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Economistas Egas Daniel, Clésio Foia e Júlio Saramala defendem que o Governo deve persistir na cobrança de mais-valias à Galp, de forma a evitar que outras multinacionais adoptem a mesma postura de recusa de pagamento destes impostos. Os especialistas, que falavam durante o programa O País Económico desta quinta-feira, na STV, alertam ainda para a necessidade de melhorias na legislação fiscal.

O economista Egas Daniel salienta que a tributação sobre as mais-valias geradas na venda de activos é uma prática normal e prevista pela legislação fiscal, tanto em Moçambique como internacionalmente. Segundo ele, “quando o valor de venda de um activo é superior ao valor contabilístico, este diferencial é tributável”, reforçando que a cobrança da Autoridade Tributária à Galp se encontra dentro das normas. Egas acrescenta que Moçambique é historicamente pouco exigente na arrecadação deste tipo de imposto, o que torna a cobrança actual legítima e coerente com padrões internacionais.

Como primeira situação ilustrativa, Egas explica: “Se eu comprei um activo a determinado valor e o vendo por um valor superior, há um ganho, chamado mais-valia, sobre o qual incide imposto”. Salienta que esta operação é comum em todo o mundo e segue uma lógica simples: o Estado deve tributar o lucro gerado pela diferença entre o preço de aquisição e o valor de venda, garantindo que os recursos retornem à população e ao Tesouro.

Apesar disso, Egas alerta para os riscos da arbitragem internacional, lembrando que “a pressão desta queixa internacional pode fragilizar a posição do Estado moçambicano perante multinacionais com grande poder económico”. Como segunda situação, menciona que, mesmo após a Galp ter transferido os seus activos, o Governo poderá enfrentar dificuldades práticas na execução da cobrança.

Por fim, Egas sublinha a importância de uma actuação firme do Estado, afirmando que “a postura da Autoridade Tributária e a aplicação da legislação nacional conferem segurança e legitimidade ao processo”. Para ele, manter a coerência normativa e cobrar correctamente as mais-valias protege a soberania fiscal de Moçambique, evita precedentes perigosos e garante que os recursos provenientes de operações de exploração de gás beneficiem efectivamente a população, reforçando a confiança interna e internacional no regime fiscal do país.

O economista Júlio Saramala destaca que a questão central da disputa entre a Galp e a Autoridade Tributária (AT) não é a cobrança do imposto sobre mais-valias, pois “existem claramente bases legais, já com histórico”, incluindo regimes específicos de tributação e benefícios fiscais em operações petrolíferas. Para ele, o principal ponto de divergência reside na metodologia de cálculo da base tributável, já que o Estado pode considerar o valor bruto da operação, enquanto a Galp defende uma base líquida, deduzindo empréstimos e investimentos amortizados. Esta diferença metodológica pode gerar uma taxa efectiva distinta da taxa nominal prevista na lei.

Como primeira situação, Saramala menciona a primeira parcela recebida pela Galp, no valor de cerca de 880 milhões de dólares: “Em termos numéricos, a tributação deveria aplicar-se estritamente ao valor já recebido da Galp”. Ele sublinha que, mesmo considerando valores futuros da Coral Norte, a cobrança sobre o montante já recebido deve ser clara e imediata, para evitar atrasos na arrecadação e assegurar a aplicação consistente da legislação fiscal.

O economista alerta ainda para os riscos de recorrer a instâncias internacionais, lembrando que, “se já existe, neste momento, uma empresa portuguesa a ter de recorrer a instâncias internacionais, isso demonstra que, futuramente, outras empresas poderão agir com maior cautela e exigir garantias adicionais”. Como segunda situação, aponta que tal prática poderá levar outras multinacionais a adoptarem medidas de protecção, como seguros ou garantias suplementares, antes de investir em Moçambique, evidenciando a necessidade de proteger a soberania fiscal e evitar precedentes que fragilizem a posição do Estado.

Saramala reforça que os ganhos das operações devem beneficiar a população moçambicana e que a legislação nacional precisa de ser aplicada de forma transparente. “Independentemente de esta alienação ter ocorrido dentro ou fora do país, a lei é clara: deve haver uma mais-valia que beneficie a população moçambicana.” Considera positiva a postura do governo, mas enfatiza a necessidade de prever possíveis disputas futuras, garantindo segurança jurídica e previsibilidade para investidores e para o Estado.

Já Clésio Foia destaca que a questão central da disputa entre a Galp e o Estado moçambicano não é o valor da venda dos direitos de exploração, mas sim a matéria colectável, ou seja, a diferença entre o valor da venda e os custos nos quais a empresa declara ter incorrido. O Estado moçambicano questiona a validade de certos custos, receando que uma sobrevalorização conduza a uma tributação mínima sobre as mais-valias, afectando a arrecadação e a soberania fiscal.

Como primeira situação, Foia cita precedentes de operações bem-sucedidas que beneficiaram o Estado: em 2017, a venda de acções da ExxonMobil à ANI gerou 350 milhões de dólares em mais-valias, e da Anadarko à Total que resultou em cerca de 800 milhões de dólares para o tesouro moçambicano. Estes casos demonstram que, quando a legislação fiscal é aplicada correctamente, o Estado assegura receitas significativas, reforçando a necessidade de tributação adequada das mais-valias da Galp.

O economista alerta, também, para o risco de pressões externas e disputas internacionais. Como segunda situação, menciona que “a Galp poderia recorrer a arbitragem internacional sob alegação de protecção a investidores não residentes, pressionando o Estado moçambicano e criando precedentes perigosos. Esta estratégia poderia permitir que futuras multinacionais minimizassem a tributação ou transferissem ganhos para fora do país, sem contrapartidas em tecnologia ou investimento local, prejudicando a arrecadação e a soberania fiscal”.

Por fim, Foia defende a flexibilização da certificação de custos e a definição clara de regras fiscais. Salienta que “sem flexibilidade e clareza, as multinacionais poderiam inflacionar custos, reduzindo a matéria colectável e comprometendo receitas”. Para ele, a aplicação rigorosa da legislação, a resistência a pressões externas e a previsão objectiva do guião fiscal são essenciais para preservar a soberania fiscal, garantir a justa contribuição das multinacionais e fortalecer o desenvolvimento da indústria de gás e outros recursos naturais em Moçambique.

O Instituto de Amêndoas de Moçambique realiza, nesta sexta-feira, a I Sessão do Comité de Amêndoas, na Cidade de Maputo. A sessão tem como objectivo central definir o Preço de Referência de compra da castanha de caju ao produtor para a Campanha de Comercialização 2025/26.

Com a iniciativa, pretende-se garantir uma remuneração justa e sustentável aos actores da cadeia de valor do caju.

A reunião, orientada por Momade Juízo, secretário de Estado do Mar e Pescas, procurará alcançar consenso sobre o preço a ser praticado a nível nacional, tendo em conta a avaliação dos custos de produção (mudas, mão-de-obra, insumos, colheita, transporte e armazenamento) e os custos de processamento industrial.

De acordo com um comunicado do instituto, no evento, vai-se partilhar o desempenho da Campanha de Comercialização 2024/2025 e fazer o prognóstico da produção para a Campanha 2025/2026.

Irão participar na sessão, membros do Conselho de Técnico do Instituto e outros actores da cadeia de valor de amêndoas nomeadamente: produtores, comerciantes, processadores, sindicatos, representantes dos Ministérios da Indústria e Comércio, Economia e Finanças, convidados do sector público e parceiros de cooperação.

O Estado diz que a Galp deverá pagar cerca de 336 milhões de dólares pela venda de seus activos em Moçambique e alerta que o valor pode vir a subir. A Autoridade Tributária acusa a empresa de agir com falta de idoneidade. 

Assim, um braço de ferro está instalado entre as empresas Galp e o Estado moçambicano, representado pela Autoridade Tributária de Moçambique. 

Em causa está um diferendo pela venda das participações da multinacional à Abu Dhabi National Oil, na área 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado.

Como resultado da venda, as empresas Galp devem pagar uma quantia global de cerca de 336 milhões de dólares, divididos em duas partes, nomeadamente: a primeira, equivalente a 175.9 milhões de dólares, que já deviam ter sido pagos, referente à venda das participações no projecto Coral Sul, que exporta gás natural desde o ano de 2022; a segunda, equivalente a 160 milhões de dólares, que dependem de duas decisões finais de investimento: uma tomada na semana passada, do projecto Coral Norte e outra por ser tomada, pelo projecto Rovuma.

Os valores a serem pagos são referentes a impostos devidos pelo ganho adquirido pelas empresas Galp no negócio em causa, quantias que para a multinacional portuguesa são absurdas, por isso não fez o pagamento.

Por não encontrar elementos que justifiquem a reclamação e por violar prazos, a Autoridade Tributária determinou que o pagamento deverá ser coercivo.

“Dentro do prazo previsto para o pagamento do imposto liquidado (de cerca de USD 175,9 milhões), o mesmo não foi efectuado, tendo, deste modo, sido virtualizada a dívida para efeitos de cobrança coerciva que corre os seus termos legais”, refere a Autoridade Tributária de Moçambique em comunicado.

Na nota, a administração tributária avança ainda que “no decurso da execução, as empresas deduziram embargos de executados tendo ainda interposto recurso contencioso junto do Tribunal fiscal da cidade de Maputo, onde apresentaram uma garantia que foi considerada, pela administração tributária, não idónea”.

Diante dos factos, a decisão da Autoridade Tributária mantém-se e as empresas Galp decidiram recorrer à arbitragem internacional e aguardam-se os resultados.

Num passado recente, negócios do género foram feitos e empresas envolvidas em consórcios similares aos que as firmas Galp pertenciam fizeram pagamentos.

Por exemplo, em 2017, o Estado encaixou 350 milhões de dólares de mais-valias resultantes da venda das participações em Moçambique da empresa italiana Eni à multinacional norte-americana Exxon Mobil no projecto de gás.

Outro encaixe de mais-valias do Estado moçambicano, de cerca de 880 milhões de dólares, foi referente à venda das participações da Anadarko à Total.

A Galp notificou o Governo que recorreu à arbitragem internacional para contestar a cobrança de 10% de mais-valia dos negócios de venda da participação da empresa nos projectos de exploração de gás na área 4 da bacia do Rovuma. O Governo reagiu – diz que a cobrança é legal e baseada nos cobertos firmados e que visa garantir que os moçambicanos tenham todos os ganhos que tem direito decorrente da exploração dos recursos.

Em Março de 2025, a Galp vendeu a sua participação na Área 4 em Moçambique à XRG P.J.S.C., uma subsidiária integral da ADNOC (Abu Dhabi National Oil Company P.J.S.C.). A transacção abrangeu os três projectos em que a firma estava envolvida no campo da exploração de gás nomeadamente, a Coral Sul FLNG, em operação, desde 2022; a Coral Norte FLNG, cuja decisão final de investimento foi tomada no passado dia 2 de outubro de 2025; e a Rovuma LNG onshore.

Com essas operações, a Galp encaixou perto de 890 milhões de dólares, segundo descrito nos relatórios.

“Com a venda dos ativos (e consequente conclusão da operação), a Galp recebeu um pagamento de cerca de 881 milhões de dólares, incluindo o valor patrimonial das ações, o reembolso dos empréstimos dos acionistas e os investimentos acumulados desde a data de referência da transação, sendo o último pagamento a ser feito a pouco com  a tomada de decisão final de investimento dos projetos Coral Norte, cerca de 100 milhões de dólares. Um pagamento contingente adicional de 400 milhões de dólares será feito à Galp, sujeito à decisão final de investimento deste último”, lê-se no relatório.

É sobre estes valores que o Governo está a cobrar 10% de mais-valia a favor do Estado moçambicano, o que a Galp entende ser uma cobrança indevida.

“A empresa entende, contudo, que não pode ser exigido o pagamento de impostos sem fundamento na legislação aplicável.”

Não havendo entendimento, nas conversações entre as partes, segundo avança o comunicado da instituição, a Galp decidiu recorrer à arbitragem internacional.

“Face a uma divergência, não resolvida até ao presente, quanto à tributação de mais-valias relativa ao processo de alienação da participação na Área 4 da Bacia do Rovuma, a Galp informa, ainda, que notificou formalmente o Estado de Moçambique sobre a existência de um diferendo, ao abrigo de acordos sobre a promoção e proteção recíproca internacional de investimentos.”

O Governo, chamado a reagir, defendeu, por via do porta-voz do conselho de ministros  que a empresa está livre de recorrer a instâncias de arbitragem sobre o assunto e que a posição do governo é protegida por acordos assinados entre as parte e que visa garantir que os moçambicanos terem todos os ganhos que tem direito.

Segundo a Galp, a carta remetida para o efeito abre a possibilidade para um período de discussão entre a Galp e o Estado Moçambicano tendo em vista a resolução do diferendo previamente a um processo de arbitragem internacional destinado a proteger os investimentos realizados pela Galp em Moçambique.

Reunido esta terça-feira na sua 34.ª Sessão Ordinária, o Conselho de Ministros apreciou e aprovou duas leis, dois decretos e quatro resoluções, para além de apreciar o relatório da visita do chefe do Estado, Daniel Chapo, na Assembleia Geral da ONU e a visita a Malawi.

Foi uma sessão que teve mais debate e mais apreciações dos instrumentos que vão guiar o país em termos económicos, políticos e sociais. O mais relevante dos assuntos apreciados pelo Conselho de Ministros é a Proposta de Lei que aprova o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para o Ano de 2026, a submeter à Assembleia da República. 

O PESOE 2026, segundo o Conselho de Ministros, “orienta a alocação criteriosa e estratégica dos recursos públicos, assegurando o cumprimento das metas do Programa Quinquenal do Governo”. As prioridades incidem sobre a estabilidade macroeconómica, a eficiência na despesa pública e a promoção da transparência e da prestação de contas.

Desta forma, a alocação de recursos para 2026, segundo o comunicado do Conselho de Ministros, “centra-se no investimento em infra-estruturas produtivas, logísticas e sociais, com destaque para transportes, digitalização, estradas, educação e saúde”.

A Lei prevê receitas do Estado no montante de 421.959.000,00 mil Meticais, despesas do Estado fixadas em 535.623.800,00 mil Meticais, e um défice orçamental de 113.664.800,00 mil Meticais.

Outra Proposta de Lei apreciada é de Autorização Legislativa que autoriza o Governo a aprovar o Regime Jurídico do Exercício da Actividade Comercial, a submeter à Assembleia da República.

O Conselho de Ministros escreve ainda que “a Lei vai permitir a aprovação de um quadro normativo que versa sobre o ordenamento da actividade comercial e prestação de serviços mercantis, no qual se destacam disposições sobre a classificação da rede comercial e da prestação de serviços mercantis em função das suas dimensões; as diferentes actividades realizadas pelos comerciantes e as modalidades de venda das diferentes actividades realizadas pelos comerciantes; o quadro de garantias de bens e serviços pós-venda; e a definição dos moldes de implantação territorial dos estabelecimentos comerciais nas áreas urbanas, suburbanas e rurais”.

Outrossim, o Conselho de Ministros desta terça-feira apreciou e aprovou o Decreto que atribui a Concessão do Empreendimento Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa à Central Hidroelétrica de Mphanda Nkuwa, S.A, e aprova os respectivos Termos de Condições para a Concepção, Construção, Posse, Operação, Manutenção, Financiamento, Seguro e Gestão de uma Central Eléctrica, para a Produção e Venda de Energia Eléctrica Produzida, com Capacidade Total Instalada de até 1500 MW e delegada ao Ministro que superintende a área de Energia a competência para assinar, em nome do Governo, o respectivo Contrato.

Apreciou e aprovou ainda o Decreto que altera e republica o Decreto n.º 31/2024, de 16 de Maio, que cria o Millennium Challenge Account – Moçambique (MCA-Moçambique) e aprova o respectivo Estatuto Orgânico, que visa adequar o enquadramento legal e institucional da MCA-Moçambique às exigências actuais de governação, estrutura do Governo, articulação interministerial e implementação eficaz do Compacto II, e o Decreto que aprova o Regulamento de Exercício da Actividade de Transporte Rodoviário.

Ainda na 34ª Sessão, o Conselho de Ministros apreciou a Resolução que autoriza o Ministério que superintende a área de Transporte e Logística a lançar o concurso público internacional para a concessão do Projecto Integrado de Modernização e Expansão da Fronteira de Machipanda, em regime de Parceria Público-Privada, a Resolução que ratifica o Acordo entre o Governo da República de Moçambique e o Governo da República da Colômbia sobre Isenção de Visto para Titulares de Passaportes Diplomáticos ou de Serviço, assinado a 28 de Outubro de 2024, em Cali, República da Colômbia.

O Governo apreciou as informações sobre o Programa de Conectividade e Resiliência Costeira (Compacto II), a previsão hidrológica sazonal para a época chuvosa 2025/2026, as intervenções do Sector do Ambiente nos empreendimentos mineiros na província de Tete e a 22.ª Reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros Africanos e os Países Nórdicos, realizada em Victoria Falls, Zimbabwe, de 2 a 3 de Outubro de 2025.

A Sessão apreciou também o relatório da participação de Daniel Chapo na 80.ª Sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, de 18 a 23 de Setembro de 2025, em Nova Iorque, e o relatório da visita de trabalho à República do Malawi, para participar na cerimónia de investidura de Arthur Peter Mutharika, a 4 de Outubro de 2025, em Blantyre.

Os níveis de poupança da população adulta moçambicana são menores que a média dos países da região austral de África. Os dados constam do último relatório de inclusão financeira do Banco de Moçambique.

Poupar dinheiro em Moçambique continua a ser um grande desafio. Embora os dados referentes ao ano 2024 mostrem algumas melhorias, 80% da população continua a não guardar as suas economias a prazo em contas bancárias.

Segundo o mais recente relatório sobre inclusão financeira do Banco de Moçambique, apenas 20% da população moçambicana faz poupança, fasquia que está abaixo da média da região da SADC que ronda em média nos 29%.

“No contexto da SADC, Moçambique posiciona-se num patamar intermédio, mas o défice na poupança formal impõe a necessidade de políticas que incentivem hábitos de poupança e reforcem a inclusão financeira”. 

Com níveis reduzidos de poupança, a população fica com menos capacidade para investir, o que reduz a capacidade de crescimento do país.

Na região, Zâmbia, Namíbia e Botswana lideram o ranking de poupança. Enquanto, Zimbabwe e Madagáscar têm os níveis mais baixos de poupança.

Mesmo estando abaixo da média regional, a poupança da população moçambicana cresceu no ano passado, com os depósitos totais em percentagem do Produto Interno Bruto a aumentarem 4 pontos percentuais, para 49 %. 

De acordo com o relatório que temos vindo a citar, a poupança beneficiou da estabilidade de preços no ano passado, apesar das incertezas económicas, o que incentivou os agentes económicos a reforçarem as suas reservas financeiras.

Economistas consideram positiva a decisão do Banco de Moçambique de reduzir a taxa de juro da política monetária de 10,25% para 9,75%, porém é possível que a  medida não traga benefícios concretos.

O Comité de Política Monetária do Banco de Moçambique decidiu reduzir a taxa de juro de referência de 10,25% para 9,75%. Esta medida é considerada positiva pelos economistas, embora alertem para possíveis impactos na economia do país.

“Haverá um alívio no valor das prestações que famílias e empresas têm de reembolsar aos bancos comerciais. Esse valor fica atenuado em cerca de 50 pontos base. Esse deveria ser o efeito directo; contudo, como referi, infelizmente não há uma correspondência de um para um. Haverá uma variação, sim, mas não de 50 pontos base: poderá ser de 30, 40, seja o que for.

O nosso desejo era que o efeito fosse directo: se a taxa baixou 50 pontos base, também deveria reduzir-se em meio ponto percentual”, analisou Magaço.

Por sua vez, a economista Piedade Dias, também entrevistada pela STV, considera que, embora a medida seja positiva, face ao cenário em que a economia do país se encontra, é pouco provável que venha a trazer benefícios concretos.

“Baixar a taxa significa reduzir o custo dos empréstimos, e isso pode impactar positivamente o acesso ao crédito, mas, no contexto em que nos encontramos, em que a economia ainda sofre os efeitos da tensão pós-eleitoral, não acreditamos que seja uma medida capaz de gerar benefícios reais. Basta ver que, desde o início do ano, a taxa estava fixada em cerca de 12,75% e agora encontra-se em 9,75%, uma redução de cerca de três pontos percentuais, que deveria ter um impacto visível no custo de vida, uma vez que a taxa de juro tem uma relação directa com a inflação.”

Segundo a economista, esta medida só contribuirá para a recuperação económica do país se os bancos comerciais acompanharem a redução e se famílias e empresas se mostrarem dispostas a recorrer a essas linhas de financiamento.

“Pode, de facto, ajudar na recuperação económica se os bancos comerciais acompanharem essa redução, porque o Banco de Moçambique dá o sinal, mas quem tem de a efectivar são os bancos comerciais, cuja finalidade é precisamente financiar, já que existem para vender dinheiro. Esse é o seu papel. Portanto, se o Banco de Moçambique reduzir, eles devem acompanhar a redução, mas, mais do que isso, é essencial que famílias e empresas estejam disponíveis para recorrer a essas linhas de crédito. O que está a acontecer é que os bancos comerciais até podem baixar as taxas de juro dos empréstimos, mas os operadores económicos, devido à incerteza que a economia atravessa, têm dificuldade em aceder ao financiamento”, explicou.

O banco central continua preocupado com o elevado nível da dívida pública interna. E, segundo os economistas, é necessário haver mais controlo da despesa pública, uma vez que esta também exerce pressão sobre o sistema financeiro.

 

Prime Rate desce para 16,50% em Outubro

A taxa de juro de referência para o crédito em Moçambique vai manter-se nos 16,50% durante o mês de Outubro, anunciou a Associação Moçambicana de Bancos (AMB) em comunicado. O anúncio surge dias após a actualização da política monetária.

O custo do dinheiro poderá tornar-se mais baixo nos próximos dias, dado que a taxa de juro da política monetária tende a reduzir. No passado dia 29 de Setembro, o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, anunciou a descida deste instrumento de 10,25% para 9,75%.

A Prime Rate resulta da soma do Indexante Único, calculado pelo Banco de Moçambique (fixado em 10,30%), com o Prémio de Custo, definido pela AMB (estabelecido em 6,20%). Este mecanismo visa aumentar a transparência na formação das taxas de juro variáveis e reforçar a transmissão da política monetária.

Desde Janeiro de 2024 que se registam descidas sucessivas, após seis meses em que a taxa permaneceu no valor histórico de 24,10%. Em Agosto, caiu para 17,20% e em Setembro, para 16,50%, valor que agora se mantém em Outubro.

As instituições financeiras devem aplicar esta taxa como referência em operações de crédito de taxa variável, acrescentando ou reduzindo um spread em função do risco do cliente e da operação. Nos bancos comerciais, os spreads variam entre 1% e 12%, consoante o tipo de crédito — habitação, consumo, leasing mobiliário ou imobiliário, bem como empréstimos de curto e longo prazo. Já nas instituições de microfinanças, os spreads são significativamente superiores: para créditos de consumo a particulares podem atingir 64,45%, enquanto para crédito a empresas oscilam entre 4% e 25,50%.

O documento estabelece ainda condições uniformes para a concessão de crédito. Nos bancos comerciais, exige-se um histórico bancário mínimo de seis meses, ausência de incidentes na Central de Registos de Crédito, garantias que cubram até 120% do valor financiado e contratação de seguros obrigatórios. O prazo máximo é de 20 anos para habitação, cinco anos para consumo e sete anos para empresas. Nas microfinanças, as condições seguem princípios semelhantes, mas adaptados ao perfil dos clientes: são requeridos comprovativos de rendimento, colaterais, garantias e seguros. Para funcionários públicos, existe um regime especial que permite prazos até 84 meses, com retenção das prestações directamente na fonte.

Desde Setembro de 2022 que a taxa directora se mantinha nos 17,25%, mas a partir de Janeiro de 2024 iniciou-se um ciclo de cortes graduais que já acumula uma descida de 700 pontos base. Apesar disso, a Prime Rate apenas acompanhou parcialmente este movimento, reduzindo cerca de 600 pontos base no mesmo período.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta para a necessidade de reformas urgentes nas finanças públicas de Moçambique, destacando que o crescimento da dívida pública e o persistente défice fiscal representam desafios significativos para a sustentabilidade económica do país. Segundo o FMI, o governo deve priorizar a contenção da despesa pública, numa altura em que a receita fiscal, que representa cerca de 27% do Produto Interno Bruto (PIB), não cobre totalmente as obrigações do Estado, incluindo o serviço da dívida e as despesas correntes.

A dívida pública e o défice fiscal voltaram a ocupar o centro do debate económico nesta quinta-feira, no país. 

Num encontro que teve lugar na Confederação das Associações Económicas de Moçambique, o representante do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Moçambique, Olamide Harrison, lembrou que sem disciplina orçamental o país não conseguirá manter a confiança dos parceiros nem atrair financiamento externo em condições favoráveis.

“O défice fiscal resulta de uma despesa pública que supera largamente as receitas. A nossa cobrança ronda os 27% do PIB, mas a despesa está nos 34%. É preciso cortar do lado da despesa, porque não há espaço imediato para aliviar a carga tributária”, advertiu. 

Do lado empresarial, a preocupação centra-se no impacto directo que a dívida e o défice têm sobre o sector privado. Eduardo Macuácua, director-executivo-adjunto da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA), afirmou que é insustentável continuar a sobrecarregar uma minoria de empresas formais enquanto a maior parte da economia permanece fora da base tributária. “Hoje apenas 20% a 30% da economia formal é que suporta os impostos, enquanto a maioria da economia informal pouco contribui. Defendemos que haja uma reforma que alargue a base tributária, em vez de sobrecarregar as mesmas empresas”, declarou.

Macuácua acrescentou que o recurso do Estado a bilhetes de tesouro no mercado interno “retira recursos que deviam estar a financiar o sector produtivo” e agrava os custos de financiamento. O dirigente da CTA sublinhou ainda que a elevada taxa de juros, a dificuldade de acesso a divisas e a instabilidade fiscal estão a tornar o ambiente de negócios cada vez menos competitivo.

As críticas surgiram durante um encontro que juntou a CTA, o FMI e a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). O presidente da CTA, Álvaro Massingue, e o presidente do Conselho Empresarial Nacional, Noor Momade, lideraram a delegação empresarial, enquanto Mário Ferreira, recém-nomeado delegado da AICEP em Moçambique, participou pela primeira vez numa reunião formal com o sector privado nacional.

Mário Ferreira sublinhou que Portugal quer reforçar a presença em Moçambique em áreas estratégicas como energia, turismo e infra-estruturas, mas reconheceu que o país enfrenta sérios desafios macroeconómicos. “Há dificuldades, mas nas dificuldades também estão as oportunidades. Portugal tem experiência e interesse em continuar a investir neste mercado em franco crescimento”, afirmou.

No encontro, Noor Momade lançou um apelo à cooperação reforçada, convidando as empresas portuguesas a participarem com maior expressão na 20.ª Conferência Anual do Sector Privado (CASP), marcada para Novembro, e recordou que, um mês depois, terá lugar, em Lisboa, uma cimeira luso-moçambicana. “Estes encontros são estratégicos, porque permitem trocar experiências em áreas como turismo e energia, e fortalecer a cooperação entre os dois países”, disse.

Apesar do tom de cooperação, os números não deixam margem para dúvidas. A dívida pública moçambicana já representa cerca de 90% do PIB, um valor considerado insustentável por vários analistas. O défice fiscal, estimado em mais de 7% do PIB, continua a obrigar o Governo a financiar-se através de dívida interna e externa, num ciclo que agrava os encargos com juros e limita a capacidade de investimento em sectores sociais como saúde, educação e infra-estruturas.

O representante do FMI sublinhou que este é um problema estrutural. “Não se trata apenas de aumentar a receita, mas sobretudo de controlar a despesa e melhorar a qualidade da execução orçamental. O espaço para subir impostos é muito limitado, porque já existe uma carga significativa sobre o sector formal. O esforço deve ir no sentido de alargar a base e combater a evasão”, disse.

O discurso encontra eco nas críticas recorrentes do sector privado, que há anos denuncia um sistema fiscal pouco competitivo, assente em poucos contribuintes e marcado por taxas elevadas. A CTA defende uma reforma abrangente da política fiscal, que passe não apenas pela simplificação dos impostos, mas também pela redução da burocracia e pela digitalização dos processos, de forma a incluir mais operadores no sistema formal.

Para além da tributação, outro dos pontos levantados foi a escassez de divisas, que dificulta a importação de matérias-primas e penaliza a competitividade das empresas nacionais. Segundo a CTA, o problema agrava-se porque o Estado capta uma parte significativa dos recursos disponíveis no sistema financeiro, ao mesmo tempo que as taxas de juro elevadas desincentivam o investimento.

A situação actual é resultado de uma trajectória longa. Desde a crise da dívida oculta, em 2016, que Moçambique enfrenta dificuldades em aceder a financiamento externo em condições favoráveis. Apesar da retoma do apoio orçamental em 2022, no âmbito do programa com o FMI, o país continua preso a um ciclo de endividamento que compromete a sua sustentabilidade. Nos últimos anos, o peso da dívida aumentou, não apenas devido ao défice fiscal, mas também à necessidade de responder a choques externos, como a pandemia de Covid-19, os ciclones e o impacto da guerra na Ucrânia nos preços da energia e dos alimentos.

Comparações com países vizinhos revelam que Moçambique está acima da média em termos de endividamento. Enquanto economias como Tanzânia e Botswana apresentam rácios de dívida mais baixos e maior previsibilidade fiscal, Moçambique continua a enfrentar uma forte pressão sobre as suas contas públicas, o que limita a sua atractividade como destino de investimento.

Dados oficiais mostram que, entre 2015 e 2023, a dívida pública de Moçambique passou de cerca de 60% para quase 90% do PIB. No mesmo período, a despesa com o serviço da dívida cresceu de 9% para mais de 20% da despesa pública total, absorvendo recursos que poderiam ser direccionados para investimento social. O défice fiscal, que se situava em torno dos 4% do PIB em 2019, agravou-se nos anos seguintes, tendo ultrapassado os 7% em 2023, segundo estimativas do próprio Governo.

Vários especialistas lembram que outros países africanos conseguiram reduzir o peso da dívida através de reformas fiscais e de maior transparência. O Gana, por exemplo, implementou medidas de disciplina orçamental após uma crise semelhante em 2015, alargando a base tributária e introduzindo mecanismos digitais de cobrança. Embora o processo esteja longe de concluído, a trajectória é vista como uma referência para países em situação semelhante.

Para Portugal, Moçambique continua a ser visto como um parceiro estratégico, não apenas pelo potencial económico, mas também pelos laços históricos e culturais. O delegado da AICEP destacou que várias empresas portuguesas mantêm interesse em investir em áreas como construção, energia e turismo, mas alertou que a estabilidade macroeconómica será determinante para garantir que esses investimentos sejam sustentáveis.

Do lado do sector privado moçambicano, a mensagem foi clara: sem uma reforma profunda na política fiscal e sem disciplina na gestão da despesa pública, o peso da dívida e do défice continuará a sufocar a economia e a travar o crescimento. “Precisamos de um Estado que seja parceiro, não concorrente, no acesso ao crédito e na criação de condições para produzir. Só assim poderemos gerar mais emprego e riqueza”, sublinhou Eduardo Macuácua.

O encontro terminou com a promessa de mais diálogo entre as partes. O FMI comprometeu-se a apoiar tecnicamente Moçambique na definição de medidas para conter o défice e tornar a dívida sustentável. A CTA reafirmou a sua disponibilidade para trabalhar com o Governo em propostas de reforma fiscal, enquanto a AICEP garantiu que Portugal continuará a apostar em Moçambique como destino prioritário de investimento em África.

Apesar do consenso entre os participantes, os desafios permanecem. A execução orçamental tem mostrado pouca disciplina, e a capacidade política para implementar reformas profundas continua a ser testada. A proximidade de novos ciclos eleitorais poderá agravar a tentação de expandir a despesa, adiando decisões que, embora impopulares, são necessárias para devolver sustentabilidade às contas públicas.

A mensagem deixada pelos intervenientes foi inequívoca: a dívida pública e o défice fiscal não são apenas números de contabilidade do Estado; são factores que condicionam o futuro da economia, a capacidade de criar empregos e a qualidade de vida dos cidadãos. O desafio imediato é transformar o diagnóstico em acção concreta, antes que a factura se torne insuportável para as próximas gerações.

A petrolífera americana Exxon Mobil vai demitir aproximadamente dois mil funcionários em todo o mundo, cerca de 4% da sua força de trabalho, como parte de um plano de “reestruturação”, avançou, nesta quinta-feira, a Bloomberg.

O anúncio ocorre num momento em que se verifica uma onda de demissões no sector de energia dos EUA e menos de um mês após a Conoco Phillips, outra grande empresa do sector petrolífero, anunciar planos de demitir até um quarto da sua força de trabalho.

Especificamente, a “reestruturação” da Exxon significará demitir entre 3% e 4% dos seus funcionários em todo o mundo e está focada na redução de custos, de acordo com a Lusa, que cita a Bloomberg.

Sob o Governo de Donald Trump, o preço do barril de petróleo bruto do Texas caiu para cerca de 67 dólares, em comparação com os quase 75 dólares por barril que era negociado antes da sua posse, o que afectou as empresas petrolíferas nos EUA, reduzindo os seus lucros.

 

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