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Membros queimam cartazes e encerram sede da Renamo em Massinga  

A crise na Renamo já não pode ser ignorada. O partido, que durante décadas simbolizou a resistência política e militar em Moçambique, enfrenta uma contestação interna que cresce a olhos vistos. Em Massinga, província de Inhambane, o descontentamento atingiu um novo patamar, com membros do partido a fecharem a sede local e a queimarem cartazes com a imagem de Ossufo Momade, num claro sinal de rejeição à sua liderança.

A revolta é liderada pelos antigos guerrilheiros da Renamo, aqueles que, com armas na mão, sustentaram a guerra civil e, mais tarde, garantiram a presença do partido na arena política, mas que, agora, sentem-se traídos. Acreditam que Momade perdeu o rumo e conduziu a Renamo à inércia. Jovens e mulheres do partido também engrossam as fileiras da contestação, num movimento que já não se restringe apenas a uma ala específica, mas que atravessa gerações dentro da organização.

Alexandre Nucumba, desmobilizado da Renamo, é uma das vozes mais críticas da actual liderança. Para ele, o que está a acontecer não é apenas uma insatisfação passageira, mas um reflexo de anos de promessas não cumpridas e de uma gestão desastrosa do partido. 

“Ossufo Momade traiu os ideais da Renamo. O partido pelo qual lutamos e arriscamos a vida já não existe. Ele vendeu a nossa luta, entregou tudo de bandeja, e nós não vamos aceitar isso calados”, denunciou, visivelmente revoltado.

A indignação de Nucumba não é isolada. O sentimento de traição ecoa entre vários membros que, nas eleições passadas, viram a Renamo ser esmagada nas urnas sem uma reação à altura.

 “O que nos doi é que ele se calou depois das eleições. Sofremos uma das maiores derrotas da nossa história e, em vez de lutar pelos nossos votos, Momade ficou em silêncio e o partido parou desde lá. O que mais precisamos para perceber que ele já não nos representa?”, questiona.

Para muitos, o líder da Renamo tornou-se um nome associado à passividade. A sua postura frente às negociações políticas, sua incapacidade de mobilizar o partido e a ausência de uma estratégia clara para recuperar o espaço perdido são apontadas como as razões para o desmoronamento da confiança dentro da Renamo.

Se antes a contestação era dominada pelos antigos combatentes, agora o cenário mudou. Jovens e mulheres do partido, que outrora viam em Momade um líder de transição, após a morte de Afonso Dhlakama, agora também exigem a sua saída. José Armindo, representante da Liga Juvenil da Renamo, não esconde a frustração. “A juventude quer um líder com visão, com capacidade de nos inspirar e de enfrentar a Frelimo sem medo. Momade não tem nada disso. Ele acomodou-se, aceitou migalhas, enquanto nós ficamos sem direção”, critica.

A Liga Feminina da Renamo também se posicionou contra a actual liderança. Glória Damião, uma das vozes femininas mais influentes dentro do partido em Inhambane, reforça o coro de críticas. “As mulheres da Renamo sempre estiveram na linha da frente, mas hoje sentimos que o partido perdeu a sua essência. Não podemos continuar com um líder que não escuta, que não reage e que só nos enfraquece”, afirma.

O clamor por mudança não é apenas uma expressão de descontentamento – é um pedido formal. Os antigos guerrilheiros e as novas gerações dentro do partido querem a convocação imediata de um Conselho Nacional, onde possa ser eleita uma nova liderança capaz de revitalizar a Renamo e resgatar o partido da apatia em que se encontra.

Alexandre Nucumba é categórico: “Não estamos aqui para negociar. Exigimos um Conselho Nacional agora. A Renamo não pode esperar mais, ou vai acabar de vez. Precisamos de um líder forte, que saiba para onde estamos a ir. Momade já demonstrou que não é esse líder”.

A pressão por uma mudança no topo do partido tem crescido em várias províncias, e a crise que agora explode em Massinga é apenas um dos muitos focos de insatisfação. No início do ano, delegados distritais da Renamo em Inhambane já haviam marchado até à sede provincial para exigir a destituição do delegado político de Inhambane. Agora, a revolta escalou para um nível mais agressivo, tornando insustentável a permanência de Ossufo Momade sem enfrentar resistência interna.

A grande questão que paira sobre a Renamo neste momento não é se haverá mudanças, mas sim quando e de que forma elas ocorrerão. Se a liderança insistir em ignorar os sinais claros de colapso interno, a crise pode aprofundar-se ainda mais, levando o partido a um ponto sem retorno.

Ossufo Momade está sob cerco. As vozes que pedem a sua saída já não podem ser abafadas, e a pressão para que renuncie ou convoque um Conselho Nacional pode tornar-se insustentável nos próximos meses.

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