O País – A verdade como notícia

O Instituto Nacional de Estatística (INE) revela que, depois de 12 meses consecutivos, ou seja, quatro trimestres de descalabro, a economia nacional cresceu, pela primeira vez, entre Outubro e Dezembro do ano de 2025.

Segundo o levantamento feito pela instituição pública, a actividade económica no País registou um crescimento de 4,7% no último trimestre do ano passado, depois de quedas de 0,85%, 0,94%, 3,92% e 5,69%, nos trimestres anteriores.

“O Produto Interno Bruto a preços de mercado (PIBpm) apresentou uma variação positiva de 4,67% no IV Trimestre de 2025, quando comparado ao mesmo período do ano 2024”, avança o Instituto Nacional de Estatística.

Segundo dados do INE, a maior parte dos ramos de actividade contribuíram para o melhor desempenho da economia nacional, com destaque para a indústria transformadora, com a variação da indústria manufactureira de 13,58%.

Ocupa a segunda posição, o sector primário, com variação positiva de 4,55%, induzido principalmente pelo ramo da Indústria de Extracção Mineira com variação de 6,64%. Por sua vez, o ramo da pesca teve uma variação de 1,12%.

O sector terciário aumentou 4,09%, induzido essencialmente pelo ramo de Hotéis e Restaurantes com variação de 21,72%, seguido pelo ramo dos serviços financeiros com variação de 7,29%, segundo as contas nacionais trimestrais.

Moçambique poderá ser gravemente afectado pela guerra no Irão, alerta o economista Joaquim Dai. É que muitos países produtores de petróleo estão envolvidos no conflito e isso pode encarecer o produto para importadores.

É mais um conflito que nos leva a lembrar o provérbio, segundo o qual, quando os elefantes lutam, o capim é que sofre. Os Estados Unidos da América e Israel atacaram o Irão e como resposta, este está a atacar aliados dos dois países.

Embora Moçambique diste de Irão em mais de sete mil quilómetros, a guerra naquele país asiático poderá trazer efeitos negativos à pérola do Índico. O alerta é do economista e pesquisador da área de hidrocarbonetos, Joaquim Dai.

“Quando cai ⅕ da oferta de combustível, o preço vai aumentar e para um país como Moçambique, que não é produtor nem refinador, vai procurar comprar no mercado internacional ao preço que estiver tabelado e isto terá impacto muito grave porque os preços vão aumentar e nosso país vai sair sacrificado”, alertou.

É que o Irão diz ter fechado o Estreito de Ormuz, localizado entre Irão e Omã, onde passam de 20 milhões de barris de petróleo por dia, usados no mundo. Dai alerta que o bloqueio vai aumentar o preço dos combustíveis para Moçambique.

“Bloqueando este pedaço do mar, fecha-se o abastecimento de 20% de combustíveis ao mundo. Isso tem impactos muito sérios. Metade deste produto que não vai passar por ali é consumido pela China, que tem sido motor de desenvolvimento mundial. Com a economia chinesa a aumentar a sua procura de combustível em outros fornecedores, o preço deste vai aumentar”, alerta.

Segundo Joaquim Dai, as reservas que o país possui são bastante limitadas. “Temos de pensar na transformação desses produtos petrolíferos para que não dependamos mais das importações. O que vai acontecer é que os próximos choques, se nós tivermos transformação de hidrocarbonetos em Moçambique, nós limitamos o choque para o nosso país”.

Diante desta situação, o economista sugere que Moçambique reinvente-se e crie condições para começar a transformar no país os hidrocarbonetos que possui.

“O impacto externo de uma falta de combustível nos mercados internacionais têm um risco de 100% de afectar Moçambique, na medida em que nós não temos neste momento combustível armazenado no país suficiente para aguentar ao preço que compramos na última vez nos próximos seis meses”, alertou Dai.

O economista falava, ontem, no programa Manhã Informativa da STV.

O economista Asif Osman defende que a prioridade do novo pacote financeiro anunciado pelo Banco Mundial para Moçambique deve recair sobre infra-estruturas estratégicas, particularmente rodoviárias, capazes de ligar pólos de produção agrícola e industrial aos principais centros de consumo e exportação. Para o analista, sem uma rede eficiente de estradas que reduza custos logísticos e encurte distâncias entre zonas produtivas e mercados, o País continuará a desperdiçar parte significativa do seu potencial económico.

A posição foi apresentada no programa País Económico, numa análise ao pacote de 10 mil milhões de dólares que o Banco Mundial anunciou para Moçambique, dos quais 6 mil milhões destinados ao sector público e 4 mil milhões, ao sector privado, com desembolso faseado até 2031. Trata-se de um dos maiores envelopes financeiros aprovados para o País nos últimos anos e que poderá representar, em média, cerca de 2 mil milhões de dólares por ano, valor equivalente a aproximadamente 7% a 8% do Produto Interno Bruto nacional.

Para Asif Osman, o montante é expressivo e constitui um sinal inequívoco de confiança internacional no potencial de crescimento de longo prazo da economia moçambicana. No entanto, alerta que o sucesso do pacote dependerá menos do volume financeiro e mais da qualidade das escolhas feitas pelo Governo. “O grande segredo é escolher cirurgicamente os projectos”, defendeu, sublinhando que cada dólar investido deve gerar o máximo impacto produtivo possível.

O economista sustenta que, ao investir em corredores rodoviários estratégicos, o País poderá dinamizar cadeias de valor, impulsionar a produção agrícola e industrial e estimular o sector privado, criando um efeito multiplicador na economia. Ainda assim, admite que sectores como educação e saúde não devem ser ignorados, desde que os projectos apresentem impacto mensurável e contribuam para aumentar a produtividade nacional.

A análise do novo financiamento não ficou dissociada da recente posição do Fundo Monetário Internacional, que optou por não avançar, nesta fase, com uma nova facilidade de crédito a Moçambique, indicando que reavaliará o pedido dentro de 12 meses. Questionado sobre uma eventual contradição entre as duas decisões, Asif Osman rejeitou essa leitura.

Segundo explicou, as duas instituições pertencem ao sistema de Bretton Woods, mas possuem mandatos distintos. O FMI, frisou, concentra-se sobretudo na estabilidade macroeconómica de curto prazo e na sustentabilidade da dívida pública, enquanto o Banco Mundial privilegia intervenções estruturais orientadas para o crescimento de longo prazo. “Não vejo como uma contradição, mas como diferença de enfoque”, afirmou.

Na mesma linha, Dimas Sinoia considerou que o anúncio do financiamento é positivo, mas recomendou prudência nas expectativas. Para o economista, é preciso recordar que se trata de um anúncio cuja materialização dependerá de processos técnicos, aprovação de projectos e cumprimento de condicionalidades. O desembolso será gradual e poderá enfrentar atrasos, caso não haja capacidade institucional suficiente para preparar e executar projectos de qualidade.

Sinoia destacou ainda que o contexto internacional tem sido marcado pela redução progressiva da ajuda ao desenvolvimento, o que torna o novo pacote ainda mais relevante.

Contudo, sublinhou que o financiamento externo, por si só, não resolve os desafios estruturais da economia moçambicana, sobretudo num cenário em que a dívida pública continua elevada e a pressão fiscal limita a margem de manobra do Estado.

A questão da sustentabilidade da dívida esteve no centro do debate. Para o FMI, a consolidação fiscal permanece uma prioridade, seja através da redução da despesa, seja pelo aumento das receitas. No entanto, ambos os analistas reconhecem que cortar despesas, especialmente em salários da função pública, é politicamente sensível e socialmente complexo, sobretudo após um período de tensões sociais.

Por outro lado, aumentar impostos pode sufocar um sector privado já pressionado por crises sucessivas, desde a pandemia da Covid-19 até aos choques externos recentes. Nesse sentido, Asif Osman defende que a solução mais equilibrada passa por expandir a base produtiva, estimulando crescimento económico que permita melhorar o rácio dívida/PIB sem recorrer a medidas excessivamente restritivas.

Dimas Sinoia acrescentou que o sector extractivo continuará a desempenhar papel determinante nas perspectivas fiscais do País. Recordou que relatórios anteriores do FMI já apontavam para a insustentabilidade da dívida no curto prazo, mas com expectativa de melhoria futura ancorada nas receitas de gás natural. Ainda assim, advertiu que depender exclusivamente desses fluxos pode ser arriscado, defendendo maior diversificação económica.

Outro ponto levantado no debate foi o risco de repetir erros do passado, quando investimentos avultados não se traduziram em melhorias visíveis na vida das comunidades. O próprio Banco Mundial tem vindo a rever a sua abordagem, privilegiando projectos com impacto directo e mensurável, incluindo agricultura, energia e apoio às pequenas e médias empresas.

Para evitar falhas de execução, Sinoia salientou a importância de alinhar os novos investimentos com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento recentemente aprovada, garantindo continuidade e coerência, independentemente dos ciclos políticos. A estabilidade institucional, a transparência e mecanismos robustos de monitorização foram igualmente apontados como factores determinantes para assegurar resultados concretos.

No entendimento dos dois economistas, o desafio central não é “angariar” os 6 mil milhões destinados ao sector público, já comprometidos no envelope financeiro, mas demonstrar capacidade técnica para apresentar projectos viáveis e de elevado impacto. Caso isso aconteça, o pacote poderá, não apenas dinamizar a economia, mas também contribuir indirectamente para melhorar indicadores fiscais.

O comércio regional Afircano continua muito abaixo das expectativas dos países, apesar dos vários apelos, acordos e adopção de políticas, como é o caso do AfCFTA – Zona de Comércio Livre Continental Africana, um acordo que liga 55 países do continente.

A primeira-ministra, Benvinda Levi, que conhece a realidade, desafiou os países a adopção de mecanismos mais actuantes por forma que, como resultado das transações comerciais melhore a distribuição de riqueza e, consequentemente, reduza a pobreza.

Levi entende que “o comércio é um instrumento de transformação estrutural”, por isso um imperativo de segurança alimentar.

“É um meio para industrializar, criar empregos dignos, reduzir a pobreza e promover prosperidade partilhada”.

A primeira-ministra referiu-se ainda ao facto de o continente ser “rico em recursos naturais”, com 30% das reservas minerais globais e 65% das terras aráveis não cultivadas, mas nada disso estar a significar riqueza para os países, nem para as populações. Fez questão de arrolar o que considera desafios.

“Insegurança alimentar, déficit energético que afecta centenas de milhões de pessoas,  níveis de comércio intra-africano ainda abaixo de 20%, dependência excessiva de exportação de matérias-primas e vulnerabilidade aos choques extremos recorrentes. Temos que transformar todo este nosso potencial em prosperidade para os povos de nossos países”.

Para inverter o cenário, a Primeira-ministra apelou ainda a reformas estruturais nas políticas comerciais.

“Uma reforma equilibrada da Organização Mundial do Comércio – OMC, que preserva o consenso e restaurar um sistema eficaz de resolução de litígios, sendo fundamental que a modernização das regras globais reconheça as assimetrias estruturais das nossas economias, de modo a garantir que o comércio internacional seja de facto motor de desenvolvimento inclusivo; uma abordagem justa nas negociações agrícolas que nos levem a corrigir as distorções prejudiciais aos nossos produtores, uma vez que, para a África, a agricultura não significa apenas uma estatística comercial; e um enquadramento do comércio eletrónico que promove a inclusão digital, a capacitação tecnológica e a transferência de conhecimento”.

O comentador e académico moçambicano Rogério Uthui sugere o corte dos salários dos ministros e de dirigentes de entidades públicas para reduzir a pressão que estes fazem ao Orçamento do Estado. Uthui diz que o país não precisa do FMI nem do Banco Mundial para dizer isso, destacando que  o país falhou ao não se reinventar aquando da suspensão dos apoios das duas instituições.

Num contexto em que o Fundo Monetário Internacional alerta para a grande pressão que os salários e a dívida pública fazem ao Orçamento do Estado, o comentador da STV, Rogério Uthui, diz ser altura de o Governo ser nacionalista e pensar em cortar salários dos dirigentes.

Para o comentador e académico, os cortes que sugere não seriam uma situação inédita no País, dando exemplos de países que seguiram por esse caminho para conseguir alcançar os seus intentos.

“Eu já vi muitos países no mundo em situação semelhante, governos inteiros a cortarem salários de ministros. Países africanos, latino-americanos e até europeus. Nós podemos pensar nisso, pensar como é que podemos trabalhar com os salários dos ministros, dos mais bem pagos, PCA e por aí adiante”, disse.

Para Rogério Uthui, este nacionalismo económico é importante porque “começamos nós próprios a encontrar as soluções dos nossos problemas sem o FMI. Nós não precisamos do FMI nos dizer que estamos a receber absurdamente demasiado com dinheiro do Estado”, realçando que “uma coisa é teres o dinheiro que tu tens numa empresa e produzes, esse é teu, agora dinheiro do Estado, isso é absurdo”.

No entender do antigo reitor da Universidade Pedagógica, os salários de alguns dirigentes públicos são absurdos, embora muitos deles liderem entidades com as mesmas atribuições.

“Nós temos PCA aqui que estão a ganhar 50 mil dólares por mês, isto é, 160 a 200 vezes acima do salário mínimo deste país. Isso é absurdo. Nós temos, e não é um, são variadíssimos, num país que tem esses problemas todos que estamos aqui a ver. Por exemplo, o sector das águas, tem cerca de sete instituições que cuidam da água, que regulamentam a água, FIPAG, Auras, são muitas instituições que fazem a mesma coisa que no tempo colonial com uma instituição como o SMAE, tínhamos água todos”, frisa.

Rogério Uthui acusa o FMI e o Banco Mundial de ajudarem a criar elites económicas em África, compostas por políticos e de contradizerem-se ao exigir crescimento inclusivo do país. Para si, o País falhou ao não se reinventar aquando da suspensão dos apoios das duas instituições.

“Isto mostra claramente uma falta de planificação do ponto de vista do Governo mesmo, de não ter conseguido planificar uma alternativa de desenvolvimento econômico que não implicasse necessariamente os ditames do FMI e do Banco Mundial. O problema do FMI em África é que ele acerta muito bem no diagnóstico da situação, acerta quase sempre, mas aplica sempre a mesma cartilha, portanto, de solução de problemas”, disse. 

Uthui esclarece que quando aplicadas às cartilha de medidas do FMI numa economia subdesenvolvida como é a de Moçambique, que não é variada, a situação piora, porque “nós não temos indústria, só exportamos produtos de matéria-prima, e imediatamente gera uma recessão econômica, gera descontentamento popular e é aquilo que vimos nas manifestações pós-eleitorais”.

O pensamento foi deixado nesta terça-feira no espaço “Comentário de Rogério Uthui”, na STV.

Apenas 10% dos  230 mil projetos aprovados vão receber o dinheiro do Fundo de Desenvolvimento Local. Os desembolsos estão atrasados, e o governo justifica “défice orçamental”.

Ao todo foram aprovados 230 mil projetos para receberem financiamento do Fundo de Desenvolvimento Local, FDEL, um dos que marcou a campanha eleitoral de Daniel Chapo. Após a submissão e aprovação de projectos, o desembolso do valor para os beneficiários, está a suscitar questionamento e o governo tranquiliza.

“Está a ser implementado, sim”, assegurou o governo, pela voz do seu porta-voz,  Inocêncio Impissa, no final de mais uma sessão do Conselho de Ministros, esta terça-feira, reconhecendo que a implementação não anda “na velocidade que gostaríamos”.

O argumento do governo prende-se com o défice orçamental, mas há outra novidade: dos 230 mil projetos aprovados, apenas 10% serão financiados com os recursos existentes, no entanto.

“Tem alguns distritos, se não todos, da província de Inhambane, alguns da província de Nampula e alguns da província de Cabo Delgado que já efetivamente pagaram os dinheiros para as populações ou pelo menos para os projetos já financiados”, disse Inocêncio Impissa.

Na conferência de imprensa após a quinta sessão do conselho de Ministros, foi anunciado que o Governo aprovou a resolução que aprova a quota de 555 mil metros cúbicos para exploração de madeira para o ano 2026.

“A cota anual de exploração de madeira representa o volume por espécie que pode ser explorado anualmente de forma sustentável sendo definida como base nos dados do inventário florestal nacional realizado no ano de 2018 que estimou um potencial total que varia entre 1.684.181 m3 e 2.121.017 m3 de todas as espécies de madeira comercial”, disse Impissa.

A quinta sessão do Conselho de Ministros aprovou ainda o plano de acção de implementação da política da juventude, cujo relatório será submetido à Assembleia da República.

O Governo apreciou e aprovou, ainda, o Decreto que aprova o Regulamento de Ajudas à Navegação Marítima e revoga o Decreto n.º 43207, de 29 de Outubro de 1960. Trata-se de um regulamento que estabelece as normas, técnicas das ajudas à navegação marítima aplicáveis nas áreas navegáveis instaladas ao longo da costa e nas águas sob jurisdição nacional e define o tipo, características, bem como as formas de utilização.

 Foi ainda apreciado e aprovado o Decreto que aprova o Regulamento de Arqueação de Embarcações. “O Regulamento visa estabelecer o regime jurídico e princípios uniformes, relativos à determinação da arqueação das embarcações que efectuem viagens por vias marítima, lacustre e fluvial com vista à salvaguarda da vida humana no mar e nas águas interiores, e bens nessas vias”, disse o porta-voz do Governo.

Na mesma sessão, o Conselho de Ministros apreciou as informações sobre a época chuvosa e ciclónica 2025/2026, destacando as principais ocorrências, os impactos, as acções realizadas e em curso, com vista a minimizar o sofrimento das populações afectadas, e o ponto de situação da elaboração dos materiais didácticos da disciplina de Educação Moral, Cívica e Patriótica, que o executivo pondera reintroduzir.

O Governo desafiou o sector privado moçambicano a capitalizar a decisão da China de eliminar, a partir de Maio, as tarifas de importação para 53 países africanos, incluindo Moçambique.

A medida surge num contexto de reorganização do comércio global e de redefinição das parcerias internacionais no continente africano, abrindo uma nova janela de oportunidades para exportadores nacionais.

O desafio foi lançado pelo porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, no fim da quarta sessão ordinária do Executivo.

“Estou muito satisfeito com esta notícia. Aliás, Moçambique já fazia parte de um grupo de países que tinham boas relações com a China, ou desenvolveram boas relações com a China, pelo que esta medida não é nova para Moçambique”, afirmou Impissa.

Segundo o porta-voz, as relações bilaterais entre Maputo e Pequim têm sido marcadas por cooperação contínua e facilidades mútuas.

“Moçambique tem cooperado com a China há vários anos e mereceu um conjunto de facilidades mútuas, da China para Moçambique e de Moçambique para a China. Esta é apenas uma das grandes oportunidades que Moçambique tem para aproveitar ao máximo”, sublinhou.

A decisão chinesa amplia uma política que anteriormente abrangia 33 nações africanas, passando, agora, a incluir quase todo o continente. Dos 53 países contemplados, apenas o Eswatini ficou excluído, por manter relações diplomáticas com Taiwan, território cuja soberania é reivindicada por Pequim.

O Governo chinês reiterou que o reconhecimento diplomático da política de “Uma Só China” constitui condição essencial para o acesso ao benefício de tarifa zero, evidenciando que a política comercial também acompanha interesses estratégicos.

Com a eliminação das tarifas, produtos agrícolas, minerais e manufacturados africanos passam a entrar no mercado chinês com maior competitividade. Pequim anunciou igualmente a expansão do chamado “canal verde”, mecanismo que simplifica procedimentos aduaneiros e reduz barreiras burocráticas.

 

SECTOR PRIVADO CHAMADO A AGIR

O Executivo entende que a nova medida deve ser rapidamente aproveitada pelo empresariado nacional, sobretudo num momento em que outras potências, como os Estados Unidos da América, procuram igualmente manter e reforçar as suas relações comerciais com África.

“O que podemos recomendar é que as empresas, os empresários e aqueles que comercializam, exportam, entre outros, aproveitem esta abertura para capitalizar os seus negócios e, certamente, com esta isenção, poderão ganhar um pouco mais do que ganhavam com os seus negócios anteriores”, apelou Impissa.

O porta-voz destacou que a eliminação das tarifas representa uma “janela de oportunidade” que deve ser aproveitada, não apenas pelos grandes exportadores, mas também por pequenos e médios produtores nacionais.

“Existe uma janela de oportunidade que todos nós temos de aproveitar, bem como várias outras oportunidades para moçambicanos, e não só”, concluiu.

Dados recentes indicam que o comércio entre a China e África atingiu cerca de 222 mil milhões de dólares no início de 2025, prevendo-se um aumento significativo do volume de trocas com a entrada em vigor da nova política tarifária.

O Presidente da República, Daniel Chapo, garantiu que decorrem negociações “sérias e justas” com a empresa de fundição de alumínio, Mozal, que prometeu encerrar as portas até ao mês de Março, por insustentabilidade do negócio. 

Trata-se de declarações que foram feitas num encontro entre o Chefe do Estado e o corpo diplomático, alusivo ao Ano Novo. Na ocasião, os diplomatas manifestaram a confiança em Daniel Chapo e no seu Governo.

O encerramento da Mozal já se iniciou, e os trabalhadores já receberam cartas de término de contratos. Nesta quinta-feira, em Maputo, sem revelar o teor das negociações,  Chapo garantiu que estas decorrem com foco na justiça social. 

“Estamos também empenhados em encontrar soluções responsáveis ​​e socialmente justas face à decisão anunciada pela Mozal de encerrar as suas operações em Março. Este é um diálogo sério e contínuo, que tem em conta o impacto social acrescido em milhares de trabalhadores e famílias moçambicanas directa ou indirectamente ligados ao empreendedorismo em Moçambique desde a década de 1990”, assegura Chapo.

Apesar desta garantia, Chapo não revelou se as negociações visam a permanência ou não da empresa no País.

A informação foi avançada na cerimónia de saudação a Daniel Chapo pelo Ano Novo, por parte do corpo diplomático, que elogiou a boa e exemplar condução do actual Governo, apesar dos desafios enfrentados.

“O seu compromisso com o que foi declarado no seu discurso e a sua adopção do diálogo nacional como uma das práticas democráticas mais abrangentes e a participação na vida democrática de Moçambique permitirão à Vossa Excelência construir pontes para promover a paz e a estabilidade social, o que constituirá a ferramenta mais importante da diplomacia económica para alcançar um estado de estabilidade económica”, disse, em representação dos diplomatas, Fazez Jawad.

Em resposta, Daniel Chapo reiterou que o País vive uma era de estabilidade, com foco na paz, progresso económico e reforço da cooperação internacional. “Após um ano no poder e com a firme implementação dos 12 compromissos assumidos com o nosso povo, a começar pelo plano dos primeiros 100 dias, podemos afirmar com convicção que Moçambique vive hoje uma era de estabilidade política, económica e social e de esperança renovada para o povo moçambicano. O Governo moçambicano reafirma a sua total abertura a um diálogo permanente construtivo e transparente com todos os parceiros internacionais aqui presentes, com vista a construir um futuro de paz, estabilidade e prosperidade partilhada”, disse Daniel Chapo.

Na ocasião, Chapo reafirmou que Moçambique vai continuar a fortalecer laços de amizade e solidariedade com outros países.

Os economistas Júlio Saramala e Humberto Zaqueu afirmam que, apesar de ser promissor e de grande importância, o projecto da linha ferroviária Norte–Sul anunciado pelo Governo pode falhar devido a diversos riscos financeiros que afectam o País.

O Executivo decidiu criar o Gabinete da Linha Ferroviária Norte–Sul (GLNS), entidade responsável por coordenar a construção da futura infra-estrutura ferroviária, que deverá interligar o País de forma contínua. O economista Júlio Saramala salienta que, embora o projecto apresente vantagens estratégicas, levanta também riscos financeiros e institucionais. Segundo ele, a ferrovia deve complementar a rede de transportes existente e não substituir a EN1 ou os corredores actuais.

“A via terrestre tende a servir distâncias mais curtas e cargas menores, enquanto o transporte ferroviário é mais adequado para longas distâncias e grandes volumes. Uma ferrovia bem estruturada poderia ainda estimular zonas industriais ao longo do traçado, desde que existam condições de energia, regras claras de acesso e um plano consistente de manutenção, um ponto crítico no sector logístico nacional”, explicou, sublinhando que o investimento pode integrar melhor o mercado interno, aproximando zonas de produção e consumo e reduzindo as chamadas pequenas ilhas económicas.

Apesar do potencial, Saramala alerta para os riscos financeiros: “Não é o valor absoluto do investimento que preocupa, mas quem assume o risco e como esse valor entra nas contas públicas. O projecto, avaliado em cerca de 7,2 mil milhões de dólares, se financiado através de dívida soberana, poderá aumentar a pressão fiscal e comprometer a dívida pública, que se aproxima de 110% do PIB.”

O economista defende que uma parceria público-privada (PPP) seria a forma mais prudente de avançar. Saramala sublinha ainda que a implementação deve ser faseada, baseada na capacidade actual de carga, evitando o risco de infra-estruturas subaproveitadas ou “elefantes brancos”. Alerta também para a possibilidade de a ferrovia servir apenas à extracção de recursos, sem gerar efeito multiplicador na economia.

“Enquanto não se falar de diversificação económica e dos benefícios reais da linha ferroviária do Sul ao Norte para os diversos sectores, estaremos a falar de projectos parados pela metade, sem impacto real no crescimento do PIB.”

O economista lembra que propostas semelhantes já foram discutidas, mas falharam por falta de recursos, planeamento incompleto e ausência de acompanhamento a longo prazo. Para ele, a prioridade não deve ser apenas garantir financiamento externo, mas assegurar capacidade institucional, técnica e de supervisão robusta.

“Mais do que ambição política, é fundamental que exista capacidade de implementação e manutenção a longo prazo.”

Por sua vez, o economista Humberto Zaqueu reconhece a importância do projecto, considerando-o um sonho antigo que poderia transformar o País, uma ideia já crucial após a independência.

“No tempo colonial, a rede ferroviária de Moçambique servia toda a região, era uma fonte importantíssima de recursos e desempenhava um papel crucial na economia nacional”, recordou.

Zaqueu salienta que a economia moçambicana continua pouco diversificada, centrada na exportação de commodities como o carvão, e defende que uma ferrovia robusta poderia ligar o País de forma eficiente, do Rovuma ao Maputo.

“Uma única locomotiva consegue transportar o equivalente a 100 ou 200 camiões, com poupança de combustível e menor desgaste das estradas. É um transporte mais económico e ambientalmente eficiente, que beneficia sobretudo as zonas remotas.”

Entretanto, para além dos elogios, Zaqueu apresenta críticas e recomendações sobre o projecto. “Há os riscos ligados à implementação. Muitas vezes, somos um país que fica nas intenções. Anunciamos algo e nunca materializamos”, disse, citando exemplos de obras abandonadas na reabilitação de estradas e infra-estruturas urbanas.

O economista aponta alguns factores determinantes para o sucesso do projecto, destacando “vontade política, combate à corrupção, plano de longo prazo e mobilização eficiente de recursos”. Quanto às parcerias público–privadas, reconhece o seu potencial de financiamento, mas alerta que podem implicar exploração ou custos para o cidadão, exigindo regulamentação rigorosa.

Zaqueu enfatiza ainda a necessidade de gestão pública eficiente.

“Se tivermos estas ferrovias em condições, o modelo de gestão é fundamental. Senão, entraremos num ciclo semelhante ao que acontece com empresas públicas como a LAM. É preciso uma reforma da gestão da coisa pública para avançarmos com um projecto tão ambicioso como este.”

Para o economista, projectos como Coral Sul e Coral Norte, bem como a reentrada da Total, devem ser encarados como oportunidades para financiar a ferrovia, lembrando que soluções do Fundo Soberano ou títulos de dívida externa só trariam resultados a longo prazo.

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