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O caso envolve nove arguidos, incluindo a antiga administradora de Xai-Xai. A sociedade civil exige responsabilização e celeridade do processo e alerta para o risco de atrasos processuais comprometerem a confiança dos cidadãos nas instituições de justiça.

O processo relacionado com o alegado desvio de donativos na província de Gaza deverá dar entrada nesta semana no Tribunal Judicial Provincial, três meses após a sua descoberta e detenção de nove altos dirigentes, confirmou a procuradora provincial, Evelina Selimane.

O caso envolve a antiga administradora de Xai-Xai e o director do Gabinete da Governadora provincial, que estao a ser investigado por suspeitas de desvio de donativos destinados a fins sociais, num esquema que terá causado um prejuízo estimado em cerca de 350 mil meticais.

Segundo a Procuradora provincial, o processo encontra-se na fase final de preparação para submissão ao tribunal, marcando o início da fase judicial de um caso que tem gerado forte atenção pública na província.

“Três meses após a descoberta do alegado desvio de donativos em Xai-Xai, o processo deverá dar entrada no tribunal ainda esta semana”, confirmou a Procuradora-chefe provincial.

O caso envolve um total de nove arguidos, todos detidos no âmbito das investigações conduzidas pelas autoridades competentes, e continua a suscitar forte indignação pública, com apelos para que haja responsabilização efectiva dos envolvidos.

A organização da sociedade civil FONGA, que congrega mais de 200 associações, exige celeridade no julgamento, alertando para o risco de atrasos processuais comprometerem a confiança dos cidadãos nas instituições de justiça.

“Perante a gravidade das acusações, a sociedade civil exige celeridade na justiça e responsabilização dos envolvidos”, afirmou um representante da FONGA, sublinhando a necessidade de evitar percepções de impunidade.

O caso de alegado desvio de donativos tem sido acompanhado com expectativa na província de Gaza, num contexto em que cresce a pressão pública por maior transparência na gestão de recursos destinados a acções sociais e de assistência às comunidades vulneráveis.

Os realizadores moçambicanos, Michel William e Marco Ibrahimo, integram a lista dos participantes da Artlist Studio Challenge, uma competição internacional promovida pela plataforma Artlist, que desafia criadores de todo o mundo a desenvolverem conceitos de séries ou filmes produzidos integralmente com recurso à Inteligência Artificial.

A iniciativa reúne realizadores, argumentistas e criadores digitais de diferentes países, oferecendo ao projecto vencedor financiamento para transformar a sua proposta numa produção completa.

Entre os concorrentes destaca-se “Peace Hunter” (Caçador da Paz), um teaser concebido pelos dois cineastas moçambicanos e inspirado numa história verídica. A obra acompanha a jornada de um homem que perde tudo aquilo que deveria proteger. 

Mesmo diante da dor e da devastação, continua a caminhar, atravessando fronteiras físicas e emocionais, memórias do passado e a incessante procura por algo que o mundo insiste em afirmar que não existe: a paz.

O “teaser” apresenta uma narrativa visual intensa, construída a partir de cenas que se desenrolam numa aldeia marcada por conflitos, perdas e desafios humanos profundos. As imagens exploram temas como deslocação, sobrevivência, esperança e resiliência, oferecendo ao público uma reflexão sobre as consequências dos conflitos e a busca pela reconciliação.

Para a produção do teaser, Michel William e Marco Ibrahimo recorreram a ferramentas avançadas de Inteligência Artificial, explorando novas possibilidades criativas para a construção de cenários, personagens e ambientes cinematográficos. O resultado demonstra como as tecnologias emergentes podem ser utilizadas para contar histórias relevantes e socialmente impactantes, sem perder a sua dimensão humana e artística.

A participação dos dois realizadores representa também um marco para a presença moçambicana em plataformas internacionais dedicadas à inovação audiovisual. Num momento em que a Inteligência Artificial está a transformar os processos de criação artística em todo o mundo, projetos como “Peace Hunter” mostram o potencial dos criadores moçambicanos para integrarem debates globais sobre o futuro do cinema e da narrativa visual.

Mais do que uma competição, a Artlist Studio Challenge constitui uma oportunidade para que histórias locais alcancem audiências internacionais. Com “Peace Hunter”, Michel William e Marco Ibrahimo procuram demonstrar que experiências vividas em comunidades africanas podem gerar narrativas universais, capazes de sensibilizar públicos de diferentes culturas e geografias.

Caso seja selecionado como vencedor, o projecto poderá receber financiamento para a produção da obra completa, permitindo que a história ganhe uma nova dimensão e alcance um público ainda mais amplo. 

Enquanto isso, o “teaser” já se afirma como uma demonstração da criatividade, inovação e capacidade técnica de uma nova geração de realizadores moçambicanos que explora as fronteiras entre cinema, tecnologia e storytelling.

O Governo moçambicano anunciou esta terça-feira que está a preparar o repatriamento de cerca de mil cidadãos nacionais afectados pelos recentes episódios de xenofobia registados na província sul-africana de KwaZulu-Natal, tendo já mobilizado uma equipa multissectorial para coordenar a resposta à crise.

A informação foi avançada pelo Ministro da Saúde, Ussene Isse, porta-voz da 15.ª Sessão Ordinária do Conselho de Ministros, realizada em Maputo, que avaliou a situação dos moçambicanos atingidos pelos ataques iniciados na última sexta-feira.

Segundo o governante, o Executivo accionou de imediato um mecanismo de coordenação envolvendo os Ministérios dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, do Interior, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), o Serviço Nacional de Migração e as representações diplomáticas moçambicanas na África do Sul.

“Logo que os actos iniciaram, o Governo decidiu constituir uma equipa multissectorial para coordenar a resposta e garantir assistência aos nossos concidadãos”, afirmou.

Equipas governamentais foram destacadas para a fronteira de Ressano Garcia, na província de Maputo, onde foram criadas condições para o registo, triagem e encaminhamento dos cidadãos que regressam ao País.

De acordo com os dados apresentados, 379 moçambicanos já se inscreveram no Consulado de Moçambique em Durban manifestando interesse em regressar ao País. 

Entretanto, as autoridades estimam que cerca de 884 cidadãos foram directamente afectados pelos actos de violência, dos quais 584 encontram-se acolhidos em centros comunitários de abrigo. Outros 300 moçambicanos estão a regressar por meios próprios, tendo chegado ainda na mesma terça-feira através da fronteira de Ressano Garcia.

O Governo confirmou igualmente a morte de nove cidadãos moçambicanos em consequência dos incidentes. Cinco foram assassinados durante os ataques, dois morreram atropelados enquanto tentavam fugir e outros dois perderam a vida num acidente de viação durante o regresso ao País.

“Queremos prestar o nosso sentido pesar e solidariedade às famílias enlutadas”, declarou Ussene Isse.

Para apoiar os repatriados, o Executivo preparou um plano de assistência humanitária que inclui a distribuição de kits alimentares compostos por arroz, farinha de milho, feijão, óleo alimentar, açúcar e sal, destinados a garantir a subsistência das famílias durante os primeiros dias após o regresso às suas comunidades de origem.

O ministro garantiu ainda que o Governo passará a divulgar informações diárias sobre a evolução da situação, com o objectivo de assegurar uma comunicação uniforme e transparente durante a emergência.

Conselho aprova financiamento colaborativo

Na mesma sessão, o Conselho de Ministros aprovou a proposta de lei que estabelece o regime jurídico do financiamento colaborativo, instrumento que será submetido à Assembleia da República.

Segundo o Governo, a futura legislação pretende criar novas alternativas de acesso ao crédito para cidadãos, micro, pequenas e médias empresas, contribuindo para a diversificação das fontes de financiamento e para o crescimento económico nacional.

“O financiamento colaborativo representa uma nova modalidade para impulsionar a economia e ampliar as oportunidades para os pequenos empreendedores”, explicou o porta-voz.

O Executivo aprovou igualmente o regulamento da Lei de Identificação Civil e do Bilhete de Identidade, que estabelece normas para a recolha, processamento, conservação e gestão de dados dos cidadãos, visando reforçar a segurança documental e uniformizar procedimentos em todo o território nacional.

Moçambique regista progressos nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável

Durante a sessão, foi também aprovado o Segundo Relatório de Revisão Nacional Voluntária sobre os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), documento que será apresentado no âmbito da Agenda 2030 das Nações Unidas.

Entre os principais indicadores, destaca-se o aumento da taxa nacional de acesso à água segura para 62,3% em 2025. Nas zonas urbanas, a cobertura passou de 81,9% em 2020 para 87,9% em 2025, enquanto nas zonas rurais evoluiu de 42,1% para 48,5% no mesmo período.

Os dados revelam igualmente melhorias no acesso ao saneamento adequado, que cresceu para 67,3% nas áreas urbanas e para 21,4% nas zonas rurais.

Segundo o Governo, os investimentos em abastecimento de água e saneamento continuarão a constituir prioridades estratégicas, devido ao seu impacto directo na redução de doenças de origem hídrica, como a cólera, e no combate à malária.

Dívida a estudantes deverá ser regularizada

Questionado sobre os subsídios em atraso a estudantes de instituições públicas de ensino superior, Ussene Isse reconheceu a existência de uma dívida estimada entre 300 e 400 milhões de meticais.

O governante assegurou que o Executivo está a trabalhar para acelerar os pagamentos e prevê resolver definitivamente a situação até Fevereiro do próximo ano.

“Há uma dívida, sim senhora. A solução é pagar e tudo faremos para regularizar esta situação”, afirmou.

O Conselho de Ministros apreciou ainda o nível de preparação da 16.ª edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares, agendada para decorrer na província da Zambézia entre 29 de Agosto e 6 de Setembro de 2026.

O Secretariado Executivo do Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) felicitou o jornalista Carlitos Cadangue, da STV, baseado na província de Manica, pela conquista do Prémio de Liberdade de Imprensa 2026, na categoria Impacto, atribuído pela organização Repórteres Sem Fronteiras, num evento realizado em França.

A posição foi tornada pública na sessão do Secretariado Executivo do SNJ realizada esta terça-feira, 2 de Junho de 2026.

Segundo o sindicato, a distinção e o reconhecimento internacional alcançado pelo jornalista moçambicano enchem de orgulho a classe jornalística nacional. O SNJ considera igualmente que a atribuição do prémio reforça a necessidade de os profissionais da comunicação social no país continuarem a lutar pelo respeito à liberdade de imprensa e pelo livre exercício da sua profissão.

A organização sublinha que o exercício da actividade jornalística contempla o dever de informar e o direito de ser informado.

O SNJ observa ainda que a atribuição do prémio ocorre poucos dias depois de o Presidente da República ter promulgado e mandado publicar o pacote legislativo para a comunicação social, recentemente aprovado pela Assembleia da República.

Neste contexto, o sindicato manifesta a expectativa de poder contribuir para que a entrada em vigor da nova legislação represente uma maior valorização da profissão jornalística.

O Presidente da República, Daniel Chapo, felicitou o jornalista moçambicano Carlitos Cadangue pela conquista do Prémio de Liberdade de Imprensa 2026, na categoria “Impacto”, atribuído pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), distinguindo o seu contributo para o jornalismo.

Numa mensagem dirigida ao premiado, o Chefe do Estado manifestou o seu orgulho pela distinção alcançada, considerando que o galardão representa o reconhecimento do profissionalismo, da dedicação e do compromisso de Carlitos Cadangue com os mais elevados valores da actividade jornalística.

Daniel Chapo salientou que a distinção internacional transcende a dimensão individual do jornalista, constituindo igualmente um motivo de honra para Moçambique, ao evidenciar o talento, a competência e a capacidade dos profissionais moçambicanos da comunicação social no panorama internacional.

O Presidente da República sublinhou ainda que o reconhecimento atribuído pela RSF constitui um incentivo ao fortalecimento da liberdade de imprensa no país, reafirmando o compromisso do Governo com a promoção de um ambiente cada vez mais favorável ao exercício responsável, ético e profissional do jornalismo.

Na mensagem, o Chefe do Estado formulou votos de contínuos sucessos pessoais e profissionais a Carlitos Cadangue, encorajando-o a prosseguir o seu trabalho em prol de um jornalismo de qualidade e ao serviço da sociedade.

O jornalista do Grupo SOICO, Carlitos Cadangue, foi distinguido na cidade de Marselhas, França, com o Prémio Impacto, um reconhecimento da Repórteres Sem Fronteiras pelo trabalho investigativo sobre a mineração na província de Manica.

O reconhecimento é devido a uma série de reportagens sobre a actividade mineira em Manica, no Centro de Moçambique.

As investigações mostravam os impactos da mineração nas comunidades locais, incluindo problemas relacionados com agricultura, acesso à água e as condições de vida das populações. Depois da publicação dessas reportagens, o governo central tomou medidas, e algumas actividades mineiras foram paralisadas.

Por causa de suas reportagens iniciadas em Junho do ano passado, Carlitos Cadangue foi alvo de um atentado armado em Fevereiro deste ano. Dois homens, usando fardas semelhantes às da polícia, atiraram contra ele. No seu discurso proferido no 77º Congresso Mundial de Jornalismo,

Cadangue referiu que, em muitos momentos, exercer o jornalismo investigativo em Moçambique significou enfrentar pressões, ameaças e tentativas de silenciamento.

“Hoje recebo o meu primeiro grande reconhecimento internacional através da organização Repórteres sem Fronteiras, ao ser distinguido com o Prémio Impacto”, disse, anotando que o momento em que sofreu o atentado mudou profundamente a sua vida, mas também reforçou uma convicção de que, “quando o jornalismo incomoda pessoas poderosas — empresários, figuras políticas e outros interesses influentes —, é porque está a cumprir a sua missão”, disse.

Cadangue assegurou que continuará a dar voz às comunidades afectadas, aos cidadãos esquecidos e às vítimas de abuso de poder.
“Receber este prémio não é apenas um reconhecimento pessoal. É também uma homenagem a todos os jornalistas moçambicanos e africanos que trabalham em condições difíceis, muitas vezes sem
protecção, mas com coragem e compromisso”, sublinhou.

Moçambique vai participar, de 22 a 24 de Julho próximo da décima quinta sessão Ordinária da Assembleia Parlamentar da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (AP-CPLP), em Luanda, capital de Angola. A integração regional, segurança e democracia são alguns dos pontos da agenda da sessão.

Angola vai acolher, entre 22 e 24 de Julho do ano corrente a décima quinta sessão ordinária da Assembleia Parlamentar da Comunidade dos países de língua portuguesa, tendo a data sido aprovada nesta segunda-feira, numa reunião dos presidentes dos Grupos nacionais, que decorreu em Maputo.

No evento Moçambique vai exercer o seu poder, na qualidade de líder da organização, cuja Presidência rotativa foi assumida, no ano passado, para o biénio 2025–2027, durante a sessão realizada em Maputo. A integração regional, segurança, democracia, maior inclusão da juventude e igualdade de género serão alguns dos pontos da agenda de destaque, conforme explicou o deputado e Chefe da Bancada da

Frelimo Feliz Silvia, na qualidade de Líder do Grupo Parlamentar da CPLP em Moçambique.

A Missão de Assistência Militar da União Europeia em Moçambique (EUMAM MOZ) recebeu, hoje, a visita de uma delegação da Comissão do Desenvolvimento do Parlamento Europeu (DEVE), no quartel-general da Missão.

O Comandante da Força da EUMAM MOZ, Comodoro César Pires Correia, recebeu a delegação composta por Membros do Parlamento Europeu e liderada pela Presidente da Delegação da Assembleia Parlamentar África-União Europeia, Hilde Vautmans, bem como os eurodeputados Marit Maij e György Hölvényi, acompanhados pelo Embaixador Antonino Maggiore, Chefe de Missão da Delegação da União Europeia em Moçambique.

Durante a visita à EUMAM MOZ, os membros da delegação tiveram a oportunidade de conhecer o trabalho desenvolvido pela Missão no reforço das capacidades das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). Foram igualmente apresentados os resultados alcançados desde o início da Missão e o seu contributo para o fortalecimento da segurança e estabilidade no país.

A visita permitiu ainda abordar os desafios de segurança que persistem em Cabo Delgado e a importância de uma abordagem integrada que combine segurança, desenvolvimento e assistência humanitária. Neste contexto, a delegação foi informada sobre a forma como a EUMAM MOZ contribui para a criação de condições favoráveis à proteção das populações e ao desenvolvimento sustentável das comunidades afetadas pela instabilidade na região.

A visita à EUMAM MOZ evidenciou o compromisso da União Europeia em apoiar Moçambique através de uma abordagem abrangente que promova a paz, a estabilidade e a eficácia operacional.

Novo trabalho de Juliana de Sousa transforma Jangamo num palco de celebração cultural e resgata um dos cantos populares mais simbólicos da tradição Bitonga

Há músicas que se escutam. E há músicas que se sentem. “Gigadagada” pertence à segunda categoria.

O novo videoclipe da cantora moçambicana Juliana de Sousa, com estreia marcada para o dia 29 de Maio, transforma o distrito de Jangamo num território de encontro entre culturas, memórias e identidades, numa produção profundamente ligada às raízes da cultura Bitonga.

Mas “Gigadagada” não é apenas música. É um manifesto artístico sobre pertença, ancestralidade e liberdade. É uma obra que mistura poesia, tradição oral, dança e emoção para contar uma história construída entre duas mulheres, dois continentes e duas formas de olhar o mundo.

De um lado está a alma Bitonga de Moçambique. Do outro, a sensibilidade italiana de Anna Di Lorenzo, voluntária europeia que mergulha numa experiência marcada pelo contacto íntimo com os costumes, os ritmos e os símbolos culturais do sul de Moçambique.

O resultado é um videoclipe que vai muito além da estética visual. “Gigadagada” procura transformar um canto popular tradicional num património emocional contemporâneo, recriando memórias colectivas através da linguagem artística da música.

O título da obra, entretanto, carrega um simbolismo tão profundo quanto provocador.

Segundo Juliana de Sousa, “Gigadagada” possui um duplo sentido dentro da tradição oral dos Bitongas. Literalmente, refere-se à chapa onde se torra farinha. Mas o significado metafórico varia de região para região dentro da cultura Bitonga.

Em alguns contextos, explica a artista, “Gigadagada” representa o corpo feminino, particularmente associado à sexualidade da mulher. Noutras interpretações, o termo remete à figura de uma mulher que já não consegue regressar ao lar depois de determinadas experiências da vida.

A cantora sublinha que os cantos tradicionais dos Bitongas possuem forte carga erótica, simbólica e metafórica, sendo frequentemente interpretados de formas diferentes dependendo do contexto social e cerimonial em que são cantados.

“É um canto popular dos Bitongas. Cada contexto tem uma interpretação própria”, explica Juliana.

Longe de reduzir o tema à provocação, a artista usa exactamente essa riqueza interpretativa como matéria-prima criativa para construir uma obra que dialoga com identidade, feminilidade, memória e tradição.

A origem do projecto nasce também de um encontro improvável.

Segundo Juliana de Sousa, Anna Di Lorenzo aproximou-se inicialmente com o desejo de aprender a cantar “como africana” e ter aulas de música. A cantora admite que nunca se considerou professora musical, mas diz que entre as duas surgiu uma ligação imediata, quase como se já se conhecessem há muito tempo.

Foi a partir dessa conexão que nasceu a construção artística de “Gigadagada”.

Juliana conta que já trabalhava num poema dedicado à mãe quando decidiu incorporar o canto popular Bitonga e recriá-lo dentro da composição musical. Anna Di Lorenzo, por sua vez, também acabou por inserir na música uma dimensão pessoal e íntima.

Na sua estrofe, a italiana fala da relação com a própria mãe e do conflito emocional provocado pela sua paixão por viajar pelo mundo, conhecer culturas e explorar novos lugares, mesmo sabendo que isso frequentemente significa distância e saudade.

A música transforma-se assim numa ponte emocional entre duas mulheres de universos diferentes, mas ligadas por sentimentos universais como pertença, liberdade, memória e afecto materno.

Mais do que um simples exercício artístico, “Gigadagada” apresenta-se como um esforço consciente de preservação cultural.

Juliana de Sousa explica que decidiu recriar este canto popular como forma de “imortalizar traços identitários” da cultura Bitonga através da música. O objectivo, segundo a artista, é garantir que elementos culturais profundamente presentes no quotidiano das comunidades não desapareçam com o tempo.

O coro usado na música faz parte dos cantos tradicionais entoados em contextos de celebração, festas comunitárias, cerimónias e momentos pós-colheita, ambientes onde música, dança e oralidade sempre desempenharam papel central na preservação da memória colectiva.

É precisamente essa dimensão ancestral que o videoclipe tenta capturar.

Gravado em Jangamo, o trabalho mergulha em cenários naturais, expressões culturais e práticas tradicionais da região, transformando o território num personagem silencioso da narrativa visual.

A produção aposta numa estética emocional, intimista e identitária, onde cada imagem procura dialogar com os elementos centrais da cultura Bitonga. O mar, a dança, os tecidos, os gestos, os cânticos e os olhares não aparecem apenas como decoração visual, mas como fragmentos vivos de uma herança cultural que continua presente no quotidiano das comunidades.

Ao juntar uma artista moçambicana e uma voluntária italiana num mesmo universo simbólico, “Gigadagada” também desafia fronteiras culturais e propõe uma reflexão sobre a forma como povos diferentes podem encontrar-se através da arte sem apagar as respectivas identidades.

Num tempo em que grande parte da produção musical global tende à homogeneização cultural, Juliana de Sousa escolhe o caminho contrário: aprofundar as raízes locais para dialogar com o mundo.

E talvez seja exactamente aí que reside a força de “Gigadagada”.

O videoclip não tenta internacionalizar a cultura Bitonga tornando-a menos Bitonga. Pelo contrário. Assume os seus códigos culturais, os seus símbolos, os seus silêncios e as suas ambiguidades como parte da sua autenticidade artística.

Ao fazê-lo, transforma um canto tradicional numa experiência contemporânea capaz de atravessar geografias e tocar públicos muito diferentes.

A estreia oficial acontece no dia 29 de Maio em todas as plataformas digitais. Mas antes mesmo do lançamento, “Gigadagada” já começa a afirmar-se como muito mais do que um videoclip musical.

É um encontro entre passado e presente. Entre tradição e reinvenção. Entre Moçambique e Itália. Entre mães e filhas. Entre memória e liberdade.

E talvez seja precisamente por isso que “Gigadagada” não se limita a ser ouvido.

“Gigadagada” sente-se.

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