O País – A verdade como notícia

José dos Remédios (de Moçambique) e Ana Bárbara Pedrosa (de Portugal) são os autores vencedores da edição de 2024 do programa de intercâmbio literário e estarão em residência, em Maio, em Lisboa, Portugal e em Outubro, em Maputo, Moçambique.

O júri, constituído pela escritora Yara Monteiro e pelos representantes do Centro Cultural Português em Maputo, Matteo Angius; e da Câmara Municipal de Lisboa, Adelaide Bernardo decidiu por unanimidade seleccionar as propostas de trabalho de José dos Remédios e Ana Bárbara Pedrosa, considerando que, no universo das candidaturas admitidas, são as que melhor se enquadram na lógica do programa de intercâmbio literário, destacando também, o impacto e benefícios destas residências e os encontros e experiências que proporcionam para a actividade literária dos candidatos vencedores e para os projectos apresentados, bem como a oportunidade de enriquecimento do seu percurso artístico.

Os dois autores juntam-se assim a Amosse Mucavele, Joana Bértolo, Eliana N’Zualo, Lúcia Vicente, Eduardo Quive, Mélio Tinga e Cláudia Lucas Chéu, escritores vencedoras das edições anteriores do programa de intercâmbio literário, criado no abrigo do protocolo de cooperação celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, através do Centro Cultural Português em Maputo, de incentivo e estímulo à criação literária portuguesa e moçambicana e aposta na internacionalização da cultura.

José dos Remédios será o escritor residente em Lisboa, em  Maio de 2024. Nasceu em Chamanculo, Cidade de Maputo. É Mestre em Educação/ Ensino de Português, pela Universidade Pedagógica de Maputo, licenciado em Literatura Moçambicana, pela Universidade Eduardo Mondlane, docente, ensaísta e jornalista. 

Iniciou a sua carreira de docente em 2008, o ensaio em 2012 e o jornalismo em 2014. Possui publicações na imprensa moçambicana, angolana, portuguesa, brasileira e eslovaca. Tem colaborado como consultor de feiras de livro, na edição literária e na promoção das artes e culturas com instituições africanas, europeias e americanas. 

Escreveu guiões de vídeos em homenagem a Marcelino dos Santos, Joaquim Chissano, Ungulani ba ka Khosa, Dom Dinis Sengulane, Mia Couto, Paulina Chiziane e Luís Bernardo Honwana. Foi guionista, técnico de som e fotógrafo do documentário Maputo, a doropa, que conta histórias sobre os bairros da capital moçambicana. É autor de O horizonte e a escrita – um ensaio sobre a narrativa de Adelino Timóteo (2020) e organizou o livro José Craveirinha: a voz do nosso tempo (2022).

Ana Bárbara Pedrosa será a escritora residente na cidade de Maputo, em outubro de 2024. Romancista portuguesa. Desde 2019, escreveu e publicou três romances, com selo da Bertrand Editora: “Lisboa, chão sagrado” (2019, finalista do prémio literário Fundação Eça de Queiroz), “Palavra do Senhor” (2021) e “Amor estragado”. Este último será publicado no Brasil ainda este ano. Também para este ano está prevista a primeira publicação em literatura de não-ficção, com um volume de literatura de viagens. 

A autora escreve regularmente para vários órgãos de comunicação social, é cronista no jornal Mensagem de Lisboa, faz crítica literária no Observador e copywriting na Wook. É doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística, pós-graduada em Economia e Políticas Públicas e licenciada em Línguas Aplicadas. Atualmente, dedica-se exclusivamente à escrita.

A Editora Fundza, em parceria com o Centro Cultural Franco-Moçambicano, vão apresentar, no sábado, a primeira actividade de “Jogos Lúdicos e Populares” inspirados na obra “Toutinegra, o pássaro vaidoso e preguiçoso’’, de Miguel Ouana.

O evento terá início às 10h30, no Auditório do Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo.
“Toutinegra, o pássaro vaidoso e preguiçoso” é uma história repleta de risadas e amizade entre um menino de 8 anos, seus amiguinhos e uma ave muito vaidosa, que exibe sua beleza enquanto trabalha.

Para celebrar a magia desta estória, a actividade será animada pelo autor Samuel Nhamatate, que proporcionará uma série de jogos lúdicos e populares, muitos dos quais estão em vias de desaparecimento, promovendo a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades das crianças enquanto se divertem.

Ao final da actividade, as crianças terão a oportunidade de fazer uma sessão de fotografias com Miguel Ouana, autor do livro.

O escritor Adelino Timóteo vai lançar, quinta-feira, às 17:00 horas, na Universidade Pedagógica-sede, em Maputo, o livro “Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar”.

Com apresentação de Hélder Nhamaze, trata-se do seu vigésimo quinto livro. Trata-se uma obra que pretende ser um farol, com material inédito, buscando iluminar os acontecimentos do pós-25 de Abril de 1974, assim como o episódio trágico de 7 de Setembro, em Lourenço Marques, do mesmo ano.

Focando-se no Engº Jorge Jardim, o livro oferece um ângulo inédito e distinto de contar também sobre os derradeiros momentos da luta armada de libertação e os demais acontecimentos que lhe sucederam, vinculando-o a uma tentativa humana e de redenção de se acercar à FRELIMO, através do «Programa de Lusaka», com que buscava evitar a debandada de 250 mil brancos de Moçambique.

Debaixo da lenda desta personalidade e com informação devidamente contextualizada, o autor esmiuça os factos, que marcaram o fim do Ultramar português e a emergência de um novo conflito, debaixo da consigna da guerra fria.

Afamado como uma das mais ímpares e insignes personalidades da África Austral, purgado pela Junta de Salvação Nacional, dos capitães de Abril, Jorge Jardim, tratado como um monstro, esgrime os seus argumentos, mas não consegue impor o seu plano em cima da mesa, no tratado de Lusaka. Daí resvala-se para um plano secundário e assiste desencantado o processo dramático e trágico da descolonização desde a periferia.

“Cinquenta anos depois, olhando para o pensamento de Jorge Jardim, é possível depreender que, mais do que votar-lhe ao ostracismo e ao tabu, Jorge Jardim foi um nacionalista, que pretendeu contribuir com o seu pensar particular, que mantivesse a dignidade da maioria nativa e dos derrotados, numa harmonia comum, sem se ferirem uns aos outros”, lê-se ainda na nota de imprensa: “Ao desenterrar o perfil deste homem complexo, raro, pretensamente anti-racista, com as suas contradições e partes encantadoras, como todos os seres humanos comuns, o autor oferece a oportunidade de se esgravatar sobre a documentação e testemunhos interessantes de uma figura enigmática, esclarecendo sobre os momentos que mediaram a morte de Eduardo Mondlane, com isto demonstrando que a história é um processo dinâmico, em permanente construção”.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” é um eixo em que gravitam as sombras de muitos factos ocorridos há sensivelmente 50 anos. “A relevância de documentar com intensidade esse período de ouro da história contemporânea é um serviço à Nação”, cita-se a sinopse da obra.

“Jorge Jardim: o ano do adeus ao Ultramar” também será lançado no dia 18 de Abril corrente, às 17:30, no Centro Cultural Português, na Beira, ainda no dia 20 deste mês, em Quelimane.

Na próxima sexta-feira, às 19 horas, o encenador Evaristo Abreu vai apresentar, na Sala Grande do Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo, a peça “O embondeiro que sonhava pássaros”.

De acordo com a nota de imprensa do Franco-Moçambicano, “O embondeiro que sonhava pássaros” é a história de uma criança filha de colonizadores (todos eles, sem distinção) que se alegrava em viver a vida como ela se oferecia, toda colorida, musical e alegre. Ela encontrava essa felicidade numa mulher que vendia pássaros encantando a criançada. No entanto, estas passeatas da Passarinheira, não eram do agrado dos seus progenitores que viam nessa mulher uma desviadora dos bons costumes nas suas crianças. Consideravam os pássaros que essa mulher vendia (embora lindíssimos) um mau agoiro para a sua sociedade, pelo que era melhor fazer essa mulher sair de circulação. Assim, juntaram-se um grupo de influentes, políticos, militares e alguma sociedade civil, no sentido de persuadir a vendedeira de pássaros a não voltar a surgir na vila.

Evaristo Abreu nasceu em Maputo a 5 de Outubro de 1966. Fez mestrado em Artes Dramáticas na Witwatersrand University, em Joanesburgo, bacharel em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane. Começou a sua carreira no teatro em 1985, trabalhou como actor para o TEJOCO, Txova Xita Duma e Mutumbela Gogo.

Em 1989, fundou o grupo de teatro Mbeu, como encenador. Criou e dirigiu o Festival Internacional de Teatro D’Agosto de 1998 a 2005. Esteve envolvido em várias peças teatrais com propósitos de mudança social, para várias organizações, incluindo do governo.

Em 2006, juntou-se à Visão Mundial para coordenar o departamento de mobilização comunitária através do teatro. Em várias ocasiões foi convidado pelo Ministério da Cultura e Turismo para fazer parte das comissões organizadoras do Festival Nacional da Cultura. Desde 2011 é Professor na ECA- Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, orientando as cadeiras de; (Encenação e Teatro aplicado). De 2015 a 2018 trabalhou como escritor no PCI Media Impacto no projecto “Ouro Negro”. Em 2022 criou e dirige actualmente a EA. TEARTES.

Entre 10 de Abril e 11 de Maio, Mário Macilau vai expor “Imediatismo”, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, na Cidade de Maputo. Trata-se de uma mostra fotográfica, na qual se explora o quotidiano. “Desde sua infância nas ruas de Maputo até sua exploração das realidades locais, Macilau mostra os desafios sociais, ambientais e económicos enfrentados pelo país. Sua série de imagens revela o impacto do desmatamento e da busca desesperada por recursos, criando uma narrativa visual sobre a intersecção entre a vida humana e a destruição ambiental”, lê-se na nota de imprensa.

A exposição “Imediatismo” desafia a noção de gratificação instantânea, destacando a importância de entender e contribuir para um presente e futuro melhores.

Mário Macilau nasceu em 1984, em Maputo, onde vive e trabalha. É um artista multidisciplinar, utilizando principalmente a fotografia, mas também explorando práticas na pintura, instalação, vídeo, som e poesia. Seu envolvimento com a fotografia teve início em 2003, e sua dedicação à profissão começou a solidificar-se em 2007, quando trocou o telefone celular de sua mãe pela sua primeira câmara fotográfica. Macilau é conhecido por seus projectos de longa duração, que abordam questões ambientais, sociais e trabalhistas no país.

Seu trabalho fotográfico destaca-se por explorar identidade, questões políticas e condições ambientais, muitas vezes colaborando com grupos marginalizados para amplificar suas vozes e conscientizar o público sobre injustiças sociais e desigualdades. Utilizando frequentemente o retrato como ponto de partida, Macilau revela uma perspectiva mais ampla da realidade que retrata.

Ao longo de sua carreira, Macilau viajou para mais de cento e cinquenta países, recebendo reconhecimento internacional por seu trabalho através de diversos prémios, como o Prémio UNESCO na França e o “The Protection Project” nos Estados Unidos. Suas obras são regularmente exibidas em exposições individuais e colectivas tanto em Moçambique quanto no exterior.

A Associação Kulemba lançou a segunda edição do Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil. Depois de em 2023 ter laureado o escritor Carlos dos Santos, a iniciativa literária vai, este ano, laurear mais uma obra literária de um autor moçambicano.

O Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil pretende estimular a produção literária de qualidade no país, distinguindo a melhor obra Infanto-juvenil publicada anualmente. Entre 2 de Abril e 2 de Maio podem concorrer ao Prémio todos os autores nacionais com obras infanto-juvenis (prosa ou poesia) publicadas em Moçambique.

O Prémio Nacional de Literatura Infanto-juvenil será outorgado a livros de autores moçambicanos, publicados em língua portuguesa, devendo a primeira edição ter sido publicada em 2023. Os livros concorrentes devem ter sido publicados em versão impressa; deve ser original, não podendo apresentar nenhuma parte já publicada antes em livro; os livros publicados devem possuir obrigatoriamente um número de registo emitido pela Biblioteca Nacional de Moçambique ou pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, por requisição da editora ou do autor. A ficha de inscrição e os exemplares do livro concorrente devem ser entregues na sede da Associação Kulemba, sita na Rua António Enes, Bairro do Chaimite, Cidade da Beira.

A avaliação das obras candidatas ao prémio será feita em duas fases, sendo a primeira para apurar os cinco finalistas e, a segunda, para indicar o vencedor do prémio. As cinco obras finalistas serão anunciadas no site e nas redes sociais da Associação Kulemba até ao dia 1 de Junho de 2024. Os vencedores do prémio serão divulgados no mês de Junho de 2024, durante a sétima edição do Festival do Livro Infanto-juvenil da Kulemba, FLIK 2024.

O processo de avaliação dos livros inscritos será feito por um Júri constituído pelos escritores Carlos dos Santos (Presidente), Angelina Neves e Benjamim Pedro João, que deverá reunir para decidir sobre os finalistas e vencedor.

O vencedor do Prémio será agraciado com um prémio pecuniário no valor de 100.000 MZN (cem mil meticais). 22. Caso a obra tenha sido ilustrada, o valor do Prémio deverá ser repartido, sendo oitenta mil (80.000 MZN) para o autor e vinte mil (20.000 MZN) para o ilustrador.

 

Por: Zulfikar Abdurremane

 

No tempo em que os animais falavam, em que eram os principais vectores de governação, possuíam, em peso, o domínio e controlo de tudo e todos. Aliás, eram bem avantajados, que, em sentada descontraída na selva, acordaram que a melhor forma de se adquirir o que, realmente, lhes merece era sair do monoteísmo para criação de um deus que lhes fosse “melhor” – o adulatris.

O adulatris teria, dizem – por via de qualquer coisa que fosse celestial, mostrado o caminho pleno da salvação no qual qualquer um que se fizesse no local de trabalho, derramar-lhe-ia uma bênção e, portanto, um salto galopante na vida social, económica e amorosa. Dizem mais que, nessa época, o embondeiro deixou de ser aquele ponto de referência onde se entoam cânticos à batucada e se invocam espíritos.

E há mais quem diga que, nesse corredor, teria existido um que ousasse martelar palavras das quais alguns guardas florestais da dita selva se teriam deixado embalar em relatórios de folhas verdes, triunfalistas, que escamoteiam a natureza, por, meramente, serem sensíveis à adulação, ao servilismo, ao lambe-botismo, à ocidentalização cultural turca (vulgo beija-mão), à serem prostrados com vénias e vénias.

De dia e noite, ouve-se estrondos e gritos que relatam se ter perdido sensibilidade para com os problemas do povo indígena que convive com selvagens. Afecta-se e silencia-se o que, de facto, atormenta. Ninguém se ousa a falar, se não lhe remetem à quebra. Comprometem-se ao invés de abster-se, vendem o martelo muito ao contrário de perdê-lo, abandonam o leme inversamente manobrado, perdem o controlo em oposição à resilientá-lo, não dirigem, fazem digressão de mandatos, não exercem o poder que o povo lhes confiou, recebem salário do Estado.

Custa dizer isto, mas quando os animais falavam, Adão e Eva não eram os únicos racionais (se é que eram, pois os seus descendentes provam o contrário). Hoje, a relação entre os animais é uma piada. Até a ave-rufa que nunca teve um canto e papo suficiente para suportar tantas espigas de milho, redige convites e sede bancadas a outras aves para discutir critérios de domesticação e selvatização. Afinal, revelou um agrónomo que, a partir do momento em que a espiga de milho é exposta, diferentes doenças podem ocorrer.

Ó, “anakuru[1]”!

Co’licença espíritos aí na terra!

Nasceu aqui, uma sociedade que, os seus membros, de tanto bajularem seus deuses, dentre eles o adulatris, perdeu o sentido de viver. Haveria um outro senão o bem-comum? – achamos que não. Os aninais, na selva, preocupavam-se uns com outros. Comiam-se para se satisfazerem entre si até que um ser dito racional, movido por interesses pessoais de encher a pujança, comeu-lhes e aos seus próximos a tão estupida sagacidade, hoje, actualizada em versão Pro Max.

Outro sim, a acção do inimigo, o tão dito infiltrado no aparelho de Estado, nos pontos estratégicos, nos centros nevrálgicos – uma acção com objectivos alinhados ao ponto de fuga mais alto – pretende levar o povo ao descontentamento generalizado contra o seu próprio, inabdicável, poder, levar o povo a pensar que todo e qualquer governo é incapaz (para isso basta ser governo), levar o povo a lutar contra si mesmo, agitar o povo para, depois, transformá-lo em cavalo de assalto e ele, o inimigo, ser o cavaleiro, contudo há uma infelicidade que, felizmente, prevalece – estamos numa sociedade em que o rebanho tem mais de um pastor.

[1] nakuru  cf. anakuru  significa ‘fantasma’ cf. ‘fantasmas’ – na língua Emakhuwa praticada em Nampula: cidade-capital e arredores.

Por: Mbututu Kwezani

 

Dra. Inês – Este aqui é paracetamol, o senhor deve tomar três vezes ao dia (de manhã, à tarde e à noite). Faça o mesmo com estas cápsulas, está bem, Papá?

Sr. Muianga – Nada! Eu não vai levar, todos dia quando vem aqui vocês só me dá p’rastamol com cápsula… Não me faz anál’se nem não dá rede mosquite’ra, como que vai curar malária dele?

Dra. Inês – O senhor devia agradecer por esses comprimidos. Eu ganharia um bom refresco com eles, já que o salário que me pagam nem serve para um saco de arroz. O senhor ainda quer reclamar…. Haja paciência!

Sr. Muianga – Já não se faz médico como de muinto tempo, os bons médico que restou perde respeito por causa de vossos comportamento.

E foi aos murmúrios que o Sr. Muianga abandonou o centro de saúde. Mais uma vez não tinha gostado do atendimento, “muinto muinto daquelas doutora que só fica no telefone”, dizia o velho.

Já somavam meses e vezes que este visitava o centro de saúde, mas o caso de sua malária jamais fora resolvido. Naquela tarde, Muianga murmurou o caminho todo voltando para casa, “dessa vez é de vez”, dizia ele. Depois de duas horas de caminhada, Muianga chegou ao bairro.

Já mesmo à entrada de casa, ouviu as vizinhas falando do grande hospital no centro da cidade, que este era bom e o atendimento era dos melhores…. Posto isto, Muianga não aguardou o fim da conversa. Entrou logo em casa, todo eufórico. Era como se aquelas palavras abluíssem seu coração de toda a raiva que trazia do centro de saúde. Os termos e condições para o dito bom atendimento, são muito altos, diziam as vizinhas concluindo a conversa. Mal sabia o Sr. Muianga.

No dia seguinte, os passos de Muianga é que despertaram os galos, pois este tinha-se levantado muito antes do cantar destes. Apanhou o primeiro autocarro e, lá se foi em direcção ao grande hospital que, por sinal, era público. Quando lá chegou ficou babélico pois havia uma grande bicha de doentes. Um mais grave que o outro, entre os quais, mulheres grávidas, idosos e até crianças. Porém, este não foi o motivo que o deixou ababelado, o facto é que, enquanto uns permaneciam numa bicha que muito pouco andava, outros entravam e saíam com suas questões sanitárias resolvidas.

Ao longo das quatro horas seguintes, o ciclo foi-se refazendo, mais uma vez, mais uma e mais outra. Sr. Muianga e os outros doentes não eram atendidos. Continuavam ali, nos bancos de espera vendo outros passando à frente. Cansado daquela pouca-vergonha, Muianga dirigiu-se à sala que ficava no final do corredor, cuja escrita na porta anunciava “gabinete do director”, lá onde pairavam os sopros do ar condicionado a 18°. Sem pedir licença, Muianga entrou no gabinete, vociferando reclamações instantaneamente. Por sua vez, o director, Dr. Malini, convidou Muianga a sentar-se, mas este recusou o convite e continuou reclamando o mau atendimento. Momentos depois, ouviram-se batidas na porta e, de seguida, entrou o médico-cirurgião trazendo boas notícias ao director:

Dr. Sebastião – Doutor, o paciente 77 mandou confirmado e já aguarda na sala de cirurgia, podemos começar?

Dr. Malini – Apague a mensagem do confirmado e comecem imediatamente. Ligue os novos equipamentos. Deves ser tu a tratar deste paciente, ele é um dos melhores pacientes que temos.

Então, Sebastião pôs-se a limpar o campo de mensagens e logo que terminou disse:

Dr. Sebastião – Está feito, Doutor, o campo de mensagens assim como o campo de reciclagem estão totalmente limpos, como pediu, “um deserto sem viajantes, Doutor, em momento algum tem pegadas.”

Dr. Malini – Óptimo, agora vá, cuide do nosso paciente V.I.P.

Então, dr. Sebastião, o médico-cirurgião, retirou-se de imediato.

Muianga levou a mão à testa, acenou negativamente a cabeça e no seu íntimo, invocou os seus: “Vaka Muianga”, pois ficou pasmado com a conversa dos dois técnicos e, antes mesmo que proferisse palavra alguma, o Dr. Malini disse-lhe:

– Vês, meu senhor, nós fazemos de tudo para cuidar dos nossos melhores pacientes, porém, como o senhor viu “o nosso maior valor não é a vida”.

Sr. Muianga nada mais respondeu, a frieza de Fortunato Malini, director geral do grande hospital, lhe trouxera um nó na voz que reclamava bom atendimento e assim foi, de nó a nó que se calou continuamente a voz do “Madala Muianga”, como era vulgarmente conhecido Vicente Muianga.

Depois daquele dia, Muianga não mais voltara ao hospital, a sua malária tinha piorado de forma tão agravante que a pontuação colocou um ponto final em sua vida. A notícia da sua morte tanto assustou a vizinhança que de imediato chamou os serviços do grande hospital da cidade e, este por sua vez, mandou uma ambulância depois de quatro horas, então vi naquela viatura hospitalar uma escrita a cor de sangue, vermelho, levava embora para sempre “Madala Muianga”,

“O Nosso maior valor não é a vida”. Informava a escrita na viatura.

 

 

Nota do autor:

  O texto acima apresenta erros de concordância nas falas do personagem “Muianga”, isso deve-se ao facto de ser este o individuo com baixo nível de escolaridade.

 

O Conselho dos Serviços de Representação do Estado, na Cidade de Maputo, atribuiu, esta quarta-feira, o direito de uso do selo “Orgulho Moçambicano – Made in Mozambique” ao Atelier de Moda Nivaldo Thierry. A atribuição do selo visa promover a competitividade das empresas nacionais e motivar os consumidores nacionais para a preferência da produção local.

O Secretário de Estado na Cidade de Maputo, Vicente Joaquim, que dirigiu a cerimónia, disse que a atribuição do selo constitui o reconhecimento do Estado às empresas na perspectiva da valorização dos produtos e serviços nacionais. De igual modo, a atribuição do selo realça o compromisso das empresas no processo de melhoria contínua das suas práticas de negócio e, sobretudo, da qualidade dos seus produtos e serviços.

O Director e fundador do Atelier de Moda Nivaldo Thierry e Serviços, que falou em representação das cinco empresas beneficiárias, disse que o selo atribuído representa o reconhecimento do empenho e dedicação destas entidades na produção local.

“Este selo não valida apenas os nossos esforços, mas também nos impulsiona a continuar a inovar, superando desafios. Gostaria de expressar a nossa profunda gratidão ao Governo de Moçambique, em especial ao Ministério da Indústria e Comércio, por valorizar e apoiar os produtores locais, bem como ao Secretário do Estado por nos honrar com esta distinção. Este selo Made in Moçambique não é apenas um símbolo de qualidade, é a representação do talento, trabalho árduo e compromisso de cada indivíduo envolvido no processo produtivo”.

Nivaldo afirmou ainda que as empresas contempladas estão comprometidas em contribuir para o desenvolvimento económico e social de Moçambique com orgulho e determinação.

O atelier de moda Nivaldo Thierry é uma empresa especializada em confecções de roupas e acessórios e opera no mercado nacional e internacional há 15 anos.

Para além do atelier Nivaldo Thierry, outras quatro empresas também foram atribuídas o selo Mede in Mozambique, designadamente: Empresa Internacional Facilities Services Mozambique, Lda, Empresa MZ Express, S.A, Empresa Quatro Cores, Impressão e Distribuição Sociedade Unipessoal, e Empresa True North. Assim, no total, são 253 empresas que ostentam o selo na cidade capital.

 

 

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