As famílias acordam às 2 da manhã, cortam tubagens e bebem água imprópria há meses. Águas e Saneamento da Beira reconhece o problema e garante solução em 30 dias.
Em algumas zonas dos bairros de Manganhe, Macurungo e Macúti, na cidade da Beira, a água não chega pela torneira. Chega pelo esforço, pelo buraco fundo no quintal e pela coragem de beber o que há. Sem pressão na rede, a população encontrou alternativas de risco para sobreviver.
Moradores fizeram cortes na tubagem principal nas bermas de uma vala de drenagem, para captar um fio de água naquele local impróprio, sem condições mínimas de higiene. O retrato é de desespero.
“Porque estamos a precisar. Estamos a beber água suja…suja. Não sai água nas torneiras”, Dina Matos, residente em Macúti.
As famílias que vivem perto do tubo principal tiveram que improvisar. Algumas, com orientação no terreno para não ficarem completamente sem água, criaram caixas de captação no chão. É dali que hoje tiram água para beber, cozinhar e tomar banho. Uma água que, em dias de chuva, se mistura com a lama e a sujidade.
“Nos dias de chuva, essa caixa enche com água suja, tem que tirarmos toda a água e depois para conseguirmos tirar a água da torneira. Nós estamos a cavar, quase dois, três metros,só à procura de água, não é uma mona, é só para conseguir alimentar as crianças e nós também”, desabafou Helena Matos, residente em Manganhe.
A luta começa de madrugada
Em Manganhe, o dia começa quando ainda é de noite. Acordar tarde é ficar sem água.
“Nós sempre acordamos três horas, duas horas para conseguirmos a água. Você acorda cinco ou seis horas, a água já está fechada”, explicou Helena Matos.
A falta de água está a afectar a vida laboral e escolar. Há quem tenha que escolher entre ir ao trabalho ou garantir água para a família.
“Temos que deixar um dia para só atender assunto de água, que é difícil. Pedimos as autoridades para aumentarem a pressão para a água chegar até nas nossas casas”, apelou Mona Molte, residente em Manganhe.
Segundo os moradores, o problema agravou-se após as obras de reabilitação das valas de drenagem na Beira, na sua segunda fase, que acabaram por danificar parte da rede de abastecimento.
“Cortaram os nossos tubos quando as maquinas estvaam a fazer limpeza das valas e a abrir novas. Então, somos obrigados a consumir essa água aqui, não temos outra forma. Doenças como diarreias tem sido frequentes nos últimos 4 a 5 meses, mas não temos outra opção, não temos condições para comprar água mineral”, lamentou Molte.
Resposta da empresa
Contactada pela nossa equipa de reportagem, a empresa Águas e Saneamento da Beira reconheceu a situação que afecta os bairros de Manganhe, Macúti e Macurungo.
A empresa garantiu, ainda que sem gravar entrevista, que o problema tem dias contados. Está em fase conclusiva a montagem de uma nova tubagem nestas zonas, um novo sistema que vai devolver a pressão, aumentar a cobertura e levar água com qualidade e dignidade de volta às torneiras dentro de 30 dias. A ASB adiantou ainda que estão a ser observadas formas para evitar futuras vandalizações da rede.
Enquanto aguardam pela solução definitiva, as famílias continuam a fazer das suas próprias mãos a rede de abastecimento, à espera que a água volte a jorrar nas torneiras