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O País – A verdade como notícia

As cerimónias fúnebres do músico, escritor e reverendo Arão Litsure terão início às 8 horas de sexta-feira, no Paços do Município de Maputo.

De acordo com um comunicado da Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), as cerimónias fúnebres vão obedecer três momentos distintos. Primeiro, às 8 horas, será realizado o velório no Paços do Município de Maputo. Já às 10 horas, as cerimónias prosseguem na Igreja Congragacional Unida em Moçambique, localizada no Bairro da Malhangalene. Finalmente, às 13 horas, o enterro será realizado no Cemitério de Lhanguene, sempre na Cidade de Maputo.

O músico Arão Litsure perdeu a vida na madrugada de domingo, vítima de doença, na África do Sul, onde esteve hospitalizado por uma semana. O artista nasceu no Distrito de Panda, em Inhambane. Formou-se em Teologia no Zimbabwe, foi pastor, lançou discos e livros e também presidiu a CNE.

O artista deixou esposa e três filhos.

Por: Eduardo Quive

 

A peça “O embondeiro que sonhava pássaros”, exibida na passada sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, teve em palco os astros do teatro nacional a contracenar as nossas esperanças e certezas. Uma obra escrita e encenada por Evaristo Abreu e inspirada num conto de Mia Couto. Esta peça fez mais do que dar teatro ao público, reabriu um drama da cultura moçambicana, o debate sempre adiado e o descortinar de um futuro cheio de incertezas. Muito tem se falado destes tempos como a grande dúvida, Lipovetsky (1983) chegou mesmo a escrever o ensaio “A era do vazio”, onde parecer é ser, tudo é efémero, passa tão rápido que sequer chegou a acontecer. Mas já lá vamos, primeiro, exaltemos o espectáculo que, de certeza, mostrou-nos que a alma do teatro moçambicano está em chamas e que todas as gerações dão-nos garantias.

Ver em palco Adelino Branquinho, Yolanda Fumo e Elliot Alex, a contracenar com Horácio Guiamba — que já não tem mais nada a provar —, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha, estes dois que já performaram em alguns espectáculos e a estudante Shércia Carolina que se mostrou à altura do desafio, é um acontecimento marcante. São actores de gerações diferentes, o que deixa à vista que o teatro vive, sobrevive e pode ganhar outras vidas, como por exemplo, o facto de as salas de teatro estarem em extinção ou a servir para outros fins, a falta do necessário apoio institucional e mecenas, tudo isto, curiosamente, quando já há um curso superior de teatro e muitos actores à disposição.

Em palco estava o passado que facilmente se confunde com o presente e, se não houver “vigilância” —  os acontecimentos diários mostram isso — pode se repetir esse passado tenebroso: escravatura, exploração e segregação. O resto é actual, as personalidades feitas de ira – de fúria irracional —, a coisificação do outro, o racismo, a bajulação e o cumprimento de ordens sem questionar. Em meio a tudo isso há um belo que se não vê: o encanto na natureza, nas coisas simples como os pássaros de várias espécies a voar livremente e a cantar para os humanos tomados pela insanidade instalada, o tempo que nos falta para contemplar de forma desinteressada o belo, mas também a classificação dos seres. Como pode uma criança branca brincar com uma negra? Como se não bastasse, falarem a mesma língua, apreciarem a mesma natureza e ainda mergulharem nas realidades de cada sociedade. A partir do diálogo dessas duas personagens, a preta e cuidadora de pássaros — Yolanda Fumo — e a criança branca — Shércia Carolina — encontram-se dois mundos: no mundo dos brancos representado por Adelino Branquinho, sempre zangado, com o chicote e a esbracejar “igual a uma coruja”; e, por outro lado, estão os pretos, representados por Yolanda Fumo, que compreende o desejo e a essência dos humanos, igual aos pássaros, nascidos para serem livres.

É uma família dominante, branca, vive amargurada e na encruzilhada do racismo, sobretudo por se julgar uma classe superior, que tem o direito à terra, os recursos, incluindo as pessoas pretas que são objectos de uso, força bruta, sem sequer capacidade de raciocinar — Elliot Alex, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha —, que vai se ver desestruturada por uma criança que decidiu ignorar as diferenças, olhou com os olhos inocentes de uma criança o mundo à sua volta.

É possível ler-se os papéis de Elliot, Fernando e Lucrécia nas entrelinhas das personagens da vida real, capazes de aplaudir e executar tarefas sem questionar, por vezes, com danos sobre gente da mesma classe social que a sua. A ideia de estar com quem manda e que faz pensar que temos poder e por isso os outros seres humanos não valem nada, está muito bem representada.

O narrador Horácio Guiamba conseguiu ser o pivô da trama, sem deixar que ela se transformasse numa história contada, antes, um elemento para conectar os acontecimentos que ocorrem num ritmo frenético. Escusado é dizer que começa a ser moda o narrador Horácio Guiamba em palco (o actor cumpriu quase o mesmo papel em “Aqueles dias da rádio”, musical dirigido por Zé Pires). O acompanhamento musical de Cheny wa Gune e Xixel Langa foi certeira por torná-los presente no espectáculo, preencheu as cenas.

Foi, em suma, um trabalho ao nível do senhor de teatro que é Evaristo Abreu. O que nos leva à questão seguinte.

  1. As condições em que a peça foi exibida foram as melhores possíveis, é verdade. Aliás, não é em vão que o CCFM é dos melhores espaços culturais da cidade. Porém a sala grande não foi capaz de dar as condições que o teatro precisa: a acústica necessária para a projecção das vozes, para que as palavras sejam ouvidas e compreendidas. Apesar de todo empenho e esforço até, muitas foram as palavras que coube ao espectador mais atento tirar as certezas se foi dito. As falas de Adelino Branquinho, por exemplo, e até do Elliot Alex, foram disso exemplo. O Horácio cuja presença era sobretudo em discurso, não sei se não lhe sobraram dores pelo esforço para se fazer ouvir. E, aliado a tudo isso, como havia a voz no microfone e os instrumentos musicais, o desnível foi evidente. Ao contrário do que se viu e se vê com os especáculos do género quando acontecem no auditório. Esse, sim, era o sítio indicado.
  2. O cenário podia ser melhor, a sensação de um imenso vazio é inquietante. Sim, é a nossa realidade, fazer muito com pouco, mas foi notável o sofrimento dos actores naquele palco, ora à procura de prencher espaços ou a cuidarem para não se deixar derrubar nas poucas coisas ali presentes, porém de uma precariedade patente. Por outro lado, foi como se aqueles elementos fossem estranhos aos actores. Não será pelo tempo de ensaio com o cenário do espectáculo?
  3. Quando vai parar a sina de ver só uma vez os bons espectáculos de teatro, penso eu com os meus botões enquanto oiço os murmúrios dos espectadores. Compreendo as várias razões por detrás das instituições e do cenário artístico nacional, mas é um desperdício dos níveis de quem deixa uma torneira aberta com a água a escorrer pelas areias. Não é assim só com este espectáculo, foi assim com “Aqueles dias de rádio” (2023), por exemplo, uma das melhores obras de arte em palco que se produziu nos tempos actuais. Como é possível um elenco daquele nível, os ensaios de meses, a publicidade feita — a acrescer a que continua a ser feita por via de comentários positivos dos que viram o espectáculo — resultar em apenas uma apresentação? Será que o custo de uma repetição é maior que o de tudo o que se investiu para conceber o trabalho? Esta questão não é dirigida ao CCFM, é sobretudo uma reflexão que todo o sector cultural deve fazer. Um pouco por todos os centros culturais os espectáculos são exibidos só uma vez, nunca percebo as razões, mas se elas se prenderem com o factor “oportunidade para todos”, “cabimento orçamental” ou “público”, então é uma questão talvez mais fácil de resolver. Mas se a razão for do tipo fazer muito eventos e acolher a todos ou for por importar os hábitos da música para o teatro, então a situação é grave. Enquanto a música pode ser gravada e ouvida através de várias plataformas, a qualquer momento, o teatro precisa de palco para ser visto, e o bom teatro, ainda mais.

Quando a arte é exposta desta maneira, incorre-se ao risco de banalizar-se o talento, o trabalho árduo e comprometer o profissionalismo nas artes, como analisa Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2012).

Pensar em tudo isto, na esteira de “o embondeiro que sonhava pássaros”, que instiga a memória colectiva, revisita a história, reflecte a contemporaneidade dos comportamentos, das trivialidades e desperta-nos para uma sociedade em modo loop — as diferenças entre classes, o medo de sonhar, os limites às liberdades —, é no mínimo exercer o próprio papel do teatro, despertar-nos para o drama da vida, dos indivíduos, das sociedades, enfim, levar ao palco os nossos dilemas e contextos.

Um trabalho como o visto no dia 12 de Abril de 2024, deveria ser possível revisitá-lo, pelo menos, mais três vezes. Ao contrário disso, quando tudo é dado assim, aos bocados, honestamente, é fácil cair na banalidade, no vazio enfim, no esquecimento.

 

 

 

A próxima actividade dos Sábados das Crianças, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, a decorrer no dia 20 de Abril, no Auditório daquela instituição cultural, na Cidade de Maputo, será marcada por um workshop de jazz animado pelo músico Moçambicano Nicolau Caunaneque, destinado a crianças com idades entre 6 e 12 anos.

Durante o workshop, com duração de uma hora e 30minutos, as crianças terão a oportunidade de explorar o mundo do jazz de maneira interactiva e educativa.

Com o auxílio de instrumentos musicais como teclado, saxofone, congas e chocalhos, além de recursos audiovisuais, os participantes serão guiados numa jornada de descoberta musical.

Os objectivos do workshop incluem despertar a criatividade musical dos petizes, incentivar a apreciação do jazz, introduzir elementos e referências nacionais, explorar habilidades musicais como canto e execução de instrumentos, incentivar a improvisação e desenvolver a coordenação motora e a memória.

Com um limite máximo de 30 crianças, esta é uma oportunidade para proporcionar uma experiência divertida e educativa de jazz para os seus filhos.

O músico Arão Litsure morreu esta madrugada, vítima de doença, na África do Sul, onde esteve hospitalizado uma semana. O artista nasceu no Distrito de Panda, em Inhambane, filho de uma maestrina e de um pastor.

A música começou a fazer parte da sua vida quando se encontrava no ventre da mãe. O facto de ter uma maestrina da igreja como mãe influenciou bastante o então menino Arão. Aliás, a primeira vez que leu notas musicais foi com a mãe, muitas vezes, até contrariado por não julgar as lições importantes.

Com o passar do tempo, a música foi fazendo parte de sua vida e Arão Litsure começou a cantar, já aos sete anos de idade, num grupo musical do bairro onde vivia. Arão Litsure viveu no Chamanculo, periferia da capital moçambicana, e nos anos 70, período colonial, já cantava com amigos em alguns espaços da então Cidade de Lourenço Marques. Mas foi com Hortêncio Langa e João Cabaço, todos falecidos, que a sua arte de cantar e de tocar ganhou uma projecção ainda maior.

Um dos grupos que marcou a sua carreira artística foi Alambique, no qual também colaboraram Hortêncio Langa, João Cabaço, Childo Tomás (em Espanha) e Celso Paco (na Suécia).

Amou a música e aí ficou conhecido, mas também se dedicou à literatura. Numa entrevista da qual se extrai a sua biografia, cedida à Verdade, em 2015, o músico afirma o seguinte: “A minha relação com a escrita vem de há anos. Mas com a minha ida ao estrangeiro para estudar teologia, no nível universitário (licenciatura e mestrado), devido à necessidade de escrever monografias e por influência de alguns amigos que já escreviam como é o caso de Hortêncio Langa, decidi também ‘esboçar’ algumas histórias”. Por exemplo, 25 contos do ventre dos refugiados ou Há negros na Bíblia(?), que, à época, levantou um debate aceso.

A vida de Arão Litsure, com efeito, esteve dividida entre a música, a literatura e a igreja. Herdou o amor pelas artes e o temor a Deus dos pais e cultivou as suas paixões até ao fim, até não poder se despedir dos que ao longo dos anos têm-no como referência da música e da cultura moçambicana.

Arão Litsure foi um homem versátil. O seu contributo, sempre didáctico, passou pela televisão. Na Stv o músico contribuiu como membro de júri e mentor vários grupos corais no FestCoros. Nesse programa o artista ensinou, orientou e deu horizonte aos que, como ele, também adoravam a Deus através da arte do canto.

Na madrugada deste domingo, o músico deixou esposa, filhos e um país consternado.

Segundo, Jomalu, da Sociedade Moçambicana de Autores (SOMAS), por hoje ser domingo, o processo de transladação do corpo da África do Sul para Moçambique deverá iniciar amanhã.

Pelo menos 120 pessoas morreram e cerca de 15 mil foram deslocadas devido às fortes chuvas que atingiram diferentes partes do Quénia, segundo a Organização das Nações Unidas

As fortes chuvas e inundações repentinas que atingiram diferentes partes do Quénia estão a causar perdas humanas e destruição de várias infraestruturas no país. Pelo menos 120  pessoas morreram e cerca de 15 mil pessoas estão deslocadas devido às intempéries

Cinco das principais estradas daquele país foram cortadas pelas inundações, incluindo a Garissa Road, no norte do Quénia, onde um autocarro que transportava 51 passageiros foi arrastado pelas águas.

Os dados indicam ainda que nove dos 47 distritos do país foram afectados pelo deslizamentos de terra nas regiões centrais.

A agência de gestão de catástrofes do Quénia emitiu um alerta de cheias aos residentes próximos do rio Tana, depois de as inundações terem rompido barragens a montante.

Nas épocas chuvosas anteriores do Quênia foram registradas milhares de mortos por inundações. Segundo os meteorologistas, a estação chuvosa em curso deverá atingir o pico no final de abril e diminuir em junho.

Por: Hélder Nhamaze

 

Heródoto, um geógrafo de Halicarnasso, recebeu o título de “Pai da História” pelo Orador Romano Cícero, graças à sua detalhada descrição das Guerras Greco-Persas. Dessa forma dava-se início ao estudo e documentação sistemática do passado humano. O estabelecimento da História como uma disciplina académica e como uma prática científica particular, não foi feito sem os obstáculos epistemológicos que circundam esses processos. Várias foram as correntes que se posicionaram sobre o objecto de estudo da História, linhas de pensamento que questionaram o lugar do sujeito do conhecimento na ciência histórica, ou criticaram a validade das fontes históricas usadas em períodos ou lugares determinados.

Por volta de 1840 o filósofo e ensaísta Escocês Thomas Carlyle lançou aquela que viria a ser conhecida como a Teoria do Grande Homem. Segundo ela a História pode ser amplamente explicada pelo impacto de grandes homens ou heróis, indivíduos altamente influentes e únicos que, devido aos seus atributos naturais, como intelecto superior, coragem heróica ou inspiração divina; têm um efeito histórico decisivo. Nas suas próprias palavras “A história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens”1. Essa corrente historiográfica viria ser rebatida pela chamada História Vista de Baixo, também conhecida por História Popular, cunhada por Lucien Febvre em 1932. Na visão desta última a construção da História deveria ter como base as “pessoas comuns”, os oprimidos, os pobres e os excluídos; grupos até então nunca inclusos na narrativa da História.

Porque é que iniciamos com este longo intróito sobre a História? Porque esse é precisamente o cruzamento onde nos coloca Adelino Timóteo com este seu “Jorge Jardim: O Ano do Adeus ao Ultramar”. Timóteo nos resgata uma figura multidimensional, se formos parcimoniosos nas palavras. Ficam dúvidas se se está perante um “grande homem” ou um “homem comum”, se se trata de um nacionalista ou um ambicioso colonialista, um maquiavélico monstro ou um visionário sem igual. Ao nos apresentar “O Ano do Adeus ao Ultramar” com uma riqueza de fontes, relatos e narrativas inéditas, Adelino Timóteo obriga a que à entrada do nosso meio século de vida como Nação formalmente independente componhamos o nosso quadro histórico.

A Historiografia de Moçambique possui algumas características que são bastante peculiares, e nalguns casos únicas. O processo de erecção de uma nova Nação teve os seus alicerces num processo de legitimação do Partido-Estado através de uma epopeia libertadora, que João Paulo Borges Coelho designa de Roteiro da Libertação2. A luta pela independência nacional da qual resultou um regime de partido único, implicou igualmente que a sua história tivesse que se revestir de tons monolíticos que eram operacionalizados como instrumentos políticos e ideológicos de exercício de poder.

Tal como acontecera com os Estados-Nação Europeus alguns séculos antes, Moçambique ergueu-se por cima de uma narrativa histórica precisa. Uma epopeia fundacional que continha uma identificação clara de quem foram os heróis, quem foram os “traidores”, quais foram os eventos marcantes, que conquistas e vitórias foram alcançadas e em que circunstâncias houve massacres e assassinatos, com os seus respectivos mártires. Apesar de poder haver mérito em discutir-se e submeter-se ao crivo da veracidade cada um desses elementos, o aspecto mais impactante da historiografia Moçambicana aí patente é a sua pobreza. Não é tão relevante onde e quando se deu o primeiro tiro da Luta Armada de Libertação Nacional, como o é o facto de não haver uma pluralidade de fontes e recursos que possam ser usados para aferir tal facto.

Essa é uma grande lacuna que Adelino Timóteo contribui para suplantar com o seu “O Ano do Adeus ao Ultramar”. Probabilisticamente inspirado por Chimamanda Ngozi Adichie e o seu “Perigo de Uma História Única”, Timóteo nos narra sobre o fim do colonialismo a partir de um ângulo diferente daquele único paradigmático e dominante a que a maioria de nós teve acesso. Com testemunhos e documentos inéditos a obra enriquece a nossa memória colectiva desse período, e aguça a nossa compreensão de vários processos subsequentes.

Moçambique está em vias de completar meio século de vida. Essa etapa marcante da nossa vida como “Comunidade de Destino”, nas palavras do nosso filósofo mor, deve coincidir com uma reflexão sobre a nossa História, o nosso Património e a nossa Identidade. Essa reflexão deve ser feita de forma aberta, franca, sincera e inclusiva, mantendo sempre o princípio da comunhão de Destino (o povo sempre diz “Estamos Juntos”). Temos que olhar para a nossa História de frente e coabitar com ela incluindo os momentos menos gloriosos, de derrota ou simplesmente complexos e problemáticos; para deles aprendermos. E talvez depois desse exercício encontraremos a resposta para a pergunta sobre porque é que estamos a ter tantas dificuldades em definir o nosso Futuro.

Geração para a Nação

Kudumba Root

Muito obrigado!

 

Referências

  1. Carlyle, T (1897) Heroes and Hero worship. New York: The Macmillian Company.
  2. Coelho, J (2019) “Política e História Contemporânea em Moçambique: Dez Notas Epistemológicas” in Revista de História, N. 178.

*Notas apresentadas no lançamento de Jorge Jardim: o ano do adeus ao ultramar, de Adelino Timóteo,  no dia 11 de Abril de 2024

 

A Associação Kulemba, em parceria com a Cornelder de Moçambique, lançou, esta semana, a segunda edição do Prémio Literário Mia Couto, cujas inscrições estão abertas até 10 de Maio.

O Prémio Literário Mia Couto pretende estimular a produção literária de qualidade em Moçambique, distinguindo as melhores obras publicadas anualmente. O Prémio tem duas categorias (prosa e poesia), devendo-se distinguir uma obra em cada categoria. Para a categoria da prosa, nos anos pares, o prémio será atribuído ao melhor livro de conto, e, nos anos ímpares, ao melhor romance. Assim, em 2024, o Prémio distinguirá um livro de contos.

O Prémio Literário Mia Couto é outorgado a livros de autores moçambicanos, publicados em língua portuguesa, devendo a primeira edição ter sido publicada entre os dias 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2023. Os livros concorrentes devem ter sido publicados em versão impressa. O livro concorrente deve ser original, não podendo apresentar nenhuma parte já publicada antes em livro. Do mesmo autor, não deverá ser distinguida mais do que uma obra.

Os concorrentes deverão preencher uma ficha de inscrição, que deverá ser entregue juntamente com cinco (5) exemplares do livro, num envelope fechado, constando no sobrescrito a categoria a que concorrem. As inscrições relativas a esta segunda edição deverão decorrer de 10 de Abril a 10 de Maio de 2024.

A avaliação das obras será feita em duas fases, sendo a primeira para apurar os cinco finalistas de cada categoria e a segunda para indicar os vencedores do prémio. As obras finalistas serão anunciadas no site e nas redes sociais da Associação Kulemba no dia 05 de Julho. Os vencedores do prémio serão divulgados até 05 de Agosto de 2024. A cerimónia de premiação dos vencedores irá decorrer em Setembro de 2024, durante a Feira do Livro da Beira, FLIB 2024.

O processo de avaliação dos livros inscritos será feito por um Júri constituído por cinco elementos, designados pela organização, devendo decidir com a presença de maioria dos membros. O Júri deverá seleccionar um vencedor por cada categoria. Os vencedores serão agraciados com valores pecuniários, na ordem de 400.000 MZN (quatrocentos mil meticais) para cada categoria.

Na primeira edição do Prémio foram distinguidos Bento Baloi (prosa) e Belmiro Mouzinho (poesia).

 

Por: Natércia Manhenje

 

Nas telas que nos são apresentadas, Mourana nos oferece uma poesia lírica cantada através de traços únicos que fazem uma ode à Mulher e ao que de mais profundo e belo ela pode representar e apresentar. A música está patente de forma explícita em alguns quadros e de forma implícita em quase todos os quadros onde vemos representado o sorriso, a alegria, a escuta, a dança, a melodia, o amor e até um olhar de esguelha.

Pode-se dizer que cada quadro apenas se encontra acabado depois de analisado pelo observador, tendo em conta o momento e o diálogo travado entre ambos. Um diálogo que dispensa a figura do artista, que se isola, totalmente da tela e deixa o seu outro Eu navegar num mundo que nem ele mesmo conhece, mas que é movido por esse Eu que o leva a desencadear uma série de traços, aparentemente sem significado, mas que se vão unindo, trazendo realidades que só quem os vê, aprecia e analisa, os consegue alcançar. Em cada traço e mistura de cores nota-se um discurso misterioso, que melhor se entende com uma observação mais cuidada e profunda.

Trata-se de uma exposição essencialmente figurativa, que contém raízes profundas no mundo real com um toque de grande misticismo, regado com toque de crítica social virada para o mundo globalizado, como o quadro garotas da Town, por um lado e, de forma particularizada, como é o caso dos quadro Filhas da Lua, e ainda de forma especializada, como o caso dos quadro Xiguiane.

Sua técnica, que é bem persuasiva e com uma característica muito pessoal e de estilo que o enquadra no mundo surreal, com a particularidade de nos levar para um caminho sem retorno e sem vontade de voltar ao mundo real. O uso de cores e formas, que nos levam a interpretar de um modo mais amplo tudo o que está em nosso redor, nunca descurando o seu próprio estilo e traço, levam a cada um a transportar-se para um infinito de imagens de um modo aberto, criando emoções que exaltam a alma, em consonância com as suas vivências.

A mulher e a música casam nas telas de Mourana e trazem um elemento arquitectónico que abre outras realidades, que muitas vezes são apresentadas em situações inusitadas, numa combinação de fragmentações e montagem do real, desarticulado, suscitando o estranho, de uma imagem que é ao mesmo tempo nova e familiar.

Cada tela é como um capítulo solto de uma obra completa, mas, ao mesmo tempo em construção, levando-nos a uma viajem que pode surpreender, a cada momento, criando a espectativa de uma obra progressiva.

O convite a genesis com a representação de parte de criação do mundo com Pecado de Adão que nos sugere de onde tudo começou, até a Longa espera de uma realidade escondida no Livro dourado da sereia onde pode se antever uma Peregrinação infinita, em melodias surdas que nos levam a hoyozelar a filha da lua com a magia dança da Bailarina divina sob o Olhar de esguelha das siamesas nos levam das emoções de um Lirismo amoroso ao apocalipse da Metáfora do amor das Melodias Curvilíneas.

 

*Texto lido na sessão de abertura da exposição “Melodias curvilíneas”, de PMourana, na FFLC, no dia 5 de Março de 2024.

 

Quando mergulhamos na contemplação do sofrimento das almas eclipsadas pela sinfonia soturna da pólvora, nas teias da sociedade envolvida num eterno lamento de miséria, onde a alma humilde muitas vezes suplica pelo término da produção bélica, consciências despertas tecem pensamentos vigilantes, testemunhando o sofrimento das massas e a devastação do planeta pelas cinzas das forjas bélicas. As ondas fumegantes do conflito escravizam e envelhecem o manto do ozono, embora sejam tecidas para ornamentar o diagrama financeiro e enriquecer os cofres dos fabricantes.

As armas, que forjam rios de chumbo a banhar o peito humano, diluindo as células da alma em cálices de morte, deixam as aldeias desfavorecidas desprovidas de alegria e da vontade de existir. Urge transcender o medo e buscar a coragem que extingue a fábrica de armamentos, conduzindo o mundo à celebração do baptismo no Rio do Amor, da Paz, da Paixão e dos Prazeres Benevolentes. Talvez seja necessário despertar a consciência para a compreensão de que a arma é o reflexo natural do espectro da morte e do sofrimento.

Sim, o olhar perspicaz detecta nas tintas da guerra cores análogas às das indústrias bélicas que movem oceanos em troca de semblantes de dólares. A padronização da produção de instrumentos letais encobre o destino de vidas inocentes, com a dança macabra de projécteis bélicos que acariciam com a morte o peito desprotegido dos menos afortunados.

Os versos da poesia da guerra mesclam-se às nuances do neocolonialismo engendrado pelas nações opulentas, disfarçadas de auxílio sob pretexto, perpetuando a eterna dependência dos países menos favorecidos, minando a inteligência dos seus líderes e, muitas vezes, usurpando o desenvolvimento das sociedades ao pilhar os seus recursos naturais sem retribuir benefícios directos ao povo, ou impondo políticas que limitam a sua exploração e comercialização, obstaculizando, assim, o avanço desses países.

Os versos da poesia da guerra confundem-se com a claridade do segredo que embriaga as consciências, levando-as a proferir “sim” ao que é “não”, em todas as teorias que não se traduzem em benefícios para as nações menos favorecidas. Às vezes, os versos dessa poesia tomam a cor dos que buscam riqueza, sacrificando a alma dos desprotegidos, esquecendo-se de que todas as almas, sejam elas envoltas na penumbra da opulência ou no fulgor da penúria, enfrentarão a mesma experiência derradeira, o mistério oculto além da morte. Sim, a guerra veste-se com as cores da morte, enriquecendo as nações que olvidam que nenhum povo, de qualquer nação, escapará à experiência do transe final.

Os versos da poesia da guerra ecoam nos gritos das crianças que se escondem nas matas [do Leste da RDC, do Norte de Cabo Delgado, na Faixa de Gaza, na Ucrânia, Burkina Faso, Sudão, Iémen, Síria…] sempre que os seus ouvidos se deparam com o estrondo do cano das armas, cuja produção gera mortes e a miséria de almas desprotegidas, enriquecendo, por outro lado, as nações produtoras de armamentos. O processo de fabricação de armas talvez participe, de maneira dissimulada, na degradação e destruição da mãe natureza.

A imagem da guerra está imbuída do egoísmo e da máscara da benevolência, que buscam restringir o progresso dos países menos favorecidos, impondo-lhes o jugo do sofrimento, da pobreza e das limitações. A guerra assume as cores das nações abastadas, que continuam a exportar políticas que impedem o avanço das sociedades carentes, aproveitando-se da falta de discernimento dos líderes destituídos de luz para direccionar os valiosos recursos existentes, incapazes de vislumbrar caminhos que libertem as suas nações do jugo do subdesenvolvimento humano.

A poesia da guerra reflecte-se nas cores das armas que ceifam prematuramente as almas do povo pobre. Reflecte-se nas tintas que não pincelam o mundo com traços de amor e cenários de benevolência, mas glorificam a riqueza das nações desenvolvidas com o clamor da guerra e o gemido das almas pobres, sem que as organizações humanitárias do mundo se interessem em discutir temas que desestimulem a produção bélica. Hoje, discutem-se exaustivamente as energias fósseis, talvez porque o progresso dos países menos favorecidos esteja ligado à exploração e comercialização desses recursos, algo que poderia abalar a arrogância e prepotência das nações que ditam as regras do jogo global.

Os resultados financeiros da indústria bélica tornam-se mais positivos quanto maior for o consumo de vidas ou o número de vidas ceifadas. O marketing da morte embriaga as consciências compradoras de armamentos, semeando o desespero numa existência que deveria ser pautada pela esperança de viver num mundo justo.

Precisamos de uma mobilização social para resgatar o mundo das garras das armas e secar o rio de lágrimas vermelhas que fertiliza a indústria bélica e os seus acessórios. Precisamos de um esforço colectivo para tecer a paz com as letras da poesia, num mundo bom para todos. Os países pobres não devem mais ser forjados como campos de batalha geneticamente ocidentais; eles precisam de desvendar o véu que esconde as armas e o fardo económico das mãos que oferecem ajuda sob uma falsa aparência de generosidade. 

 

Deus livre o pobre do consumo de armas!!!

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