O País – A verdade como notícia

Não foi apenas um episódio

Enquanto me perdia no meu mundo de fantasias, ouvi os passos sorrateiros do Milano. Nesse instante, pensei que ele me quisesse pregar uma partida, como sempre faz, então fingi que estava a dormir para depois o surpreender. Mas, daquela vez, senti uma vibração estranha, senti que ele estava para baixo, afinal decidimos fazer a viajem de última hora porque ele precisava estar com os seus em um ambiente diferente.

Abriu a porta do meu quarto como se quisesse roubar algo; acendeu a luz para se certificar que eu estava a dormir; deu passos em direcção à cabeceira e disse:

– Eu sei que estás acordada. Eu estou muito bêbado e sinto vontades.

Continuei a fingir que estava a dormir. Ele foi desligar a luz, veio a cama, deitou-se, colocou as pernas na cabeceira e disse:

– Eu estou todo fodido! Espero que realmente estejas a dormir, assim é mais fácil, para mim, contar isso. Se estás a dormir, responderás com um peido daqui a um minuto.

Soltei uma gargalhada e disse:

– Apanhaste-me.

– Sabia que não estavas a dormir. Eu disse que estou com vontades.

– Tem sorvete e salada de frutas na geleira. Sobraram chamussas que a tua pita trouxe.

– Hummm, minha pita desde quando?

– Achas, achas que não sei que vocês costumavam se comer na casa de banho do bar quando vínhamos para cá? Assim és o namorado da cidade grande?

– Não sei do que estás a falar.

– Ah então estou a confundir a camisa azul com riscas brancas que comprei em para ti?

– Pode ser uma outra pessoa.

– Aham, que usa exatamente o mesmo perfume que eu e a tua gravidíssima noiva, quer dizer, ex-noiva, escolhemos para te dar presente quando defendeste?

– Sabe, eu estou com vontades.

– Aló, chamussas?

– Não quero comer.

– Então são vontades de quê mais?

-A minha vontade é de desaparecer.

– E deixar esse Napolitano só para mim?

– Cleide, desde que meu pai morreu, só acontecem azares na minha vida.

– Para alem da suspensão no trabalho, o que mais aconteceu?

– Engravidei a sobrinha da Célia e fiz sexo com a esposa do meu chefe. Tirando o acidente que provoquei por causa de conduzir bêbado, investi em vão 90 mil que pagaria pedreiros da obra no Crowd-1 e agora mesmo só falta o meu corpo ir porque a minha alma já bazou.

– Estás mesmo na bad Milanhonho.

– Porras, estás a me chamar esse nome porquê? Estou todo fobado

– O pior é que te fiz fugir da clínica de reabilitação.

– Ah ah ah ah.

– Milano!

– Mamã.

– Vai ficar tudo bem, nós estamos aqui para ti.

“Nós estamos aquí para ti, eu disse”. Ele deu tantos sinais, e nós simplismente os ignoramos.

– Tia, ele me contou, eu não fiz nada.

– Tu não tens culpa, Cleide, não tens culpa.

– Poderia ser diferente.

– Como?

– Sinceramente, não sei. Sei lá… Acho que eu devia ter percebido. Imagina, ele perdeu o único membro de sangue da sua família, e simplismente perdeu o seu equilíbrio mental.

– Podes-me contar com mais detalhes sobre o dia?

– Como sabe, pedi dispensa de tarde, no trabalho, para visitar Milano na Clínica de reabilitação. Comprei o nosso sabor de sorvete favorito, preparei uma salada de frutas para o dar de presente, pois, segundo a Célia, ele estava a se recuperar bem. Logo que cheguei, ele arrancou-me o telemóvel e mandou mensagens para a sobrinha da Célia. Pareceu-me estar bem, tanto que estávamos a falar sobre a minha despedida de solteira, onde supostamente ele seria o único homem porque ainda acreditava que o meu noivo não gosta dele. Do nada, ele sugeriu uma viajem, “Tal como quando éramos jovens, sem responsabilidades e felizes, vamos a casa de Praia do meu pai, esse será o meu último adeus ao álcool”, ele disse. Estava a sofrer com a suspensão no trabalho, mal sabia como pagaria a multa do acidente e eu senti que finalmente o meu amigo está a tomar juízo. Tia, já tiveste uma conexão tão forte, tão intensa, tão única que nem você mesma acredita que isso é possível? Já olhaste para alguém e disseste “essa pessoa é a pessoa da minha vida”? Já paraste para pensar no número de passageiros no teu autocarro que se chama vida e quem é o teu fiel ajudante, que está contigo em todas as viagens mesmo não estando no autocarro, que em todos os acidentes está lá para te ajudar a fazer o autocarro voltar a pegar e continuar com a viajem? Do nada, o teu autocarro da vida já parou e a tia simplismente não sabia como fazer arrancar. Então o teu fiel ajudante virou motorista? Acho que me perdi um pouco com a metáfora, mas creio que tenha entendido. Isso já aconteceu consigo?

– Eu..

– Milano era a pessoa, ele é quem eu levei comigo de outras vidas. Como eu poderia negar uma despedida ao meu? Como eu poderia dizer não? Eu sabia que ele estava a falar a verdade, que era para ele a sua última loucura embriagado. Também sabia que ele sentia muita falta do pai, que precisava se reconectar com ele de alguma maneira, que ele precisava de equilíbrio. Sabia que aquela casa seria a sua versão funcional, mas o facto de ele ter descoberto que a casa seria vendida o machucou bastante.

Fizemos o nosso plano de fuga. Como pode perceber, deu certo. Fomos buscar os gémeos no ginásio e partimos para Angoche, claro que não demorámos chegar, pois tudo que nós queríamos era ver o lindo pôr-do-sol na praia. Fomos só com a roupa do corpo, estávamos todos animados e cheios de energia, pois fazia tempo que não estávamos todos juntos. Durante o caminho, comentei sobre como a Célia é uma grávida linda e que os casamentos têm que acelerar, pois, se o bebé for parecido com o pai, e nascer antes do casamento, vai fazer-lhes umas perguntas muito assanhadas que não saberão o que responder.

– A criança que a Célia espera não é minha – disse.

– Como assim? – perguntou Deny.

– Ela me deixou depois do acidente, descobriu que estava grávida de outro.

– Como assim? – perguntou Deny, novamente.

– Eeeh, vamos ao bar, quero beber – disse Milano.

– Espera, espera Cleide, como assim a criança que a Célia está a espera não é do Milano?

– Então, a Célia tinha um caso há muito tempo, e engravidou.

– Mas…?

– Sim, tia, ela virá conversar consigo sobre isso.

– Desculpa-me a interrupção, sobrinha, peço que continue.

– Sim, eu e o Dany ficamos espantados pois acreditávamos que ele seria pai do filho da Célia. Entretanto, fomos comprar umas garrafas de bebidas alcoólicas. Ele mal bebeu, assim que passeamos pela vila decidimos fazer uma festa em casa. Convidamos todas as pessoas que encontrámos na rua. Foi uma longa e muito louca a noite. Como nos velhos tempos. Do nada vi o Deny e o Milano a discutir. “Talvez seja por causa de alguma coisa que o Milano fez”, pensamos. Do nada, o Milano expulsa toda gente de casa porque queria dormir em sua casa antes que fosse vendida. Os convidados foram-se, como já estava tarde. Cada um de nós foi para o seu quarto. Foi aí que ele veio me contar sobre o que se passava com ele.

Eu disse-lhe:

– Nós vamos superar isso, já passamos por tanta coisa juntos, vamos sair desta.

– Desta vez é diferente. Desta vez é muito diferente.

– Vamos pensar em alguma coisa juntos.

– Sabes, quando mais jovens, nunca imaginei que ser adulto é esta merda: ser dono das suas próprias decisões, ter responsabilidades, assumir os erros, a cena mais fudida é aceitar levar desaforo para casa, a maldade das pessoas à tua volta, é estupidamente insano. É impressionante como as pessoas não te deixam ser feliz, elas fazem questão de te sabotar, e eu que já me saboto. Estou todo acabado.

– Realmente, vamos então pensar em soluções. Vai ficar tudo bem.

– O que eu vou fazer? Aquela menina não quer fazer aborto, os pais já lhe expulsaram de casa. Meu chefe sabe que eu lambi a esposa, então a suspensão pode passar para demissão e a minha suposta noiva largou-me quando eu senti que mais precisava dela. Ainda não é oficial que já não estamos juntos, mas man? Essa vida. Eu acho que não tenho forças.

– Não faz mal não ter forças.

Virei-me para o lado dele, abracei-o que nem um bebé. Ele chorou e disse-me que acabou de saber que o Deny é o pai da criança que a Célia espera. Eles estão juntos desde que o Milano a fez o pedido. Ele só ficou com a sobrinha dela por vingança. Disse também que a ama do fundo do seu coração. No dia do acidente, ele bebeu muito só porque não conseguia aguentar dor de acabar de perder o pai e logo em seguida perder a mulher que ele ama.

– Porquê? Porquê eu? Porquê comigo?

– Vai ficar tudo bem.

Não vai, Cleide, não vai. O nosso melhor amigo, de infância, ficou com a mulher que eu amo. Eu quase matei alguém, eu estou perdido. Que porcaria de adulto eu sou? Qual é o meu propósito? Para quê acordo todos os dias? Meu pai tinha razão, eu sou uma merdinha mesmo.

– Não faz isso contigo, você é uma pessoa incrível.

– Para com isso. Posso dormir contigo? Como quando aramos mais novos?

– Pensavas que dormirias em outro lugar?

– Só não me bufa.

Naquele momento, as coisas começaram a fazer mais sentido para mim: “queria que as minhas paranoias estivessem todas erradas”. Infelizmente, estavam certas. E então dormimos.

Quando o sol começou a nascer, senti uma mão apalpando-me. Com a sua mão esquerda, ele começou a roçar a minha perna direita, endireitou-se e a mão direita dele começou a passear pela minha coxa esquerda em direcção às nádegas. “Será que ainda está bêbado? Será que é o que eu estou a pensar que é? Não é possível, devo estar a confundir. Vou deixar e ver até aonde ele vai”. Lentamente, começou a subir as suas mãos em direcção aos meus seios.

– O que estás a fazer?

– O que você está a fazer?

– Humm.

– Deixa eu te sentir pouco.

– Não.

– Isso vai fortalecer a nossa amizade! Não me perguntes se estou maluco, porque sabes que não estou. Vai ser só uma vez.

– Não.

– Se alguém descobrir diremos que estávamos bêbados ou negaremos até a morte.

– Mas, tens noção do que me estás a pedir.

– Só uma vez. Só uma.

– Isso pode estragar a nossa amizade.

– Mas também pode fortalecer.

– Milano, há mais de 20 anos que somos amigos, e quando mais novos isso nos passou pela cabeça, mas nós decidimos não o fazer pois somos muito mais que os nossos corpos “essas coisas carnais não nos podem separar” nós dissemos. E agora podem? As nossas almas?

– Pouco só, só uma vez, um pouquito, deixa o Milanhonho te sentir.

Começou a dar-me beijinhos no pescoço, dizendo que seria uma única vez. Só o sexo faria tudo ficar bem e que ninguém saberia: “as nossas almas precisam se tocar através dos nossos corpos, só elas saberão”.  As mãos dele sabiam aonde ir, como ir, ele sabia exactamente onde me tocar, e, principalmente, como. “Coitadinho, está a sofrer tanto, vou-lhe dar uma súper vitória e assim pelo menos recupera forças” pensei.

Afastou as minhas pernas, colocou-se entre elas, olhou-me nos olhos, deu duas reboladinhas só para me atiçar e mostrar que me desejava.

– Queres que te beije?

– Queres-me beijar?

– Depende de ti.

Xiei-lhe, aproximou-se ao meu ouvido, sussurrando, disse: “será a primeira e a última vez, prometo”.

– Então vamos fazer que valha a pena – Eu disse.

É como se as minhas palavras dessem início a uma música muito bem afinada, composta por Mozart, cantada pelo Luciano Pavarotti e dançada por Anna Pavolva. “Ele me deu um aqui e agora e eu lhe dei um amanhã será melhor que hoje”. Foi o que eu pensei, pois senti cada segundo e milésimo em que ele esteve dentro de mim, em cada suave, lento e profundo ir e vir eu senti suas fragilidades, seus medos, sua vontade de desistir do mundo, seu corpo me disse que ele estava tão desesperado, tão acabado, tão impotente. Sei também que ele sentiu que eu estava ali para ele, sentiu a minha força de vontade, sentiu o meu aconchego, o meu “tudo vai ficar bem”, mas ele ter sentido isso não foi o suficiente.

No momento em que me entreguei a ele, tive a certeza que ele carregava um peso enorme dentro dele, e a tal clínica de reabilitação apenas tirou o álcool do sangue dele. As nossas almas ficaram mais conectadas ainda, mas, infelizmente, não consegui o barrar. Assim que nós nos satisfizemos, ele saiu do meu quarto com a promessa de que aquilo nunca mais aconteceria. Adormeci.

– Clara, chama ambulância.

– Milanooo, Milanoooo, acorda. – Deny grita de desesperando sacudindo-lhe.

– Carrega-lhe e põe-lhe no carro. – Dany diz tremendo

– As chaves estão com a Clara – Deny Responde.

– Claraaa, chaves. – Grita Dany.

– Milanoooooooooo, acorda, acorda Milano. Clara estás parada, ele está a morrer Clara – Deny grita com toda a sua força.

– Clara, Milano está morto. Chama ambulância – grita Dany

– Milanoooo acorda. Milanooo – continua a sacudindo-lhe no desespero com a esperança dele estar vivo.

De repente, parei de ouvir as coisas. O mundo ficou muito lento, levantei-me numa velocidade, peguei nas chaves, fui a correr ao quintal, liguei o carro, os rapazes trouxeram-no, eu não consegui ouvir nada do que eles estavam a dizer. Assim que chegamos ao hospital, fomos atendidos.

Ele sentia-se tão vazio, tão impotente, tão não merecedor de viver, ele tentou ser forte, lutou, mas tudo que ele queria era deixar de sentir a dor. Lá estavam os sinais e eu não soube interpretá-los. Eu estava tão preocupada com os preparativos do meu casamento, com o trabalho, com as coisas do meu mundo, enquanto ele estava numa grande batalha com a depressão. Eu, que era sua alma gémea, a sua Cleidanhonho, o meu estou aqui para ti chegou tão tarde, foi tão insuficiente, me sinto tão impotente. Tia, eu sei que é a madrasta dele, que cuidou dele desde pequeno, que as coisas estão apertadas para vocês desde que o seu marido morreu, mas não venda a casa da praia, aquela casa é um dos poucos lugares que ele mais ama estar.

– Sobrin..

– O médico chegou.

– Vocês são familiares do Milano?

– Sim somos.

– Como ele está doutor?

– Não precisamos de nenhuma formalidade.

– Diga-la, então.

– A depressão é apontada como uma das principais causas do suicídio. Esta tentativa é não só um pedido de ajuda e um aviso para nos mantermos atentos, mas também é um questionamento. Têm vocês cuidado da vossa saúde metal? E a dos seus? Têm vocês prestado atenção nos seus sinais e nos sinais dos seus? Têm vocês olhado para vós mesmos e se entendido? Como profissional de saúde, aconselho que todos façam consultas para saber sobre o estado da vossa saúde mental, e conheçam formas de se manter mentalmente sãos. Bem conseguimos tirar as substâncias por ele ingeridas a tempo, graças à vossa rápida reação à situação. Como já foram prestados os primeiros socorros, já podemos fazer a transferência do paciente para o Hospital Central.

– De quê me valeu ser a pessoa mais conectada a ele. O meu ajudante quase se foi, o meu estou aquí para ti não valeu de nada, porque chegou tarde, doutor. O que podemos fazer agora?

– Cleide, não te culpes pelo que aconteceu. Agora é hora de receber a nossa pessoa, o teu ajudante. Quanto à Célia e ao Deny, marcaremos uma reunião de família e resolveremos em família.

– Está bem Tia.

– Agora descansa, que o dia também será longo.

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