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Chibuto precisa de 200 milhões de meticais para travar erosão agravada pelas chuvas

O município de Chibuto necessita de cerca de 200 milhões de meticais para financiar obras estruturantes de combate à erosão, que se agravou com as chuvas intensas e cheias da presente época chuvosa de 2026. A estimativa foi avançada pelo vereador de Infra-estruturas, Jacinto Macondzo, que descreveu um cenário preocupante para a cidade e arredores.

Em entrevista exclusiva ao O País , Jacinto Macondzo apontou que “para minimizar os problemas de erosão ao nível da nossa cidade, a estimativa de custos ronda os 200 milhões de meticais”,  explicando que várias vias apresentam ravinas com profundidade superior a um metro, o que colocando em risco a circulação de pessoas e bens.

De acordo com o responsável, pelo menos 15 estradas principais encontram-se em estado considerado dramático. Embora Chibuto esteja situada numa zona alta e não tenha sido directamente submersa pelas cheias, as chuvas torrenciais provocaram forte arrastamento de solos, abrindo crateras nas vias e afectando residências. “Temos ruas completamente esburacadas e algumas casas com solos acumulados até ao nível das janelas”, lamentou.

A erosão, sublinhou, não é um fenómeno novo, mas a intensidade das últimas chuvas agravou substancialmente a situação. Para garantir alguma transitabilidade, o município tem priorizado intervenções nos pontos mais críticos. “Estamos a reparar os locais que permitem a circulação mínima dentro da cidade, mas precisamos de uma solução estrutural”, apontou.

O impacto estende-se a serviços essenciais. O acesso à escola do bairro Unidade está condicionado, assim como ao hospital do bairro Moussavene e à escola do bairro 2. Particularmente crítica é a situação da Escola Básica 25 de Junho, recentemente reabilitada com apoio do Banco Mundial, onde salas ficaram inundadas por água e areia até quase um metro de altura.

“Os pais e encarregados de educação estão a fazer um esforço enorme para remover os solos antes do início do ano lectivo”, disse Macondzo, acrescentando que o município está a rever o projecto de construção de um muro de vedação, de modo a torná-lo mais resiliente às enxurradas.

Se a zona alta sofreu com a erosão, as áreas baixas, onde se concentra a produção agrícola, foram directamente atingidas pelas cheias. A chamada cintura verde da cidade, responsável pelo abastecimento de hortícolas, ficou praticamente destruída.

“Perdeu-se tudo. Nada escapou”, afirmou o vereador, referindo-se às culturas de couve, alface e tomate que abasteciam Chibuto e a cidade de Xai-Xai. Na Baixa do bairro Unidade e na zona de Machae, a deposição de areia comprometeu a fertilidade dos solos.

Além da destruição provocada pelas cheias, a irregularidade das chuvas agravou o cenário. 

“As zonas que deviam recuperar estão agora a sofrer por falta de chuva. As plantações estão a morrer”, lamentou.

Com cerca de 83 mil habitantes, Chibuto enfrenta risco real de insegurança alimentar. “A fome é eminente”, alertou o vereador, explicando que grande parte da população depende da agricultura de subsistência. Actualmente, não há produção significativa de hortícolas na cidade, que passou a depender de produtos provenientes de Chókwè e Chongoene.

A crise agrícola tem reflexos directos na arrecadação de receitas municipais. O mercado local, antes dinámico, encontra-se praticamente sem movimento. “Os locais onde se vendia alface e couve estão às moscas”, descreveu.

Segundo o vereador, o município enfrenta dificuldades para assegurar despesas correntes, como pagamento de salários, recolha de lixo e manutenção básica de infra-estruturas. “Sentimo-nos com falta de recursos para garantir a sobrevivência do próprio município”, afirmou.

Como resposta, a edilidade iniciou um processo de recadastramento para reforçar a cobrança do Imposto Pessoal Autárquico (IPA), da Taxa de Actividade Económica (TAE) e do foro de terrenos. Equipas técnicas estão no terreno a actualizar dados nos bairros urbanizados.

“Apelamos à colaboração dos munícipes. Precisamos que todos cumpram com as suas obrigações fiscais para que possamos melhorar as vias e combater a erosão”, destacou.

Parte do problema, explicou, resulta das águas provenientes das estradas nacionais que atravessam o município, N102 (Chongoene–Chibuto), N220 (Chibuto–Chissano), Chibuto–Guijá e a via para Alto Changane, sob gestão da Administração Nacional de Estradas (ANE). O município já submeteu um levantamento técnico das necessidades.

“Esperamos que a ANE possa apoiar nas reparações, porque algumas erosões resultam directamente das águas que descem dessas vias”, disse.

Para Jacinto Macondzo, o desafio é estrutural e exige coordenação entre município, governo distrital, provincial e central. Sem investimentos robustos em drenagem e contenção, advertiu, a cidade continuará vulnerável a cada época chuvosa.

Entre ravinas abertas nas estradas, salas de aula soterradas e campos agrícolas devastados, Chibuto enfrenta um dos momentos mais difíceis dos últimos anos. A recuperação dependerá não apenas de fundos externos, mas também da mobilização interna e da solidariedade institucional para devolver estabilidade à cidade.

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