro Massingue.
Para a Comunidade Mahometana, é com profundo pesar que recebeu a notícia do falecimento do líder da Igreja Católica e incansável defensor da paz, da justiça e da dignidade humana.
Num comunicado, a Comunidade adianta que durante o seu pontificado, o Papa Francisco marcou o mundo com a sua humildade, coragem moral e um compromisso firme com os mais vulneráveis. O seu legado transcende fronteiras religiosas, sendo reconhecido como uma figura de conciliação, empatia e diálogo entre os povos e confissões.
“A Comunidade Mahometana presta especial homenagem à postura solidária de Sua Santidade em relação ao povo palestino. A sua voz, sempre clara e corajosa, denunciou a injustiça da ocupação e apelou incansavelmente à paz com justiça, ao reconhecimento da dignidade do povo palestino e ao respeito pelos seus direitos legítimos. Num mundo muitas vezes silenciado pelo medo ou pela indiferença, o Papa Francisco foi um farol de consciência e humanidade”, e conclui: “Neste momento de luto, unimo-nos em solidariedade aos nossos irmãos e irmãs católicos, e rendemos tributo a um homem que viveu a fé com verdade, promovendo o amor, o diálogo e a esperança”.