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E quem disse que existe trabalho só para homens ou só para mulheres?

Há, ainda hoje em dia, quem pensa que existem profissões apenas para homens, mas Irene, Nelma e Ana Vanessa provam que são capazes de fazer os mesmos “trabalhos que dos homens” e, por mais que sejam discriminadas e subestimadas, nada as pára.

Foi na zona da Versalhes, bem na rua que vai dar acesso à estátua de Eduardo Mondlane, onde a encontrámos bem sentada e concentrada para não sujar o sapato do seu cliente assíduo, que, todas as tardes, passa pela sapataria da Irene para polir os sapatos.

Depois de terminar o seu trabalho, Irene Boane conversou com “O País”, tendo contado que, desde os seus 18 anos, engraxa, martela, lixa e coze sapatos, quer de homens quer de mulheres, ou seja, que é sapateira.

“O meu pai é sapateiro, ele é que me incentivou a fazer este trabalho, porque, na altura, estava mesmo a precisar. Nos primeiros dias, foi muito difícil, muitos clientes discriminavam por ser mulher, mas superei”, contou Irene, para, depois, acrescentar que houve dias em que, de tanta humilhação, chorava, mas, no fim, questionava-se “por que estou a chorar?” E, de cabeça erguida, limpava as lágrimas e dizia para si mesma: “Não importa o que falam, vou fazer este trabalho, não para agradar aos outros, mas a mim mesma, porque é algo de que gosto”.

Vaidosa, sempre tenta manter o seu lado feminino, com a maquilhagem feita e pestanas colocadas, e é, com esse trabalho, que consegue sustentar os caprichos, custear o segundo ano de faculdade e ajudar a família nas despesas de casa.

Orgulhosa de si mesma, por estar a realizar um trabalho que poucas mulheres se arriscam a fazer, Irene Cossa sabe que precisa de inovar sempre, ser cordial com os clientes e nunca tirar o sorriso do rosto.

Irene não é a única mulher que, com garra e força de vontade de sempre vencer, exerce uma profissão, antes vista como só para homens…

Com apenas 24 anos, Nelma Chongo é engenheira civil. Como uma mulher que cuida de um lar e “pilota as panelas” na cozinha, ela consegue comandar homens, diga-se, homens bem mais velhos e com mais anos de trabalho.

Decidiu fazer engenharia civil, porque sempre gostou da área e, na sua turma das 30 mulheres que começaram o curso, apenas duas concluíram, Nelma e outra colega, tendo-se, a engenheira em referência, sagrado como a melhor estudante do seu curso.

Tinha uma meta e objectivos concretos, conseguiu alcançá-los e hoje é orgulho dos pais, pois é a única técnica do seu departamento na área em que se encontra na sua empresa.

“Trabalho com homens na sua maioria, eu oriento os trabalhos, mas, mais do que orientar, mostro que sei fazer, que posso fazer e mostro como deve ser feito, não é apenas teoria que vale aqui, é preciso ter prática, principalmente para mim, sou mulher e muito jovem”, explicou a engenheira.

Apesar de tantas proezas, há quem ainda duvida das suas capacidades, mesmo nas obras em que comanda um grupo de mais de 20 homens.

Ana Vanessa, uma outra mulher que ultrapassou barreiras e é engenheira eléctrica de uniforme laranja, equipara-se a homens, mas, ainda assim, dirige um grupo de 90 técnicos que trabalham com manutenção da rede de energia, no distrito de Kambubukwana, na cidade de Maputo.

Encontrámo-la no seu último dia de gestação, mas cheia de energia e ninguém podia imaginar que, no dia seguinte, ia dar à luz uma menina chamada Bless, que nasceu cheia de saúde.

“Ela vem num momento muito especial e, quando crescer, eu vou contar que ela me deu a graça de perceber que posso trabalhar muito bem; mesmo grávida, posso fazer os trabalhos que sempre fiz sem hesitar, vou contar que ela ajudou-me a tornar a grande líder que hoje sou”, disse Ana como se a pequena já pudesse entendê-la e, como recado, pediu à pequena Bless que fosse batalhadora e uma grande mulher como a mãe.

Não importa a idade, a cor, a crença, a condição física ou financeira, são todas mulheres guerreiras e batalhadoras e o céu é e que deve ser o limite.

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