O ministro da Saúde, Ussene Isse, defende que Moçambique deve reforçar a capacidade interna de diagnóstico e tratamento de doenças, de modo a reduzir a transferência de doentes para o estrangeiro. Para o governante, o país precisa de encontrar soluções internas para responder a um conjunto de patologias que continuam a obrigar os pacientes a procurar assistência médica fora das fronteiras nacionais, sobretudo na África do Sul e noutros destinos.
Ussene Isse lançou o desafio nesta quarta-feira, em Maputo, durante uma exposição do sector da Saúde, que reuniu gestores hospitalares, laboratoriais e farmacêuticos, bem como outros intervenientes do sector. Na ocasião, apelou à colaboração entre o Governo, o sector privado e os parceiros para melhorar a capacidade de resposta do Sistema Nacional de Saúde.
“Será que não temos capacidade interna de nos organizarmos para resolver este problema? Temos ou não temos? Este é um desafio que quero lançar aqui para trabalharmos em conjunto”, questionou o ministro, defendendo que o país deve concentrar esforços na criação de condições para tratar internamente os doentes que actualmente necessitam de assistência especializada no estrangeiro.
Segundo Ussene Isse, são apenas quatro ou cinco doenças que levam à transferência de pacientes para fora de Moçambique, razão pela qual considera necessário mobilizar recursos e conhecimentos para encontrar soluções nacionais. O governante entende que a dependência de outros países para determinados tratamentos deve ser encarada como um desafio colectivo, que exige o envolvimento de diferentes actores do sector da Saúde.
Entre as principais preocupações apresentadas pelo ministro está a paralisação do equipamento de radioterapia existente no país. Isse afirmou que o aparelho está inoperacional e que o Governo tentou, durante o actual ciclo de governação, reabilitá-lo, mas deparou-se com dificuldades relacionadas com a indisponibilidade de peças no mercado, uma vez que o equipamento foi descontinuado.
A situação constitui um obstáculo à assistência a doentes oncológicos que necessitam deste tipo de tratamento, sobretudo tendo em conta a importância da radioterapia no combate a determinados cancros.
“Temos aqui no país o único equipamento de radioterapia que está parado. Tentámos, neste ciclo de governação, reabilitar este equipamento, mas as peças já não se encontram no mercado. Está descontinuado”, explicou Ussene Isse, reconhecendo as dificuldades de recuperar uma infra-estrutura considerada essencial para o tratamento de doenças oncológicas.
Perante este cenário, o ministro lançou um apelo à conjugação de esforços para a aquisição de um novo aparelho, defendendo que o investimento deve ser assumido como uma prioridade nacional, devido ao seu impacto na sobrevivência e na qualidade de vida dos doentes.
“Temos que acelerar. O segundo desafio que quero lançar é trabalharmos de forma conjunta para trazermos para Moçambique um novo aparelho de radioterapia. Não podemos perder moçambicanos. Temos que mandar para fora as pessoas que precisam de fazer radioterapia”, afirmou.
O governante revelou ainda que o Executivo está a trabalhar para acelerar o processo de aquisição do equipamento, mas considera que a participação do sector privado e de outros parceiros será determinante para alcançar o objectivo. A intenção, segundo explicou, é mobilizar investimentos para a disponibilização de medicamentos, equipamentos e outras condições necessárias à melhoria da assistência médica no país.
APOSTA LOCAL NA PRODUÇÃO DE MEDICAMENTOS
Outra prioridade apresentada por Ussene Isse está relacionada com a produção nacional de medicamentos e de material médico-cirúrgico. O ministro defende que Moçambique deve criar condições para produzir localmente parte dos produtos de que necessita, reduzindo a dependência das importações e tornando o abastecimento do sistema de saúde mais rápido e sustentável.
Para justificar a necessidade desta aposta, o governante recordou as dificuldades enfrentadas durante a pandemia da Covid-19, quando o país teve constrangimentos no acesso a insumos e consumíveis hospitalares. Na sua perspectiva, a experiência demonstrou os riscos de depender de mercados externos para garantir o funcionamento dos serviços de saúde, sobretudo em períodos de crise.
“A Covid-19 deixou uma grande lição para todos nós. Lembram-se da dificuldade que o nosso país teve para trazer insumos e consumíveis hospitalares para tratarmos os moçambicanos aqui? O terceiro desafio que quero lançar é a agenda nacional de produção local de insumos”, declarou.
O ministro apelou, por isso, ao investimento na instalação de unidades de produção de medicamentos e de material médico-cirúrgico, considerando que a capacidade produtiva nacional poderá contribuir para diminuir a vulnerabilidade do sistema de saúde perante perturbações nas cadeias internacionais de abastecimento.
A necessidade de reforçar a produção interna ganha particular relevância num contexto em que, segundo o governante, os processos de aquisição de medicamentos e de material médico-cirúrgico no mercado internacional podem demorar entre 18 e 24 meses.
Isse recordou que, no início do actual ciclo de governação, o país enfrentou um incêndio que atingiu as instalações da central de medicamentos, situação que agravou os desafios de abastecimento. Explicou que, apesar de terem sido iniciados processos de aquisição, a complexidade dos procedimentos e os prazos de fornecimento dificultaram uma resposta imediata às necessidades das unidades sanitárias.
“Esta cadeia logística é muito morosa. Comprámos medicamentos em Fevereiro de 2025 e só no mês de Agosto começaram a chegar ao país. Se tivéssemos capacidade local de produzir aquilo de que precisamos, teríamos mais facilidade para resolver os problemas do nosso país”, afirmou.
Na avaliação do governante, a existência de capacidade produtiva nacional permitiria responder com maior rapidez às necessidades dos hospitais, reduzir a exposição às limitações do mercado internacional e melhorar a disponibilidade de produtos essenciais para o atendimento dos pacientes.
Ao apresentar os desafios, Ussene Isse reconheceu que o Governo não conseguirá alcançar os objectivos pretendidos sem o envolvimento de outros actores. Por isso, apelou à participação do sector privado, dos parceiros e dos profissionais que actuam nas diferentes áreas da saúde, defendendo uma abordagem colectiva para a resolução dos problemas do sistema.
“Estamos com vontade de fazer as coisas, mas sabemos que, sozinhos, vamos muito lentamente. Com a presença de todos vocês e com a colaboração de cada um, vamos chegar muito longe”, afirmou.
O ministro considera que a redução das transferências de doentes para o estrangeiro, a instalação de um novo equipamento de radioterapia e a produção local de medicamentos e material médico-cirúrgico são medidas que podem contribuir para melhorar a assistência à população e reforçar a autonomia do país na área da saúde.
Segundo Isse, o objectivo final é garantir melhores condições de tratamento aos moçambicanos e avançar para a cobertura universal de saúde, através de investimentos que respondam às necessidades concretas da população.