Durante décadas, Anita procurou o filho que nunca chegou. Tentou hospitais, medicamentos, tratamentos tradicionais e carregou comentários que lhe chegaram até da própria família. Por outro lado, Telma esperou dez anos até conseguir ser mãe. As duas histórias expõem uma realidade que continua escondida dentro de muitas casas: quando um casal não consegue ter filhos, a sociedade ainda tende a procurar primeiro uma culpada. A mulher. A medicina, porém, mostra que a infertilidade também pode ter origem masculina e que o estigma, além de injusto, pode atrasar a procura de diagnóstico e tratamento.
No quintal de casa, Anita Chitsungo cultiva couves e alfaces. Prepara a terra, planta, rega e espera. Aos 57 anos, aprendeu a conhecer o tempo das coisas que crescem. Mas houve uma espera que atravessou grande parte da sua vida e nunca terminou como desejava. Anita queria ser mãe. Durante décadas imaginou uma criança dentro de casa, alguém a quem pudesse chamar filho, com quem pudesse conversar, dividir os problemas e deixar a própria história. Engravidou apenas uma vez, aos 31 anos. A alegria durou pouco. Segundo conta, os médicos explicaram-lhe que a gravidez representava um risco para a sua vida e acabou por ser interrompida antes de completar três meses. Dai, nunca mais engravidou.
O que se seguiu foi uma peregrinação conhecida por muitas mulheres que enfrentam dificuldades para ter filhos. Anita procurou hospitais, fez exames, tomou comprimidos e injecções. Sem encontrar a resposta que procurava, recorreu também à medicina tradicional e seguiu recomendações de pessoas que lhe diziam conhecer uma solução. “Eu já não sabia escolher”, recorda. Os exames, segundo relata, não indicavam uma doença que explicasse aquilo que estava a acontecer, mas cada resultado sem resposta significava voltar ao princípio. Até que se cansou. “Chegou uma altura em que disse: Deus é que sabe. Se quer acontecer, vai acontecer. Se não quer acontecer, vou fazer o quê?”
A decisão de parar de procurar respostas não fez desaparecer o desejo. Anita fala da maternidade como uma ausência que aprendeu a transportar. Houve momentos em que ver outra mulher com uma criança nos braços lhe provocava uma dor difícil de explicar. Não era apenas o filho que não tinha. Era também a ideia, construída à sua volta, de que uma mulher deveria necessariamente ser mãe. “Deus disse: nasçam, cresçam, reproduzam. Eu sou uma delas que não consegui. Então, isso dói.”
Mas talvez algumas das feridas mais profundas não tenham vindo da infertilidade. Vieram das pessoas. Anita lembra-se de uma relação amorosa que poderia ter terminado de outra maneira. O homem com quem se relacionava também não tinha filhos e, durante algum tempo, os dois imaginaram uma vida juntos. Até alguém lhe dizer que aquela mulher não lhe poderia dar descendência. Ele terminou a relação. “Disse que não ia perder o seu rico tempo”, recorda Anita. “Eu disse: obrigado. A frente é que é o caminho. Procura a pessoa que te vai dar frutos.”
As palavras ficaram. Noutra ocasião, uma prima disse-lhe que não tinha filhos porque teria medo de sustentá-los. Desta vez, Anita nem respondeu. “Agora é uma família que me diz isso. Os de fora que me dizem… Olhei para ela e não tive resposta. Mantive-me calada.”
É neste ponto que a história de Anita deixa de ser apenas sobre infertilidade e passa a ser também sobre o que acontece quando uma condição médica é transformada num julgamento sobre o valor de uma mulher.
O gineco-obstetra François Kissonboulle explica que a infertilidade é geralmente considerada quando um casal mantém relações sexuais regulares, sem contracepção, durante cerca de um ano, sem conseguir uma gravidez. E chama atenção para uma distinção importante: infertilidade não significa necessariamente impossibilidade definitiva de ter filhos. Há situações que podem ser investigadas e tratadas e outras em que condições anatómicas ou clínicas tornam impossível uma gravidez por vias naturais.
Mas existe outro erro que, segundo o médico, continua profundamente instalado em muitas comunidades: presumir que, quando não há filhos, o problema está na mulher. “Infelizmente, ainda continuamos a culpar a mulher”, afirma.
Kissonboulle explica que os factores masculinos representam uma parcela importante dos casos de infertilidade. Um homem pode ter ejaculação normal e, ainda assim, apresentar ausência, quantidade insuficiente, baixa mobilidade ou outras alterações dos espermatozóides capazes de dificultar a fecundação. “Não é porque eu ejaculo que significa que tenho espermatozóides dentro de mim. Posso não ter. Ou posso ter, mas não serem de boa qualidade.”
O problema é que procurar uma resposta médica significa, para alguns homens, enfrentar uma barreira construída pela própria sociedade. Segundo o especialista, ainda existe uma associação errada entre fertilidade, virilidade e masculinidade. O medo de descobrir uma alteração no espermograma pode fazer com que alguns homens evitem os exames e deixem a investigação concentrada sobre a mulher. E, enquanto isso acontece, é ela quem muitas vezes toma medicamentos, realiza exames, procura tratamentos tradicionais e enfrenta as perguntas da família e da comunidade.
A história de Thelma mostra outra face dessa mesma realidade. Ela conseguiu ser mãe, mas esperou dez anos. A primeira filha nasceu quando tinha 31 anos, depois de uma década marcada por consultas, tratamentos, atrasos menstruais que alimentavam esperança e testes que voltavam a destruí-la. “Já eram tantas tentativas, tantos atrasos, tantas falhas”, conta.
Thelma diz que os exames não revelavam miomas, quistos ou outra alteração que lhe permitisse finalmente dar um nome ao problema. A ausência de uma explicação tornava a espera ainda mais difícil. Continuou a procurar ajuda até chegar a um tratamento recomendado por outras pessoas. A certa altura, depois de tanta medicação, pensou em desistir. “Eu cansei. Pensei: isto acho que não é para mim. Já tomei tanta medicação que agora o medo que tenho é de eu mesma ficar doente.”
E então aconteceu. Depois de tantos resultados negativos, Thelma descobriu que estava grávida. Não acreditou imediatamente. A gravidez que procurara durante uma década finalmente existia e, com ela, surgiu também uma sensação que ajuda a perceber a violência silenciosa do estigma: Thelma sentiu necessidade de mostrar às pessoas que também era uma “mulher normal”.
Não deveria ser necessário provar isso, mas durante anos ouvira comentários sobre a idade, sobre o tempo que estava a passar e sobre os riscos de uma gravidez tardia. Houve quem lhe dissesse que já era tarde. Houve quem sugerisse que deveria desistir. O marido, conta, tornou-se uma barreira contra parte dessa pressão e recusava que ela fosse responsabilizada pelo facto de o casal não conseguir ter filhos.
Quando a filha finalmente nasceu, Thelma acordou horas depois do parto e precisou de algum tempo para compreender aquilo que tinha acontecido. “Comecei a dizer: eu sou mãe. Sou mãe de verdade. Sou mãe de uma menina.”
Hoje tem 45 anos. Gostaria de ter outro filho e voltou a enfrentar dificuldades para engravidar, mas a experiência mudou a maneira como olha para outras mulheres e casais que atravessam o mesmo caminho. “Devemos parar de criticar essas pessoas, de culpá-las. Quando falamos ‘aquela pessoa não tem criança’, parece que ela pediu para não ter.”
E faz uma observação que deveria parecer óbvia, mas que ainda precisa de ser repetida: existem também homens inférteis. O problema é que o julgamento social frequentemente acontece antes do diagnóstico. Uma relação termina e a mulher é considerada incapaz de ter filhos. Mais tarde, ela pode engravidar numa nova relação enquanto o antigo parceiro continua sem descendência. Até esse momento, porém, a sentença social já foi pronunciada.
A medicina não sustenta essa lógica. A infertilidade deve ser investigada no casal, e não tratada automaticamente como um problema feminino.
Há ainda consequências que não aparecem num espermograma, numa ecografia ou num exame hormonal. A psicóloga Reinalda Raimundo acompanha algumas delas e explica que descobrir que uma gravidez desejada pode não acontecer pode desencadear um processo semelhante ao luto. Há pessoas que conseguem gradualmente adaptar-se à realidade, enquanto outras permanecem presas à negação, ao sofrimento e à procura incessante de uma resposta.
A pressão torna-se particularmente pesada quando à dor individual se juntam cobranças da família, comentários da comunidade e a sensação de fracasso. Em alguns casos, explica Reinalda, ansiedade e depressão podem surgir ou agravar-se. Existem ainda situações de pseudociese, conhecida como gravidez psicológica, em que a mulher desenvolve a convicção de que está grávida e pode apresentar sinais que interpreta como confirmação dessa gravidez.
A psicóloga recorda um dos casos que mais a marcaram: uma mulher que durante muito tempo procurou simultaneamente assistência tradicional e hospitalar e estava profundamente convencida de que esperava um filho. A crença persistiu até à unidade sanitária, onde a investigação clínica acabou por mostrar que não existia gravidez. Para Reinalda, situações extremas como esta não podem ser separadas do ambiente emocional em que muitas mulheres vivem.
Em algumas comunidades, a infertilidade ainda é explicada através de crenças, acusações e histórias sem fundamento médico. Há mulheres acusadas de terem provocado abortos no passado, de terem usado contraceptivos em excesso ou de carregarem alguma responsabilidade moral pela impossibilidade de engravidar. O resultado é que uma pessoa que já procura respostas para uma condição médica passa também a defender-se de uma acusação social.
É exactamente essa acusação que Thelma quer desmontar e que Anita carregou durante décadas.
Aos 57 anos, Anita não teve o filho biológico que desejava, mas a sua vida não ficou vazia. Encontrou outra forma de exercer o afecto que guardou durante tantos anos. Aproximou-se ainda mais dos sobrinhos, acompanhou o crescimento deles e hoje os filhos destes chamam-lhe avó. “Mesmo que eu não tenha os meus filhos gerados por mim, estou feliz porque tenho os meus sobrinhos”, diz. “Os filhos deles são meus netos. Chamam-me avó.”
Não é a maternidade que imaginou aos 31 anos. É a vida que construiu depois dela.
A história de Anita também mostra por que razão combater o estigma da infertilidade não significa prometer que todas as mulheres conseguirão engravidar. Nem toda investigação termina num diagnóstico simples, nem todo tratamento termina num nascimento. Significa garantir que ninguém seja diminuído, abandonado ou culpado porque um filho não chegou.
Significa também retirar dos ombros da mulher uma responsabilidade que a medicina nunca colocou exclusivamente sobre ela e levar o homem para dentro da investigação da infertilidade, não como acompanhante, mas como parte do casal que precisa de ser avaliado.
Thelma conseguiu realizar o sonho depois de dez anos. Anita não conseguiu. Uma tornou-se mãe depois de uma longa espera. A outra encontrou nos sobrinhos e nos filhos deles uma maneira diferente de dar e receber o amor que durante anos imaginou entregar a um filho.
As duas, porém, conheceram a mesma pergunta, dita ou insinuada de diferentes maneiras: por que não tens filhos?
Talvez esteja aí uma das mudanças mais simples que a sociedade pode fazer: parar de perguntar como se alguém devesse uma explicação. Porque fertilidade não determina o valor de uma mulher, infertilidade não retira masculinidade a um homem e ter filhos não é um certificado de realização humana.
O filho que Anita esperou nunca chegou. O que não pode continuar a chegar são as acusações, o abandono e a vergonha impostos a quem já trava, dentro de casa, uma batalha que quase ninguém vê.