O Banco Mundial defendeu, esta quarta-feira, em Maputo, a adopção de um novo modelo de desenvolvimento para Moçambique, assente na transformação estrutural da economia, na diversificação da produção, na valorização do capital humano e no reforço da governação, como forma de converter o potencial económico do País em prosperidade partilhada.
A posição foi apresentada pelo Director da Divisão do Banco Mundial, Fily Sissoko, durante a Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável de Moçambique, onde fez uma reflexão sobre o percurso económico do País nos últimos 25 anos e apontou as prioridades que deverão orientar a agenda de desenvolvimento nas próximas décadas.
Segundo Sissoko, a trajectória de Moçambique desde o fim do conflito armado constitui, acima de tudo, uma demonstração de resiliência. Recordou que, após a reconstrução iniciada na década de 90 e a abertura da economia, o País registou, durante cerca de duas décadas, um dos ritmos de crescimento económico mais elevados do continente africano, com uma média anual próxima dos 8%.
Contudo, observou que este percurso foi sucessivamente condicionado por choques internos e externos, entre os quais crises económicas, ciclones, a pandemia da COVID-19, a instabilidade provocada pelo terrorismo em Cabo Delgado e, mais recentemente, as tensões políticas e as flutuações económicas.
Para o responsável, estas experiências deixaram lições importantes. A primeira é que o crescimento económico, por si só, não garante desenvolvimento. Defendeu que o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) deve traduzir-se em melhores condições de vida para as famílias, agricultores, trabalhadores, mulheres e jovens em todas as regiões do País.
Sissoko salientou igualmente que a abundância de recursos naturais representa uma oportunidade, mas não constitui uma garantia de prosperidade. Na sua perspectiva, as receitas provenientes do gás natural e da exploração mineira deverão ser canalizadas para investimentos produtivos, infra-estruturas, Educação, Saúde e fortalecimento das instituições, de modo a criar riqueza sustentável e emprego.
Outra prioridade apontada pelo Banco Mundial é a diversificação da economia. O dirigente considerou que Moçambique não deve depender exclusivamente da exploração dos recursos extractivos, defendendo uma aposta consistente na agricultura, agro-processamento, indústria transformadora, logística, turismo e serviços.
O Director da Divisão do Banco Mundial destacou ainda a necessidade de colocar o emprego e o desenvolvimento do capital humano no centro das políticas públicas. Argumentou que o dividendo demográfico apenas poderá ser aproveitado através da criação de postos de trabalho de qualidade e de investimentos contínuos na Educação, Saúde e qualificação profissional.
Ao mesmo tempo, advertiu que o fortalecimento das instituições constitui um dos principais pilares do desenvolvimento sustentável. Segundo explicou, a confiança dos investidores e dos cidadãos depende da existência de uma governação transparente, de uma gestão económica sólida e de instituições capazes de responder aos desafios impostos pelas alterações climáticas, pelas crises sanitárias e pelos problemas de segurança.
Apesar dos desafios, Sissoko considera que Moçambique reúne vantagens competitivas que podem impulsionar uma nova fase de crescimento económico, tendo destacado, uma população maioritariamente jovem, importantes reservas de gás natural e uma posição geográfica estratégica, servida por portos e corredores logísticos que ligam a África Austral aos mercados internacionais.
Na sua intervenção, Sisoko afirmou que a principal questão já não é saber se Moçambique tem capacidade para crescer, uma vez que essa capacidade foi demonstrada ao longo das últimas décadas. O verdadeiro desafio, frisou, consiste em transformar esse crescimento em emprego, aumento do rendimento das famílias e prosperidade partilhada.
Para alcançar esse objectivo, o representante do Banco Mundial apresentou cinco prioridades estratégicas. A primeira consiste na transformação da agricultura e no desenvolvimento industrial, através da modernização da produção, expansão da irrigação, aumento da produtividade e fortalecimento das cadeias de valor, permitindo melhorar a segurança alimentar e aumentar as exportações.
A segunda prioridade passa pelo reforço do capital humano, mediante investimentos na Educação, Saúde, Nutrição e Formação Profissional, preparando a juventude para responder às exigências da agricultura moderna, da indústria, do turismo e da economia digital.
A terceira aposta recai sobre a expansão das infra-estruturas, incluindo estradas, energia, abastecimento de água, saneamento, habitação, conectividade digital e infra-estruturas resilientes às alterações climáticas, consideradas fundamentais para dinamizar o sector privado e criar emprego.
Como quarta prioridade, Sissoko defendeu que as receitas provenientes do gás natural e dos recursos minerais sejam utilizadas para impulsionar a industrialização, promover a produção de fertilizantes e estimular actividades transformadoras, convertendo os recursos naturais em activos produtivos.
Finalmente, apelou ao reforço da capacidade de execução do Estado, através de uma administração pública mais moderna, maior coordenação institucional, disciplina fiscal e uma cultura de gestão orientada para resultados.
Segundo concluiu, a combinação destas medidas poderá permitir a Moçambique acelerar a transformação estrutural da economia, criar mais oportunidades de emprego e assegurar que o crescimento beneficie um número cada vez maior de cidadãos nas próximas décadas.