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O Banco Mundial decidiu suspender todas as suas operações e o desembolso de fundos na Guiné-Bissau, na sequência da recente instabilidade política e da quebra da ordem constitucional no país. Segundo o Banco Mundial, a decisão resulta da aplicação das suas normas internas, que determinam a interrupção do apoio financeiro sempre que um país passa a ser governado por autoridades consideradas de facto, fora do quadro constitucional.

Na prática, a suspensão traduz-se no congelamento imediato de projectos em curso, na interrupção de novos financiamentos e na paralisação de desembolsos já aprovados. A medida afecta programas nos sectores da saúde, educação, infra-estruturas, governação e protecção social, áreas que têm beneficiado do apoio contínuo do Banco Mundial na Guiné-Bissau.

Segundo informações tornadas públicas, a decisão enquadra-se na Política Operacional OP 7.30 – “Dealings with De Facto Governments”, documento oficial do Banco Mundial que orienta a actuação da instituição em contextos de ruptura constitucional. “O Banco deve suspender desembolsos e novas operações quando não estejam reunidas as condições mínimas de legitimidade institucional e previsibilidade administrativa”, lê-se no documento.

A mesma política estabelece que o Banco Mundial apenas pode manter relações financeiras com um país quando reconhece que as autoridades no poder dispõem de capacidade legal e administrativa para honrar compromissos internacionais. “Em situações de governos de facto, o Banco deve avaliar se as autoridades possuem capacidade para representar o país e assegurar a utilização adequada dos recursos”, aponta a OP 7.30.

Em contextos de golpes de Estado ou de transições políticas não reconhecidas, o documento recomenda cautela acrescida. “A continuidade das operações financeiras só deve ocorrer quando existirem garantias razoáveis de que os fundos não serão comprometidos por instabilidade política ou administrativa”, sublinha o Banco Mundial no mesmo texto.

No caso concreto da Guiné-Bissau, fontes próximas do processo indicam que a instituição considera não estarem reunidas, neste momento, as condições exigidas pela sua política interna para a continuidade do financiamento. O Banco Mundial afirma estar a acompanhar a evolução da situação política e institucional, esclarecendo que a decisão não representa um afastamento definitivo. “Trata-se de uma suspensão temporária, sujeita a reavaliação à medida que a situação política evoluir”, aponta uma fonte da instituição citada pela imprensa internacional.

O Banco Mundial tem sido, nas últimas décadas, um dos principais parceiros de desenvolvimento da Guiné-Bissau, financiando projectos estruturantes e programas de apoio orçamental. Entre as iniciativas agora afectadas constam projectos ligados ao reforço do sistema de saúde, à melhoria do acesso à educação básica, à reabilitação de estradas e ao fortalecimento da administração pública. A interrupção destes financiamentos poderá ter impactos directos na execução de políticas públicas e na prestação de serviços essenciais à população.

Apesar da suspensão, o Banco Mundial esclarece, no próprio documento OP 7.30, que mantém canais de diálogo técnico e institucional, sobretudo em matérias sensíveis. “A suspensão de operações não impede o contacto técnico necessário para salvaguardar interesses humanitários essenciais e o acompanhamento macroeconómico”, lê-se na política operacional.

Refira-se que a Guiné-Bissau enfrenta, há vários anos, um histórico de instabilidade política que tem condicionado o acesso a financiamento externo e atrasado reformas estruturais. A nova suspensão reacende o debate sobre os custos económicos e sociais das crises políticas recorrentes, num país marcado por fragilidades institucionais e elevados níveis de pobreza.

O Banco de Moçambique e os bancos comerciais decidiram reduzir a Prime Rate, taxa de referência para a concessão de crédito a famílias e empresas, para 15,70% em Janeiro, uma descida de 0,10 pontos percentuais face a Dezembro, quando se situava em 15,80%.

A redução foi anunciada no âmbito da implementação do Acordo sobre o Indexante Único do Sistema Bancário Moçambicano, mecanismo que regula a formação das taxas de juro variáveis aplicáveis às operações de crédito no país.

Segundo a Associação Moçambicana de Bancos (AMB), a Prime Rate actualmente em vigor resulta da soma do Indexante Único, fixado em 9,50%, e do Prémio de Custo, estabelecido trimestralmente em 6,20%.

“No quadro da implementação do Acordo sobre o Indexante Único, a AMB comunica o Indexante Único, o Prémio de Custo e a Prime Rate a vigorar em Janeiro de 2026”, refere o comunicado.

Com a descida da taxa, famílias e empresas com créditos indexados à Prime Rate poderão beneficiar de algum alívio no serviço da dívida, ainda que de forma gradual.

A AMB explica que a evolução da Prime Rate está directamente ligada à trajectória da taxa de juro de política monetária (MIMO), já que esta integra o cálculo do Indexante Único, indicador baseado na taxa média ponderada das operações do Mercado Monetário Interbancário, com prazo de um dia útil.

Este indicador reflecte operações entre o Banco de Moçambique e os bancos comerciais à taxa MIMO, bem como operações de recompra e permutas de liquidez entre instituições bancárias.

Desde Janeiro de 2024, a Prime Rate tem seguido uma trajectória descendente. Após seis meses consecutivos no nível máximo de 24,10%, desceu para 17,20% em Agosto, 16,50% em Setembro, manteve-se estável em Outubro, e recuou sucessivamente: 16% em Novembro, 15,80% em Dezembro e 15,70% em Janeiro de 2026.

Esta tendência acompanha os cortes sucessivos da taxa MIMO, que esteve em 17,25% desde Setembro de 2022, e começou a ser reduzida de forma contínua a partir de 31 de Janeiro de 2024. A AMB destaca que a descida da Prime Rate ocorre de forma faseada, devido à inclusão do Prémio de Custo, que reflecte os riscos da actividade bancária não incorporados no mercado interbancário.

A associação recorda que a Prime Rate constitui a taxa de referência única para os créditos de taxa variável no sistema financeiro nacional, à qual se acrescenta um spread, definido por cada instituição de crédito, em função do risco, tipo de produto, prazo, garantias e perfil do cliente.

O Acordo sobre o Indexante Único visa, segundo a AMB, reforçar a transparência na fixação das taxas de juro, melhorar a transmissão da política monetária e permitir que os clientes acompanhem com maior clareza o impacto das decisões do banco central no custo final do crédito.

A Associação Industrial de Moçambique (AIMO) afirma que a centralização das importações de arroz no Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) poderá ter impactos significativos nos sectores industriais dependentes de matéria-prima externa, apontando como um dos principais riscos a perda de autonomia na cadeia de abastecimento.

O Governo decidiu centralizar as importações de cereais, com destaque para o arroz e o trigo, no ICM, justificando a medida com a necessidade de combater práticas como a sobrefacturação, a saída ilegal de divisas e a duplicação de facturas no processo de importação destes produtos.

Entretanto, para a AIMO, a medida poderá resultar no aumento de custos, compressão de margens e no risco de rupturas de stock, caso se verifiquem atrasos nos processos de procurement, financiamento ou desembaraço aduaneiro.

A associação manifesta preocupação com os impactos da Deliberação Ministerial n.º 132/2025 sobre as operações das empresas industriais nacionais, defendendo que a iniciativa só será eficaz se for implementada de forma transparente, previsível e participativa.

Num comunicado de imprensa divulgado nesta semana, a AIMO reconhece os objectivos estratégicos do Governo, nomeadamente o reforço do controlo das saídas de divisas, o combate à sobrefacturação e à duplicação de facturas, bem como a necessidade de assegurar a estabilidade do abastecimento interno. Contudo, sublinha que “a eficácia da medida dependerá de uma implementação transparente, previsível e participativa”, envolvendo o sector privado na definição dos procedimentos técnicos e operacionais.

A associação alerta ainda para constrangimentos no planeamento financeiro das empresas, uma vez que estas terão de ajustar os seus modelos de gestão do fundo de maneio, exposição cambial e previsibilidade dos prazos de fornecimento. Ainda assim, admite que, se correctamente executado, o modelo poderá gerar benefícios, como maior estabilidade dos preços internos e eventuais ganhos decorrentes de economias de escala.

No mesmo comunicado, a AIMO esclarece não ter conhecimento de que as indústrias que representa estejam associadas às irregularidades apontadas pelo Executivo, afirmando acreditar que estas empresas “gerem as operações de importação do sector industrial de forma rigorosa”. A associação defende, por isso, a necessidade de distinguir eventuais infractores dos operadores que cumprem integralmente a lei.

Como alternativa, a AIMO propõe a adopção de um modelo híbrido, que combine a protecção da produção nacional com a autorização de importações complementares para colmatar o défice entre a produção interna e o consumo real. Segundo a associação, este modelo permitiria equilibrar o controlo da cadeia de importação com a competitividade, a estabilidade e o crescimento sustentável do sector industrial.

Apesar da ausência de consensos em torno da medida, a AIMO reafirma o seu compromisso de cooperar com o Governo, defendendo que a previsibilidade das políticas públicas é essencial para garantir investimento, emprego e competitividade. A associação assegura ainda que irá acompanhar a implementação da medida, auscultando as empresas industriais para avaliar os seus impactos.

Sobre o mesmo tema, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) já se pronunciou através do pelouro do Comércio Internacional, considerando que o ICM não tem capacidade para dar vazão às importações de cereais.

“Cada importador tem o seu fornecedor e conhece a sua matéria-prima. Enquanto o ICM não tem a expertise necessária para realizar o procurement e assegurar a mesma qualidade que alguns importadores actualmente garantem, o ICM vai assumir uma tarefa para a qual, à partida, não tem capacidade. Não pode regular e, simultaneamente, ser o próprio responsável pela importação”, explicou Pedro Salouse.

Segundo o sector privado, a medida poderá gerar ineficiências, aumento dos preços dos produtos e até o encerramento de algumas empresas.

“As empresas que conseguirem repercutir os custos no consumidor final irão fazê-lo. As que não conseguirem poderão encerrar. Estaremos perante um mercado em que o único vendedor será o ICM, sem espaço para negociação de preços, como actualmente acontece com fornecedores internacionais”, acrescentou Salouse.

Os empresários reiteram que a decisão, prevista para entrar em vigor em Fevereiro próximo, representa um retrocesso, defendendo que o ICM não tem capacidade para responder às necessidades nacionais.

O Porto de Maputo alcançou, em 2025, o maior volume de carga da sua história, ao movimentar 32 milhões de toneladas, um crescimento de 3,4% face a 2024, ano em que foram registadas 30,9 milhões de toneladas. Os dados foram divulgados recentemente pela Sociedade de Desenvolvimento do Porto de Maputo (MPDC), concessionária responsável pela gestão e exploração da infra-estrutura portuária, que classifica o desempenho como um marco relevante para o sistema logístico nacional e regional.

Em comunicado, a MPDC descreve 2025 como “um ano marcado por um crescimento histórico, expansão da capacidade e investimento contínuo no sistema logístico de Moçambique”, sublinhando que os resultados obtidos reflectem a consolidação de um modelo integrado de porto e corredor logístico.

A empresa acrescenta que o desempenho resulta de um trabalho contínuo de modernização operacional, melhoria de processos e reforço da articulação com operadores ferroviários, rodoviários e terminais especializados ao longo do corredor de Maputo.

Em 2024, a empresa aponta que registou um volume de carga manuseada de 30,9 milhões de toneladas movimentadas, uma redução de 1% em relação a 2023. 

Segundo o Porto de Maputo, a redução dos volumes totais deveu-se principalmente aos protestos pós-eleitorais e aos bloqueios rodoviários no corredor de Maputo, incluindo o encerramento da fronteira durante vários dias e ao condicionamento da operações fronteiriças e rodoviárias durante mais de um mês.

No período acima referido, o corredor ferroviário entre a África do Sul e Moçambique foi também afectado pelos protestos e bloqueios, a par de um descarrilamento em Outubro/Novembro, que levou ao encerramento da linha durante um mês.

Apesar do período conturbado nas actividades do porto, a empresa aponta que “em 2024 foi o aumento das receitas resultantes para o Estado das taxas de concessão pagas ao Governo de Moçambique, que aumentaram 12% para 46,8 milhões de dólares, em comparação com 41,7 milhões em 2023”.

O cenário foi diferente no ano passado, pois, para além do crescimento global, as operações directas da MPDC também registaram um desempenho sem precedentes. Em 2025, a concessionária movimentou “15,2 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 6,4% em relação ao ano anterior”. De acordo com o comunicado, este resultado reflecte o impacto dos investimentos sustentados em infra-estruturas, sistemas e capital humano, bem como as melhorias contínuas na eficiência operacional”. A MPDC sublinha que estes investimentos permitiram aumentar a produtividade e reduzir constrangimentos operacionais em diferentes segmentos do porto.

Outro destaque do balanço de 2025 é o crescimento do transporte ferroviário, apontado como um dos pilares centrais da estratégia de sustentabilidade do Porto de Maputo. “Os volumes transportados por via férrea aumentaram 17%, passando de 9,7 milhões de toneladas em 2024 para 11,7 milhões de toneladas em 2025”. Para a concessionária, este crescimento confirma que “o reforço do uso do caminho-de-ferro é essencial para garantir um sistema logístico mais eficiente, competitivo e ambientalmente sustentável”.

A MPDC resulta de uma parceria entre os Portos e Caminhos-de-Ferro de Moçambique (CFM), empresa pública que gere os portos e a rede ferroviária do País, e a Portus Indico, participada pela multinacional DP World, um dos maiores operadores logísticos a nível mundial. Esta estrutura de concessão tem permitido mobilizar investimento privado e conhecimento técnico internacional, mantendo o alinhamento com os interesses estratégicos do Estado moçambicano.

O crescimento da actividade portuária traduziu-se também num reforço da contribuição financeira para o Estado. No ano passado, “as taxas de concessão pagas pela MPDC ascenderam a 48,9 milhões de dólares, acima dos 46,8 milhões de dólares registados em 2024, excluindo os benefícios adicionais gerados através de impostos e dividendos canalizados para os CFM”. Segundo a concessionária, “este aumento reflecte tanto o crescimento dos níveis de actividade como o compromisso contínuo da MPDC em gerar valor económico para o País”.

Citado no comunicado, o director-executivo da MPDC, Osório Lucas, afirmou que os resultados alcançados são fruto de um esforço conjunto ao longo de toda a cadeia logística. “Estes resultados reflectem o esforço colectivo das nossas equipas e parceiros em toda a cadeia logística. Alcançar volumes recorde, continuando a investir em capacidade, eficiência e impacto social, demonstra a maturidade e resiliência do Porto de Maputo.”

Lucas sublinhou ainda que a visão da concessionária vai além dos números registados num único ano. “O nosso foco continua a ser a construção de um corredor competitivo, integrado e sustentável, capaz de apoiar o desenvolvimento económico de Moçambique no longo prazo”, afirmou, recordando que a actual concessão do Porto de Maputo vigora até 13 de Abril de 2058.

O ano de 2025 ficou igualmente marcado por avanços em projectos estratégicos de infra-estrutura, considerados determinantes para a expansão futura do porto. Entre estes, destaca-se a conclusão da ponte-cais da ilha de Kanyaka, prevista para Março de 2026. De acordo com a MPDC, trata-se de um projecto com “significativo impacto social e económico”, que deverá melhorar de forma substancial o acesso, a mobilidade e a integração logística da comunidade local.

Em paralelo, o porto manteve o seu programa de investimentos destinado a aumentar a capacidade portuária e a eficiência do sistema logístico. A concessionária destaca “a expansão do terminal de granéis sólidos para 16 milhões de toneladas, a ampliação em curso do terminal de contentores da DP World para 530 mil TEUs, bem como as obras de aumento da capacidade do terminal de magnetite e carvão da Grindrod para 12 milhões de toneladas”. A MPDC refere ainda intervenções coordenadas ao longo do corredor logístico, envolvendo infra-estruturas como Km4, Kudumba e a concessionária rodoviária TRAC.

Segundo a empresa, estes investimentos estão totalmente alinhados com a estratégia de longo prazo de posicionar o Porto de Maputo como “um centro logístico moderno, competitivo e integrado”, capaz de responder às necessidades do comércio regional e internacional.

O Governo moçambicano vai passar a importar com exclusividade os cereais, com principal incidência para o arroz e o trigo, através do Instituto de Cereais de Moçambique. A medida visa travar a saída ilegal de divisas, garantir o abastecimento do mercado e estabilizar os preços internos destes produtos essenciais segundo o decreto Ministerial 132/2025.

O Instituto de Cereais de Moçambique passa a ser o agente do Estado com mandato para conduzir a importação de arroz e trigo para o país com exclusividade de acordo com o Diploma Ministerial n.º 132/2025.

Isto significa que as actuais empresas que importam estes produtos deverão passar a comprar localmente ao Instituto de Cereais de Moçambique, de acordo com o artigo 1 do Diploma, que refere que “é designado o Instituto de Cereais de Moçambique (ICM,IP) como agente do Estado com mandato para conduzir o processo de importação de cereais, especificamente o arroz e trigo, para o país, sem prejuízo de intervenção, nos termos da lei, de seus parceiros e demais agentes económicos na materialização da importação dos aludidos cereais”.

O Governo justifica a medida com a necessidade de travar a saída ilegal de divisas, resultante de sobre-facturação e duplicação de facturas na importação.

A medida entra em vigor em Fevereiro próximo para o caso do arroz, enquanto para o trigo a data do arranque é no primeiro dia de Maio, de acordo com o Diploma Ministerial n.º 132/2025. 

O diploma refere no seu Artigo 2 que “compete ao ICM, IP a disponibilização onerosa do arroz e trigo aos agentes económicos para a comercialização no mercado nacional”, e no Artigo 3 diz que “o presente mecanismo de importação é aplicável para o arroz, a partir do dia 1 de Fevereiro de 2026; e para o trigo, a partir do dia 1 de Maio de 2026”.

A operacionalização do decreto, bem como os termos e procedimentos operacionais para a sua execução, serão aprovados pelo Ministro que superintende a área do Comércio. 

O arroz está entre os três produtos mais importados, o que significa que até Fevereiro, o governo deverá gastar cerca de 441 milhões de dólares para importar 500 mil toneladas. Quanto ao trigo, o Executivo deverá mobilizar até Março 240 milhões de dólares para adquirir 450 mil toneladas.

A medida surge depois que o Governo de Moçambique limitou a importação de certos produtos para promover a produção nacional, com destaque para 16 produtos, entre os quais cerveja, carne, água engarrafada, arroz, trigo e milho.

Na ocasião, o Secretário de Estado do Comércio dizia que a medida pretende dar mais espaço à produção nacional, reduzir a dependência do exterior e tornar Moçambique auto-sustentável nos próximos três anos.

António Grispos justificou que a medida pretende explorar as potencialidades do país e lembrou que Moçambique já dispõe de produtos com importação vedada, como o óleo de cozinha, farinha de milho, de trigo, carnes, entre outros.  

“Alguns já temos, já produzimos e outros estão a crescer grandemente e com qualidade e podem vir a abarcar o mercado nacional na sua totalidade. É o caso das mobílias, é o caso do arroz que vai levar o seu tempo mas já temos alguma produção nacional. Com o nível de investimento que estão a ser analisados e aprovados, podemos dizer que nos próximos três ou quatro anos, nós podemos ser auto-suficientes em arroz, temos já uma produção auto-suficiente de carne , temos uma produção grande de farinha de milho”, disse Grispos em Dezembro do ano passado.

A produção de arroz em Moçambique é dominada por pequenos agricultores de subsistência (97,7%) em regime de sequeiro, resultando em baixos rendimentos e uma grande dependência de importações para cobrir o défice, apesar de o país ter um grande potencial para autossuficiência.

As principais províncias produtoras são Zambézia e Sofala, com desafios como alterações climáticas e falta de tecnologia, enquanto o governo implementa programas para aumentar a produção e investir em regadios, especialmente em Gaza, visando a autossuficiência até 2030.

Por outro lado, a produção de trigo em Moçambique está a ser relançada, focando na redução da dependência de importações através do desenvolvimento de sementes adaptadas e expansão de áreas de cultivo em províncias como Tete (Tsangano), Manica, Gaza, Niassa e Maputo (Manhiça), com o apoio de tecnologia chinesa e cooperação regional, visando alcançar a autossuficiência e suprir o mercado interno com variedades melhoradas.

O Governo prevê reabilitar e asfaltar mais de 350 quilómetros de estradas nacionais e regionais em 2026, no âmbito da implementação do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) 2026, aprovado pela Assembleia da República. As intervenções abrangem ainda a construção e manutenção de pontes, investimentos no sector ferroviário e melhorias na mobilidade urbana.

De acordo com o PESOE 2026, no domínio rodoviário, estão programadas a reabilitação de 129 quilómetros de estradas nacionais e 50 quilómetros de estradas regionais, bem como a asfaltagem de 165 quilómetros de estradas nacionais e 12 quilómetros de vias regionais. O plano inclui igualmente a construção de uma ponte e a manutenção de 14 pontes, além de intervenções regulares de conservação da rede viária, “visando assegurar a transitabilidade ao longo de todo o ano”, refere o documento.

O PESOE prevê ainda a realização de manutenção de rotina em cerca de 15 030 quilómetros de estradas classificadas e manutenção periódica em 162 quilómetros, medidas destinadas a preservar a transitabilidade, reduzir os custos de circulação de pessoas e mercadorias e prolongar a vida útil das infra-estruturas existentes. Segundo o Governo, estas acções visam melhorar a ligação entre os centros de produção e os mercados de consumo, reduzir o isolamento das zonas rurais e garantir maior fluidez no transporte de bens essenciais, “contribuindo para a integração económica do território”, lê-se no plano.

Os investimentos em estradas e transportes estão enquadrados no Pilar IV – Infra-estruturas, Organização e Ordenamento Territorial, que dispõe de 50,6 mil milhões de meticais, correspondentes a 9,7% da despesa total do Estado em 2026. Dentro deste pilar, o Executivo destaca o Programa de Infra-estruturas Económicas, considerado “um dos principais instrumentos para a retoma do crescimento económico, a facilitação do comércio interno e regional e a promoção da coesão territorial”, de acordo com o PESOE 2026.

O Orçamento do Estado para 2026 está fixado em 520,6 mil milhões de meticais, o equivalente a 31,8% do Produto Interno Bruto (PIB). O Governo sublinha que a alocação de recursos para infra-estruturas ocorre num contexto de consolidação fiscal, procurando conciliar a contenção da despesa pública com a necessidade de investimentos estruturantes capazes de impulsionar a economia, cujo crescimento está projectado em 2,8%, “num cenário marcado por desafios internos e externos”, refere o documento.

No sector ferroviário, o PESOE 2026 prevê a construção de 10 quilómetros da linha férrea Movene–Ressano Garcia, considerada estratégica para o escoamento de mercadorias e o reforço da ligação regional. O documento inclui igualmente a construção de cinco pontes no âmbito da duplicação da linha de Ressano Garcia, com o objectivo de aumentar a capacidade logística do sistema ferroviário e melhorar a eficiência do transporte de carga, “reforçando o papel do corredor de Maputo”, lê-se no plano.

No domínio da mobilidade urbana, o Executivo projecta a construção de 11 quilómetros de Bus Rapid Transport (BRT), numa aposta na melhoria do transporte público de massas, sobretudo em áreas urbanas de elevada densidade populacional, onde a pressão sobre os sistemas de mobilidade continua a crescer. Segundo o Governo, o investimento em soluções de transporte colectivo poderá contribuir para a redução do congestionamento rodoviário e dos custos associados ao transporte individual, “promovendo um sistema de mobilidade mais sustentável”.

Paralelamente, o Executivo estabelece uma ligação directa entre estes investimentos e a promoção do emprego, defendendo que as obras públicas previstas no PESOE 2026 terão impacto significativo na criação de postos de trabalho directos e indirectos. O documento refere que o sector das infra-estruturas absorve mão-de-obra em grande escala, sobretudo nas áreas da construção civil, engenharia, transporte, logística e serviços de apoio, “constituindo uma importante fonte de rendimento para milhares de famílias”.

O Governo considera ainda que, para além do emprego imediato gerado durante a execução das obras, a melhoria das infra-estruturas de transporte cria condições para o emprego sustentável, ao facilitar o investimento privado, estimular a actividade produtiva e ampliar o acesso aos mercados. “Estradas, pontes e sistemas de transporte eficientes são fundamentais para reduzir os custos de produção, aumentar a competitividade das empresas nacionais e promover um crescimento económico mais inclusivo”, lê-se no PESOE.

Apesar das restrições impostas pelo processo de consolidação fiscal e dos riscos associados a choques internos e externos, o Governo considera os investimentos em estradas e transportes essenciais para sustentar o crescimento económico previsto para 2026 e reforçar a resiliência da economia moçambicana, criando bases mais sólidas para o desenvolvimento sustentável do país, conclui o documento.

A Inspecção Nacional das Actividades Económicas (INAE) suspendeu as licenças de funcionamento de 93 estabelecimentos comerciais, incluindo unidades de hotelaria, restauração e bares, devido à violação das normas básicas de higiene, limpeza e segurança. A medida insere-se nas acções regulares de fiscalização levadas a cabo pela instituição em defesa dos direitos dos consumidores.

O director de Operações da INAE, Abel Bilal, afirmou recentemente que as suspensões se referem ao período compreendido entre Outubro do ano passado e o início deste mês.

No período acima referido, a instituição recebeu um total de 312 denúncias apresentadas por consumidores, sinalizando uma crescente preocupação da população com a qualidade dos serviços prestados.

Os dados foram divulgados durante uma conferência de imprensa em que a INAE fez o balanço das actividades desenvolvidas ao longo do período festivo. A análise incidiu sobre aspectos como o abastecimento de bens essenciais, o funcionamento dos serviços e o reforço das acções de fiscalização, com vista à protecção da saúde pública.

De acordo com a INAE, muitos dos estabelecimentos inspeccionados no país apresentavam condições inadequadas de higiene, falhas na conservação dos alimentos e ausência de medidas mínimas de segurança para clientes e trabalhadores. Em vários casos, as irregularidades detectadas representavam riscos directos para a saúde dos consumidores.

A instituição sublinha que a suspensão das licenças tem carácter preventivo e correctivo, sendo levantada apenas após a regularização das condições exigidas por lei e apela aos operadores económicos para que adoptem uma postura mais responsável, garantindo ambientes seguros e serviços de qualidade.

A INAE  reafirma o seu compromisso de continuar a actuar de forma rigorosa, promovendo padrões que assegurem o bem-estar da população e a confiança no mercado nacional.

O Fundo Soberano de Moçambique registou um crescimento significativo desde o início da sua operacionalização, alcançando um valor de mercado superior a 116 milhões de dólares. A informação foi tornada pública pelo Banco de Moçambique, nesta quarta-feira, que aponta uma valorização de cerca de seis por cento, impulsionada por novas transferências financeiras do Estado.

De acordo com os dados divulgados, a capitalização inicial do fundo teve início a 10 de Dezembro de 2025, quando o Governo transferiu para o banco central um montante de 109,9 milhões de dólares. Estes recursos resultam das receitas provenientes da exploração de gás natural, marcando oficialmente o arranque do instrumento financeiro criado para gerir parte da riqueza gerada pelos recursos naturais do país.

No fim de Dezembro, o Fundo Soberano apresentava um saldo de 110,1 milhões de dólares. Até o dia 6 de Janeiro, uma nova injecção de capital no valor de 6,1 milhões de dólares permitiu elevar o total acumulado para 116,41 milhões de dólares, consolidando a trajectória de crescimento do fundo.

O Banco de Moçambique, responsável pela administração operacional, esclarece que o Fundo Soberano constitui uma carteira de activos financeiros sujeita a critérios rigorosos de investimento, definidos por lei. 

O objectivo, segundo a entidade, é assegurar que os rendimentos provenientes dos recursos extractivos sejam utilizados de forma sustentável e estratégica, em benefício do desenvolvimento económico e social do país.

Nesta altura, o Banco de Moçambique executa a gestão financeira no mercado internacional, sob um sistema de controlo que inclui auditorias internas e externas. As autoridades defendem que este modelo reforça a transparência e a credibilidade do instrumento, considerado fundamental para a sustentabilidade das finanças públicas a longo prazo.

O Banco de Moçambique reforçou os procedimentos e obrigações legais relativos à abertura e movimentação de contas bancárias no exterior por entidades residentes no país e reitera que estas operações carecem de autorização prévia da autoridade cambial.

Segundo esclarece o banco central num comunicado a que o “O País Económico” teve acesso, “a legislação cambial em vigor determina que qualquer pedido para abertura de conta bancária fora do território nacional deve ser acompanhado de documentação adequada, capaz de comprovar a legitimidade e a finalidade da operação”.

Segundo a instituição, os requerentes devem, igualmente, demonstrar a origem dos fundos a movimentar, bem como a necessidade efectiva da conta no exterior.

O regulador cambial recomenda que as contas sejam abertas, preferencialmente, junto de instituições financeiras correspondentes de bancos autorizados a operar em Moçambique, uma medida que visa facilitar o acompanhamento das operações e reforçar os mecanismos de controlo financeiro.

Após a concessão da autorização, os titulares ficam obrigados a comunicar ao Banco de Moçambique, no prazo máximo de 30 dias a contar da data de abertura, o número e o domicílio da conta bancária. Adicionalmente, devem submeter, de forma trimestral, os extractos bancários, através de meios electrónicos, entrega física na sede do Departamento de Licenciamento e Controlo Cambial ou nas filiais do banco central, bem como por via postal.

O Banco de Moçambique alerta ainda para as situações de contas abertas no exterior sem autorização prévia, sublinhando que “os respectivos titulares devem requerer a regularização da sua situação, cumprindo os procedimentos legalmente estabelecidos”.

De acordo com a instituição, estas exigências têm como objectivo assegurar a transparência das operações financeiras internacionais, permitir um acompanhamento eficaz das movimentações de capitais e reforçar a estabilidade do sistema financeiro nacional.

Medida vai ajudar a controlar a saída descontrolada de divisas, dizem economistas

Chamados a analisar a medida do banco central, economistas afirmam que tal poderá ajudar no controlo das divisas que têm vindo a sair do mercado nacional de forma descontrolada, apesar de admitir que os recorrentes informes da instituição, não cinge somente a mitigação de escassez de moeda estrangeira, mas sim a necessidade de reforçar o cumprimento da Lei Cambial e salvaguardar a estabilidade macroeconómica do país.

Segundo o economista Moisés Nhanombe, a iniciativa visa recordar que a estabilidade cambial continua a ser um dos principais pilares da economia nacional, razão pela qual o banco entende ser necessário reforçar, com regularidade, os procedimentos que regem as operações de divisas.

“O objectivo não é sancionar, mas recordar que esta preocupação ainda existe e deve ser tida em consideração por todos os agentes económicos que actuam neste mercado”, explicou o economista.

Nhanombe sublinha que a medida permite ao banco central reforçar o rastreio do uso dos fundos nacionais, acompanhando a forma como as contas são movimentadas e os fins a que se destinam os recursos financeiros. Esta prática, segundo o analista, é fundamental para prevenir o branqueamento de capitais e o financiamento de actividades ilegais, incluindo o terrorismo.

O economista alerta, no entanto, para os custos associados ao cumprimento dos procedimentos exigidos, referindo que estes podem limitar a capacidade de alguns agentes económicos em aceder ao mercado cambial.

“Existe um custo de transacção associado a estes processos, o que pode fazer com que parte dos agentes económicos não esteja em condições de cumprir integralmente os requisitos”, observou.

Ainda assim, Moisés Nhanombe defende que o banco central deve ter consciência destes constrangimentos e adoptar medidas que equilibrem o rigor regulatório com a realidade operacional dos agentes económicos, de forma a garantir a estabilidade financeira sem comprometer a actividade económica.

Entretanto, para o economista Egas Daniel, a ideia do banco central pode passar por querer reduzir abusos no uso de cartões de débito e com isto propiciar a fuga de divisas no mercado nacional.

“Quero acreditar que a ideia central do legislador bancário, ao avançar com este tipo de decretos, pretende reduzir o uso abusivo dos cartões para pagamento de transacções comerciais e retiradas camufladas de divisas no país”, argumenta o economista, que não tem dúvidas de que “isso vai controlar a parte de divisas que sai do sistema financeiro com base neste tipo de transacções”.

A recente medida do banco central encabeça uma lista de alertas que o legislador tem vindo a emitir desde o último trimestre do ano passado, que visam em concreto evitar a volatilidade do sistema internacional.

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