Provocações…, ah provocações
Devia ser um gemido grego
Para dizer provocações…
António Abujamra
Reler o Teatro e a Peste de Antonin Artaud, nestes tempos de peste (e não passo a repetição) é um imperativo, um certo de tipo armadura, uma defesa intelectual e moral. Entenda-se a peste como a doença política que estamos a viver. Uma enfermidade que aflige aqueles que “escolhemos” para nos representar na gestão da nossa vida social acaba se degenerando em epidemia letal quanto a peste que inspira o fervoroso discurso de Artaud sobre a necessidade de aprendermos a resistir às trevas, que se escondem nas palavras daqueles que só servem para embrutecer e distorcer o nosso ponto de vista sobre as coisas. Mas afinal, qual é o nosso real ponto de vista sobre o estado das coisas na pátria desanvindaʔ
Pensar a sociedade com as lentes do teatro é o mesmo que apontar o telescópio contra o minúsculo elemento vivo, ampliá-lo até à compreensão da mecânica que engendra o todo. O todo, neste caso, só pode ser esta existência cósmica, em que estamos todos em conexão, em rede e com cada vez mais sede de conhecer a fundo o outro, que é na verdade o fundo mais fundo de nós próprios. O outro é o rio em que devíamos nos narcisar. Imagina amar o outro com o mesmo amor que nutrimos pelo ego. E como seria se as crianças pudessem desenhar a paisagem do futuro com legos de madeira, porque não faltam mais carteiras nas novas e modernas e equipadas salas de aulas das nossas escolas.
Nesta nova pandemia social, a nossa imunidade intelectual, no sentido mais espiritual do termo, está a ser posto em prova. O que dizer do nosso despreparoʔ Uma juventude sem voz própria, que significa além de atestar o seu fracassoʔ E o teatro, na sua poética do social, no seu papel de reencantador do mundo com arte e pedagogia, o nosso teatro de comunidade e sem a quarta parede que posicionamento deverá tomarʔ
Talvez a verdadeira revolução esteja a acontecer nas artes, os fatídicos
acontecimentos dos últimos dias, vem nos desafiar com novas narrativas, novas personagens e cenários jamais vistos no nosso contexto, que talvez seja a mais preciosa mina de material criativo para “desmontar a noite”, já leram o poeta Japone Arijuaneʔ
Ndlavela, 08 de Dezembro de 2025