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Empresa suspeita vence concurso público avaliado em 130 milhões de meticais

Uma empresa constituída há apenas quatro meses venceu um concurso público avaliado em 130 milhões de meticais, lançado pelo Instituto do Algodão e Oleaginosas de Moçambique. A denúncia é do Centro de Integridade Pública e do CDD.  A empresa pode estar ligada ao ministro da Agricultura

O Instituto do Algodão e Oleaginosas de Moçambique, entidade sob tutela do Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas, adjudicou um contrato avaliado em quase 130 milhões de meticais à empresa Future Technologies of Mozambique, SA, criada em Abril deste ano. A decisão levanta graves suspeitas de favorecimento e conflito de interesses.

O Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD) considera que, além de a empresa em causa não ter tido tempo e capacidade técnica, é a que apresentou uma proposta mais elevada.

Segundo André Mulungo, um dos critérios que o Estado usa para a contratação é o de menor preço, e o mesmo não foi observado, num concurso em que havia empresas bem cotadas e com mais experiência, que por sinal apresentaram valores baixos.

“Há muita coisa que não está boa e que é preciso que haja esclarecimento, de modo a criar uma ambiente de transparência nos processo públicos”, diz André Mulungo.

O contrato, adjudicado a 14 de Agosto de 2025, destina-se ao desenvolvimento e operação de uma plataforma de digitalização das cadeias de valor do algodão e das oleaginosas.

De acordo com documentos oficiais, apresentados pelo CDD, a empresa foi criada a 8 de Abril de 2025 e publicada no Boletim da República.

“Tendo em conta a publicação que foi feita, o que nos parece mais razoável é que o Tribunal Administrativo deve cancelar o concurso, e o Ministério Público deve intervir com máxima urgência, para que haja a responsabilização de todos os que estiveram envolvidos em todo o processo”, alerta.

De acordo com um relatório do Instituto do Algodão e Oleaginosas, fizeram parte do concurso empresas de renome como a Vodacom Moçambique, a Quidgest Software Plant Lda, a Intellica AS e outras, todas com experiência comprovada em tecnologia e digitalização.

Apesar disso, o instituto decidiu adjudicar o contrato à Future Technology of Mozambique, cuja proposta, de 129 862 382,80 meticais foi a mais cara entre todas as concorrentes, praticamente equivalente ao valor máximo estimado para a empreitada.

De acordo com uma investigação do Centro de Integridade Pública, a empresa vencedora do concurso resulta de uma rede empresarial que envolve o actual ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas.

Para o CIP, trata-se de um caso claro de conflito de interesses e de violação da Lei de Probidade Pública.

GOVERNO SEM DETALHES DO PROCESSO

Questionado, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, diz que não tem os contornos concretos do processo, apesar de assumir que tem conhecimento. Ainda assim, explicou que normalmente é criada uma equipa de júri composta do pessoas idóneas para dirigir o processo até ao fim.

Segundo Impissa, não havendo transparência, a Procuradoria-Geral da República deve entrar em acção para verificar todo o processo para aferir até que ponto o mesmo correu dentro das normas estabelecidas. Anota ainda que até agora ainda não há suspeitas de que o processo foi viciado. 

Inocêncio Impissa levanta a hipótese de que a empresa apurada pode não ser necessariamente nova, explicando que a mesma pode ter sido registada de novo em Moçambique e que, por hipótese, por ter algum histórico com algumas entidades nacionais.

“Nem todas as empresas se inscrevem como moçambicanas. Por aquilo que eu compreendi, são necesseriamente novas ou recentes, mesmo aventando a possibilidade de ter laços com outras entidades grandes e com uma certa pujança”, anota Impissa.

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