O analista político e investigador André Thomshausen alertou para o risco de agravamento da vaga de xenofobia na África do Sul, considerando que, apesar de o ultimato lançado por movimentos anti-imigrantes ter terminado sem incidentes de grande dimensão, subsistem sinais preocupantes de que a situação está longe de estar resolvida.
Em entrevista ao Jornal da Noite, da STV, Thomshausen recordou que a xenofobia não constitui um fenómeno novo naquele país, evocando os violentos episódios registados em 2008, que provocaram pelo menos 62 mortos, bem como os incidentes ocorridos em 2015.
“Felizmente, não se registou um grande número de vítimas. Havia receios de que centenas de pessoas pudessem perder a vida, mas o dia decorreu de forma relativamente calma”, afirmou.
Apesar da aparente tranquilidade, o especialista observou que os promotores das manifestações anti-imigrantes deixaram claro que não consideram encerrada a sua campanha, insistindo na ideia de que a África do Sul deve pertencer prioritariamente aos cidadãos sul-africanos.
Segundo Thomshausen, continua a existir incerteza quanto ao verdadeiro alvo destes movimentos, questionando se a hostilidade se dirige apenas aos imigrantes em situação irregular ou se já abrange indiscriminadamente todos os cidadãos estrangeiros.
O analista atribuiu o crescimento das tensões à grave crise económica e social que afecta a África do Sul. De acordo com a sua avaliação, o país enfrenta um agravamento da pobreza, elevados níveis de desemprego e crescentes dificuldades de acesso a serviços básicos por parte de milhões de cidadãos.
“Cerca de metade da população activa depende actualmente de subsídios sociais de sobrevivência, num contexto de escassez de oportunidades económicas”, explicou.
Thomshausen referiu ainda que a presença de milhões de migrantes provenientes de países vizinhos tem alimentado a percepção de concorrência no mercado de trabalho, sobretudo em sectores onde as pequenas e médias empresas enfrentam dificuldades para cumprir os salários mínimos estabelecidos por lei.
O especialista considerou que uma eventual saída em massa de trabalhadores estrangeiros poderá provocar impactos negativos em sectores como a hotelaria e a restauração, fortemente dependentes de mão-de-obra oriunda dos países da região.
“Haverá estabelecimentos que terão dificuldades em manter a actividade caso deixem de contar com trabalhadores migrantes”, advertiu.
Para o analista, a situação representa igualmente um revés para a imagem internacional da África do Sul, tradicionalmente vista como uma referência democrática e económica no continente africano.
Ao mesmo tempo, denunciou o que considera ser uma crise humanitária emergente nas zonas fronteiriças, onde milhares de migrantes deslocados permanecem sem abrigo adequado, alimentação suficiente e protecção contra as baixas temperaturas do Inverno austral.
Neste contexto, defendeu uma intervenção mais activa do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), argumentando que a organização deveria reforçar o diálogo com as autoridades sul-africanas e mobilizar assistência para as populações afectadas.
“O ACNUR já deveria ter intervindo de forma mais visível, porque estamos perante uma situação alarmante, agravada pelas condições climáticas extremamente adversas”, sustentou.
No plano político, Thomshausen considera que alguns dos movimentos anti-imigrantes procuram igualmente capitalizar o descontentamento popular para fragilizar o actual Governo de coligação liderado pelo Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa.
Segundo explicou, as organizações que promovem as manifestações não exigem apenas a expulsão de estrangeiros em situação irregular, mas manifestam igualmente oposição ao Executivo, defendendo mudanças profundas na liderança política do país.
Por isso, o especialista acredita que o termo do ultimato de 30 de Junho dificilmente significará o fim das tensões.
“Duvido que esta situação termine agora. Existe o risco de continuarem actos de intimidação, pilhagens e perseguições contra migrantes, particularmente os mais vulneráveis”, concluiu.