O País – A verdade como notícia

Do regresso do Valgi ao mundo real…

Ao Valgi oprimia-se-lhe o coração de dor e de arrependimento. A história que contou enfurecera o agente de Braga e trouxera à tona da memória deste más recordações. E ele, o Valgi, ouvinte involuntário daquele drama conjugal, ia pagar as favas pela infidelidade da aludida Maria-Muchina. Apetecia gritar aos ouvidos daqueles homens que não era nenhum criminoso, que a Eva era solteira e bem solteira, que aventurara-se à rua porque era um homem responsável pelo seu trabalho, cumpridor dos seus deveres como cidadão. Apeteceu-lhe levantar a voz, para ela escutar e vir testemunhar a sua inocência, assim como fazer mea-culpa pela ousadia de introduzir-se no escuro da noite e desafiar os perigos aí escondidos. Agora estava ali, à mercê daqueles malfadados polícias, a ser encaminhado para os calabouços duma esquadra qualquer, para juntar-se a ladrões e assassinos, um bode expiatório pelas faltas cometidas por sacristãos e mulheres mistas-chinesas.

A sua era uma história que jamais contaria a ninguém lá em Porto Amélia, nem em nenhum outro lugar, um segredo que era preciso enterrar no fundo da consciência. O que diria a Mariana se um dia viesse a tomar conhecimento deste episódio de tão tristes recordações? Claro, as perguntas seriam as mesmas que as dos polícias: “…vinhas donde?…com quem estavas?…se te prenderam alguma razão tinham…essa Muchina era tua amante…porque é que estás a esconder?…fala a verdade…era ou não era tua amante?…”. Porque será que as pessoas passam a vida a fazer as mesmas perguntas, se antecipadamente conhecem as respostas e estas são sempre as mesmas? Mesmo confessando as verdades estas são distorcidas e transformadas em invenções, em mentiras, só mentiras _ dizem_  para salvaguardar conveniências. Essas é que são as respostas.  Por isso, o Valgi nunca no futuro perderá um minuto do seu tempo para relatar o que foi a noite mais longa da sua vida.

Os agentes da Polícia Montada deixaram-no à porta da cabana onde vivia. Aquela mphama gigantesca, crescida ao lado da cantina do Mussa, por detrás do “Botão Dourado”,  foi a testemunha da soltura, da sua devolução à liberdade.

Quando logo às oito horas em ponto ele apresentou-se ao trabalho, as companheiras acharam-no exausto e sonolento, nervoso e mal arranjado. A Mariazinha, naquela sua curiosidade tradicional, perguntou-lhe:

“ Donde vens assim tão moído, cheio de poeira e quase roto?”

“ Acabo de regressar de uma longa viagem por um país que nenhuma de vocês conhece”, foi a resposta. Compôs-se na máquina de costura e deu asas à imaginação.

As colegas encolheram os ombros e começaram duvidar da sua sanidade mental.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

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