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A X-Hub exibi, esta quarta-feira, o filme “Doença da mãe”, do cineasta Gabriel Mondlane. A produção cinematográfica será exibida na sala de projeções da X-Hub, pelas 18h.

O filme narra a história por detrás do cancro da mama que é uma doença que afecta negativamente a saúde da mulher. O filme é um instrumento que contribui para educação e sensibilização das comunidades sobre este tipo de enfermidade.

Após a exibição de a “Doença da mãe”, será realizado uma sessão de debate sobre a temática que o filme apresenta com organizações que lidam com o assunto.

Ainda na X-Hub, no caso esta quinta-feira, o Malhangalene Jazz Quartet, liderado por Orlando da Conceição, apresenta-se a partir das 18 horas.

Espera-se que o momento seja único e que sirva de ponto de partilha de experiências musicais entre músicos estabelecidos e emergentes atrás do jam promovido durante as sessões do X-Jazz Jam Sessions.

 

Na segunda-feira, no Museu Nacional de Arte (MUSART), na Cidade de Maputo, foi inaugurada a exposição “Sim, a música é linda: o caminho do restauro de ‘Trabalho’ (1967) de Malangatana”.

Inaugurada pela Ministra da Cultura e Turismo, Eldevina Materula, num evento bastante concorrido, estiveram também presentes a família e a Fundação Malangatana, membros do conselho de administração do Absa bank, e respectiva Presidente do Conselho Executivo, Luísa Diogo, membros do conselho consultivo do Ministério da Cultura e Turismo, artistas e promotores culturais e demais convidados.

Eldevina Materula relembrou o carácter didáctico-pedagógico da exposição pelo facto de consciencializar a sociedade em geral, os detentores de obras de arte de referência em particular, sobre a importância e o impacto da realização de acções de restauro, bem como promover e divulgar a competência técnica nesse domínio.

Por outro lado, Luísa Diogo, referiu que o trabalho de Malangatana sempre orgulhou a nação moçambicana e que esta exposição “é uma verdadeira exaltação da herança criativa do artista”, facto secundado por Mutxini Ngwenya, representante da Família e da Fundação Malangatana, quando se refere à qualidade e beleza das obras expostas.

Para o sucesso deste evento, segundo o Ministério da Cultura e Turismo, o MUSART contou com a colaboração de parceiros, como o Absa Bank Moçambique, proprietária do painel que corporiza a mostra expositiva, a Fundação Malangatana, a Moldarte, Amigos do Museu e especialistas nacionais e estrangeiros a nível de restauro.

A exposição estará aberta até ao dia 9 de Junho de 2024.

Esta quarta-feira, pelas 17h30, no Instituto Guimarães Rosa, na Cidade de Maputo, a Kulungwana – Associação para o Desenvolvimento Cultural vai promover uma palestra gratuita para artistas, produtores, gestores e pessoas interessadas em como elaborar e administrar projetos culturais.

Ititulada “Gestão de projetos na cultura – a importância da gestão financeira de projetos culturais” será com a pedagoga, empreendedora criativa e gestora de projetos, Márcia Cardim. Com mais de 20 anos de experiência, 200 projectos culturais realizados e três mil horas de formação para artistas e profissionais que actuam na Economia Criativa em Salvador – Bahia, Brasil – Márcia Cardim vai compartilhar a experiência da sua Residência Académica na Associação Kulungwana, como empreendedora criativa e especialista em projectos culturais que conseguem patrocínios e apoios financeiros através de Leis de Fomento, Editais Públicos e Privados, nacionais e internacionais.

Com entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço, e entrega de certificado aos participantes, Márcia Cardim garante que a palestra será um momento muito gratificante: “Compartilhar a experiência da minha Residência do Mestrado Multidisciplinar e Profissional em Desenvolvimento e Gestão Social (UFBA) com a equipa da Kulungwana superou todas as expectativas. Cheguei a Maputo com o desejo de fazer uma pesquisa académica e fui acolhida por pessoas que acreditam verdadeiramente que a cultura transforma vidas. E, poder colaborar com artistas e produtores de Maputo, para um melhor entendimento sobre a importância da gestão financeira e prestação de contas de projectos culturais será uma alegria”. E  ainda acrescenta: “Durante a minha residência pude conhecer sobre a dinâmica dos apoios financeiros, a forma como o recurso é gerenciado e entrevistar cada sector da Kulungwana. Percebo como é possível e proveitoso ampliarmos os nossos olhares para formas diversas sobre como administrar projetos culturais”.

A Kulungwana é a favor da realização de uma residência social e artística. Para a directora da associação, proporcionar um espaço prático para a troca de experiências, no qual foi possível articular diferentes saberes em uma vivência imersiva, acabou por confrontar a própria experiência da Kulungwana. E complementa: “Vimos o quanto foi importante fazer uma análise crítica e melhor qualificada para conseguirmos investimento financeiro, e o quanto é necessário que demonstremos como os nossos projectos contribuem com resultados sociais. Transformar vidas, seja pelo viés artístico/humanístico ou seja pela geração de emprego e renda que o empreendedorismo imprime, nunca foi tão necessário”.

Durante as duas horas de palestra, serão apresentados os principais problemas que os profissionais da cultura enfrentam para elaborarem, gerirem e prestarem contas de projectos culturais, além de enfatizar quais competências são desejadas para quem faz a gestão financeira e, por último, um passo a passo de como acontece a gestão integrada: desde a concepção do projecto, até à fidelização de patrocinadores.

As cerimónias fúnebres do músico, escritor e reverendo Arão Litsure terão início às 8 horas de sexta-feira, no Paços do Município de Maputo.

De acordo com um comunicado da Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), as cerimónias fúnebres vão obedecer três momentos distintos. Primeiro, às 8 horas, será realizado o velório no Paços do Município de Maputo. Já às 10 horas, as cerimónias prosseguem na Igreja Congragacional Unida em Moçambique, localizada no Bairro da Malhangalene. Finalmente, às 13 horas, o enterro será realizado no Cemitério de Lhanguene, sempre na Cidade de Maputo.

O músico Arão Litsure perdeu a vida na madrugada de domingo, vítima de doença, na África do Sul, onde esteve hospitalizado por uma semana. O artista nasceu no Distrito de Panda, em Inhambane. Formou-se em Teologia no Zimbabwe, foi pastor, lançou discos e livros e também presidiu a CNE.

O artista deixou esposa e três filhos.

Por: Eduardo Quive

 

A peça “O embondeiro que sonhava pássaros”, exibida na passada sexta-feira, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, teve em palco os astros do teatro nacional a contracenar as nossas esperanças e certezas. Uma obra escrita e encenada por Evaristo Abreu e inspirada num conto de Mia Couto. Esta peça fez mais do que dar teatro ao público, reabriu um drama da cultura moçambicana, o debate sempre adiado e o descortinar de um futuro cheio de incertezas. Muito tem se falado destes tempos como a grande dúvida, Lipovetsky (1983) chegou mesmo a escrever o ensaio “A era do vazio”, onde parecer é ser, tudo é efémero, passa tão rápido que sequer chegou a acontecer. Mas já lá vamos, primeiro, exaltemos o espectáculo que, de certeza, mostrou-nos que a alma do teatro moçambicano está em chamas e que todas as gerações dão-nos garantias.

Ver em palco Adelino Branquinho, Yolanda Fumo e Elliot Alex, a contracenar com Horácio Guiamba — que já não tem mais nada a provar —, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha, estes dois que já performaram em alguns espectáculos e a estudante Shércia Carolina que se mostrou à altura do desafio, é um acontecimento marcante. São actores de gerações diferentes, o que deixa à vista que o teatro vive, sobrevive e pode ganhar outras vidas, como por exemplo, o facto de as salas de teatro estarem em extinção ou a servir para outros fins, a falta do necessário apoio institucional e mecenas, tudo isto, curiosamente, quando já há um curso superior de teatro e muitos actores à disposição.

Em palco estava o passado que facilmente se confunde com o presente e, se não houver “vigilância” —  os acontecimentos diários mostram isso — pode se repetir esse passado tenebroso: escravatura, exploração e segregação. O resto é actual, as personalidades feitas de ira – de fúria irracional —, a coisificação do outro, o racismo, a bajulação e o cumprimento de ordens sem questionar. Em meio a tudo isso há um belo que se não vê: o encanto na natureza, nas coisas simples como os pássaros de várias espécies a voar livremente e a cantar para os humanos tomados pela insanidade instalada, o tempo que nos falta para contemplar de forma desinteressada o belo, mas também a classificação dos seres. Como pode uma criança branca brincar com uma negra? Como se não bastasse, falarem a mesma língua, apreciarem a mesma natureza e ainda mergulharem nas realidades de cada sociedade. A partir do diálogo dessas duas personagens, a preta e cuidadora de pássaros — Yolanda Fumo — e a criança branca — Shércia Carolina — encontram-se dois mundos: no mundo dos brancos representado por Adelino Branquinho, sempre zangado, com o chicote e a esbracejar “igual a uma coruja”; e, por outro lado, estão os pretos, representados por Yolanda Fumo, que compreende o desejo e a essência dos humanos, igual aos pássaros, nascidos para serem livres.

É uma família dominante, branca, vive amargurada e na encruzilhada do racismo, sobretudo por se julgar uma classe superior, que tem o direito à terra, os recursos, incluindo as pessoas pretas que são objectos de uso, força bruta, sem sequer capacidade de raciocinar — Elliot Alex, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha —, que vai se ver desestruturada por uma criança que decidiu ignorar as diferenças, olhou com os olhos inocentes de uma criança o mundo à sua volta.

É possível ler-se os papéis de Elliot, Fernando e Lucrécia nas entrelinhas das personagens da vida real, capazes de aplaudir e executar tarefas sem questionar, por vezes, com danos sobre gente da mesma classe social que a sua. A ideia de estar com quem manda e que faz pensar que temos poder e por isso os outros seres humanos não valem nada, está muito bem representada.

O narrador Horácio Guiamba conseguiu ser o pivô da trama, sem deixar que ela se transformasse numa história contada, antes, um elemento para conectar os acontecimentos que ocorrem num ritmo frenético. Escusado é dizer que começa a ser moda o narrador Horácio Guiamba em palco (o actor cumpriu quase o mesmo papel em “Aqueles dias da rádio”, musical dirigido por Zé Pires). O acompanhamento musical de Cheny wa Gune e Xixel Langa foi certeira por torná-los presente no espectáculo, preencheu as cenas.

Foi, em suma, um trabalho ao nível do senhor de teatro que é Evaristo Abreu. O que nos leva à questão seguinte.

  1. As condições em que a peça foi exibida foram as melhores possíveis, é verdade. Aliás, não é em vão que o CCFM é dos melhores espaços culturais da cidade. Porém a sala grande não foi capaz de dar as condições que o teatro precisa: a acústica necessária para a projecção das vozes, para que as palavras sejam ouvidas e compreendidas. Apesar de todo empenho e esforço até, muitas foram as palavras que coube ao espectador mais atento tirar as certezas se foi dito. As falas de Adelino Branquinho, por exemplo, e até do Elliot Alex, foram disso exemplo. O Horácio cuja presença era sobretudo em discurso, não sei se não lhe sobraram dores pelo esforço para se fazer ouvir. E, aliado a tudo isso, como havia a voz no microfone e os instrumentos musicais, o desnível foi evidente. Ao contrário do que se viu e se vê com os especáculos do género quando acontecem no auditório. Esse, sim, era o sítio indicado.
  2. O cenário podia ser melhor, a sensação de um imenso vazio é inquietante. Sim, é a nossa realidade, fazer muito com pouco, mas foi notável o sofrimento dos actores naquele palco, ora à procura de prencher espaços ou a cuidarem para não se deixar derrubar nas poucas coisas ali presentes, porém de uma precariedade patente. Por outro lado, foi como se aqueles elementos fossem estranhos aos actores. Não será pelo tempo de ensaio com o cenário do espectáculo?
  3. Quando vai parar a sina de ver só uma vez os bons espectáculos de teatro, penso eu com os meus botões enquanto oiço os murmúrios dos espectadores. Compreendo as várias razões por detrás das instituições e do cenário artístico nacional, mas é um desperdício dos níveis de quem deixa uma torneira aberta com a água a escorrer pelas areias. Não é assim só com este espectáculo, foi assim com “Aqueles dias de rádio” (2023), por exemplo, uma das melhores obras de arte em palco que se produziu nos tempos actuais. Como é possível um elenco daquele nível, os ensaios de meses, a publicidade feita — a acrescer a que continua a ser feita por via de comentários positivos dos que viram o espectáculo — resultar em apenas uma apresentação? Será que o custo de uma repetição é maior que o de tudo o que se investiu para conceber o trabalho? Esta questão não é dirigida ao CCFM, é sobretudo uma reflexão que todo o sector cultural deve fazer. Um pouco por todos os centros culturais os espectáculos são exibidos só uma vez, nunca percebo as razões, mas se elas se prenderem com o factor “oportunidade para todos”, “cabimento orçamental” ou “público”, então é uma questão talvez mais fácil de resolver. Mas se a razão for do tipo fazer muito eventos e acolher a todos ou for por importar os hábitos da música para o teatro, então a situação é grave. Enquanto a música pode ser gravada e ouvida através de várias plataformas, a qualquer momento, o teatro precisa de palco para ser visto, e o bom teatro, ainda mais.

Quando a arte é exposta desta maneira, incorre-se ao risco de banalizar-se o talento, o trabalho árduo e comprometer o profissionalismo nas artes, como analisa Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2012).

Pensar em tudo isto, na esteira de “o embondeiro que sonhava pássaros”, que instiga a memória colectiva, revisita a história, reflecte a contemporaneidade dos comportamentos, das trivialidades e desperta-nos para uma sociedade em modo loop — as diferenças entre classes, o medo de sonhar, os limites às liberdades —, é no mínimo exercer o próprio papel do teatro, despertar-nos para o drama da vida, dos indivíduos, das sociedades, enfim, levar ao palco os nossos dilemas e contextos.

Um trabalho como o visto no dia 12 de Abril de 2024, deveria ser possível revisitá-lo, pelo menos, mais três vezes. Ao contrário disso, quando tudo é dado assim, aos bocados, honestamente, é fácil cair na banalidade, no vazio enfim, no esquecimento.

 

 

 

A próxima actividade dos Sábados das Crianças, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, a decorrer no dia 20 de Abril, no Auditório daquela instituição cultural, na Cidade de Maputo, será marcada por um workshop de jazz animado pelo músico Moçambicano Nicolau Caunaneque, destinado a crianças com idades entre 6 e 12 anos.

Durante o workshop, com duração de uma hora e 30minutos, as crianças terão a oportunidade de explorar o mundo do jazz de maneira interactiva e educativa.

Com o auxílio de instrumentos musicais como teclado, saxofone, congas e chocalhos, além de recursos audiovisuais, os participantes serão guiados numa jornada de descoberta musical.

Os objectivos do workshop incluem despertar a criatividade musical dos petizes, incentivar a apreciação do jazz, introduzir elementos e referências nacionais, explorar habilidades musicais como canto e execução de instrumentos, incentivar a improvisação e desenvolver a coordenação motora e a memória.

Com um limite máximo de 30 crianças, esta é uma oportunidade para proporcionar uma experiência divertida e educativa de jazz para os seus filhos.

O músico Arão Litsure morreu esta madrugada, vítima de doença, na África do Sul, onde esteve hospitalizado uma semana. O artista nasceu no Distrito de Panda, em Inhambane, filho de uma maestrina e de um pastor.

A música começou a fazer parte da sua vida quando se encontrava no ventre da mãe. O facto de ter uma maestrina da igreja como mãe influenciou bastante o então menino Arão. Aliás, a primeira vez que leu notas musicais foi com a mãe, muitas vezes, até contrariado por não julgar as lições importantes.

Com o passar do tempo, a música foi fazendo parte de sua vida e Arão Litsure começou a cantar, já aos sete anos de idade, num grupo musical do bairro onde vivia. Arão Litsure viveu no Chamanculo, periferia da capital moçambicana, e nos anos 70, período colonial, já cantava com amigos em alguns espaços da então Cidade de Lourenço Marques. Mas foi com Hortêncio Langa e João Cabaço, todos falecidos, que a sua arte de cantar e de tocar ganhou uma projecção ainda maior.

Um dos grupos que marcou a sua carreira artística foi Alambique, no qual também colaboraram Hortêncio Langa, João Cabaço, Childo Tomás (em Espanha) e Celso Paco (na Suécia).

Amou a música e aí ficou conhecido, mas também se dedicou à literatura. Numa entrevista da qual se extrai a sua biografia, cedida à Verdade, em 2015, o músico afirma o seguinte: “A minha relação com a escrita vem de há anos. Mas com a minha ida ao estrangeiro para estudar teologia, no nível universitário (licenciatura e mestrado), devido à necessidade de escrever monografias e por influência de alguns amigos que já escreviam como é o caso de Hortêncio Langa, decidi também ‘esboçar’ algumas histórias”. Por exemplo, 25 contos do ventre dos refugiados ou Há negros na Bíblia(?), que, à época, levantou um debate aceso.

A vida de Arão Litsure, com efeito, esteve dividida entre a música, a literatura e a igreja. Herdou o amor pelas artes e o temor a Deus dos pais e cultivou as suas paixões até ao fim, até não poder se despedir dos que ao longo dos anos têm-no como referência da música e da cultura moçambicana.

Arão Litsure foi um homem versátil. O seu contributo, sempre didáctico, passou pela televisão. Na Stv o músico contribuiu como membro de júri e mentor vários grupos corais no FestCoros. Nesse programa o artista ensinou, orientou e deu horizonte aos que, como ele, também adoravam a Deus através da arte do canto.

Na madrugada deste domingo, o músico deixou esposa, filhos e um país consternado.

Segundo, Jomalu, da Sociedade Moçambicana de Autores (SOMAS), por hoje ser domingo, o processo de transladação do corpo da África do Sul para Moçambique deverá iniciar amanhã.

Pelo menos 120 pessoas morreram e cerca de 15 mil foram deslocadas devido às fortes chuvas que atingiram diferentes partes do Quénia, segundo a Organização das Nações Unidas

As fortes chuvas e inundações repentinas que atingiram diferentes partes do Quénia estão a causar perdas humanas e destruição de várias infraestruturas no país. Pelo menos 120  pessoas morreram e cerca de 15 mil pessoas estão deslocadas devido às intempéries

Cinco das principais estradas daquele país foram cortadas pelas inundações, incluindo a Garissa Road, no norte do Quénia, onde um autocarro que transportava 51 passageiros foi arrastado pelas águas.

Os dados indicam ainda que nove dos 47 distritos do país foram afectados pelo deslizamentos de terra nas regiões centrais.

A agência de gestão de catástrofes do Quénia emitiu um alerta de cheias aos residentes próximos do rio Tana, depois de as inundações terem rompido barragens a montante.

Nas épocas chuvosas anteriores do Quênia foram registradas milhares de mortos por inundações. Segundo os meteorologistas, a estação chuvosa em curso deverá atingir o pico no final de abril e diminuir em junho.

Por: Hélder Nhamaze

 

Heródoto, um geógrafo de Halicarnasso, recebeu o título de “Pai da História” pelo Orador Romano Cícero, graças à sua detalhada descrição das Guerras Greco-Persas. Dessa forma dava-se início ao estudo e documentação sistemática do passado humano. O estabelecimento da História como uma disciplina académica e como uma prática científica particular, não foi feito sem os obstáculos epistemológicos que circundam esses processos. Várias foram as correntes que se posicionaram sobre o objecto de estudo da História, linhas de pensamento que questionaram o lugar do sujeito do conhecimento na ciência histórica, ou criticaram a validade das fontes históricas usadas em períodos ou lugares determinados.

Por volta de 1840 o filósofo e ensaísta Escocês Thomas Carlyle lançou aquela que viria a ser conhecida como a Teoria do Grande Homem. Segundo ela a História pode ser amplamente explicada pelo impacto de grandes homens ou heróis, indivíduos altamente influentes e únicos que, devido aos seus atributos naturais, como intelecto superior, coragem heróica ou inspiração divina; têm um efeito histórico decisivo. Nas suas próprias palavras “A história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens”1. Essa corrente historiográfica viria ser rebatida pela chamada História Vista de Baixo, também conhecida por História Popular, cunhada por Lucien Febvre em 1932. Na visão desta última a construção da História deveria ter como base as “pessoas comuns”, os oprimidos, os pobres e os excluídos; grupos até então nunca inclusos na narrativa da História.

Porque é que iniciamos com este longo intróito sobre a História? Porque esse é precisamente o cruzamento onde nos coloca Adelino Timóteo com este seu “Jorge Jardim: O Ano do Adeus ao Ultramar”. Timóteo nos resgata uma figura multidimensional, se formos parcimoniosos nas palavras. Ficam dúvidas se se está perante um “grande homem” ou um “homem comum”, se se trata de um nacionalista ou um ambicioso colonialista, um maquiavélico monstro ou um visionário sem igual. Ao nos apresentar “O Ano do Adeus ao Ultramar” com uma riqueza de fontes, relatos e narrativas inéditas, Adelino Timóteo obriga a que à entrada do nosso meio século de vida como Nação formalmente independente componhamos o nosso quadro histórico.

A Historiografia de Moçambique possui algumas características que são bastante peculiares, e nalguns casos únicas. O processo de erecção de uma nova Nação teve os seus alicerces num processo de legitimação do Partido-Estado através de uma epopeia libertadora, que João Paulo Borges Coelho designa de Roteiro da Libertação2. A luta pela independência nacional da qual resultou um regime de partido único, implicou igualmente que a sua história tivesse que se revestir de tons monolíticos que eram operacionalizados como instrumentos políticos e ideológicos de exercício de poder.

Tal como acontecera com os Estados-Nação Europeus alguns séculos antes, Moçambique ergueu-se por cima de uma narrativa histórica precisa. Uma epopeia fundacional que continha uma identificação clara de quem foram os heróis, quem foram os “traidores”, quais foram os eventos marcantes, que conquistas e vitórias foram alcançadas e em que circunstâncias houve massacres e assassinatos, com os seus respectivos mártires. Apesar de poder haver mérito em discutir-se e submeter-se ao crivo da veracidade cada um desses elementos, o aspecto mais impactante da historiografia Moçambicana aí patente é a sua pobreza. Não é tão relevante onde e quando se deu o primeiro tiro da Luta Armada de Libertação Nacional, como o é o facto de não haver uma pluralidade de fontes e recursos que possam ser usados para aferir tal facto.

Essa é uma grande lacuna que Adelino Timóteo contribui para suplantar com o seu “O Ano do Adeus ao Ultramar”. Probabilisticamente inspirado por Chimamanda Ngozi Adichie e o seu “Perigo de Uma História Única”, Timóteo nos narra sobre o fim do colonialismo a partir de um ângulo diferente daquele único paradigmático e dominante a que a maioria de nós teve acesso. Com testemunhos e documentos inéditos a obra enriquece a nossa memória colectiva desse período, e aguça a nossa compreensão de vários processos subsequentes.

Moçambique está em vias de completar meio século de vida. Essa etapa marcante da nossa vida como “Comunidade de Destino”, nas palavras do nosso filósofo mor, deve coincidir com uma reflexão sobre a nossa História, o nosso Património e a nossa Identidade. Essa reflexão deve ser feita de forma aberta, franca, sincera e inclusiva, mantendo sempre o princípio da comunhão de Destino (o povo sempre diz “Estamos Juntos”). Temos que olhar para a nossa História de frente e coabitar com ela incluindo os momentos menos gloriosos, de derrota ou simplesmente complexos e problemáticos; para deles aprendermos. E talvez depois desse exercício encontraremos a resposta para a pergunta sobre porque é que estamos a ter tantas dificuldades em definir o nosso Futuro.

Geração para a Nação

Kudumba Root

Muito obrigado!

 

Referências

  1. Carlyle, T (1897) Heroes and Hero worship. New York: The Macmillian Company.
  2. Coelho, J (2019) “Política e História Contemporânea em Moçambique: Dez Notas Epistemológicas” in Revista de História, N. 178.

*Notas apresentadas no lançamento de Jorge Jardim: o ano do adeus ao ultramar, de Adelino Timóteo,  no dia 11 de Abril de 2024

 

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