Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que a subida do nível geral de preços no País registou uma ligeira desaceleração em Janeiro deste ano, apesar das cheias que cortaram a Estrada Nacional Número 1 (EN1) e condicionaram o abastecimento de produtos.
Depois de o nível geral de preços ter aumentado na ordem de 3,23% em Dezembro de 2025, comparativamente ao mesmo mês de 2024, em Janeiro deste ano, a subida foi menor, de 3,04% comparativamente a Janeiro do ano passado, revela o Instituto Nacional de Estatística.
Porém, os economistas Alfredo Mondlane e Júlio Saramala alertam que ainda não é momento para festejar, porque os reais efeitos da interrupção da principal estrada do País e da perda de produção poderão ser sentidos a partir dos meses de Fevereiro corrente e Março em diante.
Contribuíram para a desaceleração da inflação no primeiro mês do ano em curso os preços dos produtos alimentares e de bebidas não-alcoólicas, bem como dos transportes, segundo o Índice de Preços no Consumidor (IPC), que mede o custo de vida dos cidadãos a nível do País.
Embora com a desaceleração, todos os centros de recolha de dados registaram aumento do nível geral de preços, tendo a cidade de Tete registado o maior aumento de preços com cerca de 7,13%, seguida da cidade de Xai-Xai com 4,97% e da cidade de Quelimane com 4,52%.
Outros pontos que tiveram também aumento de preços foram a cidade de Chimoio com 4,47%, a província de Inhambane com 3,43%, a cidade da Beira, na região Centro do País, com 3,35%, a Cidade de Maputo com 1,12% e a cidade de Nampula com 0,98%.
O economista Alfredo Mondlane lembra que a inflação no País se mantém em níveis relativamente baixos há cerca de dois a três anos, e defende que a desaceleração para 3,04% em Janeiro deve ser lida como parte dessa trajectória, e não como fenómeno isolado do mês.
“Nos últimos anos, a inflação moderada resulta sobretudo de um contexto de procura interna fraca (queda do consumo público). O País atravessou, em 2024, um ano eleitoral marcado por incerteza política e, já em 2025, os distúrbios pós-eleitorais agravaram a confiança dos investidores e das famílias”, explicou Alfredo Mondlane.
Segundo Mondlane, em 2025, o consumo privado desacelerou, o investimento retraiu e o desemprego permaneceu elevado. “Quando a procura agregada está comprimida – crescimento negativo –, a economia tende a registar inflação mais baixa, mesmo perante choques pontuais”.
Por isso, Alfredo Mondlane explica que a desaceleração observada em Janeiro não surpreende. Ela reflecte a continuação de uma tendência que já vinha do ano 2025. Sublinha que os efeitos das últimas cheias e inundações não estão plenamente incorporados nos preços.
“Trata-se de um choque muito recente e, em muitas cadeias de abastecimento, ainda existem stocks que permitem acomodar a procura no curto prazo. É mais provável que os impactos se façam sentir em Fevereiro ou Março, sobretudo em produtos alimentares e transportes”, frisa.
Neste momento, segundo Mondlane, os factores macroeconómicos continuam a favorecer a estabilidade dos preços, com o metical a manter-se relativamente estável, o que ajuda a conter a inflação importada, e os preços internacionais do petróleo e de outras commodities.
“Num país altamente dependente de importações, a estabilidade cambial continua a ser um dos principais pilares para a contenção da inflação”, esclarece Alfredo Mondlane que prevê um cenário base para os próximos meses de inflação ainda moderada.
“Possivelmente com alguma pressão temporária após as cheias, mas sem sinais de uma aceleração generalizada, a menos que ocorram choques cambiais, fiscais ou de combustíveis”, antevê o economista.
Em síntese, Mondlane considera que Moçambique vive um período de inflação baixa, não por excesso de dinamismo económico, mas sobretudo por procura interna contida e alguma estabilidade e estabilidade cambial.
“O desafio da política económica será manter a inflação controlada, ao mesmo tempo que se cria condições para recuperar o crescimento, o emprego e a confiança dos agentes económicos”, alerta o economista Alfredo Mondlane.
Na última reunião do Comité de Política Monetária, o banco central disse que a perspectiva de inflação se mantém abaixo de 10% nos próximos anos, essencialmente devido à estabilidade do metical, à procura interna contida e aos preços internacionais de mercadorias.
Por sua vez, o economista Júlio Saramala entende que, apesar de as últimas cheias e inundações terem criado subidas expressivas no sector da alimentação e dos transportes, tais choques de ofertas estão centralizados na zona sul e também são temporários.
“Existe ainda uma instabilidade na procura e no rendimento disponível das famílias. Há uma menor pressão da procura, e as empresas têm menos margem de aumentar os preços de forma generalizada, ou seja, a economia está um pouco estagnada. Então, consequentemente, o crescimento está a ser menor e a inflação também está a ser menor”, explica Saramala.
No entender do economista, mesmo com os aumentos pontuais de preços causados por constrangimentos logísticos, cheias e inundações que cortaram a EN1, estes não se propagam por toda a economia e não causam pressão suficiente ao nível geral de preços.
Porém, segundo Saramala, a curto prazo é natural que ainda haja alguma volatilidade dos preços, sobretudo nos elementos frescos e transportes, enquanto o País normaliza algumas cadeias de abastecimento, pós-cheias. Contudo, em termos anuais, o cenário continua estável.
Saramala clarifica, contudo, que o facto de a inflação, actualmente, estar a baixar não quer dizer que os preços estão baixos. Significa apenas que os preços sobem lentamente, sobem mais, mas de uma forma lenta, ou seja, o nível de preços acumulado continua alto.
“É importante referir que, apesar de a inflação estar baixa, o custo de vida continua apertado, continua sufocante, principalmente para as famílias mais vulneráveis, ou que têm um salário mínimo, ou que têm condições muito mais reduzidas”, esclarece o economista e salienta que tal situação esconde o nível de desigualdades regionais no País.
Saramala explica que a experiência moçambicana mostra que grande parte da inflação registada no País é provocada por choques de oferta, choques climáticos, interrupções de logística, em concreto de estradas, dependência excessiva de certas rotas de transporte e baixa diversificação da produção, e não apenas por excesso de procura.
“Nesse caso, a política monetária, apesar de ser importante, encontra muitas limitações para uma estabilidade macroeconómica, ou seja, não resolve de uma forma isolada. É importante que existam mais medidas estruturais, que devem complementar”, entende Saramala.
No entender do economista, é importante ter uma criação de reservas estratégicas de alimentos, uma cadeia alimentar completa desde o início da produção até ao início do processamento. É ainda importante melhorar a logística inter-regional para reduzir a disparidade dos preços entre as províncias, defende o economista.
De forma resumida, Saramala diz que o desafio central do País não é manter a inflação baixa, mas transformar a actual instabilidade em melhoria real do poder de compra das famílias.