A educação, a qualidade das instituições e a preparação da juventude para os desafios do futuro dominaram o painel “Prospectiva e Posicionamento Estratégico: 2026–2050”, realizado no âmbito da Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique. Durante o debate, académicos e especialistas defenderam reformas profundas para garantir que o crescimento económico se traduza em desenvolvimento inclusivo nas próximas décadas, com Jorge Ferrão a centrar a sua intervenção na necessidade de transformar o sistema educativo nacional.
Ao introduzir o debate, o moderador, Asif Osman, afirmou que Moçambique não sofre de falta de estratégias de desenvolvimento, mas sim de dificuldades em concretizá-las. Defendeu que o país deve deixar de produzir apenas planos e concentrar-se na implementação de reformas concretas que permitam transformar o crescimento económico em desenvolvimento, criar oportunidades para os cerca de 400 mil jovens que entram anualmente no mercado de trabalho e fortalecer as pequenas e médias empresas.
Convidado a reflectir sobre o papel da educação na construção de Moçambique em 2050, Jorge Ferrão começou por recordar uma das conclusões dos relatórios da OCDE: “A maior parte da força de trabalho do século XXI será educada em escolas africanas e a qualidade da educação oferecida no continente terá efeitos profundos na economia global, na coesão social e na prosperidade partilhada.”
A partir desta constatação, o antigo ministro da Educação alertou para a deterioração dos indicadores de aprendizagem no país. Citando dados do SACMEQ, explicou que a percentagem de alunos da 6.ª classe com um nível aceitável de domínio da língua portuguesa caiu de 62,7%, em 2013, para apenas 16% em 2023. Em Matemática, a situação é ainda mais preocupante, uma vez que apenas 8,4% dos alunos demonstraram competências mínimas de cálculo, enquanto mais de 90% ficaram abaixo desse patamar.
Para Ferrão, estes números comprometem seriamente a capacidade do país para responder aos desafios do desenvolvimento. “Sem dominar a língua e sem dominar o cálculo, naturalmente que não podemos planificar qualquer que seja o grande empreendimento deste país, não importa se pequenas ou médias empresas ou grandes empresas, porque não teremos essa capacidade de poder operar e operacionalizar essas empresas”, advertiu.
O académico considerou igualmente que o absentismo de professores e alunos continua a ser um dos principais factores que explicam o fraco desempenho do sistema educativo. Segundo referiu, existem diferenças significativas entre as regiões do país, o que demonstra que “estas políticas educativas não podem continuar a ser feitas com um sapato de um único tamanho”, defendendo respostas diferenciadas por província, distrito e grupo social.
Jorge Ferrão aproveitou ainda a ocasião para lançar um desafio ao Ministério da Planificação e Desenvolvimento, propondo um novo pacto nacional que coloque os dados e a evidência científica no centro das decisões públicas. “As opiniões da rua podem mais atrapalhar do que ajudar a planificar”, afirmou, defendendo que os indicadores produzidos pelas instituições nacionais e internacionais deixem de servir apenas para relatórios ocasionais e passem a orientar permanentemente a definição das políticas públicas.
O antigo governante manifestou também preocupação com a excessiva centralização das decisões, considerando que o país continua a ser pensado sobretudo a partir da capital. “Fico com a sensação de que nós continuamos a pensar Moçambique a partir de Maputo. Concentramos demasiada inteligência num único centro e escutamos muito pouco as vozes da periferia”, afirmou, acrescentando que o Norte, o Centro e o Sul enfrentam desafios distintos e exigem soluções adaptadas às suas realidades.
Na parte final da intervenção, Ferrão apelou para que a educação volte a assumir um papel central na estratégia nacional de desenvolvimento, sustentando que o futuro do país depende da capacidade de formar cidadãos preparados para construir uma economia moderna e competitiva. “Quando um povo aprende, deixa de esperar pelo futuro; passa a construir o futuro”, concluiu.
Também interveniente no painel, o economista Fauzio Mussá defendeu que os maiores desafios de Moçambique não são essencialmente económicos, mas humanos. Na sua perspectiva, “a solução para os próximos 25 anos não tem muito a ver com a economia; tem a ver com as pessoas”, defendendo uma aposta na educação, nos valores e na formação cívica das novas gerações.
Fauzio Mussá alertou que um crescimento impulsionado apenas pelos grandes projectos de gás poderá não beneficiar a maioria da população. “Nós temos hoje, de facto, uma economia dos projectos, mas fora da economia dos projectos vemos uma dinâmica muito frágil”, afirmou. Para inverter este cenário, considerou indispensável criar condições para o desenvolvimento das pequenas e médias empresas, que classificou como o verdadeiro motor da criação de emprego e de uma economia inclusiva.
O economista deixou ainda um alerta para os desafios colocados pela inteligência artificial e pela desinformação, defendendo que uma população mais instruída será também mais capaz de distinguir informação credível, resistir à manipulação e participar activamente na construção do desenvolvimento do país.