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Gaza enfrenta ameaça de fome aguda após cheias destruírem produção agrícola

A província de Gaza poderá enfrentar uma das mais graves crises alimentares dos últimos anos após as cheias que devastaram campos agrícolas, destruíram meios de subsistência e comprometeram a recuperação de milhares de famílias rurais. O alerta foi lançado pelas autoridades provinciais, que admitem um cenário de fome aguda caso não haja uma resposta urgente para restaurar a capacidade produtiva das comunidades afectadas.

Os números revelam a dimensão da tragédia. Mais de 270 mil hectares de culturas diversas foram destruídos pelas enxurradas, enquanto cerca de 168 mil famílias produtoras perderam sementes, equipamentos agrícolas e acesso às suas machambas. Em muitos casos, as áreas de cultivo continuam submersas meses após as inundações.

“A nossa província experimentou mais uma vez problemas ligados às mudanças climáticas e grande parte dos afectados continua a viver em situações dramáticas. Falta abrigo e muitas das terras onde deveriam produzir encontram-se alagadas. Este ano a nossa província vai enfrentar problemas sérios de fome”, alertou o Secretário de Estado na província de Gaza, Jaime Neto.

O governante defende que o país deve investir em mecanismos de adaptação climática e em soluções de longo prazo para garantir a sustentabilidade alimentar das populações vulneráveis.

Segundo a Direcção Provincial da Agricultura e Pescas, a recuperação da produção enfrenta dificuldades devido à insuficiência de insumos agrícolas. Das cerca de 168 mil famílias afectadas, apenas parte deverá receber apoio imediato para retomar o cultivo.

“Estamos a receber os insumos e vamos apoiar cerca de 127 mil produtores. Ainda teremos um défice significativo de famílias que necessitam de assistência”, explicou a directora provincial da Agricultura e Pescas, Ercília Cau.

 

Insegurança alimentar agrava-se

A situação na província surge num contexto nacional já marcado por elevados níveis de insegurança alimentar. Dados recentes do Programa Mundial de Alimentos indicam que cerca de 2,7 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar em Moçambique, enquanto as cheias registadas no início de 2026 afectaram aproximadamente 700 mil pessoas em várias regiões do país.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura estima que as inundações tenham afectado mais de 313 mil hectares de terras agrícolas em todo o território nacional, sendo Gaza a província mais atingida, com mais de 182 mil hectares inundados. A organização alerta que a destruição de culturas como arroz, milho e cana-de-açúcar ameaça agravar a escassez de alimentos e a perda de rendimentos nas zonas rurais.

 

Famílias já enfrentam dificuldades

Nos distritos do norte da província, a crise já é visível. Na comunidade de Bingo, localizada a cerca de 39 quilómetros da vila de Massingir, mais de 240 famílias lutam diariamente para garantir alimentação.

A perda das colheitas e dos meios de produção reduziu drasticamente a capacidade de sobrevivência de muitas famílias.

“Perdi dez cabeças de gado de um total de quinze. Agora trabalhamos as machambas apenas com as mãos. Depois da perda do gado não temos capacidade de produzir nem condições para comprar alimentos”, relatou Manuel, criador de gado afectado pelas cheias.

Outro produtor, Pedro, afirma que perdeu todo o efectivo bovino.

“Não tive qualquer apoio. As dez cabeças de gado foram arrastadas pelas águas”, contou.

Dados do Ministério da Agricultura indicam que as cheias provocaram também a perda de centenas de milhares de animais em todo o país, afectando sobretudo os distritos de Massingir, Guijá e Chibuto.

 

Governo e parceiros procuram resposta

Perante o agravamento da situação, o Governo e parceiros internacionais estão a implementar programas de recuperação agrícola e reforço da resiliência comunitária.

Entre as medidas previstas estão a distribuição de sementes, a formação em agricultura de conservação e o apoio técnico aos agricultores afectados.

“Os desastres estão a aumentar e os recursos para apoiar os afectados estão a diminuir. Precisamos olhar para soluções locais e reforçar a capacidade das comunidades para responder a estes choques”, afirmou Geoffrey Kibigo, parceiro do Governo em programas de recuperação pós-cheias.

A intervenção em curso na província de Gaza está estimada em cerca de 15 milhões de meticais.

Para o administrador distrital de Massingir, Sérgio Costa, a rapidez na distribuição de sementes será determinante para evitar perdas ainda maiores.

“Sabemos que ainda existe humidade nos solos e a única forma de aproveitá-la é lançar imediatamente à terra as sementes que estamos a receber”, afirmou.

 

Mudanças climáticas aumentam vulnerabilidade

Moçambique continua entre os países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, enfrentando regularmente ciclones, secas e inundações. Segundo o Programa Mundial de Alimentos, os fenómenos extremos têm contribuído para a deterioração das condições de vida de milhões de pessoas, sobretudo nas zonas rurais dependentes da agricultura familiar.

Com mais de 300 mil pessoas afectadas pelas cheias apenas na província de Gaza e diante do aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos, autoridades e organizações humanitárias alertam que os próximos meses serão decisivos para evitar uma crise alimentar de maiores proporções.

Sem apoio rápido e consistente à recuperação agrícola, milhares de famílias poderão enfrentar uma situação prolongada de escassez alimentar numa região já severamente fragilizada pelos efeitos dos eventos climáticos extremos.

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