As marchas convocadas para esta terça-feira, em várias províncias da África do Sul, contra a imigração ilegal decorreram, em grande parte, de forma pacífica, sem registo de incidentes graves, saques ou actos de vandalismo, segundo informações avançadas pelo portal sul-africano News24.
No Cabo Oriental, o comissário provincial da Polícia, tenente-general Vuyisile Ncata, afirmou que não foram reportados incidentes relacionados com danos materiais ou saques durante a manhã. Segundo o responsável, as forças policiais encontravam-se totalmente preparadas para monitorizar os protestos em toda a província.
Na Cidade do Cabo, as autoridades municipais indicaram igualmente que a situação permanecia calma. A Polícia Metropolitana acompanhava apenas pequenas concentrações de manifestantes em Bloekombos e na Grand Parade, além de uma tentativa isolada de saque numa loja em Gugulethu.
Em Mitchells Plain, uma das áreas apontadas como potencial foco de tensão, o ambiente manteve-se tranquilo, embora vários estabelecimentos pertencentes a estrangeiros tenham permanecido encerrados por precaução. A polícia reforçou a sua presença e efectuou patrulhas regulares na região.
Em Daveyton, no município de Ekurhuleni, um grupo de manifestantes concentrou-se diante de uma residência onde alegadamente se encontrava escondido o proprietário de uma mercearia. Os participantes tentaram abrir a porta da garagem, mas não conseguiram aceder ao imóvel.
Entretanto, em Soweto, os organizadores da marcha realizada no Parque Thokoza apelaram aos partidos políticos para que não distribuíssem camisetas nem material de propaganda durante a manifestação.
“Esta marcha não tem a ver com política. Tem a ver com a África do Sul”, declararam os organizadores.
IMIGRANTES PROCURAM APOIO JUNTO DOS CONSULADOS
Enquanto decorriam os protestos, dezenas de cidadãos estrangeiros procuravam assistência junto dos seus consulados. Em Bedfordview, diante do Consulado do Zimbabwe, homens, mulheres e crianças passaram a noite ao relento à espera de transporte para regressarem ao seu país.
Equipas do Exército da Salvação prestaram assistência humanitária aos migrantes, distribuindo alimentos e apoio básico. Um assistente social da organização relatou as condições difíceis enfrentadas por várias famílias, sobretudo crianças que passaram a noite nas ruas em pleno Inverno.
De acordo com informações recolhidas pela News24, vários autocarros partiram do local transportando cidadãos zimbabweanos em direcção à fronteira de Beitbridge.
Entre os que aguardavam transporte encontrava-se um cidadão do Malawi, residente há sete anos na África do Sul, que afirmou ter sido obrigado a abandonar a sua residência pelo proprietário do imóvel.
“Foi muito difícil porque todos os meus pertences ficaram lá. Não esperava que as coisas acontecessem desta forma. Agora vou regressar ao meu país e tentar reconstruir a minha vida”, declarou.
LÍDERES DA MARCHA REUNIRAM-SE COM RAMAPHOSA
Segundo a News24, os líderes associados ao movimento que promoveu as manifestações reuniram-se, na noite de domingo, com o Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, antes da realização dos protestos.
Durante o encontro, o Chefe de Estado terá apelado para que as manifestações decorressem de forma pacífica e dentro da legalidade. A Presidência sul-africana indicou que os representantes do movimento garantiram que os protestos seriam conduzidos de forma ordeira.
Apesar do ambiente geralmente pacífico registado ao longo do dia, jornalistas locais observaram que alguns participantes entoavam cânticos contendo expressões depreciativas dirigidas a cidadãos estrangeiros, enquanto defendiam a saída de imigrantes indocumentados do país.
Um dos organizadores, Lindokwakhe Mkhize, mostrou-se satisfeito com o comportamento dos manifestantes.
“O nosso povo ouviu. Fizeram exactamente aquilo que pedimos, de forma ordeira e respeitosa, do princípio ao fim”, afirmou.
As manifestações ocorrem num contexto de crescente debate sobre imigração, desemprego e criminalidade na África do Sul, temas que têm alimentado tensões sociais e provocado preocupação entre comunidades migrantes e organizações de direitos humanos.