As autoridades do sector de recursos minerais e energia em Nampula garantem que o abastecimento de combustíveis deverá normalizar-se nos próximos dias, após constrangimentos registados no fornecimento de gasolina e diesel na província.
Segundo a Inspecção-Geral dos Recursos Minerais e Energia (IGREME), há combustível suficiente no Terminal Oceânico de Nacala e o processo de distribuição para os postos de abastecimento já está em curso.
O inspector da IGREME, Adelto Cumbana, explicou que os atrasos estiveram relacionados com questões administrativas e garantias financeiras para a descarga do produto, situação que, segundo disse, já começou a ser ultrapassada pelo Governo.
“Temos boas expectativas de que esta situação poderá ser ultrapassada nos próximos dias. Tivemos alguns impasses relacionados com algumas garantias para que o combustível pudesse ser descarregado, mas é uma situação que o Governo já acautelou. Já foi feito o pagamento de uma tranche de combustível”, afirmou.
De acordo com o responsável, o Terminal Oceânico de Nacala dispõe actualmente de reservas suficientes para abastecer a província. Adelto Cumbana avançou ainda que apenas a distribuidora Camelouse abasteceu 51 camiões num único dia.
“Há muito combustível nos terminais. A título de exemplo, a maior distribuidora que temos em Nacala, que é a Camelouse, só hoje (ontem) abasteceu 51 camiões”, disse.
As autoridades revelaram igualmente que um navio com mais de 10 milhões de litros de gasolina se encontra atracado em Nacala, aguardando autorização para descarga.
“Existe um navio atracado com cerca de 10 milhões e 601 mil litros de gasolina à espera de autorização para descarregar, uma questão que acreditamos que será ultrapassada antes mesmo do estoque disponível se esgotar”, acrescentou.
Enquanto persistem filas nos postos de abastecimento da cidade de Nampula, as autoridades suspeitam da existência de um esquema de revenda ilegal de combustível nos bairros periféricos, envolvendo motociclistas.
Segundo Adelto Cumbana, alguns motociclistas estariam a abastecer repetidamente para depois transferirem o combustível para recipientes plásticos destinados ao comércio informal.
“Percebemos que há tantas motorizadas nas bichas, não porque as pessoas querem abastecer para circulação. Há um sistema que estão a usar: abastecem, depois baldeiam o combustível em recipientes plásticos e voltam novamente às filas”, denunciou.
Face à situação, o Governo provincial promete reforçar as medidas de fiscalização e controlo nos postos de abastecimento para combater práticas especulativas e garantir o fornecimento regular à população.
Moçambique tem enfrentado, nos últimos anos, desafios pontuais no abastecimento de combustíveis devido à volatilidade do mercado internacional, dificuldades logísticas e pressão cambial.
O Terminal Oceânico de Nacala é considerado uma das principais infra-estruturas estratégicas para o abastecimento da região Norte do País, incluindo Nampula, Cabo Delgado e Niassa.
A petrolífera norte-americana ExxonMobil garante estar nos ajustes finais para a tomada da Decisão Final de Investimento (FID) do projecto Rovuma LNG, em Cabo Delgado, ainda neste ano. A informação foi avançada nesta segunda-feira, na Cidade de Maputo, pelo director-geral da multinacional em Moçambique, Arne Gibbs.
Depois de sucessivos adiamentos, começam a surgir sinais concretos sobre o avanço do projecto de gás natural liquefeito da Área 4 da Bacia do Rovuma, considerado um dos maiores empreendimentos energéticos de África. Com capacidade prevista para produzir 18 milhões de toneladas de gás natural liquefeito por ano, o Rovuma LNG deverá posicionar Moçambique entre os principais exportadores mundiais de GNL.
Segundo Arne Gibbs, decorrem actualmente negociações finais com empreiteiros e parceiros financeiros, numa fase considerada decisiva para o arranque do investimento.
“Neste momento, estamos a fazer os negócios finais com os contratadores, então ainda não temos o número final, mas posso dizer com certeza que, no fim do dia, as riquezas deste projecto vão para o País. O Governo vai receber mais de 150 mil milhões de dólares durante a vida do projecto”, afirmou o responsável da ExxonMobil Moçambique.
O dirigente explicou ainda que, após a aprovação definitiva do investimento, serão necessários cerca de cinco anos para a construção das infra-estruturas, o que aponta para o início da produção em 2031.
O projecto Rovuma LNG é desenvolvido pela ExxonMobil em parceria com a Eni e outras concessionárias da Área 4, em coordenação com a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), representante do Estado moçambicano no empreendimento.
Paralelamente ao desenvolvimento industrial, a ExxonMobil e a ENH anunciaram um investimento de 40 milhões de dólares para a criação de um centro de formação técnico-profissional destinado à capacitação de moçambicanos para o sector de petróleo e gás.
O avanço do Rovuma LNG acontece numa altura em que Moçambique procura consolidar a confiança dos investidores internacionais, após os impactos da instabilidade armada em Cabo Delgado, que condicionaram alguns megaprojectos energéticos nos últimos anos.
Moçambique é a Nação da África Subsaariana que registou o maior número de deslocações devido a catástrofes, segundo o “Relatório Global sobre Deslocações Internas 2026” publicado nesta terça-feira e citado pelo Notícias ao Minuto.
De acordo com o relatório publicado pelo Centro de Monitorização das Deslocações Internas (IDMC), uma Organização Não-Governamental (ONG) que faz parte do Conselho Norueguês para os Refugiados, os desastres desencadearam quase 2,9 milhões de deslocações na África Subsaariana em 2025 e Moçambique registou 669 mil deslocações.
“O ciclone Dikeledi desencadeou 167.000 deslocações na província de Nampula, no norte de Moçambique, no início de Janeiro, e 20.000 em Mayotte [arquipélago francês entre Moçambique e Madagascar] apenas algumas semanas depois de o ciclone Chido ter provocado mais de 536.000 e 142.000 deslocações, respectivamente”, contextualiza o documento.
Por sua vez, o ciclone Jude seguiu-se, em Março, desencadeando 493 mil movimentos em Moçambique, afectando muitas das mesmas populações, refere.
De acordo com o documento, a costa leste da África Austral está exposta a ciclones todos os anos entre Outubro e Março, levando frequentemente a deslocações repetidas.
“A temporada 2024-2025 ilustrou este padrão. Ciclones de alta intensidade em sucessão rápida desencadearam 826.000 movimentos em 2025, o segundo valor mais elevado numa década”, frisa.
“Os choques repetidos sublinharam a exposição do País [Moçambique] a vários perigos enquanto recuperava dos impactos persistentes da seca em 2024”, de acordo com a investigação.
Por outro lado, segundo a mesma fonte, “após anos de deslocações significativas por seca no Corno de África e na África Austral, registaram-se menos movimentos deste tipo em 2025”, em parte devido à elaboração de menos relatórios.
“Sismos e incêndios florestais, por outro lado, desencadearam alguns dos números mais elevados de deslocações registados para tais perigos na região”, acrescenta.
O aumento das deslocações por incêndios florestais, que faz parte de uma tendência global, realça a diversificação do risco de desastres na região, bem como a melhoria da monitorização, considera.
Por seu turno, Moçambique registou também 339 mil deslocações em 2025 devido ao terrorismo na província de Cabo Delgado, no Norte, acrescenta.
“Após uma redução significativa nas deslocações por conflito na província de Cabo Delgado entre Junho de 2024 e Junho de 2025, os combates (…) eclodiram novamente na segunda metade do ano”, contextualiza.
Por sua vez, um terço das deslocações registadas no país em 2025 devido ao conflito, o valor mais elevado desde 2020, ocorreu apenas no mês de Novembro, salienta.
De forma geral, a região da África Subsaariana registou 17,3 milhões de deslocações ao longo de 2025, um número inferior ao de 2024 devido, em grande parte, “ao resultado de uma redução significativa nas deslocações por desastres”, conclui.
O Grupo Yuxiao de Jinan, empresa privada chinesa, atua há 20 anos, está a levar a cabo vários projectos na área de educação na província da Zambézia, no centro do país. O projectos beneficia mais de 200 jovens moçambicanos.
Moçambique, parceiro importante da China, tem cerca de 33 milhões de habitantes e idade média de apenas 17 anos, sendo um dos países mais jovens do continente. Contudo, a taxa nacional de conclusão do ensino secundário ronda os 40%, gerando escassez crónica de mão‑de‑obra qualificada.
No contexto do Fórum de Cooperação China-África de 2024 e da visita oficial do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, à China em 2025, empresas privadas chinesas adotam a “educação como elo” para implementar projetos de capacitação local.
Entre 2015 e 2026, o Grupo Yuxiao e suas três subsidiárias em Moçambique — Africa Great Wall Mining, Cronus Minerals e Mozambique Heavysand, passaram a oferecer bolsas de estudo e formação técnico‑profissional a jovens moçambicanos.
Na sua actuação, a empresa lidera três níveis de investimento: Estratégico (desde 2015), que faz o financiamento integral de 10 jovens para estudarem 5 anos na Universidade de Geociências da China (Pequim), tendo a primeira turma ter graduado em 2020 e até Julho de 2025, nove regressaram a Moçambique, integrando as equipas locais do grupo.
No Médio‑técnico (Junho de 2025), a Mozambique Heavysand financiou 30 jovens do distrito de Chinde para um curso anual de formação profissional no centro IFPELAC de Morrumbala.
Já no que diz respeito à Ampliação (Março de 2026), as três subsidiárias assinaram memorando com o IFPELAC para financiar integralmente 160 jovens de todos os 22 distritos da Zambézia em cursos como eletricidade, mecânica, refrigeração, contabilidade e gastronomia.
Na cerimónia, o Secretário de Estado da província, Avelino Pinto Muchine, declarou: “Este é um voto de confiança no potencial dos jovens da Zambézia.”
O diretor do IFPELAC em Quelimane, Jo Augusto Pililao, classificou a parceria como “um passo decisivo para o desenvolvimento da formação técnico‑profissional”.
O evento ganhou destaque como “exemplo de cooperação público‑privada”.
De 2015–2026, cerca de 200 jovens beneficiados pelo projecto. A escala da formação técnico‑profissional cresceu de 30 para 190 acumulados em apenas nove meses (expansão de cerca de seis vezes), e a cobertura passou do distrito de Chinde para os 22 distritos da Zambézia.
O presidente do Grupo Yuxiao, Wu Tao — que desde 2006 montou a primeira tenda na costa de Chinde — afirma: “Aonde o navio chega, a responsabilidade chega.” O grupo traduziu assim o compromisso de responsabilidade social em vias concretas de ascensão profissional para uma geração de jovens da Zambézia, tornando a cooperação educativa o elo mais duradouro da “Conexão entre os Povos” e a expressão concreta, em solo moçambicano, da “Comunidade de Destino Comum China‑África de todas as horas e da nova era”.
O desvio de combustível numa bomba de abastecimento na Matola terminou com o encerramento do estabelecimento e a revogação da licença do operador. O caso foi despoletado por um vídeo amador que circulou nas redes sociais, numa altura em que o país regista uma crise de combustível.
Enquanto milhares de automobilistas e transportadores passam horas à procura de combustível no Grande Maputo, um vídeo amador mostra as imagens de um camião cisterna a ser abastecido, directamente, numa bomba no bairro Tchumene.
O cenário gerou indignação pública, nas redes sociais, sobretudo porque, em meio à escassez, o combustível que deveria servir o consumidor final estava a ser canalizado para outro circuito de distribuição.
A prática foi considerada grave pelas autoridades do sector energético, que encerraram a bomba e revogaram a licença do operador, esta segunda-feira, após uma investigação conjunta da Direcção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis (DNHC), Inspecção-Geral do Ministério dos Recursos Minerais e Energia e Autoridade Reguladora de Energia.
“Constatamos que, de facto, esse posto abasteceu o camião cisterna, o que constitui uma violação grave à legislação em vigor. Esta é a acção máxima, a revogação da licença. Significa que esse operador já não poderá comercializar seus produtos aqui nesse posto”, explicou Emília Muchate, chefe do departamento de fiscalização da DNHC
As autoridades desencorajam práticas do género e avisam que a lei vai pesar sobre os prevaricadores.
“Desde já, apelar a todos os operadores para não enveredar por essa prática que o posto de abastecimento é um local onde abastece apenas para o consumidor final”, acrescentou Muchate. Nesta altura, o operador que viu igualmente o posto de venda de gás de cozinha encerrado, terá de seguir os procedimentos legais subsequentes.
Subida do preço do combustível leva operadores a suspender actividades, deixa passageiros retidos nas paragens e obriga Governo Provincial a negociar trégua para evitar agravamento da crise
O silêncio incomum nas principais praças de transporte das cidades de Inhambane e Maxixe denunciava, logo nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira, que a rotina da mobilidade urbana e interdistrital tinha sido profundamente alterada. Viaturas estacionadas, terminais lotados de passageiros e dezenas de carros sem circular transformaram-se rapidamente no retrato de uma crise que começou no preço do combustível, mas que rapidamente se espalhou para o transporte público, para as famílias e para a economia local.
A paralisação dos transportadores semi-colectivos de passageiros mergulhou as duas cidades num cenário de caos e incerteza, numa altura em que operadores exigem o agravamento imediato do preço do bilhete de passagem para fazer face à recente subida do gasóleo em Moçambique.
Na cidade da Maxixe, principal ponto de ligação do transporte interdistrital na província de Inhambane, a greve afectou dezenas de rotas e interrompeu parcialmente a circulação de passageiros entre vários distritos. Em Inhambane, os efeitos também foram imediatos, sobretudo nas ligações urbanas e suburbanas que diariamente movimentam milhares de pessoas.
A decisão dos transportadores surge poucos dias depois da actualização dos preços dos combustíveis, que levou o litro do gasóleo para níveis historicamente elevados. O agravamento teve impacto directo sobre os custos operacionais dos operadores, que passaram a enfrentar maiores despesas com abastecimento, manutenção, lubrificantes, peças e remuneração de motoristas e cobradores.
Para muitos transportadores, continuar a operar com as tarifas actualmente praticadas representa trabalhar sem qualquer margem financeira sustentável.
Ao longo da manhã, grupos de operadores concentravam-se em praças e terminais, defendendo a necessidade de revisão urgente das tarifas. Alguns propunham aumentos que chegavam aos 150 meticais em determinadas rotas, alegando que o preço do combustível alterou completamente a estrutura de custos do sector.
Entre os transportadores, o sentimento dominante era de sufoco financeiro. Muitos afirmavam já enfrentar dificuldades antes mesmo da recente subida do gasóleo e dizem que o actual cenário apenas agravou uma situação que consideram insustentável.
A paralisação rapidamente produziu efeitos nas paragens de transporte, onde centenas de passageiros ficaram retidos sem alternativas para chegar ao trabalho, regressar às suas casas ou deslocar-se para hospitais, escolas e mercados.
Em vários pontos das cidades de Inhambane e Maxixe, era possível observar pessoas carregando sacos, mochilas e pastas, caminhando longas distâncias sob o sol, numa tentativa desesperada de encontrar transporte alternativo.
O ambiente era marcado por incerteza, cansaço e frustração. Muitos passageiros relatavam não ter dinheiro suficiente para suportar um eventual agravamento das tarifas, enquanto outros diziam simplesmente não ter qualquer alternativa de mobilidade.
Perante a ausência dos semi-colectivos, algumas viaturas particulares de caixa aberta começaram a transportar passageiros de forma improvisada. Durante alguns momentos, esses carros transformaram-se na única esperança para quem precisava urgentemente deslocar-se entre bairros ou distritos.
Mas a tentativa de manter alguma circulação acabou interrompida pelos próprios transportadores grevistas, que impediram a continuidade desse tipo de transporte alternativo e obrigaram passageiros a desembarcar das viaturas.
O episódio aumentou ainda mais a tensão nas paragens e elevou a pressão sobre as autoridades provinciais, numa altura em que a mobilidade começava a entrar em colapso em vários pontos das duas cidades.
A gravidade da situação obrigou o Governo Provincial de Inhambane a agir rapidamente. Ainda durante a manhã, o governador Francisco Pagula convocou um encontro de emergência com representantes dos transportadores para discutir formas de evitar o agravamento da crise.
A reunião decorreu num ambiente de forte pressão, marcado pela preocupação crescente com o impacto social e económico da paralisação.
Do lado dos transportadores, o argumento central era a impossibilidade de continuar a operar perante os actuais custos do combustível. Muitos defendiam que os valores actualmente cobrados nas passagens já não conseguem cobrir despesas mínimas de funcionamento.
Do lado do Governo Provincial, a preocupação estava centrada na necessidade de evitar uma ruptura total do sistema de transporte, sobretudo num contexto em que milhares de cidadãos dependem diariamente dos semi-colectivos para trabalhar, estudar e ter acesso a serviços essenciais.
Durante o encontro, Francisco Pagula apelou à suspensão imediata da paralisação e pediu aos operadores uma trégua de cinco dias, período que considera necessário para permitir negociações formais e avaliações técnicas sobre uma possível revisão das tarifas.
O governador reconheceu a pressão vivida pelos transportadores, mas defendeu que qualquer alteração dos preços deve respeitar os mecanismos legalmente estabelecidos e resultar de diálogo institucional com os órgãos competentes.
A proposta apresentada pelo Governo Provincial consistia em criar um espaço de negociação envolvendo transportadores, autoridades municipais e estruturas ligadas ao sector dos transportes, com o objectivo de avaliar os impactos reais do aumento do combustível e encontrar um modelo considerado equilibrado entre os interesses dos operadores e a capacidade financeira dos passageiros.
Apesar do entendimento alcançado no encontro, entre os próprios transportadores persistiam sinais de divisão.
Enquanto alguns aceitavam suspender temporariamente a paralisação em respeito ao apelo do governador, outros consideravam o prazo insuficiente e defendiam medidas mais duras caso não sejam apresentadas soluções concretas nos próximos dias.
Ainda assim, prevaleceu o entendimento de retomar gradualmente as actividades enquanto decorrem negociações.
Ao longo da tarde, algumas viaturas voltaram a circular, embora de forma limitada em determinadas rotas.
A crise atingiu níveis tão elevados que até viaturas integradas na escolta do governador foram usadas para transportar cidadãos com problemas de saúde e outras situações consideradas urgentes em diferentes pontos das cidades afectadas.
O episódio acabou por expor não apenas a fragilidade estrutural do sistema de transporte semi-colectivo em Inhambane, mas também o impacto imediato que alterações no preço dos combustíveis podem provocar sobre a vida urbana, o custo de vida e a estabilidade social.
Em muitos bairros, passageiros receiam que a eventual revisão das tarifas torne ainda mais difícil suportar os custos diários de deslocação, sobretudo numa altura em que várias famílias enfrentam pressão crescente sobre alimentação, energia, renda e outros bens essenciais.
Ao mesmo tempo, os transportadores insistem que continuar a operar sem revisão dos preços poderá resultar em mais paralisações, redução do número de viaturas nas estradas e agravamento dos problemas de mobilidade.
Os próximos dias serão agora decisivos para perceber se o diálogo entre Governo Provincial e operadores conseguirá evitar um novo colapso dos transportes públicos em Inhambane e Maxixe.
A questão central deixou de ser apenas o aumento das tarifas. Passou a ser também a capacidade do sistema de transporte sobreviver a uma escalada contínua dos custos operacionais sem provocar uma ruptura social ainda maior.
O Ministério de Transporte e Logística anunciou, hoje, a aprovação de um subsídio aos transportadores de passageiros. O Secretário de Estado dos Transportes avançou que o Presidente da República fará a entrega de 190 autocarros movidos a gás, destinados à área metropolitana da Cidade de Maputo.
Um dia após o aumento do preço do combustível, o Secretário de Estado dos Transportes, Chinguane Mabote, anunciou a aprovação de uma compensação aos transportadores de passageiros.
“O valor da compensação será canalizado para cada proprietário da viatura que exerce a actividade de transporte de passageiro e esteja na base de dados”, explicou.
O Presidente da Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO), Castigo Nhamane, explicou que a compensação vai ajudar a não alterar o preço do transporte e vai abranger os transportadores urbanos nas capitais provinciais.
“Todo o transporte urbano nas capitais provinciais será compensado, a partir da zona metropolitana da cidade de Maputo será compensado”, vincou Nhamane.
O subsídio, segundo o Ministério, é de cerca de 35 407 Meticais por mês.
O académico, filósofo e vice-reitor da Universidade Pedagógica de Maputo, José Castiano defende que o maior desafio da unidade nacional e da independência são as desigualdades sociais e que não bastam os discursos e abraços de condolências para que o país conheça a verdadeira paz, reconciliação e unidade nacional. Já o Sociólogo Filimone meigos defende o abandono de discursos belicistas como um dos caminhos para a paz.
José Castiano foi orador numa mesa redonda em Maputo, onde falava dos desafios da unidade nacional moçambicana e fez constatações próprias de um filósofo.
“O maior inimigo da nossa unidade nacional e, por consequência da nossa democracia, que eu chamo reconciliatória, são as extremas desigualdades sociais. Estamos aqui todos com medo de voltarmos à guerra”.
Começou por recordar das negociações de 1992, entre o Governo e a Renamo, que culminaram com o Acordo Geral da Paz, o Processo de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração, DDR e, mais recentemente, o Filósofo recordou da visita do Chefe de Estado a casa de Venâncio Mondlane, para prestar condolências pelo falecimento da sua mãe, com momentos importantes, mas não suficientes para manter a paz e unidade nacional.
“Não basta só haver conversas, não basta só haver apertos de mãos, não basta só haver abraços ou visitas de sentimentos de condolências. Abraçamos aqui e estamos a continuar a visitar-nos, e estamos a continuar a aparecer com comunicação de dados públicos.
Mas é insuficiente. Para estruturar o diálogo, não. Temos que encontrar formas mais profundas”.
Castiano entende que o país persegue uma agenda de reconciliação que se rompe a cada mandato governamental e isso desvaloriza os esforços das equipas que se reúnem para desenhar tais políticas.
“Eu sou da opinião que, no Parlamento devíamos ver e desaguar nessa coisa de estruturar o diálogo, em uma comissão parlamentar de reconciliação para o futuro. O que é que essa comissão vai fazer? Isso pode ser matérias digitadas”.
Castiano tem outras sugestões:
“Começamos com desarmar as mãos e desarmar as mentes. O que é que isso significa? Várias dimensões. Uma delas é educacional, curricular, muita coisa que nós temos que recuperar nas dimensões, principalmente da história, da historicidade de Moçambique.
Educacional em vários sentidos. Requer-se trabalhar nas futuras gerações para que não pensem na arma para resolver os seus conflitos. Como é que vamos fazer isso? Não sei. A segunda dimensão é a ética. A ética do discurso”.
Estabilidade política e social são essenciais para paz
Quem também emprestou os seus conhecimentos à causa da paz e reconciliação foi o docente e sociólogo Filimone Meigos, quem toma os dois conceitos como vítimas de constantes ameaças.
“A mim parece que estamos na situação do cabrito, que é a guerra recrudece, em Cabo Delgado, corrupção aumenta, temos a lógica do “Nhoga”, aumento de intolerância, aumento da exclusão social e, eventual, retorno à guerra. Nós estamos em Guerra, ainda que não admitamos, cabo Delgado está em Guerra. Neste cenário a variável determinante cujo retrocesso tem implicações significativas sobre o futuro, o nosso futuro, o futuro de Mocambique é o da deterioração das condições que envolvem a variável determinante da estabilidade política e social”.
Na sua visão, o diálogo deve envolver todos os segmentos da sociedade.
Os académicos falavam durante a mesa redonda sobre Reconciliação e Unidade nacional.
O académico moçambicano e antigo reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Brazão Mazula, passa a contar, desde esta quinta-feira, com uma fundação que pretende preservar e expandir o seu legado intelectual, científico e humanista em Moçambique.
A Fundação Brazão Mazula, inaugurada na Cidade de Maputo, surge por iniciativa de cidadãos admiradores do percurso académico e político do patrono, com o objectivo de promover educação, pesquisa científica, cidadania e formação tecnológica, numa altura em que o País enfrenta desafios ligados à transformação digital e à inclusão do conhecimento científico.
Durante a cerimónia de lançamento, realizada no bairro de Laulane, o presidente da fundação, Rafael Sapato, afirmou que a criação da instituição representa uma forma de dar continuidade ao contributo de Brazão Mazula para o desenvolvimento intelectual do País.
“A Fundação Brazão Mazula resulta da admiração ao seu patrono por parte de alguns cidadãos e da necessidade de ver continuado o seu legado, sobretudo na educação, formação, pesquisa científica e contributo social”, declarou.
Sapato explicou que a ideia começou a ser desenhada em 2021, durante o período da pandemia da Covid-19, inicialmente como uma associação voltada ao desenvolvimento científico e cultural.
Segundo o responsável, a evolução do projecto levou os promotores a concluírem que uma fundação seria o modelo mais adequado para assegurar maior alcance institucional e sustentabilidade.
“Inspirada no seu patrono, a fundação pretende combinar tecnologia e humanidade, em vista a criar um Moçambique novo. Países que apostaram numa cultura científica rigorosa, sem esquecer a humanidade, conseguiram alcançar estabilidade”, afirmou.
A aposta na tecnologia e na formação digital foi destacada como um dos pilares centrais da nova instituição. Brazão Mazula defendeu que a transformação digital e a segurança cibernética serão determinantes para o futuro das sociedades modernas.
“A transição digital e a segurança cibernética são o futuro da humanidade. A fundação aposta na formação de uma nova geração capaz de dominar os meios digitais com espírito crítico para o bem do País e da humanidade”, afirmou o académico.
Mazula sublinhou ainda que a fundação terá uma vocação cultural e educativa, funcionando através de contribuições, doações e legados.
“Uma fundação vive de doações e legado. Não é uma fábrica nem uma empresa comercial. O seu objectivo é compreender melhor o mundo que nos rodeia e contribuir para a sociedade”, acrescentou.
A criação da Fundação Brazão Mazula acontece num momento em que cresce o debate sobre a necessidade de reforçar a investigação científica, a inovação tecnológica e a produção de conhecimento em Moçambique, sobretudo entre os jovens universitários.
A província de Nampula enfrenta sérios desafios no sector da saúde, com cerca de 90 mil crianças excluídas do programa de vacinação nos últimos tempos, devido à insuficiência de recursos financeiros, fragilidade das actividades comunitárias e insegurança em algumas zonas da região.
Os dados foram divulgados pelas autoridades provinciais de saúde, que alertam para o risco de aumento de doenças evitáveis por vacinação caso não sejam reforçadas urgentemente as campanhas de imunização.
Com mais de 200 unidades sanitárias distribuídas pelos 23 distritos da província, o sistema de saúde continua a enfrentar dificuldades logísticas e operacionais para garantir cobertura vacinal universal, sobretudo nas comunidades remotas e em áreas afectadas por instabilidade.
A directora provincial de Saúde em Nampula, Celma Chavier, reconheceu que a fraca mobilização comunitária e os constrangimentos financeiros comprometeram o alcance das metas definidas pelas autoridades sanitárias.
“Perdemos perto de 90 mil crianças que não foram vacinadas completamente. É um número muito grande e temos de conseguir abranger todas elas para evitar doenças provenientes da falta de vacinação”, afirmou.
Perante o cenário, o Governo provincial e parceiros de cooperação lançaram um projecto de fortalecimento do sistema de distribuição de vacinas, iniciativa que deverá abranger inicialmente cinco distritos considerados críticos em termos de cobertura vacinal.
O governador de Nampula, Eduardo Abdula, explicou que o projecto pretende alcançar perto de 100 mil crianças, reforçando o acesso aos serviços de vacinação em zonas de difícil alcance.
“Com esta iniciativa iremos reforçar a cobertura vacinal nos cinco distritos abrangidos, alcançando comunidades mais remotas e garantindo que as crianças recebam integralmente as vacinas previstas no calendário nacional”, declarou.
Além do reforço da vacinação, o projecto prevê melhorias nos sistemas de recolha e gestão de dados sanitários, considerados essenciais para identificar crianças fora do sistema de imunização e melhorar o planeamento das campanhas.
“Vamos igualmente melhorar a qualidade dos dados do sistema de informação em saúde, assegurando registos mais fiáveis e actualizados”, acrescentou o governador.
A iniciativa contempla ainda a formação de mais de 90 profissionais de saúde e a criação de brigadas móveis que deverão intensificar as campanhas comunitárias de vacinação.
Organizações ligadas à saúde defendem que, além do financiamento, o sucesso das campanhas dependerá também do reforço da sensibilização comunitária, do combate à desinformação e da melhoria das condições de segurança em algumas regiões da província.

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