O País – A verdade como notícia

Os economistas Júlio Saramala e Humberto Zaqueu afirmam que, apesar de ser promissor e de grande importância, o projecto da linha ferroviária Norte–Sul anunciado pelo Governo pode falhar devido a diversos riscos financeiros que afectam o País.

O Executivo decidiu criar o Gabinete da Linha Ferroviária Norte–Sul (GLNS), entidade responsável por coordenar a construção da futura infra-estrutura ferroviária, que deverá interligar o País de forma contínua. O economista Júlio Saramala salienta que, embora o projecto apresente vantagens estratégicas, levanta também riscos financeiros e institucionais. Segundo ele, a ferrovia deve complementar a rede de transportes existente e não substituir a EN1 ou os corredores actuais.

“A via terrestre tende a servir distâncias mais curtas e cargas menores, enquanto o transporte ferroviário é mais adequado para longas distâncias e grandes volumes. Uma ferrovia bem estruturada poderia ainda estimular zonas industriais ao longo do traçado, desde que existam condições de energia, regras claras de acesso e um plano consistente de manutenção, um ponto crítico no sector logístico nacional”, explicou, sublinhando que o investimento pode integrar melhor o mercado interno, aproximando zonas de produção e consumo e reduzindo as chamadas pequenas ilhas económicas.

Apesar do potencial, Saramala alerta para os riscos financeiros: “Não é o valor absoluto do investimento que preocupa, mas quem assume o risco e como esse valor entra nas contas públicas. O projecto, avaliado em cerca de 7,2 mil milhões de dólares, se financiado através de dívida soberana, poderá aumentar a pressão fiscal e comprometer a dívida pública, que se aproxima de 110% do PIB.”

O economista defende que uma parceria público-privada (PPP) seria a forma mais prudente de avançar. Saramala sublinha ainda que a implementação deve ser faseada, baseada na capacidade actual de carga, evitando o risco de infra-estruturas subaproveitadas ou “elefantes brancos”. Alerta também para a possibilidade de a ferrovia servir apenas à extracção de recursos, sem gerar efeito multiplicador na economia.

“Enquanto não se falar de diversificação económica e dos benefícios reais da linha ferroviária do Sul ao Norte para os diversos sectores, estaremos a falar de projectos parados pela metade, sem impacto real no crescimento do PIB.”

O economista lembra que propostas semelhantes já foram discutidas, mas falharam por falta de recursos, planeamento incompleto e ausência de acompanhamento a longo prazo. Para ele, a prioridade não deve ser apenas garantir financiamento externo, mas assegurar capacidade institucional, técnica e de supervisão robusta.

“Mais do que ambição política, é fundamental que exista capacidade de implementação e manutenção a longo prazo.”

Por sua vez, o economista Humberto Zaqueu reconhece a importância do projecto, considerando-o um sonho antigo que poderia transformar o País, uma ideia já crucial após a independência.

“No tempo colonial, a rede ferroviária de Moçambique servia toda a região, era uma fonte importantíssima de recursos e desempenhava um papel crucial na economia nacional”, recordou.

Zaqueu salienta que a economia moçambicana continua pouco diversificada, centrada na exportação de commodities como o carvão, e defende que uma ferrovia robusta poderia ligar o País de forma eficiente, do Rovuma ao Maputo.

“Uma única locomotiva consegue transportar o equivalente a 100 ou 200 camiões, com poupança de combustível e menor desgaste das estradas. É um transporte mais económico e ambientalmente eficiente, que beneficia sobretudo as zonas remotas.”

Entretanto, para além dos elogios, Zaqueu apresenta críticas e recomendações sobre o projecto. “Há os riscos ligados à implementação. Muitas vezes, somos um país que fica nas intenções. Anunciamos algo e nunca materializamos”, disse, citando exemplos de obras abandonadas na reabilitação de estradas e infra-estruturas urbanas.

O economista aponta alguns factores determinantes para o sucesso do projecto, destacando “vontade política, combate à corrupção, plano de longo prazo e mobilização eficiente de recursos”. Quanto às parcerias público–privadas, reconhece o seu potencial de financiamento, mas alerta que podem implicar exploração ou custos para o cidadão, exigindo regulamentação rigorosa.

Zaqueu enfatiza ainda a necessidade de gestão pública eficiente.

“Se tivermos estas ferrovias em condições, o modelo de gestão é fundamental. Senão, entraremos num ciclo semelhante ao que acontece com empresas públicas como a LAM. É preciso uma reforma da gestão da coisa pública para avançarmos com um projecto tão ambicioso como este.”

Para o economista, projectos como Coral Sul e Coral Norte, bem como a reentrada da Total, devem ser encarados como oportunidades para financiar a ferrovia, lembrando que soluções do Fundo Soberano ou títulos de dívida externa só trariam resultados a longo prazo.

Depois do mais recente falhanço do apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Governo contratou a Alvarez & Marsal como assessora financeira para conseguir um novo programa financeiro da instituição financeira internacional. 

Trata-se de uma nova tentativa do Ministério das Finanças rumo a um novo programa de apoio financeiro do FMI ao País, num contexto em que o Governo moçambicano enfrenta sérios problemas para ter acesso a financiamentos.

Tal faz parte de uma estratégia da instituição pública que inclui reformas estruturais na gestão dos recursos financeiros do Estado e gestão da dívida pública, cujos pagamentos têm vindo a falhar, segundo o Fundo Monetário.

“Permanecemos empenhados num diálogo construtivo com todas as partes interessadas, incluindo credores e parceiros de desenvolvimento à medida que avançamos neste processo de transformação económica”, refere o Ministério.

Numa nota de imprensa, em resposta ao relatório do FMI, o Executivo explica que as reformas visam melhorar a dívida pública, reforçar a posição fiscal, reduzir riscos de refinanciamento e minimizar os custos do serviço da dívida.

Depois de ter trabalhado em Moçambique, em Novembro do ano de 2025, uma delegação do Fundo Monetário Internacional concluiu que os desafios do País continuam significativos, com destaque para os ligados à dívida pública.

Entre os problemas apontados pelos quadros da instituição consta o facto de o Governo enfrentar condições de financiamento cada vez mais difíceis, com os atrasos no serviço da dívida, e estar a ter financiamento externo líquido negativo.

Na nota, o Governo admite estar a enfrentar pressões de liquidez de curto prazo, devido às seguintes razões: necessidade de desenvolvimento permanente; redução do apoio externo; e uma série sem precedentes de choque externos.

Entretanto, o Executivo refere que, não obstante os desafios, as perspectivas económicas de médio prazo do País permanecem estruturalmente sólidas, com os projectos de gás natural liquefeito que deverão gerar receitas a partir de 2030.

Espera-se que tais projectos da indústria de hidrocarbonetos sejam catalisadores para cadeias de valor integradas e plataformas industriais centrais para a transformação económica de Moçambique nos próximos anos.

Importa sublinhar que as dificuldades enfrentadas pelo Governo para ter acesso a financiamento no mercado ocorrem mesmo depois de o País ter sido retirado da lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira contra Lavagem de Dinheiro.

“Apesar de alguns desenvolvimentos positivos, como a baixa inflação, reservas cambiais confortáveis, a retoma do projecto de Gás Natural Liquefeito e a saída lista cinzenta do GAFI, os desafios permanecem significativos”, refere o FMI.

Como saídas para os problemas, o FMI recomenda ao Governo a formulação de um pacote abrangente de reformas políticas, de modo a consolidar a estabilidade macroeconómica e lançar as bases para um crescimento mais forte e duradouro.

No relatório, os membros do Conselho de Administração do FMI saúdam a política monetária prudente do Banco de Moçambique e sugerem a redução do aperto à política cambial, apesar do risco de agravar a escassez de divisas.

“Os membros do Conselho de Administração concordaram que uma maior flexibilidade cambial permitiria à economia ajustar-se às mudanças nas condições externas e apoiar o crescimento”, avança a instituição financeira.

Os directores do FMI que visitaram Moçambique destacaram ainda a importância de o País fortalecer a implementação de reformas estruturais, com foco no fortalecimento da governança, da transparência e da responsabilização.

Sublinham ainda, os directores, que é necessário promover um ambiente mais propício ao desenvolvimento do sector privado e saúdam a conclusão da parte legal do Fundo Soberano, que permitirá a sua plena operação brevemente.

Depois do falhanço nas negociações de um novo programa entre o Governo e o FMI que deveriam terminar em Março próximo, o economista Edgar Chuze sugere que o Executivo recorra a alternativas de financiamento.

“Nossa economia não está tão saudável a ponto de dizermos que não precisamos de apoios, sejam eles bilaterais ou multilaterais, para que o plano quinquenal e o plano económico e social sejam implementados”, entende Chuze.

Por sua vez, Egas Daniel, também economista, considera que grande parte das recomendações do Fundo Monetário Internacional não deveriam vir daquela instituição financeira, por fazerem sentido do ponto de vista económico.

“O mais importante é assegurar que os interesses de desenvolvimento do País estão acautelados. Se há um acordo que põe em causa a materialização dos objectivos de desenvolvimento do País, faz sentido o Governo resistir”, afirmou.

O Governo moçambicano afirma que a transferência de 109,9 milhões de dólares (92,7 milhões de euros) para o Fundo Soberano de Moçambique (FSM), em dezembro, contribuirá para a recuperação económica num “contexto de contração” no país.

“Pode contribuir para a recuperação do PIB em contexto de contração ao assegurar estabilidade macroeconómica e previsibilidade fiscal, permitindo ao Estado manter o investimento público mesmo em períodos adversos”, lê-se no relatório da execução orçamental do ano de 2025, sobre o FSM, citado pela Lusa, alimentado com 40% das receitas da exploração do gás, conforme prevê a legislação que o criou.

O documento da execução orçamental do Ministério das Finanças, a que a Lusa teve acesso, sublinha que o FSM, “articulado com a despesa orçamental, pode ajudar a sustentar setores estratégicos com elevado efeito multiplicador, estimulando a produção, o emprego e a procura interna”.

“Simultaneamente, a existência de poupança soberana reforça a confiança dos investidores, reduz riscos macroeconómicos e atenua pressões inflacionistas e cambiais, criando condições favoráveis para a retoma gradual e sustentável do crescimento económico”, sublinha.

A actividade económica em Moçambique recuou 0,85% no terceiro trimestre, em termos homólogos, acumulando um ano de quedas consecutivas, segundo dados divulgados em dezembro pelo banco central, que justificou o desempenho com os “efeitos da tensão pós-eleitoral”. Antes já tinha registado uma contração de 5,68% no quarto trimestre de 2024, período de forte contestação às eleições gerais de 09 de outubro, seguindo-se ainda quedas de 3,92% e 0,94%, respectivamente, no primeiro e segundo trimestres de 2025.

Já o valor do FSM cresceu quase 6% no primeiro mês de gestão do banco central, para 116,41 milhões de dólares (98,2 milhões de euros), após nova entrada de capital, segundo dados noticiados em janeiro pela Lusa.

O Governo entregou em 10 de Dezembro, ao Banco de Moçambique (BM), os primeiros 109,97 milhões de dólares de receitas de exploração de gás, para capitalização e arranque da operação do FSM.

De acordo com uma actualização feita pelo BM, até ao final do dia 06 de janeiro o valor de mercado do fundo subiu para 116,41 milhões de dólares, após fechar dezembro nos 110,18 milhões de dólares (93 milhões de euros). Esse aumento justifica-se essencialmente com nova entrada de capital feita em 06 de janeiro pelo Governo, no valor de 6,159 milhões de dólares (5,2 milhões de euros).

O Governo está a enfrentar dificuldades para ter acesso ao financiamento, alerta o Fundo Monetário Internacional. Segundo a instituição, os desafios do país continuam significativos, apesar da saída da lista cinzenta do GAFI. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que Moçambique enfrenta condições de financiamento cada vez mais difíceis, levando a cortes na aquisição de bens e serviços em 2025, ano que registou um crescimento económico de 0,5%.

Depois de ter trabalhado em Moçambique, no fim do ano passado, uma delegação do Fundo Monetário Internacional concluiu que os desafios do país continuam enormes, com destaque para os ligados à dívida pública.

Através de um comunicado divulgado esta quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional alerta que “o Governo enfrenta condições de financiamento cada vez mais difíceis. Com os atrasos no serviço da dívida, a detenção de títulos públicos pelos bancos nacionais – a principal fonte de financiamento dos grandes e persistentes défices fiscais – estagnou. O financiamento externo líquido tem sido negativo”.

Face a estas condições de financiamento restritivas, de acordo com o FMI, “estima-se que o défice orçamental tenha diminuído significativamente em 2025, descendo para 4,5% do PIB, face aos 6,2% de 2024, principalmente devido à redução das despesas com bens, serviços e projetos de capital”.

Trata-se de uma situação que está a reduzir a ajuda externa e a tornar o endividamento público vulnerável, desequilibrando assim as contas do Estado. Diante do cenário, o FMI prevê crescimento da economia nacional moderado.

“O crescimento económico, excluindo o sector mineiro, deverá manter-se moderado, em torno de 2%, refletindo o fraco crescimento do crédito. A inflação deverá ultrapassar a meta implícita do banco central no médio prazo, impulsionada pelo financiamento monetário dos elevados défices fiscais”, revela. 

“Ao mesmo tempo, o país enfrenta necessidades prementes de desenvolvimento, limitações de capacidade e frequentes desastres naturais”, lê-se.

Face ao constatado, os directores do FMI recomendam ao Governo a formular um pacote abrangente de reformas políticas para consolidar a estabilidade macroeconómica e lançar as bases para um crescimento mais forte e duradouro. 

“Eles destacaram a importância de conter o pagamento da folha salarial, ampliar a base tributária, aprimorar a gestão das finanças públicas, abordar os riscos fiscais das empresas estatais e da assistência social, e fortalecer a gestão da dívida e a transparência e a proteger os grupos vulneráveis”, recomenda o FMI.

Os membros do conselho de administração do FMI saudaram ainda a política monetária prudente do banco central, mas dizem haver espaço para reduzir o aperto à política cambial, apesar do risco de agravar a escassez de divisas. 

“Os membros do Conselho de Administração concordaram que uma maior flexibilidade cambial permitiria à economia ajustar-se às mudanças nas condições externas e apoiar o crescimento, e recomendaram a manutenção de um nível prudente de reservas cambiais”. 

O FMI reconhece que “apesar de alguns desenvolvimentos positivos”, como a “baixa inflação”, as reservas cambiais “adequadas”, a retoma do megaprojeto de gás natural da TotalEnergies e a retirada da lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), “os desafios continuam a ser significativos”.

Refere que “as atuais políticas macroeconómicas”, nomeadamente “os grandes défices orçamentais e a necessidade de maior flexibilidade cambial”, irão “provavelmente exacerbar as vulnerabilidades macroeconómicas e da dívida”.

Nas conclusões aprovadas pelo conselho executivo, os diretores do FMI enfatizam “os riscos e vulnerabilidades substanciais decorrentes dos grandes desequilíbrios internos e externos, do fraco crescimento, da elevada dívida pública, dos desafios de segurança, das fragilidades institucionais e dos choques climáticos” que Moçambique enfrenta.

A China vai implementar um regime de tarifas zero para as importações provenientes de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, a partir de 1 de Maio de 2026, incluindo Moçambique, noticiaram os meios de comunicação estatais, numa medida que alarga o regime preferencial de comércio de Pequim a todo o continente.

Segundo noticiou o Business Insider Africa, a China decidiu aplicar o tratamento de tarifa zero às importações de 53 países africanos, numa decisão que surge num contexto de incerteza persistente quanto à renovação da Lei Africana de Crescimento e Oportunidades dos Estados Unidos (AGOA) e de tensões comerciais contínuas entre os países africanos e a União Europeia (UE) em torno dos Acordos de Parceria Económica.

A decisão resulta de um envolvimento diplomático sustentado por parte dos líderes africanos.

Além da isenção tarifária, o governo chinês continuará a impulsionar negociações e a assinatura de acordos de parceria econômica conjunta com países africanos. A iniciativa busca consolidar a cooperação bilateral e criar condições mais favoráveis para o comércio.

A China também pretende expandir o acesso de produtos africanos ao seu mercado interno por meio de mecanismos considerados aprimorados, como o chamado “canal verde”, ferramenta destinada a facilitar e agilizar processos de exportação. O objectivo é ampliar a presença de mercadorias africanas na segunda maior economia do mundo.

A medida reforça a estratégia chinesa de aprofundar relações comerciais com a África, região que tem ganhado relevância nas cadeias globais de suprimentos e no comércio internacional. A iniciativa pode representar uma oportunidade significativa para exportadores africanos ampliarem sua participação no mercado chinês.

O governo chinês confirmou que o único país que não será incluído na isenção de taxas é o Eswatini, pequena Nação sem saída para o mar e que não tem relações diplomáticas oficiais com Pequim.

Um dos motivos da decisão do governo chinês foi o crescente volume do comércio com o continente. Em 2024, atingiu 2,1 trilhões de yuans. As principais indústrias que impulsionaram a parceria comercial foram de agricultura e infra-estrutura.

Nas últimas décadas, a China estabeleceu presença significativa em África, com investimentos concentrados principalmente em infra-estrutura logística. O país asiático tem controlo ou participação em 1/3 dos portos do continente africano, onde suas empresas estatais financiam, constroem ou operam instalações.

Um relatório divulgado pelo CAEE (Centro Africano de Estudos Estratégicos) em Março de 2025 mostra que a China tem presença em 78 das 231 instalações portuárias existentes no continente. Os dados indicam que a participação chinesa corresponde a aproximadamente 33,7% da infra-estrutura portuária.

Alguns economistas saúdam a prorrogação da Lei de Crescimento e Oportunidade para África (AGOA), dos EUA, mas consideram que o impacto directo sobre a economia nacional continua limitado. Alertam, igualmente, que o País deve posicionar-se de forma estratégica face aos condicionalismos associados aos programas norte-americanos, apostando na redução da dependência externa e no reforço da base produtiva interna.

A extensão da Lei de Crescimento e Oportunidade para África (AGOA) volta a colocar Moçambique no radar do comércio preferencial com os Estados Unidos da América (EUA). Ainda assim, economistas nacionais consideram que o impacto real para a economia do País deverá continuar modesto. O consenso entre os economistas moçambicanos é claro: sem base industrial sólida e sem melhorias estruturais, o acesso privilegiado ao mercado norte-americano não se traduz automaticamente em crescimento.

Os Estados Unidos reactivaram a AGOA por mais um ano, fixando o novo prazo até 31 de Dezembro de 2026. A decisão, com efeitos retroactivos a 30 de Setembro de 2025, data em que o mecanismo havia expirado, devolve alguma estabilidade às relações comerciais com cerca de 30 países da África Subsaariana, entre os quais Moçambique.

A renovação foi formalizada através de legislação promulgada pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, recentemente, no âmbito de um pacote mais amplo ligado ao financiamento do governo federal. O representante comercial da Presidência dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a extensão deverá servir de ponto de partida para uma revisão do programa, alinhada com a política “America First”.

“A AGOA, no século XXI, deve exigir mais dos nossos parceiros comerciais e proporcionar maior acesso ao mercado para as empresas, agricultores e pecuaristas dos Estados Unidos”, declarou Greer, sinalizando que Washington pretende maior reciprocidade e benefícios concretos para a economia americana.

Criada em 2000, durante a administração de Bill Clinton, a AGOA permite a exportação de mais de sete mil produtos africanos para os Estados Unidos com isenção de taxas aduaneiras, desde que os países cumpram requisitos ligados à governação democrática, direitos humanos e combate à corrupção.

Apesar do potencial, os números mostram que os ganhos estão concentrados em poucas economias. O volume total de exportações ao abrigo da AGOA, em 2024, situou-se em 8,23 mil milhões de dólares, dos quais metade teve origem na África do Sul e cerca de 20% na Nigéria. Moçambique figura entre os países que pouco tiram proveito do mecanismo, segundo os economistas nacionais.

De acordo com o economista, Constantino Marrengula, as vendas para o mercado americano representam apenas cerca de 2% do total das exportações nacionais. “É um valor muito marginal”, sublinhou.

Para Marrengula, não se deve esperar mudanças substanciais apenas por causa da prorrogação. “Não podemos esperar grandes mudanças em relação ao padrão anterior das exportações. A capacidade produtiva não se transforma de um dia para o outro”, afirmou.

O académico reconhece que poderão surgir pequenas oportunidades adicionais, mas considera que os ganhos continuarão reduzidos. Moçambique exporta para os Estados Unidos sobretudo vestuário, açúcar, tabaco e alguns minerais, produtos que não representam uma alteração estrutural na balança comercial.

Entre os principais entraves apontados estão a fraca industrialização, a limitada transformação de matérias-primas e os custos logísticos elevados. “O nosso sector industrial não estava preparado para responder ao mercado. Houve tempo suficiente para melhor aproveitamento da AGOA, mas faltou organização e estratégia para maximizar as oportunidades”, referiu Marrengula.

A própria posição oficial norte-americana já reconheceu publicamente o baixo nível de utilização do programa por parte de Moçambique. Em intervenções anteriores, diplomatas dos EUA admitiram que apenas aproximadamente 3% das exportações nacionais beneficiavam efectivamente das preferências tarifárias disponíveis, até 2016.

Dados apresentados no âmbito da Estratégia Nacional de Utilização da AGOA indicavam que cerca de um milhão de dólares das exportações moçambicanas usufruíam directamente das isenções, num universo muito mais amplo de trocas comerciais. Na ocasião, representantes americanos chegaram a afirmar que existem “muito mais oportunidades que Moçambique não está a aproveitar”.

Refira-se que este reconhecimento serviu de base para iniciativas de assistência técnica e apoio ao sector privado, com o objectivo de melhorar padrões de qualidade, certificação e capacidade de inserção nas cadeias de valor orientadas para o mercado norte-americano.

Apesar disso, os constrangimentos persistem. Segundo Marrengula, “a logística continua a ser um dos maiores obstáculos. Custos portuários, transporte interno dispendioso e burocracia elevam o preço final dos produtos, comprometendo a competitividade. A questão logística e os custos adicionais de exportação limitaram fortemente o melhor aproveitamento da AGOA”.

No curto prazo, o economista defende que o Governo deve concentrar-se em identificar empresas já exportadoras ou com potencial imediato e criar condições para reduzir entraves administrativos. “É importante apoiar quem já está no mercado americano, sobretudo ajudando a baixar custos logísticos e de exportação. É aí que o Estado pode ter maior impacto”, sugeriu.

Ainda assim, alerta que uma transformação profunda exige tempo. “O processo de mudança estrutural da economia é de médio e longo prazo. Não produzirá efeitos imediatos suficientes para aproveitar plenamente uma prorrogação de apenas um ano.”

Para o economista Firmino Chirrime, a renovação do acordo representa uma oportunidade, mas também reflecte interesses estratégicos dos Estados Unidos. “É uma porta que se abre para o desenvolvimento dos países africanos, mas também responde aos interesses norte-americanos”, afirmou.

Segundo Chirrime, a política comercial americana não abdica da sua posição de vantagem. “Há um significado particular nesta administração marcada pelo princípio ‘America First’, que não pretende abdicar da sua hegemonia nem dos seus ganhos nas relações com África.”

O economista entende que a AGOA pode contribuir para sectores prioritários como educação, reforço institucional, agro-indústria e resiliência climática. Contudo, defende uma visão estratégica orientada para a auto-suficiência. “Mais do que abrir uma janela, é preciso que essa janela nos conduza à independência económica. Não podemos depender eternamente de programas externos para crescer.”

Num contexto internacional cada vez mais competitivo e condicionado por interesses geopolíticos, os analistas defendem uma revisão crítica dos acordos anteriores, identificando falhas e corrigindo fragilidades, sobretudo com os  crescentes cortes de programas norte-americanos, nos últimos tempos.

A meta, afirmam os economistas, deve ser fortalecer a capacidade produtiva nacional e melhorar o posicionamento negocial do País.

Os Estados Unidos da América reautorizaram a African Growth and Opportunity Act (AGOA) por mais um ano, até 31 de Dezembro de 2026, devolvendo previsibilidade às relações comerciais com os países da África Subsaariana, depois de vários meses de incerteza provocados pela expiração do programa em Setembro de 2025. A decisão permite a retoma plena de um dos mais importantes instrumentos de acesso preferencial ao mercado norte-americano para economias africanas, incluindo Moçambique.

A reautorização foi formalizada com a promulgação de uma lei pelo Presidente dos Estados Unidos da América, no âmbito de um pacote legislativo mais amplo ligado ao financiamento do governo federal. A medida tem efeitos retroactivos, cobrindo o período em que o acordo esteve tecnicamente suspenso, evitando prejuízos adicionais para exportadores africanos que dependem do acesso isento de tarifas ao mercado norte-americano.

Num comunicado oficial, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, sublinha que a extensão do acordo deve servir de base para uma revisão mais profunda do programa. “A AGOA, no século XXI, deve exigir mais dos nossos parceiros comerciais e proporcionar maior acesso ao mercado para as empresas, agricultores e pecuaristas dos Estados Unidos”, disse, acrescentando que o objectivo é “construir sobre os benefícios que o programa historicamente proporcionou à África e aos Estados Unidos”.

Criada em 2000, a AGOA permite que países elegíveis da África Subsaariana exportem milhares de produtos para os EUA sem o pagamento de direitos aduaneiros, abrangendo sectores como têxteis e vestuário, produtos agrícolas transformados, minérios, componentes industriais e bens de consumo. Ao longo de mais de duas décadas, o programa consolidou-se como um dos principais pilares das relações económicas entre Washington e o continente africano.

A paralisação temporária do acordo, após o seu termo em Setembro de 2025, resultou de divergências políticas no Congresso norte-americano quanto à duração e ao modelo de renovação do programa. Enquanto alguns legisladores defendiam uma extensão plurianual, outros optavam por uma renovação curta, condicionada a uma revisão profunda da AGOA, alinhada com a actual orientação da política comercial dos EUA. O impasse criou um vazio legal que afectou contratos, investimentos e o planeamento de empresas exportadoras em vários países africanos.

Com a reautorização por mais um ano, a administração norte-americana sinaliza abertura para negociações destinadas a modernizar o acordo. “Vamos trabalhar com o Congresso ao longo do próximo ano para modernizar o programa, de forma a alinhá-lo com a política comercial ‘America First’ do Presidente Trump”, diz Jamieson Greer no mesmo comunicado.

Para Moçambique, a retoma da AGOA é vista como estratégica. O País beneficia do acesso preferencial ao mercado norte-americano para produtos como alumínio, vestuário, produtos agrícolas processados e outros bens com potencial de exportação. Num contexto de esforços para diversificar a economia, reduzir a dependência de matérias-primas e promover a industrialização, o acordo representa uma oportunidade concreta de inserção em cadeias globais de valor.

Além do impacto directo nas exportações, a AGOA contribui para a atracção de investimento estrangeiro, sobretudo em sectores orientados para a exportação, e para a criação de emprego, particularmente na indústria transformadora. A previsibilidade comercial proporcionada pelo acesso isento de tarifas é frequentemente apontada como um factor decisivo para decisões de investimento de médio e longo prazo.

A nível regional, a extensão da AGOA é relevante para a África Austral e para o conjunto da África Subsaariana, numa fase marcada por pressões económicas globais, volatilidade dos mercados e necessidade de recuperação após choques climáticos e financeiros. O acordo continua a ser um dos poucos instrumentos comerciais que garantem acesso preferencial unilateral a um dos maiores mercados do mundo.

No entanto, a curta duração da renovação mantém alguma incerteza. Governos e exportadores africanos defendem uma extensão mais longa, que permita um planeamento sustentável e a consolidação de cadeias produtivas. Analistas alertam que renovações anuais podem limitar investimentos estruturantes e reduzir o impacto transformador do programa.

Ainda assim, a retoma da AGOA é encarada como um alívio para as economias africanas e como uma oportunidade para reforçar reformas internas, melhorar o ambiente de negócios e preparar-se para um eventual novo modelo de cooperação comercial com os Estados Unidos. Para Moçambique, o desafio passa por tirar o máximo proveito do acesso preferencial enquanto decorrem discussões sobre o futuro do acordo, apostando na competitividade, no valor acrescentado e na diversificação das exportações.

Os economistas Octávio Manhique e Gananzito Lino defendem que o processo de  reconstrução das zonas afectadas pelas cheias em Moçambique deve iniciar-se pela reposição urgente das principais vias de acesso, em particular a Estrada Nacional Número Um (EN1), considerada a espinha dorsal da circulação de pessoas e mercadorias no País.

Falando durante o espaço de debate no programa O País Económico, da STV, os economistas foram unânimes em afirmar que as cheias encontraram o País em contrapé, uma vez que ainda estava no processo de recuperação pós-manifestações eleitorais.

Segundo Octávio Manhique, a destruição provocada pelas cheias ocorre num momento especialmente sensível para a economia nacional, que ainda se encontrava em processo de retoma. “A primeira situação que tem de ser atendida, porque é urgente e sufoca, sobretudo, as economias das províncias de Gaza e Inhambane, são exactamente os cortes que se verificaram na estrada”, afirmou, sublinhando que a reposição desta infra-estrutura básica é uma condição indispensável para restaurar o mínimo de normalidade económica.

O economista explicou que a interrupção da EN1 contribui directamente para a escassez de produtos e para a subida especulativa de preços. “Quando se sabe que o coco não vem de Inhambane, no dia seguinte o preço dispara”, exemplificou, defendendo que a reposição da transitabilidade reduz a tentação de especulação, ao assegurar a continuidade da cadeia de abastecimento.

Para além das estradas, Octávio Manhique considera prioritário o apoio às populações afectadas, muitas das quais permanecem em centros de acomodação, depois de perderem casas, bens e meios de subsistência. Defende que o processo de reassentamento deve ser acompanhado de medidas que permitam às famílias retomarem actividades produtivas, sobretudo agrícolas, em zonas mais seguras. “Há pequenas coisas que podem ir sendo feitas para apoiar estas pessoas a reerguerem-se”, frisou.

No médio e longo prazo, o economista alerta para a necessidade de o País assumir que as crises climáticas vieram para ficar, exigindo investimentos estruturais em prevenção, controlo de cheias e ordenamento do território. Reconhecendo as limitações do Tesouro Público e a reduzida margem de endividamento, aponta o apoio externo como a via mais realista para financiar grande parte da recuperação, através de parceiros bilaterais, multilaterais e organismos como o Banco Mundial e o FMI.

Por seu turno, o economista Gananzito Lino defendeu que a reconstrução deve ser orientada por um plano estratégico de prevenção e resposta a desastres, incluindo a eventual criação de um fundo específico para estes cenários. Para Lino, as cheias destruíram simultaneamente o tecido social e produtivo, afectando infra-estruturas públicas, hospitais, escolas, unidades do sector privado e cerca de 105 mil hectares de culturas.

“Temos uma grande espinha dorsal que liga os centros de produção e os centros de comercialização, que são as infra-estruturas rodoviárias”, afirmou, acrescentando que também as linhas ferroviárias e outros sistemas de transporte devem ser repostos com urgência. O economista defende, igualmente, um mapeamento do sector privado afectado e a criação de pacotes de apoio e financiamento para permitir a retoma da actividade económica e evitar o agravamento do desemprego e da inflação.

Gananzito Lino sublinhou ainda que, apesar de o Orçamento do Estado para 2026 já ter sido aprovado, a situação extraordinária criada pelas cheias obriga a um reajustamento das prioridades de despesa e à mobilização de apoios externos. Contudo, alerta que qualquer recurso mobilizado deve ser gerido com rigor: “É preciso valorizar cada centavo que for alocado para a recuperação dessas emergências”.

As posições convergentes dos dois economistas apontam para uma abordagem faseada da reconstrução: começar pela reposição das vias de acesso e da mobilidade, avançar para o apoio humanitário e reassentamento, e, paralelamente, estruturar medidas de prevenção e resiliência climática que reduzam a vulnerabilidade do País a futuros desastres.

Depois de receber do Governo cerca de 110 milhões de dólares para o Fundo Soberano, no dia 10 de Dezembro de 2025, o Banco de Moçambique, gestor operacional da entidade, depositou a prazo o valor em três bancos e ganhou juros.

Segundo as demonstrações financeiras do Fundo Soberano, a aplicação do valor nos bancos Bred Banque Populaire, The Toronto-Dominon Bank e Sumitomo Mitsui Trust Bank permitiu à entidade alcançar o seu primeiro lucro a 31 de Dezembro de 2025.

“O lucro registado no exercício findo em 31 de Dezembro de 2025 decorreu dos juros das aplicações em depósitos de muito curto prazo (overnight) efectuadas em três contrapartes no estrangeiro com início a 12 de Dezembro de 2025”, diz o documento.

O resultado líquido positivo (lucro) alcançado pelo Fundo Soberano foi de 210 589,11 dólares, que, somados ao capital inicial, totalizam cerca de 110,2 milhões de dólares de capitais próprios da entidade criada para acumular poupanças para futuras gerações.

O conteúdo que consta das demonstrações financeiras foi aprovado pelo governador do Banco de Moçambique, na qualidade de entidade máxima responsável pela gestão operacional do Fundo Soberano, conforme previsto na lei criada para o efeito.

Em referidos bancos, as taxas de juro mínima e máxima aplicadas nos depósitos a prazo em moedas estrangeiras (overnight) foram de 3,60% e 3,9% válidas para um período de um mês, referem as demonstrações financeiras do Fundo Soberano.

Para manter as contas bancárias no exterior, o Banco de Moçambique, na qualidade de gestor do Fundo Soberano, fez pagamentos de 1103,07 dólares norte-americanos referentes aos serviços no exercício económico de 2025.

O valor foi desembolsado a título de adiantamento e deverá ser cobrado pelo banco ao Fundo Soberano, que por sua vez deverá encaixar nas receitas da produção de gás nas áreas 1 e 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado. 

São objectivos do Fundo Soberano apoiar o desenvolvimento socioeconómico do País; acumular poupanças para as futuras gerações oriundas das receitas de gás e estabilizar o Orçamento do Estado em caso de volatilidade das receitas.

Para o exercício económico do ano de 2026, espera-se que sejam canalizados ao Fundo Soberano de Moçambique mais 30,7 milhões de dólares (40% da receita global), e as receitas de gás remanescentes, cerca de 46,1 milhões (60% da receita global), vão para a Conta Única do Tesouro (CUT).

“Assim, quaisquer cobranças adicionais realizadas ao longo do ano serão integralmente transferidas para a conta do Fundo Soberano de Moçambique”, prevê o Governo no Plano Económico e Social e Orçamento de Estado de 2026.

Devido ao decréscimo na estimativa de produção da concessionária para o ano de 2026, a parte das receitas do gás natural liquefeito direccionada à Conta Única do Tesouro vai reduzir de 47,1 milhões para 46,1 milhões de dólares.

O valor que vai para a CUT será direccionado à construção da ponte sobre o rio Save, urbanização e disponibilização de terra infra-estruturada, construção e apetrechamento do Hospital Distrital de Chibuto, entre outras finalidades.

De acordo com o Governo, o Fundo é um mecanismo para fomentar a diversificação económica e aumentar a resiliência do País face a choques internos e externos, contribuindo para o crescimento sustentável e inclusivo.

+ LIDAS

Siga nos