O analista de política internacional, Paulo Uache, teme que a xenofobia provoque isolamento interno e externo da África do Sul, pelo facto de o fenômeno afectar as relações diplomáticas do país. Já Edson Muirazeque alerta para o comprometimento dos planos de integração regional. Os analistas apontam soluções para o problema.
A xenofobia na África do Sul é um problema já com barbas brancas e sem soluções à vista. O especialista em Relações Internacionais, Paulo Uache, aponta factores históricos como o apartheid e explosão de recursos minerais na África do Sul, bem como a contratação de mão de obra estrangeira, sobretudo da SADC, como parte das causas da xenofobia.
“A África do Sul dos brancos, em Transvaal, descobre recursos minerais críticos, entre ouro, platina e outros, e precisa de mão de obra que não havia entre os seus cidadãos ou entre os patrocinadores que eles tinham criados. Eles recorrem aos países vizinhos, incluindo Moçambique, que é recrutado. Essas pessoas foram para lá e viveram eternamente, porque geraram famílias e foi sequenciado e foi continuado depois da independência, no caso de Moçambique, mas não foi só sobre Moçambique, foi sobre Botswana, foi sobre o Malawi, foi sobre a Zâmbia, foi o Zimbabwe”, explica Paulo Uache.
Uache anota que esse facto tornou a África do Sul um lugar historicamente mítico, tendo em conta que todo aquele que se quisesse prosperar via na África do Sul um lugar de prosperidade, o que nos dias que correm é diferente.
“Um dos problemas é que há pobreza, e esse é o problema central. Se não houvesse tanta pobreza na África do Sul, para os nativos, para os negros. Esse é o problema central, e que esse problema tem que ser lhe lidar com ele com comunicação, transparência e informação, porque também o governo da África do Sul não é tão culpado assim, de não conseguir refazer essa economia, porque é uma economia que funciona há dois séculos também, em que reestruturou uma economia há dois séculos por 30 anos, não é tão simples assim”, anota.
Por sua vez, Edson Muirazeque considera que deve haver diálogo entre o governo e o povo sul-africano. Segundo ele, isso pode resvalar para o isolamento interno e externo da África do Sul, reavivar a segregação racial, mas com novos actores.
“A África do Sul se encontra neste momento, para além das crises que tem com os Estados Unidos da América por causa dos brancos, para além das crises que tem com os países vizinhos por causa dos negros, a África do Sul, que era suposto ser um país que saísse do apartheid, ele se tornou o centro do novo apartheid, não chamamos xenofobia, mas de alguma forma um afastamento de pessoas com base na sua identidade, é uma forma do apartheid, a xenofobia. A África do Sul volta a ter a sua identidade, que é uma identidade criada a partir de 1910, 1912, volta a ser ela e vai ser isolada pelas mesmas razões, mas com actores diferentes, ou vai se sentir isolada, porque ser isolado não significa necessariamente que os outros te isolam, mas você também pode se sentir isolado, e a África do Sul neste momento se sente isolada porque, do ponto de vista internacional, a simpatia é menos, com Trump, entre outros, mas do ponto de vista regional, também não está a encontrar (4:07) o conforto que deveria encontrar”, explica Edson Muirazeque.
O analista diz ainda que os planos de integração regional ficam comprometidos em consequência das tensões e actos xenófobos na terra do Rand.
“Estamos a ver cidadãos africanos a perseguir outros cidadãos africanos, alegadamente porque alguns desses países vizinhos, Moçambique, Malawi, Zimbabwe e outros, que vão à África do Sul, estão a ser alegados, estão a tomar emprego dos sul-africanos, eu diria que é uma situação lamentável, especialmente porque a região da África Austral está num processo de integração económica e regional, e esse processo de integração é um processo que visa exactamente remover as barreiras à livre circulação de pessoas e de bens, e se reparar, quando nós olharmos para as teorias de integração, há uma fase em que até a livre mobilidade dos factores de produção, o que quer dizer que, avançando pelo processo de integração, chegará uma fase eventualmente em que o cidadão moçambicano é um cidadão da África Austral, em que pode pedir emprego sem restrições, por exemplo, na África do Sul, no Malawi, no Zimbabwe ou qualquer outro país”, acrescenta.
Os dois analistas apontam caminhos que passam pelo conhecimento da história e desenvolvimento humano em África.
“A África do Sul precisa se arranjar muito bem, e a saída é o conhecimento é da história e é o diálogo, duas saídas, e eu penso que o conhecimento da história é fundamental para os sul-africanos compreenderem que, não querendo, foram vítimas da história e essa regeneração tem que ser feita com processos muito bem conduzidos, tanto com os vizinhos como com a comunidade internacional. Quem cometeu erros contra eles, cometeu, provavelmente, a comunidade internacional.
Dados oficiais indicam que há ainda centenas de imigrantes que regressam compulsivamente da África do Sul no âmbito dos protestos anti-imigrantes.